Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A verdade total




Em seu estado de perfeição, a Consciência Total
É inconsciente de sua consciência;
Então a consciência se levanta 
num gemido de Aum
e o sonho da criação começa.
É consciente de ser,
E exulta nesta condição de ser.
Imersa no amor do estado de eu sou,
Expressa-se na dualidade.
Através da união do duplo aspecto masculino-feminino,
Através dos cinco elementos:
Espaço, ar, fogo, água e terra,
Através dos três Gunas:
Sattva, Rajas e Tamas
Manifesta-se na duração.
No sonho do espaço-tempo
Manifesta-se como fenômeno,
Criando milhões de formas,
Soprando nelas a força da vida
e  a consciência imanente que a tudo permeia;
Através destas formas, em regozijoso amor por si mesma,
a consciência funciona como Prajna.
Os seres sensíveis – meras imagens,
Assim concebidos – maravilha das maravilhas! –
Como objetos uns aos outros se percebem,
assumindo a subjetividade por si mesmos,
Cada um, em maravilhosa ilusão,
Vê-se como entidade separada,
Com julgamento e vontade independentes.
Cada um esquece seu potencial ilimitado
como Numeno Absoluto, 
e aceita sua identidade limitada como aparencia,                
Um mero fenômeno;
Cada um toma o funcionamento de Prajna
Como suas próprias ações pessoais,
Ata-se a uma escravidão ilusória.
E ‘sofre’ dores e prazeres!
Aparece, então, o Guru misericordioso,
Pleno de Graça e Luz divina,
E mostra a ele o que é realmente:
Aquilo que ele acredita ser
Nada mais é que um ovulo
Fecundado no útero da mãe,
No qual está latente a luz da sensibilidade
A noção de "eu sou", a consciência que ele é.
Com milhares de nomes designados,
Rama, Krishna, Ishwara, Brahman,
É o mesmo estado de "eu sou";
A luz da consciência, Mahamaya,
Em grandiosa ilusão, confunde
Sua própria natureza e a conduz erradamente.
Até que o Guru diga: Pare, veja a si mesmo
Como você é, em sua verdadeira glória.
Sobre seu estado original atemporal,
A numenalidade Absoluta, apareceu
Como uma doença temporária, o corpo-com-consciência,
Espontaneamente, sem causa ou razão,
como parte do funcionamento de Prajna.
E se desenvolve pelo seu tempo de vida
Até que, também espontaneamente desapareça –
e a consciência, não mais consciente de si mesma,
Funde-se na Consciência – ninguém nasce, ninguém morre.
Diz Nisargadatta Maharaj
De maneira simples e direta:
O que você era antes de adquirir o corpo?
Volte para a origem; permaneça tranquilo, e então
O buscador desaparecerá e
se fundirá na busca.
Não mais consciente da Consciência,
na Totalidade e unicidade, 
Eu sou sem dualidade.
Com penetração e intuição,
Com profunda convicção, facil de apreender.
Isto-Que-É está além dos limites do intelecto.
Só a objetiva e a fenomênica –
presença ou ausência – o Intelecto poderá compreender.
Mas o que-Eu-sou não é presença nem ausência;
Ausência da presença da presença,
Ausência da presença da ausência,
É o que-Eu-sou.



De: Pointers from Nisargadatta - "Sinais do Absoluto" 



quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Além da necessidade de ulterior ajuda







"Nisargadatta Maharaj me disse que a única maneira de ajudar alguem é levá-lo além da necessidade de ulterior ajuda, e ele fez isso, mostrando-me que eu não era esse corpo e mente. - Ele não podia mostrar-me ou explicar-me o que é a verdade ou a realidade de todas as coisas, porque Isso não pode ser colocado em palavras ou visto como um objeto. - Eu tive que fazer meu próprio trabalho interior e ver a Verdade por mim mesmo. - Veja e reconheça essa consciência presente que voce não pode negar ou agarrar e você também estará além da necessidade de ulterior ajuda. - Nenhum guru new age, mestre espiritual ou o professor exterior pode fazer isso por você, você tem que ver por si mesmo..."



"Gleanings From Nisargadatta" - Mark West




terça-feira, 26 de outubro de 2010

Nunca houve alguém feliz



Pergunta: Algumas vezes eu tenho a impressão de que há apenas infelicidade nesse mundo.

Karl: Quem é este que tem esta impressão?

P: Eu tenho. Isto me deixa deprimido.

K: Seja o que você é. Então você se sentirá bem, sempre. Já que na ausência de um ‘eu’, não há ninguém que possa se sentir infeliz.  Alguem feliz sempre terá o temor de se tornar infeliz. A felicidade relativa sempre o impulsiona novamente para a infelicidade. Sim: a felicidade relativa deste mundo é sinônimo de infelicidade. Há apenas infelicidade neste mundo! Você está certo.

P: Dificilmente isto me consola.

K: É por isto que Jesus não disse: “Trago a paz e o amor para o mundo”. Em vez disto, ele disse o oposto: “Eu lhe mostro que o mundo não pode faze-lo feliz. Não há paz neste mundo. Há apenas infelicidade. Ninguém já foi feliz neste mundo.”

P: Pare com isso!

K: Sempre lhe perguntavam por que, como  filho de Deus, ele não poderia governar e trazer a felicidade eterna, o paraíso sobre a terra, porque ele não tinha a onipotência de Deus. Sua resposta era: “Que os mortos enterrem os mortos”.
O mundo está morto. Quem se importa com o que ele parece? Que o mortos se ocupem dos mortos. O mundo é apenas um fenômeno, uma ideia sua, não mais vivo que um sonho ou um pesadelo, o qual parece real apenas enquanto ninguém pisa no seu pé.
“Oh, isto, afinal, não era real de modo algum: este terrível perseguidor ou este infinito abismo, dentro do qual eu simplesmente caio, gritando!”
Não, não era real e não é real. Real é o que você é, e sua felicidade não depende do sonho.

P: Mas, afinal, eu sou um filho deste tempo e não posso negar ...

K: Não, você não é um filho deste tempo. O tempo é filho seu! Você é a fonte do tempo. Toda manhã, quando você abre seus olhos, você cria o mundo. O corpo desperta, não você. O estado desperto que você é já está presente. Ele nunca dormiu. Seja este estado desperto. Ele é de qualquer maneira o que você é. Você é aquilo que é anterior ao ‘eu’ e ao mundo, mas você acredita em seu intelecto. Você está fascinado por este mundo que ele projeta e imediatamente quer melhorá-lo. Você já é infeliz. Assim, o mundo pode apenas ficar melhor.

P: Como e quando?

K: Você tem um encontro com você mesmo que não pode perder.
Quando? Quando não criar mais tempo. Como? Parando.
A felicidade não jaz em sua projeção do mundo mas, muito mais simplesmente, naquilo que você é. Chame-a natureza de cristo ou natureza de Buda. É isto que você é.
Você mesmo é o não nascido, o imortal.
Sua natureza é felicidade.


De: "A Miragem da Iluminação e outros erros conceituais" dialogos com Karl Renz. 




sábado, 23 de outubro de 2010

A Alegria sem Objeto





 



Em alguns momentos, a sós conosco mesmos, experimentamos uma imensa carência interior.
É a motivação-mãe que gera as demais. A necessidade de preencher esta carência, de apagar esta sede, nos leva a pensar, a agir. Sem sequer interrogá-la, fugimos de nossa insuficiência, tratamos de preenchê-la às vezes com um objeto, às vezes com um projeto, e logo, decepcionados, corremos de uma compensação à seguinte, indo de fracasso em fracasso, de sofrimento em ofrimento, de guerra em guerra. 
Este é o destino do homem comum, de todos os que aceitam com resignação esta ordem de coisas que julgam inerente à condição humana.
Observemos de mais perto. 
Enganados pela satisfação que nos proporcionam os objetos, chegamos a constatar que causam saciedade e, até mesmo, indiferença: nos preenchem num momento, nos levam à não carência, nos devolvem a nós mesmos e logo nos cansam; perderam sua magia evocadora. Portanto, a plenitude que experimentamos não se encontra neles, está em nós; durante um momento o objeto tem a faculdade de suscitá-la e tiramos a conclusão equivocada de que ele foi o artesão desta paz.  
O erro consiste em considerar este objeto como uma condição 'sine qua non' da dita plenitude.
Durante estes períodos de alegria, esta existe em si mesma, não há nada mais. Logo, referindo-nos a essa felicidade, a superpomos a um objeto que, segundo acreditamos, foi o que a ocasionou.
Portanto, objetivamos a alegria (transformamos a alegra em um objeto).
Se constatarmos que esta perspectiva na qual nos situamos só pode dar uma felicidade efêmera, incapaz de nos proporcionar aquela paz duradoura que está dentro de nós mesmos, compreendemos, por fim, que, no momento em que alcançamos o equilíbrio, nenhum objeto o causou; a última satisfação, alegria inefável, inalterável, sem motivo, está sempre presente em nós; o que ocorre é que estava velada para nossos olhos. 

De: "A Alegria sem Objeto" Dialogos com Jean Klein 


Londres, Novembro de 1982






Quando falamos da observação silenciosa, referimo-nos a um modo de escutar, uma forma de ver, a qual permite o observar em sua expressão direta e não qualificada. No processo da escuta, você pode descobrir que o observador está sempre julgando, criticando, comparando e avaliando. Este discernimento o leva por si só a uma posição na qual você não está envolvido no percebido. Então, uma sensação de espaço se abre entre sua observação e o observado, suscitando a compreensão de que o percebido surge em você, mas você não está limitado a qualquer coisa perceptível. O silêncio é nossa verdadeira natureza.

Então, o próprio pensamento é a raiz do problema?

Geralmente, conhecemos a nós mesmos nas percepções, nos estados. Nós apenas conhecemos a consciência de alguma coisa, a escuta de algo, etc. Nós não conhecemos a consciência pura sem um objeto.
Pensamentos, sentimentos e sensações são objetos da consciência, e não tem existência sem um sujeito que os observa. Visto que o que percebe nunca pode ser percebido, no momento em que um pensamento ou uma percepção aponta para ele, leva-o ao silêncio, ao ser puro, à consciência sem um objeto.

Então, o que é o que percebe?

O que percebe é uma faculdade, uma qualificação, a qual existe no momento em que há uma percepção no espaço-tempo. Sem a percepção, não há tampouco o que percebe. Ambos são movimentos de energia no espaço-tempo, e ambos surgem e se dissolvem novamente na consciência, a única que é atemporal.
O que percebe e o percebido são como ferramentas, instrumentos da consciência.
Tudo o que aparece é uma expressão da consciência.

Encontro realmente, se vir de mais perto, que, ao desejar realização, estou buscando a unidade fundamental ou a segurança, a paz se assim você quiser, euforia, se tiver sorte.... A consciência pura da qual você fala tem alguma destas qualidades?

Não. O que você busca é apenas memória, algo que já conhece e avalia como desejável. Todas estas coisas que você nomeia são atributos, sobreposições sobre a consciência pura. Há um entendimento profundo a ser ganho quando vê que, no momento da obtenção da qualidade desejada, não há nem uma qualidade-objeto nem um sujeito que a experimenta. Neste momento, há apenas unidade não-qualificada. É apenas depois de abandonar esta unidade que você procura uma causa e diz: “A causa desta alegria foi esta qualidade que alcancei”. Mas, no momento da vivência da unidade, não há lugar para qualquer qualidade, para qualquer objeto, seja qual for.

Esta unidade é nosso desejo verdadeiro?

É nosso desejo verdadeiro. Todos os outros desejos aparecem mais ou menos através da falta de discernimento. O desejo é um esforço para obter compensação, a busca de um modo de preencher um sentimento de vacuidade em você mesmo. Assim, quando, por um momento, o esforço termina e o objeto desejado é obtido, há um instante em que você vive em unidade, na satisfação final, mas esta satisfação não tem causa. E este instante nem mesmo pode ser chamado de um instante, pois é atemporal.

O que então é o Karma, o qual é produzido pela relação de causa e efeito?

No momento em que você vive sem qualquer programação, sem uma imagem ou uma idéia de ser alguém, não há Karma. A quem pertenceria o Karma? Remova o problema do Karma. Abandone-o completamente. A idéia lhe dá um apoio à existência de alguém que não existe. Quando você está completamente silencioso, onde está a imagem de ser alguém? Quando o reflexo de identificação com uma imagem desaparece, há a certeza de que a entidade pessoal não existe. Há apenas unidade. Então você está livre do Karma, pois o Karma pertence a alguém. Mas, quando você adiciona uma imagem de uma personalidade, de um homem, ou de ser isto ou aquilo, neste momento, você está ligado ao Karma.

Você poderia dar-me um exemplo concreto do que significa identificar-se com uma imagem?

Observe que desde a manhã até à noite você busca constantemente localizar-se. Você tem uma necessidade de localizar-se em algum lugar, seja na sensação corporal, na emoção, ou em uma idéia. Mas, quando você aceita que não pode encontrar a si mesmo, seu Eu verdadeiro, dentro de nenhuma percepção, o processo de produção cessa. Você deixa de criar idéis, imagens e situações.
Você deve viver na abertura sem qualquer memória. Isto significa que você está aberto completamente à vida, a tudo o que vier. E, desde que nesta abertura não há memória, nem reação, você está alerta completamente a cada momento para o frescor e para a novidade da vida. Não há mais repetição.

A mais próxima experiência do silêncio de que você fala é o sentimento e a satisfação do amor?

O silêncio é o plano de fundo de tudo o que acontece, de tudo o que aparece e desaparece. É o amor não-qualificado, o amor que não tem necessidade de qualquer estímulo. Estimula-se a si mesmo por si mesmo.
No momento em que você vive conscientemente na unidade, não há “outros”. Há apenas Eu. Isto é amor. Mas, quando você se toma por alguém, todas as relaçãoes são de objeto para objeto, de homem para mulher, de mão para filho, de personalidade a personalidade. E, aí, não há comunhão, não há possibilidade de amor.

Você diz que devemos aceitar a nós mesmos, a nossos corpos, capacidades, personalidades, e assim por diante. O que acontece depois disto?
Quando realmente você aceitou a si mesmo – e quero dizer que você aceitou de forma funcional, não psicológica – você sentirá um espaço entre sua posição de aceitação e tudo o que você aceitar. Esta sensação de espaço entre sua natureza real e sua imagem projetada é muito importante. Na aceitação de tudo o que aparece, você está livre dele. No começo, você se sente livre do que aceita, mas, mais tarde, você se verá a si mesmo na própria aceitação.

Na aceitação, há alguma noção de bem e de mal?

Bem e mal são projeções de idéias pré-concebidas, da memória. Cesse de projetar seus desejos e medos sobre o que você vê. Toma as coisas como são. Você deve aceitar algo para, realmente, conhecê-lo. Ao aceitar, a ênfase não é sobre o que aceitou, mas sobre a atitude de aceitação. Você descobrirá que você é um com a aceitação.
O que aceita não é um objeto. É uma realidade interior. A aceitação dá liberdade a tudo o que é aceito. O que você verdadeiramente aceita torna-se vivo e tem sua própria história para lhe contar. Mas o problema aqui não é simplesmente aceitar sua personalidade, sua “paisagem”. Esta é simplesmente uma condição preliminar para passar à experiência essencial, a atitude de aceitação em si mesma.

Mas, na vida, é necessário tomar decisões. Como podemos fazer isto se não discernimos?

Você apenas pode realmente tomar decisões quando aceita a situação. Na aceitação, a situação pertence à totalidade, à sua perfeição, e a decisão resulta desta perspectiva global. Não há nada passivo nesta aceitação. É a vigilância suprema. E a decisão resultante é uma ação, não na reação.
Quando vive na abertura e permite que cada situação venha você, você vlui com a verdadeira corrente da vida. Se você impõe o ego sobre cada acontecimento para de alguma forma controlá-lo, você percebe que não está de acordo com esta corrente de vida. A reação e a luta começam; você diz: “Tenho isto e gosta daquilo”. Este é um estado de conflito. Na aceitação, você vive simplesmente aqui onde está.


De: "A Simplicidade de Ser" Dialogos com Jean Klein



domingo, 17 de outubro de 2010

As palavras e sua realização







Era uma manhã na qual, talvez, Maharaj sentia sua fraqueza física um pouco mais que o habitual. Podia-se claramente perceber os efeitos inexoráveis da doença terrível em seu corpo, apesar de seu espírito indomável. Ele parecia frágil e exausto.
Sentou-se em seu lugar de sempre, totalmente quieto, quase imóvel, completamente esquecido da dor que, certamente, era muito intensa. Então, começou a falar de forma serena, suavemente; tinha-se que se concentrar bastante para captar suas palavras.
O que vêem, disse Maharaj, como minha presença enquanto fenômeno significa minha ausência como númeno. Numenicamente, não posso ter nem presença nem ausência, pois ambos são conceitos. O sentido de presença é o conceito que transforma a unicidade do Absoluto na dualidade do relativo. Não-manifesto, eu sou o potencial que, na manifestação, torna-se o atual.
Eu me pergunto, continuou Maharaj, se estas palavras dizem algo a vocês; são meras palavras? Certamente, não duvido de sua sinceridade. Vocês vêm aqui – muitos de lugares distantes e com gastos consideráveis – e dedicam bastante tempo em sentar no chão, o que muitos de vocês não estão acostumados a fazer; e certamente parecem estar atentos ao que digo. Mas vocês devem entender que, a menos que haja um tipo particular de receptividade, as palavras só poderiam atingir um propósito muito limitado. Elas poderiam, talvez, aumentar sua curiosidade intelectual e excitar o desejo de conhecimento, mas não revelariam seu verdadeiro significado.
Agora, qual é este tipo especial de receptividade? Aqui, novamente, encontra-se a limitação endêmica da comunicação através de palavras. Significaria alguma coisa para vocês se eu dissesse que ‘vocês’ vieram aqui para escutar-me, mas devem escutar-me tendo como fundamento que este ‘vocês’ é totalmente ilusório, que não há, na realidade, nenhum ‘vocês’ que possa escutar minhas palavras e obter algum benefício! De fato, devo ir mais longe e dizer que, a menos que abandonem seus papéis de ouvintes individuais que esperam algum benefício do que ouvem, as palavras para vocês seriam meros sons vazios. A obstrução que impede a apercepção é que, embora vocês possam se preparar para aceitar a tese de que tudo no universo é ilusório, nesta condição ilusória vocês falham em incluir a si mesmos! Agora, vocês vêem o problema – ou é mais uma piada que um problema?
Quando – permitam-me não dizer ‘se’ – vocês aceitarem este fundamento para o escutar, isto é, abandonarem todo o interesse no ouvinte que deseja ser um indivíduo ‘melhor’ ao escutar estas palavras e que espera ‘trabalhar’ para um melhoramento perceptível, sabem o que acontecerá? Só então, neste estado de escuta intuitiva, quando o ‘ouvinte’não mais se intrometer, as palavras mostrarão e deixarão ver seus mais sutis significados, os quais a mente aberta, ou em ‘jejum’, compreenderá e se aperceberá com uma convicção profunda e imediata. E, então, as palavras terão alcançado, ao menos, sua limitada realização!
Quando o ouvinte permanecer em um estado de suspensão sem se intrometer no escutar como tal, o que de fato acontecerá é que a mente relativa e dividida será automaticamente contida em sua inclinação natural de se envolver na tortuosa interpretação de palavras, e será, por isto, impedida de manter um processo contínuo de objetivação. E, então, a mente total estará habilitada à comunhão direta tanto com o falar quanto com o escutar como tal, e, através disto, a propiciar a Ioga das palavras, permitindo que estas mostrem seus mais íntimos sentidos e significados mais sutis.  




(Sinais do Absoluto)





quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Quem é este que está tecendo essa trama?




Pergunta: Eu estou aqui porque não quero renascer.  

Karl: E, precisamente por causa deste desejo, isto acontecerá.  

P: O quê? 

K: O desejo de evitar algo é sempre o comando que o faz acontecer. 

P: Então, diga-me, como libertar-me deste desejo... 

K: Não, você não pode libertar-se de nada. 

P: ...ou como eu posso sair disto. 

K: Você não pode sair. Mas você pode se devotar a não se libertar de nada, e não sair! Isto é tudo. Isto é autorrealização. A autorrealização está percebendo que você não pode escapar do que você é. Recoste-se e aprecie. Não haverá ninguém mais que possa faze-lo.  

P: Se eu pudesse gozar a vida, eu não estaria aqui.  

K: Você está aqui porque você não tem escolha. Você não pode fazer de outra forma. Você é a liberdade que não tem escolha de como se expressar. Se ela tivesse uma escolha, não seria a liberdade. Aprecie este estado sem escolha, esta inevitabilidade de sua existência. Esta é a apreciação real: ver que você nunca pode mudar o que você é.  

P: Para mim isto é mais ou menos o oposto da apreciação.   

K: Posso apenas dizer a você: aquilo que você é goza cada momento e o oposto de cada momento. Regozija-se completamente. E este que pensa que não está apreciando a si mesmo é também parte da apreciação.  

P: O fato que eu sou parte de algum tipo de gozo não me leva a parte alguma. Quero ser aquele que goza.  

K: Aquilo que você é goza tambem da não apreciação!  


P: Isso parece ser uma trama complicada.  


K: Voce está certo. É uma trama complicada.

P: Obrigado.  

K: Mas quem a tece, a aranha, é você. Você está tecendo a infindável rede de pensamentos cósmicos e formas. O momento virá quando você pensar: “O que significa essa teia? E, de qualquer maneira, quem a tece? Acho que sou eu mesmo que a está tecendo! É isto!”  No despertar do ‘eu’, a trama começou. Você é a fonte desta trama infindável de guerra e paz: toda a teia da criação. Você é o tecedor de cada pensamento e cada forma. Mas, na realização repentina de que você é, toda a teia é sugada de volta. Uma vez que isto seja visto, não há mais nem mundo nem teia.  

P: Você espera que eu o siga?  

K: Não, de forma alguma. Eu não estou aqui para ajudá-lo a entender alguma coisa.  

P: Mas?  

K: Estou sentado aqui de forma que aquele que pensa que pode entender desapareça no não entendimento.  

P: Antes de desaparecer, eu gostaria de receber algumas soluções.  

K: Eu não dissolvo nada. Ao contrário. Eu crio nós.  

P: Sim, eu percebo isto.  

K: Eu não estou aqui para dissolver nós. Eu crio nós. Eu ato tantos nós em seu cérebro que você pode repentinamente perceber que é impossível desfazê-los. Assim você pode abandonar as tentativas e simplesmente se tornar tranquilo. Uma vez que esteja completamente tranquilo, quem se interessa se existiam palavras, ou renascimentos, ou teias, ou nós e dissoluções?




(Karl Renz: Without A Second)



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