Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Breve biografia de Sri Ramana


Bhagavan Sri Ramana Maharshi

(1879-1950)

Breve Biografia


"Sri Ramana Maharshi nasceu em 30 de dezembro de 1879 em Tiruchuzhi, numa cidade da província de Tamil Nadu, no sul da Índia. Seus pais deram-lhe o nome de Venkataraman. Nada havia de anormal neste rapaz. Possuía um corpo forte, destacava-se no futebol, artes marciais, natação, entre outros esportes. O único fator incomum a respeito de Venkataraman era o seu sono profundo, inabalável, e a sua assombrosa força física. Seu sono era tão profundo que em certas ocasiões os seus colegas – que jamais tinham a oportunidade de vencê-lo num combate – aproveitavam-se de seu estado para carregá-lo para fora da sua cama, dar-lhe porrada, e então “devolvê-lo” ao seu quarto, sem que Venkataraman jamais suspeitasse do ocorrido. Este rapaz não manifestava nenhum interesse pela espiritualidade, meditação ou religião. Seu único contato com assuntos espirituais foi uma vez quando ouviu falar da montanha sagrada de Arunachala – o que lhe despertou profunda reverência e interesse – e outra quando teve a oportunidade de ler o Periyapuranam, que é uma colecção de biografias de 63 santos da seita Saiva [adoradores de Shiva] da religião hindu. Entretanto, quando tinha 16 anos de idade, em julho de 1896, ele teve uma experiência que transformou a sua vida para sempre. Ele mesmo a descreve:

“Foi mais ou menos seis semanas antes de deixar Madurai permanentemente, que a grande mudança ocorreu na minha vida. Aconteceu inesperadamente. Eu estava sentado sozinho numa sala do primeiro andar da casa do meu tio. Eu raramente adoecia, e naquele dia a minha saúde estava normal, mas repentinamente fui tomado por um violento medo de morrer. Nada no meu estado de saúde explicava isso, e eu não tentei justificar esse medo, nem procurei as suas causas. Eu apenas senti ‘Vou morrer’ e comecei a pensar o que fazer a respeito disso. Não pensei em consultar um médico, os meus parentes ou meus amigos; eu senti que precisava resolver o problema por mim proprio, ali mesmo. O choque do medo da morte fez a minha mente voltar-se para o interior, e eu disse a mim mesmo, sem na verdade moldar em palavras: ‘Agora a morte chegou; o que isto significa? O que vai morrer? O corpo morre.’ Então imediatamente comecei a dramatizar a ocorrência da morte. Eu deitei-me com meus membros esticados e duros como se estivesse a ocorrer o rigor mortis, e imitei um cadáver para tornar a inquirição mais realista. Prendi a respiração e mantive os lábios firmemente fechados a fim de não deixar escapar nenhum som, de maneira que nem mesmo a palavra “eu” e nem qualquer outra palavra pudesse ser pronunciada. ‘Então’, disse a mim mesmo, ‘este corpo está morto. Ele vai ser carregado duro até à pira de fogo e lá será queimado e reduzido a cinzas. Mas com a morte deste corpo eu morro? Este corpo é o Eu? Ele está silencioso e inerte, mas eu sinto a força total de minha existência, e até mesmo a voz do “eu” dentro de mim, separadas do corpo. Então eu sou o espírito que transcende o corpo. O corpo morre, mas o Espírito que o transcende não pode ser tocado pela morte. Isto significa que eu sou o Espírito Imortal’. Isso tudo não foi um pensamento obscuro; foi uma verdade viva que brilhou através de mim e que percebi diretamente, quase sem o processo do pensamento. ‘Eu’ era algo muito real, a única coisa real no meu estado presente, e todas as atividades conscientes ligadas ao meu corpo estavam centradas naquele ‘Eu’. A partir daquele momento o ‘Eu’ ou ‘Si-mesmo’ focou a atenção em si mesmo por meio de uma poderosa fascinação. O medo da morte desapareceu de vez, e a absorção no Eu Real continuou ininterrupta desde então.”

Neste momento a sua individualidade dissolveu-se no Eu Real, e aquele jovem indiano que nada tinha de promissor transformou-se num dos maiores Sábios que a Índia alguma vez já conheceu. Na terminologia espiritual, ele havia “Realizado o Eu”, ou “Alcançado a Iluminação/Libertação”; o que normalmente surge apenas como resultado de anos de intensa prática espiritual (sadhana), para o jovem Sábio surgiu espontaneamente, sem nenhuma prática ou desejo prévios. Movido por um chamado interior, Venkataraman abandona os seus estudos e sua vida em sociedade, e parte rumo a Tiruvannamalai, a cidade em que se situa a lendária montanha de Arunachala. Chegando ao seu destino, o garoto iluminado joga fora todo o seu dinheiro e posses, e entrega-se a desfrutar profundamente o estado de Paz e Beatitude recém descoberto. A sua absorção nesta Consciência era tão profunda que ele permanecia desligado do seu corpo e de todo o mundo exterior por dias a fio. Durante os dois ou três anos em que permaneceu imerso neste profundo estado de samadhi [transe], mosquitos e escorpiões comiam parte de seu corpo, seu cabelo e unhas cresceram enormemente, sendo que se alimentava apenas quando um transeunte apiedado com o estado deplorável do seu corpo lhe oferecia algo para comer. No final deste período Venkataraman começou aos poucos a retomar a sua vida física normal – transição esta que se completou apenas alguns anos depois – mas sem nunca perder a consciência de seu verdadeiro Eu.

A medida em que o jovem Sábio foi retomando a consciência do mundo exterior, passou a irradiar uma aura de Paz que começou a atrair buscadores interessados em beneficiar-se de sua presença. Em seus primeiros anos Venkataraman permanecia em completo silêncio, sendo que eventuais perguntas de buscadores que o visitavam ou que moravam em sua proximidade eram respondidas sendo escritas em pedaços de papel ou na areia. Naquela época, um de seus primeiros seguidores, impressionado pela sabedoria e santidade daquele garoto, deu-lhe o nome de Bhagavan Sri Ramana Maharshi, pelo qual passou a ser conhecido desde então. “Bhagavan” é um título honorífico dado a grandes mestres iluminados, significando “Senhor; Deus”; “Sri” é um prefixo de respeito; “Ramana” é a contração de seu nome de batismo; “Maharshi” significa “Grande Sábio”. Mesmo depois de vários anos, quando Sri Ramana voltou a falar, falava muito pouco, de forma que seus ensinamentos eram transmitidos por outros meios. Ao invés de dar instruções verbais ele constantemente emanava uma força silenciosa que aquietava as mentes daqueles que estavam em sintonia com ela, e ocasionalmente até mesmo lhe davam uma experiência direta do estado no qual ele mesmo estava perpetuamente imerso. Anos depois ele tornou-se mais disposto a dar ensinamentos verbais, mas, mesmo então, os ensinamentos silenciosos sempre estavam à disposição daqueles que sabiam fazer bom uso deles. Ao longo de sua vida Sri Ramana insistia que esse fluxo silencioso de energia representava os seus ensinamentos em sua forma mais direta e concentrada. A importância que ele dava a isso é indicada por suas assertivas freqüentes no sentido de que os seus ensinamentos verbais serviam apenas para aqueles que não podiam compreender seu silêncio. Na medida em que os anos passaram ele tornou-se cada vez mais famoso. Uma comunidade cresceu em volta dele, milhares de visitantes vinham vê-lo, e durante os últimos vinte anos de sua vida ele era largamente conhecido como o Santo mais popular e reverenciado da Índia. Alguns desses milhares eram atraídos pela paz que eles sentiam em sua presença, outros pela propriedade com a qual ele guiava buscadores espirituais e interpretava ensinamentos religiosos, e outros simplesmente vinham falar dos seus problemas e sofrimentos. Qualquer que fosse a razão, praticamente todos que tinham contato com ele saiam impressionados com a sua simplicidade e humildade. Quando uma vez o então presidente da Índia prestou uma visita a Mahatma Gandhi, este disse-lhe “se tu estás em busca da Paz, sugiro que visites Ramana Maharshi.” Bhagavan estava disponível aos visitantes vinte e quatro horas por dia, uma vez que dormia e vivia num espaço comunitário, que estava sempre acessível a todos, e seus únicos bens eram a sua roupa do corpo, um pote de água, e a sua bengala. Embora fosse adorado por milhares como uma encarnação divina, ele se recusava a permitir que qualquer um o tratasse como alguém especial, e recusava receber qualquer coisa que não fosse igualmente dividia entre todos à sua volta. Sri Ramana trabalhava junto na sua comunidade e por muitos anos acordava diariamente às 3:00 da manhã para preparar comida aos residentes no ashram. Seu sentimento de igualdade era legendário. Os visitantes eram todos tratados com respeito e consideração iguais, fossem eles mendigos, executivos, membros da realeza, ou animais. A sua preocupação igualitária se estendia até mesmo às árvores locais: ele desencorajava os seus seguidores a arrancarem flores ou folhas das árvores, e buscava assegurar-se que toda e qualquer fruta que fosse retirada das árvores fosse feito em maneira que a árvore sofresse apenas a quantidade mínima de dor. Assim, ao longo de mais de 50 anos, vivendo aos pés da montanha de Arunachala, Sri Ramana deu ensinamentos e transformou as vidas de inúmeros visitantes e buscadores. Boa parte dos seus ensinamentos foram anotados e publicados, constituindo assim uma herança espiritual inestimável para a humanidade, apontando um caminho direto e eficaz, acessível a todos aqueles que desejem alcançar o estado de Liberdade do qual tais ensinamentos emanaram. Sri Ramana Maharshi deixou o corpo físico em 14 de abril de 1950, padecendo de cancro. Em nenhum momento, entretanto, demonstrou qualquer espécie de preocupação ou aflição com a grande dor física que o seu corpo sofreu nos últimos anos, ou com a perda do mesmo, permanecendo sempre com o mesmo olhar imerso em Paz.

Algumas passagens do livro: "Dias de Grande Paz" de Mouni Sadhu:

"Maharshi deixou este mundo seis meses depois de eu ter deixado a Índia. Suas últimas palavras foram: “Dizem que estou morrendo, mas estarei aqui mais vivo do que nunca. Onde poderei eu ir?” Muitos de seus discípulos que residiam a muitas milhas do Ashram, souberam de sua morte no próprio dia em que o Mestre deixou de viver em corpo físico. Pelas informações recebidas, verificou-se que a notícia foi comunicada misticamente, ou, poder-se-ia dizer, foi irradiada várias horas antes de ter sido dado o último suspiro pelo corpo de Maharshi, em lugares em que as cartas chegavam somente depois de uma semana. Nenhum discípulo verdadeiro do Mestre sentiu tristeza ou desespero. O mesmo ambiente de lúcidas ondas de paz e luz espirituais foi sentido pelos corações de seus discípulos, tanto do ashram do santo, como do outro lado do oceano. "

".... A princípio eu desejava falar com ele, mas desanimava diante da superficialidade do que eu tinha a dizer-lhe. E, então, a intuição mostrou-me o caminho: “O silêncio é a forma mais poderosa de ensinamento transmitido do Mestre para o discípulo. Não existe palavra pela qual se possa transmitir o que é importante, as verdades mais profundas.”

"...Comecei a escutar com muita atenção o Silêncio que rodeava o Mestre. Compreendi o grau elevado da concentração, em outras palavras, o controle dos movimentos do pensamento necessário para poder abrir a porta da mente às vibrações sutis irradiadas constantemente por Maharshi e que guiavam à elevada Iniciação. Compreendi também que os meus exercícios anteriores não eram os melhores e que, então, provaram ser insuficientes. A princípio foi desanimador ver que todos os métodos anteriores tinham que ser examinados e modificados. Cheguei a compreender que todo o conhecimento que eu podia alcançar ou assimilar ali, dependia de minha própria atitude, e que era responsável pelo que eu pudesse obter desta oportunidade única de estar aos pés de Maharshi, oportunidade que jamais se repetirá. Ou por outra, a luz que penetrar em meu ser será exatamente proporcional à abertura das portas de minha consciência."

"...Com algum esforço consegui acalmar a minha mente. Ela já não cria pensamentos e os que aparecem imediatamente se desvanecem como pequenas nuvens no céu indiano. Contemplo o santo intensamente, olhando nos seus grandes olhos negros. E repentinamente começo a compreender. Como poderei expressar em linguagem terrena exatamente o que compreendo? Como poderei dizer por palavras baseadas em idéias e experiências do homem comum, que criou e modelou a nossa língua, essas coisas mais elevadas e sutis? Poderei dizer que a vida de Maharshi não está concentrada neste vale terreno, que se estende além do nosso mundo, que ele contempla um mundo real e diferente do nosso, um mundo que não está sujeito a tempestades e mudanças? Que ele é um facho de luz diante do trono do Mais Alto, espargindo seus raios por todos os lados? Que ele é como a fumaça do incenso que se eleva constantemente para o céu azul que vemos além do telhado do templo? Que seus olhos, que neste instante me fitam, parecem transmitir... Não, não posso dizer nada mais – nem posso pensar. Sinto apenas uma onda de lágrimas sobre a minha face, que flui silenciosa, abundante e serenamente. Não é de dor, sofrimento ou descontentamento. Não sei dizer sua causa. E através dessas lágrimas vejo o mestre. Ele conhece bem a sua fonte. Sua fisionomia séria e quase solene expressa bondade, compreensão, amizade. É esse clarear da Luz Interior que o torna diferente de todas as outras fisionomias humanas. Na luz de seu fitar profundo repentinamente compreendo a razão e o motivo de minhas lágrimas. Sim, vejo, afinal. A Iluminação repentina é muito forte e não é possível crer imediatamente na verdade do que se vê. É “isso“ realmente possível? Mas o olhar de Maharshi parece trazer a confirmação. Posso dizer apenas que há momentos de experiências interiores, tão cheios de conseqüências que podem influir não somente sobre uma encarnação e sim sobre muitas.
“A paz que ultrapassa toda a compreensão humana.” A meditação que acabo de descrever continua por alguns dias. E então se seguiu outra fase. As lágrimas deram lugar a uma quietude interior e a um sentimento de inexprimível, indescritível felicidade.
Essa disposição interior é independente de qualquer condição externa. Nem a dor das pernas, que muitas vezes nos incomoda, quando ficamos muitas horas sentados na mesma posição, nem as picadas dos mosquitos, nem o ardoroso calor, podem perturbar esta paz interior. Este estado se prolonga por tanto tempo quanto for possível não permitir que a mente crie novos pensamentos. Mas assim que a concentração cessa, a paz também desaparece. E novamente o mundo com seus problemas inquietantes, as ansiedades e expectativas aparecem. Mas, uma vez descoberto o segredo dessa experiência, a porta para a sua repetição está aberta e podemos recorrer a ela novamente. Estou bem certo de que a assistência do Mestre é o fator mais importante nesse primeiro vislumbre da consciência supermental. Não creio que ele esteja interferindo ativamente, mas a sua presença, a sua irradiação constante produz, espontaneamente, esse efeito. Então olho as pessoas que se acham no “hall” do templo – brâmanes e 'os sem casta', europeus e americanos, homens e mulheres, velhos, moços e crianças, e todos se sentem felizes aos pés do Santo."



O Resumo Bibliográfico acima elaborado foi realizado com base nos seguintes textos:

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SADHU OM. The Path of Sri Ramana – Part I. Tiruvannamalai: Sri Ramana Kshetra, 1997. GODMAN, DAVID (editor). Be As You Are. Londres: Penguin, 1985. MAHADEVAN, T.P.M Bhagavan Ramana. Tiruvannamalai: Sri Ramanasramam, 2005. SADHU, MOUNI. Dias de Grande Paz, Vivencia da mais Alta Yoga. Editora Pensamento.


Agradecemos ao compositor desse texto encontrado na web.
EDITORA ADVAITA

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