Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Uma mente serena é tudo o que você necessita



"Pergunta: Não estou bem. Sinto-me particularmente fraco. O que faço?

Maharaj: Quem não está bem, você ou o corpo?

P: Meu corpo, certamente.

M: Ontem você se sentiu bem. O que se sentiu bem?

P: O corpo.

M: Você estava contente quando o corpo estava bem e está triste quando o corpo está mal. Quem está contente em um dia e triste no próximo?

P: A mente.

M: E quem conhece a mente que varia?

P: A mente.

M: A mente é o conhecedor. Quem conhece o conhecedor?

P: O conhecedor não se conhece a si mesmo?

M: A mente é descontínua. Repetidamente ela esquece, como no sono, desmaio ou distração. Deve existir algo contínuo para registrar a descontinuidade.

P: A mente recorda. Isto significa a continuidade.

M: A memória é sempre parcial, não confiável e evanescente. Não explica o forte sentido de identidade impregnando a consciência, o sentido ‘Eu sou’. Descubra o que está na raiz disto.

P: Por mais profundamente que eu olhe, encontro apenas a mente. Suas palavras ‘além da mente’ não me dão nenhum indício.

M: Enquanto olhar com a mente, você não pode ir além dela. Para ir além, você deve olhar para longe da mente e de seu conteúdo.

P: Em que direção devo olhar?

M: Todas as direções estão dentro da mente! Não estou lhe pedindo para olhar em alguma direção particular. Apenas desvie o olhar de tudo o que acontece em sua mente e traga-a ao sentimento ‘Eu sou’. O ‘Eu sou’ não é uma direção. É a negação de toda direção. Finalmente, mesmo o ‘Eu sou’ terá que desaparecer, pois você não necessita continuar afirmando o que é óbvio. Trazer a mente ao sentimento ‘Eu sou’ meramente a ajuda a afastá-la de tudo o mais.

P: Aonde tudo isto me levará?

M: Quando a mente se afastar de suas preocupações, ela se torna serena. Se você não perturba esta tranquilidade e permanece nela, você descobre que ela está permeada com uma luz e um amor nunca antes conhecidos; e, ao mesmo tempo, você a reconhece imediatamente como sua própria natureza. Uma vez que tenha passado por esta experiência, jamais será outra vez o mesmo homem; a mente revoltosa pode romper sua paz e destruir sua visão; mas ela está obrigada a retornar, desde que o esforço seja sustentado; até o dia em que todos os vínculos se rompem, as ilusões e apegos acabam, e a vida se torna supremamente concentrada no presente.
P: Qual diferença isto fará?
M: A mente não existe mais. Há apenas amor em ação.

P: Como reconhecerei este estado quando o atingir?
M: Não haverá medo.
P: Cercado por um mundo cheio de mistérios e perigos, como não ter medo?

M: Seu próprio pequeno corpo também está cheio de mistérios e perigos, ainda que você não esteja receoso dele, pois o toma como seu próprio. O que você não sabe é que o universo inteiro é seu corpo e você não necessita temê-lo. Você pode dizer que tem dois corpos: o pessoal e o universal. O pessoal vem e vai, o universal está sempre com você. Toda a criação é seu corpo universal. Você está tão cego pelo que é pessoal que você não vê o universal. Esta cegueira não terminará por si mesma – deve ser desfeita habilidosa e deliberadamente. Quando todas as ilusões são entendidas e abandonadas, você atinge a liberdade do erro e o estado perfeito no qual todas as distinções entre o pessoal e o universal não existem mais.

P: Sou uma pessoa e, portanto, limitada em espaço e tempo. Ocupo um espaço pequeno e duro uns poucos instantes; não posso conceber-me sendo o eterno e o que a tudo permeia.

M: Todavia, você é. À medida que você mergulhar dentro de você mesmo em busca de sua natureza verdadeira, você descobrirá que apenas seu corpo é pequeno e sua memória é curta, enquanto o vasto oceano da vida é seu.
P: As próprias palavras ‘eu’ e ‘universal’ são contraditórias. Uma exclui a outra.

M: Não é assim. O sentido de identidade permeia o universal. Busque e você descobrirá a Pessoa Universal que você é, e infinitamente mais. De qualquer modo, comece por compreender que o mundo está em você, não você no mundo.

P: Como pode ser isto? Sou apenas uma parte do mundo. Como pode o mundo todo estar contido na parte exceto como um reflexo, como em um espelho?

M: O que você diz é verdade. Seu corpo pessoal é uma parte no qual o todo está maravilhosamente refletido. Mas você também tem um corpo universal. Você não pode sequer dizer que você não o conhece, porque você o vê e o experimenta todo o tempo. Apenas você o chama ‘o mundo’ e o teme.

P: Sinto que conheço meu pequeno corpo, enquanto o outro eu não conheço, exceto através da ciência.

M: Seu pequeno corpo é cheio de mistérios e maravilhas as quais você não conhece. Aí também a ciência é seu único guia. A anatomia e a astronomia o descrevem.

P: Mesmo se aceito sua doutrina do corpo universal como uma hipótese de trabalho, de que modo posso verificá-la, e qual a utilidade dela para mim?

M: Conhecendo-se como o morador em ambos os corpos, você não repudiará nada. Todo o universo será de seu interesse; você amará e ajudará, terna e sabiamente, cada coisa viva. Não existirá nenhum conflito de interesses entre você e os outros. Toda exploração cessará absolutamente. Cada ação sua será benéfica, cada movimento será uma bênção.

P: Tudo é muito tentador. Mas como progredir para compreender meu ser universal?

M: Você tem dois caminhos: pode entregar seu coração e sua mente para a descoberta de si mesmo, ou você aceita minhas palavras em confiança e age de acordo; em outras palavras, ou você se torna totalmente interessado em si mesmo, ou totalmente desinteressado. É a palavra ‘totalmente’ que é importante. Você deve ser extremado para alcançar o Supremo.
P: Como posso aspirar a tais alturas, pequeno e limitado que sou?

M: Compreenda-se como o oceano da consciência no qual tudo acontece. Isto não é difícil. Um pouco de atenção, um exame próximo de si mesmo, e você verá que nenhum fato está fora de sua consciência.

P: O mundo está cheio de fatos que não aparecem em minha consciência.

M: Mesmo seu corpo está cheio de fatos que não aparecem em sua consciência. Isto não o impede de reivindicar sua propriedade. Você conhece o mundo exatamente como você conhece seu corpo – através dos sentidos. É sua mente que separou o mundo externo à sua pele do mundo interior, e os pôs em oposição. Isto criou medo e ódio, e todas as misérias da vida.

P: O que eu não entendo é o que você diz sobre ir além da consciência. Entendo as palavras, mas não posso visualizar a experiência. Depois de tudo, você mesmo disse que todas as experiências estão na consciência.

M: Tem razão, não pode haver experiências além da consciência. Ainda assim há a experiência de apenas ser. Há um estado além da consciência que não é inconsciente. Alguns o chamam superconsciência ou pura consciência, ou suprema consciência. É a pura Consciência livre do nexo sujeito-objeto.

P: Estudei Teosofia e não achei nada familiar no que você falou. Admito que a Teosofia trata apenas da manifestação. Descreve o universo e seus habitantes em grande detalhe. Admite muitos níveis de matéria e correspondentes níveis de experiência, mas não parece ir além. O que você diz vai além de toda experiência. Se não é experimentável, por que falar sobre ela em absoluto?

M: A consciência é intermitente, cheia de lacunas. Ainda assim há a continuidade de identidade. A que se deve este sentido de identidade se não a algo além da consciência?
P: Se estou além da mente, como posso mudar a mim mesmo?

M: Onde está a necessidade de mudar algo? A mente está mudando de qualquer forma todo o tempo. Observe sua mente com isenção; isto basta para acalmá-la. Quando ela está calma, você pode ir além. Não a mantenha ocupada todo o tempo. Detenha-a – e apenas seja. Se você lhe der descanso, ela se acalmará e recuperará sua pureza e força. O pensamento constante a faz decair.

P: Se meu verdadeiro ser está sempre comigo, como eu o ignoro?

M: Porque ele é muito sutil e sua mente é tosca, cheia de pensamentos e sentimentos. Acalme e clarifique sua mente e você se conhecerá como você é.

P: Preciso da mente para me conhecer?

M: Você está além da mente, mas você conhece com sua mente. É óbvio que a extensão, a profundidade e o caráter do conhecimento dependem do instrumento que você usa. Melhore seu instrumento e seu conhecimento melhorará.

P: Para conhecer perfeitamente necessito de uma mente perfeita.

M: Uma mente serena é tudo o que você necessita. Tudo o mais acontecerá adequadamente uma vez que sua mente esteja tranquila. Do mesmo modo que o sol ao levantar-se torna o mundo ativo, assim a Consciência de si mesmo afeta as mudanças na mente. Na luz da autoconsciência serena e estável são despertadas as energias interiores que produzem milagres sem qualquer esforço de sua parte.

P: Você quer dizer que o maior trabalho é feito por não trabalhar?

M: Exatamente. Compreenda que você está destinado à iluminação. Coopere com seu destino, não vá contra ele, não o frustre. Permita que se realize. Tudo o que você tem que fazer é dar atenção aos obstáculos criados pela mente tola."
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De: "Eu Sou Aquilo" Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj

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