Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

sábado, 25 de junho de 2011

Você está Além do Espaço e do Tempo





Pergunta: Você continua dizendo que eu nunca nasci e que nunca morrerei. Se é assim, como é que vejo o mundo como alguém que nasceu e que, certamente, morrerá.

Maharaj: Você acredita desse modo porque você nunca questionou sua crença de que você é o corpo, o qual, obviamente, nasce e morre. Enquanto vivo, seu poder de atração é  tão forte e o fascina tão completamente que raramente você percebe seu Ser real. É como ver a superfície do oceano e esquecer completamente a imensidade mais abaixo. O mundo é só a superfície da mente e a mente é infinita. O que chamamos pensamento são apenas ondulações da mente. Quando a mente está serena, reflete a realidade. Quando ela está imóvel em toda sua extensão, ela se dissolve e apenas a realidade permanece. Esta realidade é tão concreta, tão real, tão mais tangível que a mente e a matéria que, comparado com ela, mesmo o diamante é suave como manteiga. Esta impressionante realidade torna o mundo irreal, nebuloso, irrelevante.

P: Com tanto sofrimento no mundo, como pode vê-lo como irrelevante¿ Que frieza!

M: É você quem é insensível, não eu. Se seu mundo é tão cheio de sofrimento faça algo a respeito, não acrescente mais a ele através da ambição e da indolência. Eu não estou limitado por seu mundo ilusório. Em meu mundo, as sementes do sofrimento, do desejo e do temor não são semeadas, e o sofrimento não cresce. Meu mundo está livre dos opostos, de discrepâncias mutuamente destrutivas; prevalece a harmonia; sua paz é como uma rocha; esta paz e o silêncio são o meu corpo.

P: O que você diz lembra-me o dharmakaya de Buda.

M: Pode ser. Não precisamos afastarmos pela terminologia. Simplesmente veja a pessoa que você imagina ser como uma parte do mundo que percebe dentro de sua mente, e olhe de fora para a mente, a qual você não é. Depois de tudo, seu único problema é a ansiosa auto-identificação com qualquer coisa que perceba. Abandone este hábito, lembre que você não é o que percebe, utilize o seu poder de distanciamento alerta. Veja-se em tudo quanto vive e seu comportamento expressará sua visão. Uma vez que compreenda que não há nada neste mundo que possa ter por próprio, você olha o mundo de fora como olha para uma peça em um palco, ou uma imagem na tela, admirando e apreciando, mas realmente impassível. Enquanto você imagina ser algo tangível e sólido, uma coisa entre coisas, existindo realmente no tempo e no espaço, de breve duração e vulnerável, naturalmente estará ansioso para sobreviver e crescer. Mas quando se conhece como além do tempo e do espaço em contato com eles apenas no ponto do aqui e agora; de qualquer forma todo-penetrante e todo-abarcante, inacessível, inalcançável, invulnerável não terá mais medo algum. Conheça-se tal como é contra o medo não há outro remédio.
Você tem que aprender a pensar e sentir desse modo, ou permanecerá indefinidamente no nível pessoal do desejo e do temor, ganhando e perdendo, crescendo e decaindo. Um problema pessoal não pode ser resolvido em seu próprio nível. O próprio desejo de viver é o mensageiro da morte, da mesma forma que o desejo de ser feliz é a essência da aflição. O mundo é um oceano de dor e de medo, de ansiedade e desespero. Os prazeres são como os peixes, poucos e ligeiros, chegam raramente e depressa se vão. Um homem de pouca inteligência acredita contra a evidência, que é uma exceção e que o mundo lhe deve felicidade. Mas o mundo não pode dar o que não tem; irreal até a medula, é de nenhuma utilidade para a felicidade real. Não pode ser de outra forma. Buscamos o real porque estamos infelizes como o irreal. A felicidade é nossa própria natureza e não descansaremos até que a encontremos. Mas raramente sabemos onde buscá-la. Uma vez que tenha entendido que o mundo é apenas uma visão errada da realidade, e não é o que parece ser, você é livre de suas obsessões. Apenas o que é compatível com seu ser real pode fazê-lo feliz e o mundo, como você o percebe, é sua clara negação.
Mantenha-se tranqüilo e observe o que chega à superfície da mente. Rejeite o conhecido, dê as boas vindas ao até agora desconhecido e rejeite-o em seu devido tempo. Assim você chega a um estado em que não há conhecimento, apenas ser, e o próprio ser é o conhecimento. O conhecimento mediante o ser é o conhecimento direto. Está baseado na identidade do que vê e do visto. O conhecimento indireto é baseado na sensação e na memória, na proximidade do que percebe e sua percepção, confinado ao contraste entre os dois. O mesmo acontece com a felicidade. Geralmente você deve estar triste para conhecer a alegria, e alegre para conhecer a tristeza. A verdadeira felicidade não tem causa e não pode desaparecer por falta de estimulação. Não é o oposto da aflição e inclui toda aflição e todo sofrimento.

P: Como pode alguém permanecer feliz entre tanto sofrimento?

M: Não se pode evitar, a felicidade é irresistivelmente real. Como o sol no céu, suas expressões pode estar nubladas, mas nunca está ausente.

P: Quando temos problema, somos obrigados a sentir-nos desgraçados.

M: O único problema é o temor. Saiba que é independente e permanecerá livre do temor e de suas sombras.

P: Qual a diferença entre felicidade e prazer?

M: O prazer depende das coisas, a felicidade não.

P: Se a felicidade é independente, porque não estamos sempre felizes?

M: Enquanto acreditarmos que necessitamos coisas para fazer-nos felizes, também devemos acreditar que, na ausência delas, delas devemos ser miseráveis. A mente sempre se desenvolve de acordo com suas crenças. Daí a importância de convencer-se de que não é necessário ser incitado para a felicidade; que, ao contrário, o prazer é uma distração e uma perturbação, pois que meramente aumenta a falsa convicção de que se necessita ter e fazer coisas para ser feliz, quando na realidade é exatamente o oposto.
Mas porque falar de felicidade em absoluto? Você não pensa nela exceto quando está infeliz. Um homem que diz: “agora sou feliz”, está entre duas aflições, passado e futuro. Esta felicidade é uma mera excitação causada pelo alívio da dor. A felicidade real é absolutamente consciente de si mesma. Isto é melhor expresso negativamente como: “não há nada errado comigo; não tenho nada a preocupar-me”. No final das contas, o propósito final de todo sadhana é alcançar um ponto onde esta convicção em vez de ser apenas verbal, esteja baseada em uma experiência real e sempre presente.

P: Que experiência?

M: A experiência de estar vazio, sem estar acossado pelas recordações e pelas experiências; é como a felicidade dos espaços abertos, de ser jovem, de ter toda a energia e tempo para fazer coisas, para descobrir, para a aventura.

P: O que fica por descobrir?

M: O universo exterior e a imensidade interior tal como são na realidade, na grande mente e no coração de Deus. O significado e o propósito da existência, o segredo do sofrimento, da vida redimida da ignorância.

P: Se ser feliz é o mesmo que estar livre do temor e da preocupação, não se pode dizer que a ausência de problemas é a causa da felicidade?

M: Um estado de ausência, de inexistência, não pode ser uma causa; a preexistência de uma causa está implícita em sua noção. Seu estado natural, no qual nada existe, não pode ser uma causa do vir-a-ser; as causas estão ocultas no grande poder misterioso da memória. Mas o seu verdadeiro lar está no nada, no vazio de todo conteúdo.

P: O vazio e o nada, que apavorante!

M: Sua face está mais alegre quando você vai dormir! Descubra por você mesmo o estado de sono vigilante, e você o achará em total harmonia com sua natureza real. As palavras apenas podem lhe dar uma idéia, e a idéia não é a experiência. Tudo o que posso dizer é que a verdadeira felicidade não tem causa e o que não tem causa é impassível. O que não quer dizer que seja perceptível, como o prazer. O que é perceptível é a dor e o prazer; o estado de liberdade da aflição só pode ser descrito negativamente. Para conhecê-lo diretamente, você deve ir além da mente aplicada à causalidade e à tirania do tempo.

P: Se a felicidade não é consciente e a consciência não é feliz, qual é a conexão entre a duas?

M: A consciência, sendo um produto das condições e das circunstâncias, depende delas e muda com elas. O que é independente, incriado, eterno e imutável, e ainda assim sempre novo e fresco, está além da mente. Quando a mente pensa nele, ela se dissolve e só a felicidade permanece.

P: Quando tudo desaparece, nada fica.

M: Como pode haver nada sem alguma coisa¿ O nada é só uma idéia, depende da recordação de algo. O puro ser é independente da existência, a qual é definível e descritível.

P: Por favor, fale-nos: a consciência continua além da mente, ou ela termina com a mente?

M: A consciência vai e vem, a Consciência brilha imutavelmente.

P: O que é consciente na Consciência?

M: Quando há uma pessoa, também há consciência. O “eu sou”, a mente, a consciência denotam o mesmo estado, se você diz “eu sou consciente”, só significa: “eu sou consciente de pensar no fato de ser consciente”. Na Consciência não há “eu sou”.

P: O que me diz sobre o testemunhar?

M: Testemunhar é da mente. A testemunha combina com o testemunhado. No estado de não-dualidade toda separação cessa.

P: E você? Continua na Consciência?

M: A pessoa, o “eu sou este corpo, esta mente, esta cadeia de recordações, este punhado de desejos e temores” desaparece, mas fica algo que você pode chamar identidade. Ele me habilita a tornar-me uma pessoa quando necessário. O amor cria suas próprias necessidades, mesmo tornar-se uma pessoa.

P: É dito que a realidade se manifesta como existência, consciência e bem-aventurança. Elas são absolutas ou relativas?

M: São relativas entre si e dependem uma da outra. A realidade é independente de suas expressões.

P: Qual é a relação entre a realidade e suas expressões?

M: Nenhuma relação. Na realidade tudo é real e idêntico. Como nós dizemos, saguna e nirguna são um só um parabrahman. Só existe o supremo. Em movimento, é saguna; imóvel, é nirguna. Mas é apenas a mente que se move ou não. O real está além, você está além. Uma vez que tenha entendido que nada perceptível, ou concebível, pode ser você mesmo, você é livre de sua imaginação. Ver tudo como imaginação nascida do desejo é algo necessário para a auto-realização. Nós perdemos o real por falta de atenção, e criamos o irreal pelo excesso de imaginação.
Você deve entregar seu coração e sua mente para essas coisas e remoê-las repetidamente. É como cozinhar alimentos. Deve mantê-los no fogo durante algum tempo antes que estejam prontos.

P: Não estou sob o influxo do destino, do meu karma¿ Que posso fazer contra ele? O que sou e o que faço estão pré-determinados. Mesmo minha assim chamada “livre escolha” é pré-determinada; apenas não estou consciente disso e imagino-me livre.

M: Novamente, tudo depende de como olhar. A ignorância é como uma febre, ela o faz ver coisas que não existem. O karma é o tratamento prescrito pelo divino. Dê a ele boas vindas e siga as instruções fielmente e você se curará. O paciente deixará o hospital depois de recuperar-se. Insistir na imediata liberdade de escolha e de ação meramente adia a recuperação. Aceite seu destino e complete-o; este é o mais curto caminho para a libertar-se do destino, embora não do amor e de suas compulsões. Atuar a partir do desejo e do temor é escravidão, atuar a partir do amor é liberdade.


De "Eu Sou Aquilo" - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj





sábado, 18 de junho de 2011

A escuta inocente




Todo o corpo ouve. Está completamente fora da relação sujeito-objeto. O escutar acontece, mas nada é ouvido e ninguém escuta. E como a escuta incondicionada é nossa real natureza, conhecemos a nós mesmo na escuta.
   Mas raramente escutamos de verdade. Nós vivemos mais ou menos continuamente no processo de devenir. Projetamos uma imagem de ser alguém e nos identificamos com ela. E, enquanto nos tomamos por uma entidade independente, há uma fome contínua, um sentimento de incompletude. O ego está constantemente buscando satisfação e segurança, daí sua perpétua necessidade de ser, de realizar, de alcançar. Desta forma, nós nunca contatamos a vida realmente, pois isto requer abertura de momento a momento. Nesta abertura, a agitação estimulada pela tentativa de saciar uma ausência em você mesmo chega ao fim e, na quietude que fica, você é direcionado de volta para sua integridade. Sem uma auto-imagem você é realmente um com a vida e com o movimento da inteligência. Apenas então nós podemos falar de ação espontânea. Todos conhecemos momentos quando a pura inteligência, livre da interferência psicológica, surge, mas logo que retornamos a uma imagem de ser alguém, questionamos esta intuição perguntando se ela é certa ou errada, boa ou má para nós, e assim sucessivamente. O quer que façamos intencionalmente pertence ao “ego-eu” e, embora apareça como ação, é realmente reação. Apenas o que surge espontaneamente do silêncio é ação e não deixa nenhum resíduo. Você nem sequer pode recordá-la. A ação intencional do “ego-eu” sempre deixa um resíduo que emergirá talvez no estado de sonho ou mesmo como uma fixação que podemos mais tarda chamar enfermidade.
   Na espontaneidade a ação ocorre, mas ninguém atua. Não há nenhuma estratégia, nenhuma preparação. Há apenas Consciência livre da agitação e da memória e, nesta quietude, todas as ações são espontâneas, pois cada situação pertence a sua abertura, e ela mesma lhe diz exatamente como proceder. A ação real não surge do raciocínio, mas da observação receptiva. Por exemplo, quando você vê uma criança pequena atravessando a rua, você não pára e pensa, “Devo gritar pedindo ajuda ou devo ir e pegá-la, ou devo deixar que vá só?” Você age. Mesmo que você tenha realizado vinte vezes esta ação, é nova a cada vez. Pertence absolutamente ao momento.


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Uma experiência é sempre referida a alguém, a um eu. É compreendida por referência ao passado, à memória, ao que conhecemos bem. Porém ela tem um sujeito, alguém que experimenta, e um objeto, algo experimentado. Mas o que somos fundamentalmente nunca pode ser experimentado, nunca pode participar da relação sujeito-objeto; por isto devemos abandonar todo o desejo de experiência.
   O que então significa familiarizar-se mais consigo mesmo? Significa conhecer melhor o que você não é, sobre seu corpo, seus sentidos, suas emoções, sua mente. Este é um movimento diametralmente oposto à tentativa de agarrar-se ao conhecimento.
   Ele deve vir a si mesmo. Portanto você deve escutar seu corpo, seus sentidos, sua mente, e é uma escuta que exige o abandono de tudo que acredita saber, todo condicionamento, todo esquema. Quando permanecemos nesta escuta, as percepções afloram do que a psicologia chamaria de subconsciente e superconsciente. Mas não ponha ênfase nas percepções porque acentuar o percebido o ata à relação sujeito-objeto. Primeiro, o interesse está no que percebe e, mais tarde, você perceberá que o que se enfatiza é a própria escuta, até que finalmente se dá conta que você mesmo está nesta escuta. A escuta é a tela sobre a qual tudo aparece. É quietude. Seu corpo, seus sentidos, sua mente e todos os estados vêm e vão, mas você é essa presença atemporal.
   A idéia de que haja alguma coisa a alcançar está profundamente enraizada, por isso continuamos vivendo no processo de vir a ser, projetando energia para adquirir ou conservar algo. Mas a escuta inocente aprofunda a convicção de que não há realmente nada a ganhar ou a perder e os condicionamentos se desvanecem na mente, a agitação desaparece e apenas a quietude permanece. Você é então como o pescador que não controla o peixe nem a água. Limite-se a observar e você terminará por sentir que tudo está contido nesse olhar, nesse silêncio, que nada existe separado disso. Nesse momento, você está no umbral de seu ser real e nenhum desejo pode vir a interferir. Você é tomado pelo próprio Ser.

(De: "A Simplicidade de Ser" : dialogos com Jean Klein)



sexta-feira, 17 de junho de 2011

Conversações com Maharaj





"Maharaj: O que quer que seja visto ou sentido na Totalidade, a qual é como o espaço, é a manifestação universal – Brahman. Mas “formas” emanaram e elas são sentidas como separadas e isoladas umas das outras.
Para um Jnani tudo é Brahman – é Sua expressão apenas. Cada ser vivo tem o sentido de presença. Esse sentido identifica-se com a forma do corpo e dessa forma opera no mundo. O sentido de presença de ser tem um tremendo potencial, particularmente no corpo humano, pois os sentidos do corpo nesta espécie são desenvolvidos no mais alto grau.
Esse sentido de ser, o qual é a consciência, tem a capacidade de dar-se conta de sua verdadeira natureza e residir no estado Iswara, ou seja, o estado divino. As escrituras antigas, os quatro Vedas, afirmaram que esse sentido de ser é o puro Brahman apenas, o que também é confirmado pelos sábios e santos.
Um spray de água do oceano contém inúmeras gotículas. Mas elas são o oceano quando não estão separadas do oceano. Com a separação há gotas individuais. Não obstante, o gosto salgado da água, seja do oceano ou das gotas, é o mesmo. Assim como o gosto salgado está presente no oceano inteiro, o sentido de ser, ou o sentido de “eu sou”, na forma humana tem a capacidade inerente de ser todo-permeante. Porém, tendo condicionado e dessa maneira limitado a si mesmo à forma do corpo, ele está interessado apenas em proteger e preservar o corpo.
Como um resultado do surgimento da forma dos corpos, a consciência manifesta aparentemente fragmentou-se. Mas essa fragmentação deve ser vista apenas no que diz respeito às formas dos corpos porque na realidade a consciência prevalece, tanto dentro quanto fora dos corpos.
A mente é a efusão das cinco energias vitais* no corpo, conhecidas como os pancha-pranas. Ela glorifica-se e regozija-se nas impressões - os sanskaras - que são recebidos de fora através dos sentidos do corpo. Mas a mente pode purificar-se ao associar-se com os santos e sábios, que para esse propósito recomendam práticas diversas, como cantar os nomes sagrados de Deus, fazer penitências, etc.
Na qualidade de um fenômeno natural, o puro Brahman dinâmico inconscientemente veste vários corpos como trajes e então opera através deles. Isso resulta na percepção do mundo que acontece através dos sentidos dos corpos. Mas dentro desse processo o princípio que reside internamente - isto é, o sentido de “eu-sou-ência(I-am-ness) – adota o corpo como sendo ele mesmo e age em resposta aos ditames e demandas do corpo. Mas a despeito de todas essas distorções e modificações, o sentido de “eu-sou-ência(I-am-ness) permanece inalterado em sua natureza inerente. No exato momento que esse puro Brahman dinâmico, o qual é a força motivadora por trás do funcionamento do corpo, interrompe o seu ímpeto, o corpo entra em desarranjo, o que é comumente chamado de “morte”.
Desse modo, a consciência não vai a lugar nenhum, meramente seu funcionamento através do corpo morto é então extinto ali e o puro Brahman dinâmico permanece não afetado.
Enquanto o sentido de ser ou a consciência residindo no corpo não dá-se conta de sua verdadeira natureza, ela está fadada a identificar-se com o corpo e com todas as suas ações alegando a autoria delas. Mas como resultado dessa alegação, ela é sujeita a um intenso sofrimento quando o corpo começa a desintegrar-se e aproxima-se da morte.
Em um corpo saudável, o movimento da respiração vital é claramente sentido. Mas quando a morte ocorre, o alento vital abandona o corpo e o movimento pára, instantaneamente. Entretanto, no caso de Brahman, não existe de modo algum a questão de movimento e Ele continua a ser onipresente. O ponto a ser entendido claramente é que quando o corpo morre, esse princípio básico – o puro Brahman – não se vai e nem prossegue para lugar nenhum como uma entidade individual, simplesmente porque ele sempre permeia tudo e está infiltrado em toda parte. Porém, no momento da “morte” do corpo, sua expressão através daquele corpo afasta-se então de vista apenas ali.
Quando um instrumento musical é tocado, o som que emana dele preenche o espaço ao redor. Mas no momento que o instrumento deixa de ser tocado, o som não viaja mais para nenhum lugar, ele diminui e chega ao fim.
Atualmente, a forma deste corpo é o produto dos cinco elementos (terra, água, fogo, ar e espaço). Esses elementos são criados a partir do atman. Mas como podemos reconhecer esse atman? É ao entendermos o conhecimento “eu sou” - o atman-jnana. Assim como o espaço é todo penetrante, também o conhecimento “eu sou” é todo-penetrante, ilimitado e infinito. Que estranho é um princípio tão supremo ser tratado como se ele fosse o corpo! Todos os sofrimentos devem-se a essa identidade enganada. Se você der ao “eu sou” a honra mais elevada, você não passará nem por sofrimento nem pela morte.
O nascimento e a morte são boatos. Um nascimento indica o nascimento de um corpo e esse é formado dos sumos dos alimentos. Não existe a questão do atman necessitar entrar em um corpo, uma vez que ele já está em toda a parte, como o céu. Se um corpo é saudável, seu funcionamento se iniciará naturalmente por causa da prevalência do princípio-atman. Esse princípio é imortal e indestrutível. Se você quer ter um gosto dele, compreenda claramente que ele não é nada além do que o conhecimento “você é”, o toque de “eu-sou-ência”. Não esqueça esse princípio básico.
Esse grande princípio - o atman – permanece não afetado por quaisquer ações que você faça baseado na sua identidade-corpo. Não obstante, o toque de “eu-sou-ência” aparece apenas quando um corpo-comida está disponível. Quando você afirma “sou muito forte e saudável”, isso significa que muita comida salutar foi consumida e digerida por você para fazer o seu corpo forte. Mas o corpo não é o seu sentido de ser. Mesmo que ele seja forte ele deve ser reabastecido diariamente com comida e água. A respiração vital, sem lábios ou língua, mastiga e suga as essências dos alimentos do corpo, enquanto a mente canta em louvor das impressões coletadas externamente através dos sentidos do corpo. E você, por sua vez, sente como se fosse você que estivesse fazendo todas essas atividades e alega-as como “suas”.
Vamos chamar esse sentido de ser de guna – isto é, qualidade ou jnana – que significa o conhecimento “eu sou”. Esse guna ou jnana existe sempre de maneira latente numa partícula de alimento. Assim, quando quer que uma forma de alimento esteja disponível, essa qualidade latente manifesta-se – inicialmente como movimento e pulsação e posteriormente como a mente.
O princípio supremo todo-penetrante cuja expressão através do corpo é chamada guna é nomeado como Sagunabrahman nos Vedas. O nome tem vários significados como “amor por ser”, o sentido de “eu-sou-ência”, o sentido de existência, etc. Esse estado não tem nome ou forma, assim como até mesmo a mente não tem forma. Apenas um corpo-comida tem forma.
Esse próprio princípio expressa-se na forma de vermes e germes que surgem num corpo humano em decomposição. Quando quer que uma sobra de comida seja jogada fora e deixada se decompor, você encontrará formas vivas rastejando por dentro e fora dela. O doador da vida, Sagunabrahman, anima as formas-comida sempre que as condições são favoráveis, mas sua expressão varia de acordo com as formas. Desse modo, reconhecemo-nas como vermes, insetos, aves, animais e assim por diante, por suas próprias formas.
O próprio Sagunabrahman, quando manifesto através de um corpo humano, tem o potencial de conduzir o buscador ao Mais Elevado, contanto que ele seja compreendido e percebido corretamente. E o Sagunabrahman não é nada além do seu sentido de ser e reside em cada corpo humano. Ao permanecer nesse estado, o nascimento e a morte serão transcendidos. Para esse propósito você não tem de praticar rituais ou disciplinas espirituais. Apenas esteja antes da mente, apenas seja.
Muitas pessoas estão ocupadas em nome da espiritualidade, fazendo penitências, cantando os nomes sagrados, fazendo peregrinações e aderindo a outras disciplinas visando sua salvação. Deixe-as fazer o que quiserem. Provavelmente é requerido que eles purifiquem os pecados de seu passado de acordo com seu prarabdha.
Se você vir a encontrar um sábio que tenha realizado sua verdadeira natureza, não lhe será requerido fazer nada no caminho das disciplinas espirituais. Isso porque através de seu ensinamento ele lhe revelará sua verdadeira natureza, como que colocando um espelho diante de você.
Muitos supostos sábios deslocam-se de lugar em lugar para propagar seu conhecimento espiritual. Mas por que eu perambularia por aí e aonde eu iria? Em meu estado verdadeiro estou em toda parte. Isso será realizado por você quando você residir no conhecimento “eu sou”.
Você vai até o seu tio ou seu primo porque você está relacionado a eles pelo corpo. Mas se você está em toda parte, por que você deveria sair por aí? Se você embeber plenamente o que eu expus, nenhuma disciplina espiritual será requerida de você.
Com essa compreensão você observará e concluirá que quaisquer atividades espirituais ou mundanas estão acontecendo através de você, elas são meramente entretenimentos para passar o tempo e que elas são o funcionamento do princípio dinâmico manifesto apenas – maya.
Residir no conhecimento “eu sou” é nossa verdadeira religião – o svadharma. Mas em vez de seguir isso você optou por ser irreligioso, a submeter-se aos ditames de seus conceitos, o que levou-o a acreditar que você é um corpo. Esse engano garantiu-lhe apenas o medo da morte.
Se seu corpo não for suprido com comida, ele vai ficar cada vez mais fraco e um dia seu alento vital irá abandonar o corpo. As pessoas dirão que você está morto, mas você não terá a informação. Pode ser que você seja pecaminoso, mas isso é apenas no que diz respeito a sua identidade como um corpo, desse modo também a sua morte refere-se à identidade do corpo.
Por favor, aprenda isto claramente: que Você – o Absoluto – desprovido de qualquer identidade corporal, é completo, perfeito e Não-nascido. Mas você é acusado de milhões de nascimentos nas vidas passadas. Em conexão com isso, você poderia me falar ao menos de um dos seus nascimentos passados, você se lembra? Não vá pelo que os outros dizem, mas fale honestamente de sua própria experiência direta apenas. Na realidade, você nunca teve um nascimento. Muitas formas estão aparecendo e desaparecendo como um resultado da interação dos cinco elementos. Nessa interação onde está você e o que é você? E onde está a questão de você ir e vir? O que são essas religiões e seitas? Não são meramente propagações das amáveis idéias dos sábios e profetas para os quais alguns conceitos ocorreram? E isso pôde acontecer porque os sábios e profetas reconheceram primeiramente o seu sentido de ser. Então eles meditaram e habitaram nele e finalmente transcenderam-no, o que resultou na Realização Última. Depois disso, qualquer conhecimento que brotou deles espontaneamente tornou-se as religiões e as seitas de seus seguidores, por causa de seu envolvimento emocional.
O fato mais importante a ser entendido é apenas este. Se o toque do sentido de existência existe, então todas as coisas existem. Se o sentido de existência não está presente, os cosmos não estão presentes e não há nada.
Vocês têm alguma pergunta agora?

Pergunta: Você falou sobre o sentido de ser sustentado pelo corpo-comida e sobre a consciência dinâmica manifesta. Eles são a mesma coisa?

Maharaj: Ambos significam a mesma coisa. Não há forma ou desenho para esse princípio, assim como o alento vital não tem forma, o qual é, entretanto, dinâmico e pulsante. O alento vital apenas é o que anima e vivifica o corpo e ele irá operar enquanto o corpo estiver sadio.
O que quer que seja visto ou percebido está continuamente em um estado de criação e destruição, mas Você, em sua natureza verdadeira é não-nascido e indestrutível. A menos que você realize sua verdadeira natureza, não haverá paz para você.
Não importa o quanto você lute duramente para adquirir posses, elas estão fadadas a se esvaírem e é o mesmo com seus conceitos e suas várias identidades. Mesmo que você siga alguma religião na esperança de obter
algo permanente vindo de fora, você ficará profundamente desapontado. O propósito principal da verdadeira espiritualidade é nos liberar completamente de nossos conceitos e condicionamentos.
Ao seguir alguma religião, culto ou credo, a pessoa inevitavelmente torna-se condicionada, pois ela é obrigada a aceitar e obedecer suas disciplinas, tanto físicas quanto mentais. A pessoa pode conseguir alguma paz por um certo tempo, mas tal paz não irá durar muito. Em sua verdadeira natureza, você é o conhecedor dos conceitos, e, portanto, anterior a eles.

Pergunta: Suponhamos que um cadáver esteja no chão. E sendo que o Brahman manifesto está em toda parte, ele não poderia ter deixado o corpo. Dessa forma, o que é esse princípio que deixou o corpo deixando-o morto?

Maharaj: Vamos considerar Brahman como o espaço a fim de facilitar essa discussão. Pode o espaço ser confinado dentro de um corpo? Então diga-me, aonde a morte (daquele corpo) começa no espaço todo-penetrante? É possível isso?
Que tipo de pergunta você faz? É melhor você recolocar a questão para deixá-la com mais sentido.


Pergunta: No corpo vivo deveria haver algo além de espaço!

Maharaj: Além de espaço?

Pergunta: Há espaço.

Maharaj: No espaço havia uma massa de alimento e dela um corpo foi formado. Brahman manifesto, o qual estamos chamando de espaço, expressa a Si mesmo através de um corpo-comida saudável. Você está acostumado a chamá-lo de atman. Mas o atman não é criado como um corpo, é um princípio não-nascido, o Brahman.

Pergunta: Ó, isso quer dizer que o atman nunca foi criado!

Maharaj: Certamente, o atman não tem nascimento. É através do todo-penetrante Brahman que o corpo, juntamente com a respiração vital, funcionam. E então você interpreta o processo como o nascimento de atman.
Toda essa exposição é apenas para aqueles que têm uma necessidade genuína de compreender a espiritualidade. Para queles que estão ansiosos para melhorar sua vida mundana, a adoração dos vários deuses é recomendada.
Quando um corpo saudável e a respiração vital (prana) trabalham juntos, o sentido de ser expressa-se colocando em operação os membros e os sentidos do corpo. Essa expressão é um anúncio, o qual declara a exixtência eterna do princípio derradeiro – o Absoluto – Parabrahman. Quando o corpo morre, o sentido de existência desaparece e dessa forma não há anúncio do Absoluto através daquele corpo morto, não obstante, o Absoluto continua a prevalecer como sempre.

Pergunta: É isso o que eu queria saber.

Maharaj: Um buscador foi aconselhado por um guru com as seguintes palavras: “olhe para trás”. E o buscador simplório virou e olhou para trás, considerando literalmente a ordem, então o guru disse novamente a ele: “entenda o significado por trás das palavras. Compreenda o seu estado antes deste estado presente. Vá para a fonte. Olhe para trás. Receda.”
Você aceita um conceito e pára nele. Dessa forma seu progresso espiritual estagna no nível conceitual.
Você indicou sua identidade nos vários estágios de sua vida por conceitos tais como “uma criança”, “um garoto”, “um jovem”, “um homem de meia idade”, etc. Mas qual identidade conceitual permaneceu fiel a você? Todas as identidades no curso do tempo provaram ser ilusórias. Mesmo o princípio por trás das identidades, ou seja, o sentido de sua existência, provará ser ilusório. Uma vez que ele apareceu ele tem de desaparecer, sendo assim ele é temporário e limitado ao tempo. Mas o conhecedor desse sentido de ser é o Absoluto eterno.
Qualquer experiência pela qual você passe é imperfeita. Contudo, você continuará alguma prática espiritual porque a mente não permitirá que você fique quieto.
Com o propósito de adquirir conhecimento e de conhecer Brahman você medita em algo. Mas qual é a sua identidade como meditador? Você não é nem a meditação e nem o objeto da meditação. O que quer que seja, Você, é o Perfeito, a Totalidade, o Absoluto Eterno."

(Do blog: Portal do Conhecimento Divino)




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