Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Uma experiência pessoal








Não é incomum que Maharaj, durante o curso da sessão, selecione algum dos visitantes regulares e pergunte-lhe sobre sua reação pessoal à suas palavras. Ele poderia dizer: Diga-me o que, especificamente, você entendeu destas conversas que tenha permanecido firmemente em sua mente. Ou ele poderia perguntar: Tendo ouvido o que eu tenho dito, a que firme conclusão você chegou com respeito à sua verdadeira identidade? Tem sido minha experiência que tudo o que Maharaj diz é sempre espontâneo, e que é inútil, portanto, tentar pensar sobre as razões específicas pelas quais ele faz tais perguntas a certas pessoas.
A reação imediata a tal questionamento de Maharaj é, naturalmente, de confusão, mas, o que é compreensível, é também equivalente a uma confissão de que, depois de escutar o que ele havia dito (Shravana), nenhuma meditação independente e adequada sobre isto (Manana) tinha sido feita, sem falar em agir de acordo com a convicção a que se chegou (Nididhyasana) – o único processo gradual recomendado por Maharaj quando ele é pressionado a recomendar alguma ‘ação’ para um devoto.
Em uma de tais ocasiões, Maharaj disse a um dos visitantes regulares: Você é um homem erudito e tem me escutado por bastante tempo muito pacientemente, muito intensamente, com profunda concentração. Diga-me em poucas palavras o que é isto que eu considero como a essência do que estou tentando comunicar. Maharaj parecia estar particularmente interessado na resposta, pois ele esperou pacientemente por ela durante bastante tempo. O devoto em questão fez esforços visíveis para dar uma resposta, mas, de um modo ou de outro, uma exegese bem-definida não apareceria. Durante o momento de calma interveniente, tão extraordinariamente calmo e silencioso, de forma espontânea apareceu em minha mente: ‘O despertar não pode acontecer enquanto persistir a idéia de que se é alguém que busca’.
Quando a sessão terminou e os outros visitantes tinham saído, apenas meu amigo Mullarpattan e eu permanecemos com Maharaj; eu mencionei a ele que uma resposta clara à sua pergunta surgiu em minha mente, enquanto esperávamos uma resposta do devoto, mas não me havia parecido apropriado dizer qualquer coisa durante a sessão. Sendo interrogado por Maharaj, disse-lhe qual era a minha resposta. Ele me pediu para repeti-la, e eu repeti a resposta mais devagar e claramente. Ao escutá-la, Maharaj sentou por um momento ou dois, com seus olhos fechados, um sorriso em seus lábios, e parecia muito satisfeito com a resposta. Então, ele perguntou a Mullarpattan o que ele tinha a dizer sobre minha resposta. Mullarpattan disse que não tinha nenhum comentário particular a fazer, e o assunto foi deixado de lado. Isto me pareceu uma pena, pois, se houvesse algum comentário do meu amigo, Maharaj iria quase certamente favorecer-nos com ao menos uma breve dissertação sobre o tema.
Houve outra ocasião que teve especial significado para mim, pessoalmente. Enquanto realizava a tradução em uma sessão, fui repentinamente interrompido por Maharaj. Devo mencionar aqui que, em alguns dias, minha tradução parecia emanar mais facilmente, mais espontaneamente do que em outros dias, e esta era uma destas ocasiões. Enquanto eu estava falando, talvez com meus olhos fechados, não estava consciente de qualquer interrupção de Maharaj e foi apenas quando o meu vizinho bateu no meu joelho firmemente que me tornei consciente do pedido de Maharaj para repetir o que eu tinha dito naquele momento. Isto me tomou um momento ou dois para lembrar o que tinha dito e, naquele instante, eu me senti curiosamente transformado, fora do contexto, em um testemunho distante e desinteressado do diálogo que seguia entre mim e Maharaj. Quando, depois de um instante, voltei ao quadro de referência relevante, encontrei Maharaj sentado em seu assento com um sorriso de agrado, enquanto os visitantes pareciam estar distanciados de mim de uma maneira constrangedora. A sessão, então, prosseguiu até sua conclusão normal, mas minha tradução depois disto parecia ser particularmente mecânica para mim.
Senti que alguma coisa estranha havia acontecido durante a sessão. Desafortunadamente, Mullarpattan não estava presente naquele dia e não poderia perguntar-lhe sobre isto. Eu, portanto, tomei emprestada uma gravação da sessão. A gravação, contudo, era de má qualidade e as perguntas e respostas estavam afogadas pelo barulho externo. Mas a fita serviu a meus propósitos, pois, como estava meditando quando ela estava sendo rodada, o que transpirou na sessão repentinamente voltou à minha memória. Nenhum espanto quanto aos visitantes parecerem assustados e fora de si mesmos! Eu estava conversando com Maharaj e falando para ele em termos de plena igualdade, a qual nunca poderia ter acontecido se eu estivesse realmente consciente do que estava dizendo. Não eram as palavras, mas o tom de firme convicção que deve ter assustado os visitantes, como, de fato, eu mesmo também estava ao ouvir a fita. Só pude conseguir alguma satisfação e consolo do fato de que, no fim do diálogo, Maharaj parecia perfeitamente feliz e contente, poderia dizer-se mesmo satisfeito.
O diálogo entre Maharaj e mim aconteceu como se segue:
Maharaj: Poderia repetir o que você acaba de dizer?
Resposta: Eu disse, “Eu sou a consciência na qual o mundo aparece. Toda e qualquer coisa que constitui o mundo manifestado não pode, portanto, ser algo distinto do que Eu sou, absolutamente.”
Maharaj: Como é possível que você seja ‘tudo’?
Resposta: Como poderia não ser tudo? Tudo o que a sombra é nunca poderá ser algo além do que a substância é. Seja o que for refletido como uma imagem – como poderia ser algo maior ou menor do que aquilo que está refletido?
Maharaj: Qual sua própria identidade então?
Resposta: Não posso ser nenhuma ‘coisa’; só posso ser tudo.
Maharaj: Como você existiria no mundo então? Em que forma?
Resposta: Maharaj, como poderia possivelmente existir com uma forma, como um ‘Eu’? Mas sempre estou presente absolutamente; e, relativamente, como consciência na qual toda a manifestação está refletida. A existência pode apenas ser objetiva, relativa; não posso, portanto, ter uma existência pessoal. A ‘existência’ inclui a ‘não-existência’, aparecimento e desaparecimento – duração. Mas ‘Eu’ estou sempre presente. Minha presença absoluta como atemporalidade é minha relativa ausência no mundo finito. Não, Maharaj, não há egoísmo nisto (talvez Maharaj tivesse levantado as sobrancelhas). Efetivamente, é apenas quando o ego desmorona que isto poderá ser apercebido. E qualquer pessoa pode dizer isto – apenas não há nenhum ‘alguém’ que possa dizê-lo. Tudo o que existe é apercepção.
Maharaj: Muito bem, prossigamos.
A conversa, então, prosseguiu e eu continuei a traduzir as perguntas dos visitantes e as respostas de Maharaj até que a sessão terminasse. Mais tarde, refleti sobre o tema da escravidão e da liberação como expostos por Maharaj, e tentei esclarecer suas implicações para mim em minha vida diária. Recapitulei a mim mesmo o que tinha absorvido, algo como ‘ruminação’, expressão que Maharaj usava com não pouca freqüência.
Quando a Consciência Impessoal se personaliza pela identificação com um objeto sensível que se concebe como um ‘eu’, o efeito está em transformar o “Eu”, o sujeito em essência, em um objeto. É esta objetivação da subjetividade pura (limitando o potencial ilimitado), esta falsa identidade, que pode se designada como ‘escravidão’. É desta ‘entificação’ da qual se busca a libertação. A liberação, portanto, não pode ser senão a apercepção, ou entendimento imediato, do falso como falso, a visão de que a auto-identificação é falsa. A liberação consiste em ver que é só a consciência a que busca a fonte não-manifesta do manifesto – e não a encontra, pois o buscador é, ele mesmo, o buscado!
Tendo entendido isto profundamente, quais são as implicações para ‘mim’, considerando a vida cotidiana? Meu entendimento básico agora é que nunca poderia existir qualquer entidade individual, como tal, com escolha de ação independente. Portanto, como poderia ‘Eu’, no futuro, cogitar sobre qualquer intenção? E, se cessasse de ter intenções, como poderia haver algum conflito psicológico? Na ausência de intenção não haveria nenhuma base psicológica para qualquer envolvimento com o Karma. Haveria, então, um perfeito alinhamento com tudo que pudesse acontecer, uma aceitação dos eventos sem qualquer sentimento de realização ou de frustração.
Tal forma de vida seria, então, não caracterizada pela vontade (uma ausência de vontade positiva ou negativa, uma ausência de ação e inação deliberadas), um passar pelo ‘meu’ tempo de vida designado, nada desejando e nada evitando, de tal modo que esta ‘vida’ (esta duração da consciência que surgiu como um eclipse sobre meu estado original verdadeiro) desapareceria em seu devido tempo, deixando-me em minha presença absoluta.
O que mais poderia (o conceitual) ‘alguém’ querer?




sexta-feira, 25 de setembro de 2009

O que não tem princípio é para sempre







Pergunta: No outro dia perguntei a você sobre os dois caminhos de crescimento: a renúncia e o desfrute (yoga e bhoga). A diferença não é tão grande quanto parece, o iogue renuncia ao prazer; o bhogi aprecia a renúncia. O iogue renuncia em primeiro lugar; o bhogi primeiro desfruta.

Maharaj: E daí? Deixe o iogue com sua Ioga e o bhogi com sua Bhoga.

P: O caminho da Bhoga me parece o melhor. O iogue é como uma manga verde, separada prematuramente da árvore e posta para amadurecer em uma cesta de palha. Sem ar e superaquecida, amadurece, mas o sabor e a fragrância verdadeiros se perderam. A manga deixada na árvore cresce até o tamanho normal, tem cor e doçura, um prazer em todas as formas. No entanto, a Ioga obtém todos os louvores e a Bhoga – todas as maldições. Tal como eu vejo, a Bhoga é a melhor das duas.

M: O que o faz dizer isto?

P: Tenho observado os iogues e seus enormes esforços. Mesmo quando se realizam, nota-se certa amargura ou austeridade. Parece que passam muito tempo em transes e, quando falam, meramente citam suas escrituras. No melhor dos casos, tais gnanis são como flores – perfeitas, mas pequenas, espalhando suas fragrâncias em um curto raio. Há outros que são como florestas – ricos, variados, imensos, cheios de surpresas, um mundo em si mesmos. Deve existir alguma razão para esta diferença.

M: Você mesmo o disse. Segundo você, um atrofiou-se em sua Ioga, enquanto o outro floresceu em sua Bhoga.

P: Não é assim? O iogue teme a vida e busca a paz, enquanto o bhogi é aventureiro, cheio de vigor, indo adiante. O iogue está limitado por um ideal, enquanto o bhogi sempre está disposto a explorar.

M: É uma questão de querer muito ou ficar satisfeito com pouco. O iogue é ambicioso, enquanto o bhogi meramente é aventureiro. O bhogi parece ser mais rico e interessante, mas, na realidade, não é assim. O iogue é estreito como o fio de uma lâmina. Tem que ser – para cortar profunda e suavemente, para penetrar sem erro as múltiplas coberturas do falso. O bhogi adora em muitos altares; o iogue não serve a ninguém, exceto a seu próprio Ser verdadeiro.
Não tem sentido opor o iogue ao bhogi. O caminho de saída (pravritti) precede necessariamente ao caminho de regresso (nivritti). Julgar – e repartir qualificações – é ridículo. Tudo contribui para a perfeição final. Alguns dizem que há três aspectos da realidade – Verdade-Sabedoria-Felicidade. Aquele que busca a Verdade torna-se um iogue, aquele que busca a sabedoria se converte em gnani; aquele que busca a felicidade se converte em homem de ação.

P: Falaram-nos da felicidade da não-dualidade.

M: Tal felicidade é mais da natureza de uma grande paz. O prazer e a dor são os frutos das ações – corretas ou incorretas.

P: O que faz a diferença?

M: A diferença está entre o dar e o tomar. Qualquer que seja o modo de aproximação, no fim todos se tornarão um.

P: Se não há diferença na meta, por que discriminar entre várias aproximações?

M: Deixe que cada um atue de acordo com sua natureza. Em qualquer caso, o propósito derradeiro não deixará de ser cumprido. Todas as suas discriminações e classificações estão bastante bem, mas não existem em meu caso. Assim como a descrição de um sonho pode ser detalhada e acurada embora sem qualquer fundamento, igualmente o seu modelo não se ajusta exceto a suas próprias presunções. Você começa com uma ideia e termina com a mesma ideia vestida diferentemente.

P: Como você vê as coisas?

M: O um e o todo são o mesmo para mim. A mesma consciência (chit) aparece como o ser (sat) e como felicidade (ananda); Chit em movimento é Ananda; Chit imóvel é ser.

P: Não obstante, ainda está fazendo uma distinção entre movimento e imobilidade.

M: A não-distinção fala em silêncio. As palavras transmitem distinções. O imanifesto (nirguna) não tem nome, todos os nomes se referem ao manifesto (saguna). É inútil lutar com palavras para expressar o que está além delas. A consciência (chidananda) é espírito (purusha), a consciência é matéria (prakriti). O espírito imperfeito é a matéria, a matéria perfeita é o espírito. No princípio, como no fim, tudo é um.
Todas as divisões estão na mente (chitta); não há nenhuma na realidade (chit). O movimento e o repouso são estados da mente e não podem existir sem seus opostos. Por si mesmo nada se move, nada repousa. É um grave erro atribuir existência absoluta a construções mentais. Nada existe por si mesmo.

P: Parece que você identifica o repouso com o Estado Supremo.

M: Existe o repouso como estado mental (chidaram) e existe o repouso como um estado de ser (atmaram). O primeiro vem e vai, enquanto o verdadeiro repouso é o próprio coração da ação. Por desgraça, a linguagem é uma ferramenta mental e funciona só com opostos.

P: Como testemunha, você está trabalhando ou em repouso?

M: Testemunhar é uma experiência, e o repouso é a liberação da experiência.

P: Não podem coexistir como o tumulto das ondas e a quietude das profundezas coexistem no oceano?

M: Além da mente (chit) não existe tal coisa como a experiência. A experiência é um estado dual. Você não pode falar da realidade como de uma experiência. Uma vez que isto seja entendido, você não mais verá o ser e o devir como separados e opostos. Na realidade são um e inseparáveis, como raízes e ramos da mesma árvore. Ambos só podem existir à luz da consciência que, de novo, surge no despertar do sentido de ‘Eu sou’. Este é o fato primário. Se você não percebe o sentido exato disto, você perdeu tudo.

P: A sensação de ser é apenas um produto da experiência? O grande dito (Mahavakya) tat-sat é um mero modo de atividade mental?

M: Qualquer coisa que diga é apenas fala. Qualquer coisa que pense é apenas pensamento. O significado real é inexplicável, embora experimentável. O Mahavakya é verdadeiro, mas suas ideias são falsas, pois todas as ideias (kalpana) são falsas.

P: A convicção ‘Eu sou Aquilo’ é falsa?

M: Certamente. A convicção é um estado mental. No ‘Aquilo’ não existe nenhum ‘Eu sou’. Quando surge o sentido de ‘Eu sou’, ‘Aquilo’ é obscurecido, da mesma forma que ao sair o sol as estrelas se apagam. Mas como com o sol vem a luz, assim, com a sensação de ser, vem a felicidade (chidananda). A causa da felicidade é buscada no ‘não-eu’ e, desse modo, começa a escravidão.

P: Em sua vida diária é sempre consciente de seu estado real?

M: Nem consciente, nem inconsciente. Eu não necessito de convicções. Eu vivo da coragem. A coragem é minha essência, a qual é amor à vida. Estou livre de recordações e antecipações, sem preocupar-me com o que sou e com o que não sou. Não sou viciado em autodescrições; soham e brahmasmi (‘Eu sou Ele’, ‘Eu sou o Supremo’) não me servem para nada, porque tenho a coragem de ser como nada e de ver o mundo como é, isto é, nada. Soa simples, mas tente-o!

P: Mas, o que lhe dá coragem?

M: Quão distorcido é seu modo de ver! A coragem é algo que se dá? Sua pergunta implica que a ansiedade é o estado normal e que a coragem é anormal. É ao contrário. A ansiedade e a esperança nascem da imaginação – eu estou liberado de ambas. Sou um ser simples e não necessito nada em que me apoiar.

P: A menos que conheça a si mesmo, de que lhe serve seu ser? Para ser feliz com o que você é, você deve conhecer o que é.

M: O ser brilha com o conhecer, e o conhecer é cálido em seu amor. Tudo é um. Você imagina divisões e cria problemas para si mesmo com perguntas. Não se interesse demasiadamente em formulações. O ser puro não pode ser descrito.

P: A menos que uma coisa seja conhecida e apreciada, não me servirá para nada. Antes de tudo, deverá converter-se em parte de minha experiência.

M: Você está reduzindo a realidade ao nível da experiência. Como pode a realidade depender da experiência, quando é seu próprio fundamento (adhar)? A realidade está no próprio fato da experiência, não em sua natureza. Depois de tudo, a experiência é um estado mental, enquanto o ser não é de nenhum modo um estado mental.

P: Outra vez estou confuso! O ser (sat) está separado do conhecer (chit)?

M: A separação é uma aparência. Como o sonho não está separado do sonhador, assim o conhecer não está separado do ser. O sonho é o sonhador, o conhecimento é o conhecedor, a distinção é meramente verbal.

P: Agora posso ver que sat e chit são um. Mas o que acontece com ananda? O ser e a consciência sempre estão juntos, mas a felicidade apenas brilha ocasionalmente.

M: O estado despreocupado do ser é felicidade; o estado perturbado é o que aparece como o mundo. Na não-dualidade há felicidade; na dualidade – experiência. O que vem e vai é a experiência com sua dualidade de prazer e dor. A felicidade não é para ser conhecida. Sempre se é felicidade, mas nunca se é feliz. A felicidade não é um atributo.

P: Tenho outra pergunta a fazer. Alguns iogues alcançam sua meta, mas ela não serve para os outros. Não sabem ou não podem compartilhar com os demais. Aqueles que podem compartilhar o que têm iniciam outros. Onde está a diferença?

M: Não há diferença. O seu ponto de vista é incorreto. Não há outros a quem ajudar. Um homem rico, quando transferiu toda sua fortuna para sua família, não tem nem uma moeda para dar a um mendigo; do mesmo modo é o sábio (gnani), despido de todos seus poderes e posses. Nada, literalmente nada, pode ser dito dele. Não pode ajudar a ninguém porque ele é todos. Ele é o pobre e também sua pobreza, o ladrão e também seu roubo. Como se pode dizer que ajuda quando ele não está separado? Aquele que se crê separado do mundo que o ajude.

P: Ainda assim há dualidade, aflição, há necessidade de ajuda. Denunciá-lo como um mero sonho não serve para nada.

M: A única coisa que pode ajudar é despertar do sonho.

P: Um despertador é necessário.

M: O qual, novamente, está no sonho. O despertador significa o começo do fim. Não existem sonhos eternos.

P: Mesmo quando não têm princípio?

M: Tudo começa com você. Que outra coisa não tem princípio?

P: Eu começo ao nascer.

M: Isso é o que lhe disseram. É assim? Viu-se a si mesmo começando?

P: Eu começo agora mesmo. Tudo o mais é memória.

M: Correto. O que não tem princípio é para sempre. Do mesmo modo, eu dou eternamente porque nada tenho. Ser nada, ter nada, não guardar nada para si mesmo é o maior presente, a mais elevada generosidade.

P: Não resta nenhum interesse próprio?

M: Certamente que há interesse próprio, mas o ser é tudo. Na prática, toma a forma de boa vontade, universal e inesgotável. Pode chamá-lo amor que abarca tudo, que redime tudo. Tal amor é supremamente ativo – sem a sensação de fazer.




quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Númeno e fenômeno







Era uma destas manhãs, talvez uma segunda-feira, quando havia apenas poucos de nós, os “viciados” regulares. Maharaj sentou-se com seus olhos fechados, imóvel como uma estátua. Depois de algum tempo, repentinamente, começou a falar suavemente, tão suavemente que, de forma inconsciente, aproximamo-nos dele. Ele continuou sentado e com os olhos fechados, e prosseguiu falando, ou melhor, pensando alto: As pessoas pensam que eu sou um Jnani. Vêm a mim de todas as partes do mundo – do Canadá à Austrália e Nova Zelândia, da Inglaterra ao Japão. A maioria leu Eu Sou Aquilo e viaja até Bombaim para encontrar-se comigo. Com grande dificuldade, localizam minha pequena e velha casa em uma rua estreita e suja. Sobem as escadas e encontram um pequeno homem moreno vestindo a mais simples das roupas, sentado em um canto. Eles pensam: Este homem não parece um Jnani; não se veste de modo a chamar a atenção como poderia ser esperado de alguém tão conhecido quanto Nisargadatta Maharaj. Será realmente um Jnani?
O que posso dizer a estas pessoas? Eu lhes falo francamente que minha educação é de um nível que apenas pode colocar-me na categoria de alfabetizado; não li nenhuma das grandes escrituras tradicionais e a única língua que conheço é meu Marathi nativo. E a única investigação em que insisto, mas insisto nela incansavelmente – como um caçador perseguindo sua caça –, é esta: ‘eu sei que eu sou e tenho um corpo. Como isto poderia acontecer sem meu conhecimento e aquiescência? E o que é este conhecimento eu sou?’ Esta tem sido minha busca de toda a vida e estou plenamente satisfeito com as respostas que obtive. Este é meu único Jnana, mas as pessoas acreditam que sou um Jnani. Meu Guru me falou: “Você é Brahman, você é tudo e todas as coisas. Não há nada exceto você”. Eu aceitei as palavras de meu Guru como verdade, e agora, por quarenta estranhos anos, tenho estado sentado nesta sala, nada fazendo senão falar sobre isto. Por que as pessoas vêm a mim de terras distantes? Que milagre!
Depois de insistir em minha busca de conclusões lógicas, a que cheguei? Toda coisa é realmente simples se o quadro for claramente visto. Que é este ‘eu’ em que estou interessado? A resposta imediata, certamente, é – ‘este eu, este corpo’. Mas em seguida se vê que o corpo é apenas um aparato psicossomático. Qual o mais importante elemento neste aparato que o qualifica para ser conhecido como um ser sensível? É, indubitavelmente, a consciência sem a qual este aparato, embora talvez tecnicamente vivo, será inútil até que seu funcionamento esteja a ela relacionado. Esta consciência necessita, obviamente, de uma estrutura física na qual manifestar-se. Assim, a consciência depende do corpo. Mas de que é feito o corpo? Como veio à existência? O corpo é apenas algo que cresce no útero da mulher durante um período de aproximadamente nove meses, o crescimento do que foi concebido pela união dos fluidos sexuais masculinos e femininos. Estes fluidos são a essência do alimento consumido pelos pais. Basicamente, portanto, a consciência e o corpo são feitos e sustentados pelo alimento. De fato, o próprio corpo é alimento – um corpo pode ser alimento para outro corpo. Quando a essência do alimento, os fluidos sexuais vitais, começa a crescer desde a concepção até um minúsculo corpo e surge do útero da mãe, isto é chamado ‘nascimento’. E, quando esta essência do alimento decai devido à idade ou à doença e o aparato psicossomático é destruído, a isto chamamos ‘morte’. Isto é o que acontece o tempo todo – o universo objetivo projetando e dissolvendo inumeráveis formas; o quadro continua mudando todo o tempo. Mas como estou relacionado com isto? Sou meramente a testemunha de tudo o que está acontecendo. O que quer que aconteça durante o período do fato, em cada caso, afeta apenas o aparato psicossomático, não o ‘Eu’ que sou.
Esta é a extensão do meu ‘conhecimento’, basicamente. Uma vez que esteja claro que tudo o que acontece no mundo manifestado é algo separado de mim, como o ‘Eu’, todos os demais problemas se resolvem.
Exatamente em que momento eu tive o conhecimento de minha ‘existência’? O que eu era antes que este conhecimento ‘eu sou’ surgisse em mim? Este conhecimento sempre esteve comigo desde que eu posso me lembrar, talvez depois de alguns meses após o nascimento do corpo. Portanto, a própria memória deve ter vindo com este conhecimento ‘eu sou’, esta consciência. Qual era o estado antes disto? A resposta é: eu não sei. Então, tudo o que sei de qualquer coisa teve seu início na consciência, incluindo a dor e o prazer, dia e noite, acordar e dormir – de fato, a gama inteira de dualidades e opostos na qual um não pode existir sem o outro. Novamente, qual era o estado de antes da consciência ter surgido? Estes opostos inter-relacionados inevitavelmente devem ter existido, mas apenas na negação, na unicidade, na totalidade. Esta deve, então, ser a resposta. Esta unicidade é o que Eu sou. Mas esta unicidade, esta identidade, esta totalidade não pode conhecer a si mesma porque nela não existe nenhum sujeito separado de um objeto – uma condição que existirá necessariamente para o processo da visão, do conhecimento ou do entendimento. Em outras palavras, no estado original de unicidade, ou totalidade, não existe nenhum meio ou instrumento através do qual possa ter lugar o ‘conhecimento’.
A mente não pode ser usada para transcender a si mesma. O olho não pode ver a si mesmo; o gosto não pode provar a si mesmo; o som não pode ouvir a si mesmo. O ‘fenômeno’ não pode ser ‘fenômeno’ sem o ‘númeno’. O limite da concepção possível – a abstração da mente – é o númeno, a infinidade do desconhecido. O númeno, o sujeito único, objetifica a si mesmo e percebe o universo, manifestando-se fenomenalmente dentro de si mesmo, mas aparentemente do lado de fora, para ser um objeto perceptível. Para que o númeno se manifeste objetivamente como um universo fenomênico, o conceito de espaço-tempo entra em operação porque os objetos, para serem reconhecíveis, deverão estar estendidos no espaço para adquirirem volume, e deverão estar esticados em duração ou tempo, pois de outra forma não poderiam ser percebidos.
Deste modo, agora tenho todo o quadro: O ser sensível é apenas uma pequena parte dentro do processo da aparente reflexão do númeno dentro do universo fenomênico. Ele é apenas um objeto na objetivação total e, como tal, ‘nós’ não podemos ter nenhuma natureza própria. E, ainda assim – e isto é importante – os fenômenos não são coisas criadas separadamente ou mesmo projetadas, mas são de fato o númeno concebido, ou objetivado. Em outras palavras, a diferença é puramente imaginária. Sem o conceito, são sempre inseparáveis, e não há nenhuma dualidade entre númeno e fenômeno.
Esta identidade – esta inseparabilidade – é a chave para o entendimento, ou melhor, o apercebimento de nossa natureza verdadeira porque, se esta unidade básica entre o númeno e o fenômeno for perdida de vista, iríamos ficar atolados em um pântano de objetivação e de conceitos. Uma vez que se entenda que o númeno é tudo que nós somos e que o fenômeno é o que parecemos ser como objetos separados, será também entendido que nenhuma entidade poderia ser envolvida no que nós somos e, portanto, o conceito de uma entidade que necessita de ‘liberação’ não teria sentido; e a ‘liberação’, se houver alguma, será vista como a liberação do próprio conceito de escravidão e liberação.
Quando eu penso sobre o que Eu era antes de ‘nascer’, sei que este conceito de ‘eu sou’ não estava lá. Na ausência da consciência, não há concepção; e tudo o que acontece na visão não é o que alguém – uma entidade – vê como um sujeito/objeto, mas visto de dentro, da fonte de toda visão. E, então, através deste ‘despertar’, compreendo que a todo-envolvente totalidade do Absoluto não pode ter mesmo um toque de imperfeição relativa; e assim devo, relativamente, viver o tempo de vida designado até o seu fim, até que este ‘conhecimento’ relativo se funda no estado de “não-conhecimento” do Absoluto. Esta condição temporária de ‘eu sei’ e ‘eu sei que sei’ funde-se então neste estado eterno de ‘Eu não sei’ e ‘Eu não sei’ que ‘Eu não sei’.



terça-feira, 22 de setembro de 2009

NOVO MÉXICO - AGOSTO DE 1980






O que posso fazer para ser mais receptivo à realidade suprema?


Não há nenhum sistema, método ou técnica pela qual aproximar-se da realidade. Ela se revela por si mesma quando todas as técnicas e sistemas falham e a futilidade da volição é percebida. Então a mente se envolve em um estado de entrega inocente. A técnica apenas faz a mente mais astuta e engenhosa. Você ainda permanece em sua rede e, embora possa ter a impressão de transformação, está de fato desempenhando os velhos jogos. É um círculo vicioso.
Liberdade, humildade e amor aparecem instantaneamente, nunca como um empreendimento. A mente, o processo de pensamento, acontece em termos de tempo e espaço. Mas a Consciência silenciosa não é condicionada ou qualificada nem por um nem pelo outro. Por esta razão a mente limitada não pode alcançar o absoluto pela expansão de si mesma. Todos os esforços apenas resultam na perpetuação do ego.
Se você presta atenção enquanto falamos, então, neste próprio estado de atenção, sua mente passa por uma transformação. O importante é o ato de escutar, de observar sua reação a estas palavras. A escuta real involve seu ser total, e nele as fronteiras do ego se dissolvem. A mente então se envolve em um estado de grande atenção.
A respeito de sua pergunta, qualquer método ou técnica implica especialização ou localização. Mas tal focalização parcial nunca pode levá-lo à totalidade. Quanto mais você se especializa, mais estreita seu campo de visão, mas a causa básica do conflito na psique não é removida. A tranquilidade obtida através das técnicas está apenas na superfície, enquanto a origem profunda do conflito continua.


Como posso livrar minha mente do condicionamento?


A mente é função, energia em movimento. É um depósito, em diferentes níveis de consciência, das experiências individuais e coletivas passadas. Sem a memória, não há mente, pois os pensamentos são sons, palavras e símbolos que nela aparecem. A memória é em si mesma condicionada, estando baseada na estrutura do prazer e da dor: todo prazer está armazenado e tudo o que é doloroso é relegado às camadas do inconsciente.
A função básica do organismo humano é sobreviver. A sobrevivência biológica é um instinto natural, mas a sobrevivência psicológica é a fonte do conflito, pois é simplesmente sobrevivência da psique com o seu centro, o “eu”. O que chamamos geralmente de aprendizagem é apropriação condicionada pela sobrevivência psicológica. A mente condicionada não pode mudar por seu próprio esforço ou sistema.


Então, como acontece esta transformação, esta integração?


A mente deve chegar a um estado de silêncio, vazia completamente de medo, desejo e de todas as imagens. Isto não pode ser produzido pela supressão, mas pela observação de todo sentimento e pensamento sem qualificação, condenação, julgamento, ou comparação. Se a atenção desmotivada está para funcionar, o censor deve desaparecer. Deve existir apenas uma observação serena sobre o que a mente elabora. Ao descobrir os fatos como eles são, a agitação é eliminada, e o movimento dos pensamentos se torna lento; podemos observar cada pensamento, sua causa e conteúdo, à medida que surge. Nós nos tornamos conscientes de todo pensamento em sua integridade e, nesta totalidade, não pode existir conflito. Então apenas a atenção permanece, apenas o silêncio no qual não há nem observador nem observado. Portanto, não force sua mente. Apenas observe seus vários movimentos como você olharia o vôo dos pássaros. Neste olhar desanuviado, todas as suas experiências emergem e se aclaram. Pois a visão desmotivada não apenas gera tremenda energia, mas libera toda tensão, todas as várias camadas de inibições. Você vê a totalidade de si mesmo.
Observar tudo com plena atenção torna-se um modo de vida, um retorno a seu ser meditativo original e natural.


Como posso agir para não criar uma reação adicional, o carma?


Sempre que o amor e a bondade estão em seu coração, você terá a inteligência para saber o que fazer e quando – e como – agir. Quando a mente vê suas limitações, as limitações do intelecto, surgirão uma humildade e uma inocência que não são questão de cultura, acumulação ou aprendizado, mas resultado do entendimento instantâneo. No momento em que você vê seu desamparo, que nada funciona, chega ao ponto da rendição, a uma parada, onde você está em comunhão com o silêncio, a verdade derradeira. É esta realidade que transforma sua mente, não o esforço ou a decisão.


Creio conhecer algo de mim mesmo, tenho uma certa Consciência de minha força e debilidade psicológica, mas também sinto uma falta de satisfação perfeita; de outra forma, não estaria aqui. Há algo que possa fazer agora?


Se você observar, verá que é violento com sua percepção. Você interfere constantemente ao tentar controlá-la e dirigí-la. O controlador faz parte do que é controlado; ambos são objetos e um objeto não pode conhecer outro. Portanto, você deve progressivamente permitir que a percepção se expanda, dando-lhe a liberdade completa. Se você permitir que a percepção se expanda, cedo ou tarde ela o trará de volta para você mesmo. Deixe-a ir para que se revele a si mesma e o dinamismo para produzir desaparecerá.


Como aprender a partir do conflito?


Veja que você está condicionado na aceitação e na rejeição, pois não há nada para aceitar ou rejeitar. Na escuta total, a atenção sem memória, não há conflito. Há apenas visão. Na escuta silenciosa, o que é dito, o que é ouvido e o que surge como resposta e reação, está dentro de seu próprio Eu. Esta percepção da totalidade é a atenção real e não há nela nem problemas nem condicionamentos. Há simplesmente liberdade.


O que você quer dizer quando você diz que não há ator no fazer, falar ou escutar?


Na ação que surge da plenitude não há um ator no ato, há apenas ação. Você está funcionando e o “eu” está ausente. No momento em que o pensamento do “eu” aparece, você se torna autoconsciente e é dominado pelo conflito. Na ausência deste pensamento, não há nem quem fale nem quem escute, não nenhum sujeito controlando um objeto. Somente então há harmonia completa e adequação a cada circunstância.


Qual é o lugar do intelecto na escuta incondicionada?


O intelecto é uma defesa contra algo que você aceita ou rejeita. Uma vez que você tenha, pela totalidade, visto a verdade de alguma coisa, não há mais como escapar. Você vive com ela. Com este entendimento completo, a mente não pode evitar a mudança e a transformação que ocorrem. Quando o intelecto está ausente, há atenção total; escutar e falar podem espontaneamente acontecer, mas brotam da realidade. Não há mais produção por parte da mente. Em atenção silenciosa, a mente está completamente vazia e o que é ouvido penetra profundamente. No estado de rejeição ou aceitação há apenas um jogo com as palavras, com a memória, com o intelecto. Mas, no estado de escuta silenciosa, não há lugar para certo ou errado, compensação ou conclusão. Eles se tornaram, através da compreensão intuitiva, conhecidos ou não.
Seja consciente dos processos de seu corpo e de sua mente e você começará a compreender a si mesmo. Não há diferença entre esta compreensão e a compreensão da totalidade do universo. Sua percepção se abre completamente para a realidade em sua plenitude.


Pode-se pensar uma experiência real?


Uma experiência é um acontecimento. Não pode ser pensada. O pensamento não é a experiência direta, mas a busca e a tentativa de repetir a sensação. Na experiência real, o experimentador está completamente absorvido no experimentado – eles são um, não restando nem memória nem identificação. É uma não-experiência, pois não há ninguém experimentando qualquer coisa.
No campo da tecnologia, a acumulação de experiência é necessária e não leva ao conflito. Mas, no plano psicológico, o qual é orientado em função de agrado e desagrado, a acumulação da experiência fortalece o ego e nega a possibilidade da experiência real: a não-experiência.
O ponto mais elevado e amadurecido de uma experiência é a liberdade da unidade sem sujeito e objeto. Esta não é a unidade da experiência mística, que é ainda um estado em que se entra e sai. A experiência real não é uma busca de prazer em qualquer nível porque a satisfação é a sensação que não foi plenamente reabsorvida. É o remanescente de uma experiência incompleta, uma repetição das projeções da memória. A mente, então, fica entediada e busca experiências novas.
Na não-experiência real, nenhum resíduo é deixado. Ela nos traz de volta a todo momento para nossa natureza atemporal.


Como posso libertar-me do tédio que sinto freqüentemente?


Se vivemos superficialmente e observamos isto, nós nos tornamos conscientes de uma profunda falta ou desconforto que pode aparecer como tédio. Vemo-nos indo de uma compensação à outra. Encare estes momentos de aborrecimento. Realmente, perceba-os sem justificação ou conceituação. Você deve libertar a percepção, deixando-a desdobrar-se em sua consciência. Então, uma transformação acontece em todos os níveis. Toda a energia que estava dispersa e localizada em hábitos fixos se libera e recombina. Cada circunstância requer uma reorganização de energia que é perfeitamente adequada a uma situação.
Na reorganização completa que acontece, a energia que estava anteriormente dissipada no tempo psicológico “retorna” e desaparece em nossa presença atemporal.


Você diz que, quando vivemos na liberdade da relação sujeito-objeto, vivemos no atemporal. Mas nossos corpos vêm e vão, o sol se levanta e se põe; não estamos, no final das contas, ligados ao tempo?




O que você chama “tempo” está claro para você? É verdadeiro que o homem sempre está criando tempo. O tempo psicológico é pensamento baseado na memória. É essencialmente o passado, e nós revivemos continuamente o passado através dele. De fato, o que chamamos futuro é apenas um passado modificado. O tempo psicológico nunca está no agora, mas, como um pêndulo, está em constante movimento do passado para o futuro, do futuro para o presente, em rápida sucessão. Existe apenas no plano horizontal do ter-devenir, do prazer-desprazer, da avidez-contenção, da segurança-insegurança. É a origem da miséria e do conflito. A compreensão psicológica do tempo e do espaço é o caminho para a meditação e para o viver correto.
O tempo cronológico, astronômico, está baseado igualmente na memória, mas é uma memória puramente funcional, livre da intervenção do ego, da vontade. É essencialmente presente. Os eventos prosseguem em sucessão ordenada e, desde que não há movimento entre o que chamamos passado e futuro, não há conflito.
A vida é o presente, mas quando nós pensamos, pensamos em termos de passado ou futuro. Viver no agora implica uma mente livre de balanços e recapitulações, livre de ambição e esforço. No presente, não há nenhum pensamento; os pensamentos estão fundidos na totalidade. Viver o momento contém todos os acontecimentos possíveis, de modo que não há lugar para o tempo. Tudo pode ser resumido nisto: o tempo é pensamento e o pensamento aparece no tempo. A beleza e a alegria são reveladas apenas no tempo.

Você diz com freqüência que a ação correta não é uma questão de moralidade, mas surge naturalmente da espontaneidade. Como eu posso chegar a essa espontaneidade?




A espontaneidade vem com a escuta e resulta na compreensão. Na audição incondicionada, a qual é silêncio, livre de toda agitação e conceito, a situação é vista em sua inteireza e é desta visão total que surge a ação instantânea apropriada.
É óbvio que uma ação que procede do pensamento consciente não pode ser espontânea. É igualmente verdadeiro, mas menos óbvio, que as ações que decorrem do hábito, da inclinação ou do instinto não podem ser também espontâneas; porque o hábito e o instinto são condicionados, automáticos e mecânicos, e as ações que surgem da inclinação são motivadas pela justificação, racionalização e conflito. Todas estas são regidas pelo pensamento inconsciente. De fato, apenas podemos chamar de ação aquilo que surge da espontaneidade. Tudo o mais não está livre da interferência e é, portanto, reação.
Para revelar a espontaneidade, o pensamento consciente e o inconsciente devem terminar. Todas as projeções do intelecto devem cessar para que a espontaneidade criativa possa operar. O esforço intelectual e o cultivo da força de vontade são inúteis na integração da espontaneidade. A mente deve tornar-se humilde e sensitiva, livre de violência, orgulho e ambição. Então, a inteligência real pode funcionar.
Quando o intelecto se torna silencioso através da observação, através da audição, a natureza básica da mente sofre uma transformação. Esta transformação atinge ao máximo os impulsos e movimentos de nossa vida animal. O intelecto se converte em pensamento claro à luz da inteligência que a tudo integra e nasce um ser humano em toda sua beleza.
A vida é vivência espontânea intocada pelo tempo.

O que pode dizer sobre a moralidade social e convencional?


Quando permite que o Supremo se encarregue de você, a espontaneidade é virtuosa e vai além da moralidade social e convencional.


Pode-se ser ativo em silêncio?


O silêncio é nosso estado natural. É o fundamento de tudo. Nenhuma concentração é necessária para estar nele. Enquanto estivermos envolvidos na percepção, nós viveremos no tempo, isto é, apenas no plano horizontal. Mas o silêncio é atemporal. Está no centro onde se encontram tempo e eternidade, onde o horizontal e o vertical se juntam. Este ponto é o coração.
Habitualmente, em nosso envolvimento com objetos, nós não percebemos realmente as coisas como elas são, mas as vemos apenas como projeções do ego. A menos que permitamos o florescimento de nossas percepções no silêncio sem ego, não poderemos conhecer verdadeiramente a realidade. Você vê esta flor? Permita que ela chegue a você em sua plenitude sem impor sua mente sobre ela. A observação verdadeira é multidimensional. Você vê, ouve, saboreia, cheira, sente, com todo seu ser, globalmente. A visão verdadeira é receptividade vigilante, passividade ativa. Nesta observação, um objeto pode aparecer, mas não se é dirigido para ele.


O que pensar sobre a morte, e como podemos enfrentar esta experiência?


O pensamento aparece no silêncio e desaparece no silêncio. Algo que aparece e desaparece em algo, não é senão este algo.
Igualmente, o que você acredita ser também aparece e desaparece no silêncio. O que você entende por morte não é nada senão um indicador que aponta para o silêncio, para a própria vida. A morte não tem realidade. Mas se não vê desse modo, permanece como uma idéia estagnada na qual você está aprisionado. Enquanto você se tormar por uma entidade independente, está submetido ao karma. Coloquemos de outra forma: antes de falar da morte, pergunte-se o que é a vida. Toda percepção existe apenas porque é existência presente e eterna. Este é o plano de fundo da vigília, do sonho e do sono profundo. No conhecimento vivo, no presente, o problema da morte não tem significado.


(De: "A Naturaleza de Ser" Dialogos com Jean Klein)




segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O orgulho do êxito pessoal





“Trabalhei duramente e agora me considero um homem bem-sucedido. Eu seria um hipócrita se não admitisse que me sinto muito satisfeito e, sim, também, sinto um certo orgulho em meu êxito pessoal. Isso seria errado?”

Certa manhã, um visitante estrangeiro dirigiu-se a Sri Nisargadatta Maharaj com estas palavras. Era um homem de quarenta e poucos anos – presunçoso, autoconfiante e um pouco agressivo. A conversa prosseguiu então como se segue:


Maharaj: Antes de considerarmos o que é ‘certo’ e o que é ‘errado’, por favor, diga-me quem faz esta pergunta?


Visitante: (Um pouco surpreso) Como? ‘Eu’, certamente.


M: E quem é este?


V: Eu. Este ‘eu’, quem está sentado em frente de você.


M: E você pensa que você é este?


V: Você me vê. Eu me vejo. Onde está a dúvida?


M: Você quer dizer este objeto que está diante de mim? Qual é sua mais antiga lembrança deste objeto que pensa ser? Retroceda tanto quanto possa.


V: (Depois de um minuto ou dois) A recordação mais antiga seria talvez estar sendo cuidado e abraçado por minha mãe.


M: Como uma criança pequena, você quer dizer. Diria que o homem bem sucedido de hoje seria a mesma criança desamparada, ou seria um outro alguém?


V: Sem dúvida, é o mesmo.


M: Bem. Agora, se você pensar mais para trás, concordaria que aquela criança, a qual lembra, é a mesma que nasceu de sua mãe e que uma vez foi tão desamparada que não se dava conta sequer do que acontecia quando seu corpo realizava suas funções físicas naturais, e só podia chorar ao sentir dor ou fome.


V: Sim, eu era aquela criança.


M: E o que você era antes que a criança adquirisse um corpo e nascesse?


V: Eu não entendo.


M: Você entende. Pense. O que aconteceu no útero de sua mãe? O que se desenvolveu em um corpo com ossos, sangue, medula, músculos, etc., durante um período de nove meses? Não foi um espermatozóide que, combinado com o óvulo no ventre feminino, deu início a uma nova vida e, no processo, passou por numerosos perigos? Não foi aquela infinitesimalmente pequena célula de esperma que, agora, está tão orgulhosa de seus êxitos? Quem pediu por você em particular? Sua mãe? Seu pai? Queriam particularmente você como filho? Você tem algo a ver com o ser nascido desses pais em particular?


V: Estou receoso, nunca havia pensado nisto.


M: Exatamente. Reflita a este respeito. Então, talvez, você terá alguma idéia de sua verdadeira identidade. Depois disto, considere se você poderia acaso estar orgulhoso do que você ‘alcançou’.


V: Penso que começo a entender o que você quer dizer.


M: Se você se aprofundar no assunto, compreenderá que a origem de seu corpo – o espermatozóide e o óvulo – é em si mesma a essência do alimento consumido pelos seus pais; que a forma física está composta e se alimenta dos cinco elementos que constituem o alimento; e também que, com muita freqüência, o corpo de uma criatura torna-se o alimento de outra.


V: Mas, certamente, eu, como tal, devo ser alguma coisa distinta deste corpo-alimento.


M: Sem dúvida que você é, mas não alguma ‘coisa’. Descubra o que é aquilo que dá sensibilidade a um ser sensível, aquilo sem o qual você nem mesmo saberia que você existe, sem falar no mundo exterior. E, finalmente, vá mais fundo ainda e examine se esta qualidade de ser, esta própria consciência, não está sujeita ao tempo.


V: Deverei, certamente, penetrar nas várias questões que você levantou, embora deva confessar que nunca explorei estas áreas antes, e me sinto quase tonto em minha ignorância dos novos campos que você abriu diante de mim. Voltarei a vê-lo novamente, senhor.


M: Será sempre bem-vindo.





domingo, 20 de setembro de 2009

PRÓLOGO de "A Simplicidade de Ser"







O que o induziu a ir à Índia?


Uma necessidade interior, a urgencia de encontrar a paz, de encontrar o centro em que simplesmente se é o que se é, livre de qualquer estímulo. Tudo que havia lido da Índia tradicional, especialmente da Índia antiga, levou-me a sentir que a Índia atual poderia refletir a sabedoria ancestral, que poderia ser ainda uma sociedade centrada na verdade. Naturalmente, é perigoso acreditar que se pode adotar outra cultura, mas minha partida para a Índia não foi a busca de uma nova crença, religião ou cultura. Estava consciente que não encontraria o que buscava pelo fato simples de assumir um novo estilo de vida ou um ponto de vista diferente. Desde o princípio, senti-me convencido da existência de uma essência de ser que é independente de toda sociedade e senti a necessidade interior de explorar esta convicção.


Você não estava especialmente procurando um mestre?


Não. Não procurava nada específico, mas. ao chegar à Índia, em um ambiente completamente novo, fiquei sem referência alguma a respeito de minha experiência anterior. Nesta ausência de avaliação, fui catapultado para uma atitude de abertura, uma receptividade a todas as coisas. E surpreendi-me ao encontrar, logo em seguida, o homem que mais tarde seria meu mestre. Não se pode procurar um mestre. O mestre o encontra em sua consciência.


Esta necessidade interna, este desejo de liberdade, deve ser muito forte?


O desejo de liberdade deve ser tremendo. Ele não pode ser aprendido nem adquirido, mas se torna presente por meio da auto-indagação. Na auto-indagação aparece um pré-sentimento, uma insinuação da realidade, e é esse pressentimento a nutrir um ardor tão intenso que pode até privá-lo do sono.
Quando você interroga a si mesmo, primeiro pode acontecer uma carência. Pode desconhecer que tipo de carência é esta e você procederá então em direções diferentes com a esperança de preencher o vazio. E quando se realiza uma determinada direção, pode chegar um momento em que a carência e o desejo que ela carrega se desvanecerão. Por um instante, então, você estará em paz. Mas como você não é consciente desta falta de desejo, você se fixa no objeto, no que poderia chamar-se a causa de sua satisfação e, naturalmente, esta perde inevitavelmente seu encanto e de novo você se vê insatisfeito. Você passará por muitas destas situações sem saída, como um cão de caça que não consegue encontrar o rastro e dá voltas freneticamente. Contudo a experiência desses caminhos sem saída contribuirá para uma certa maturidade, porque inevitavelmente você se interrogará com maior profundidade sobre todos os acontecimentos e sobre sua transitoriedade. É um processo de eliminação. Deve indagar, como faria um homem de ciência, em sua própria vida. Observe que sempre que consegue o que deseja, está em uma ausência de desejo na qual o objeto inicial, a suposta causa da falta de desejo, não está presente. Veja então como esta falta de desejo é realmente imotivada e que é você mesmo quem lhe está atribuindo uma causa.
Ao chegar a um certo ponto de maturidade, você se sentirá repentinamente atraído pela fragrância da realidade; as idas e vindas em todas as direções, a dispersão, cessará. Espontaneamente, você estará orientado. A perspectiva total mudará. Um perfume o seduz e lhe oferece uma antecipação da realidade, um pré-sentimento que gera esta incrível urgência da qual acabamos de falar.


Poderia dizer algo mais sobre esse pressentimento? O que é exatamente?


O pressentimento procede da própria fonte, daquilo que é sentido interiormente. É o reflexo da verdade. É a orientação espontânea que se determina quando a dispersão começa a centrar-se em um ponto. O ego se torna mais transparente e nesta transparência a energia que estava fixada por ele nos objetos da dispersão é transferida para a orientação. Quando o pressentimento aparecer, entregue a ele todo seu coração. Você deve estar muito alerta, muito atento, pois o condicionamento do esquecimento é muito forte.


O sofrimento fez a sua parte em impulsioná-lo em seu caminho?


Depende de como você entende o sofrimento. O sofrimento é uma idéia, um conceito, nunca poderá proporcionar-lhe o conhecimento do si mesmo. Mas a percepção direta do sofrimento, como a percepção direta de todo objeto, é um indicativo de seu Eu. O que foi importante para mim foram aqueles momentos em que olhei para mim mesmo e encontrei uma ausência de apaziguamento; isto colocou em ação um processo de investigação mais profunda. Em certo sentido, quando realmente você sente esta carência sem conceituá-la, há um sofrimento intenso, mas não é um sofrimento semelhante ao que possa ser motivado por um roubo, perda do emprego, ruptura do matrimônio, morte, ou qualquer outra circunstância deste tipo. Certamente, estas dificuldades o ligam a um certo tipo de complacência e a uma maneira comum de viver. Contudo elas o levam a interrogar, a investigar, a explorar, a questionar o próprio sofrimento.
Faça do sofrimento um objeto. No completo abandono à sua percepção, aparece a luz. Você deve compreender que por “abandono” não quero dizer uma aceitação fatalista nem nenhum tipo de sacrifício psicológico. O abandono real consiste em deixar que partam todas as idéias e permitir que a percepção – no caso, o sofrimento – venha a você em sua abertura. Você verá que isto não é uma “troca de lugar” como acontece na aceitação psicológica, onde a energia fixada como sofrimento é deslocada para outra área, mas floresce a partir do interior da plenitude de sua atenção. Você o sentirá como energia livre, energia que estava anteriormente cristalizada. Desta forma, o abandono não é um estado passivo. É tanto passivo como ativo, passivo no sentido de “deixar ir” como com o “homem pobre” de Meister Eckhart, e ativo quando em alerta constante.


Você praticou Ioga para chegar a níveis mais profundos de abandono e atenção?


A palavra “prática” significa geralmente “hábito”. Devemos “praticar” unicamente no sentido de chegar a conhecer melhor, de sermos mais conscientes do corpo e da mente. Devemos ver que o corpo é o campo no qual aparece o temor, a ansiedade, a defesa e a agressão. Não obstante, a ênfase não deve ser posta no corpo, mas na presença, na escuta. O importante é chegar a estar familiarizado com este campo de tensão e ver que a constante interferência da imagem do eu não está separada do citado campo, mas, pelo contrário, pertence a ele. Quando isto é percebido com claridade, a tensão não encontra nenhum cúmplice, a percepção fica livre e as energias se integram em sua totalidade. A colocação tradicional consiste em escutar o corpo, não em tratar de dominá-lo. Dominar o corpo é fazer-lhe violência. Mas se pode varrer o chão e esfregar os pratos e estar na escuta. Não há diferença.
A exploração do corpo conduziu-me a um relaxamento mais profundo e o relaxamento trouxe consigo a extinção de esquemas repetitivos no corpo e na mente. A aceitação do corpo me levou a um conhecimento maior da sensação de “soltar”; conduziu-me a um estado em que já não colocava a ênfase no objeto, no corpo, mas no sujeito último. A Ioga proporciona atenção e tranqüilidade, e um corpo tranqüilo reflete uma mente tranqüila. Mas, certamente, você pode chegar a uma plenitude de paz no corpo e na mente sem a Ioga.


Se a Ioga não é em si mesma o ensinamento, o que é?


O ensinamento aponta diretamente para o que não pode ser ensinado. As palavras, as ações, são muletas e este apoio perde gradualmente sua concretude até que subitamente você se encontra um dia em um não-estado que não pode ser ensinado. As formulações são símbolos, indicações, e ao final você já não vê o símbolo, mas aquilo para o qual ele aponta.


Quando o ensinamento perdeu sua concretude e houve uma mudança da ênfase do objeto para o sujeito, para o qual o símbolo aponta, como mudou sua vida?


Os velhos esquemas de pensar e atuar, da falsa identificação com o corpo, ao ter perdido sua concreção, já careciam de qualquer apoio. Foi esta redução da dispersão à orientação de que falávamos antes, um fortalecimento do pré-sentimento da verdade. Progressivamente foi se fazendo mais presente e menos conceitual. Este ser, compreendendo, deu uma nova orientação a minha vida. Tudo era percebido de uma forma nova. Fui discernindo mais e, embora não fizesse nenhuma mudança voluntária, muitas das coisas que ocupavam um lugar em minha vida anterior desapareceram. Havia sido seduzido por nomes e formas as quais me havia esforçado em possuir e alcançar, mas com esta reorientação da energia apareceu uma nova ordem de valores. Não pude interpretar isto como a adoção de algum novo tipo de moral. Nada foi acrescentado nem rejeitado. Simplesmente, cheguei a ter conhecimento da “claridade”, sattva, e este conhecimento se viu acompanhado de uma transformação espontânea.
Meu mestre me explicou que esta luz, que parecia vir de fora, era na realidade a luz refletida pelo Eu. Em minhas meditações, fui visitado por esta luz e atraído por ela, o que me proporcionou uma grande claridade no atuar, no pensar e no sentir. Minha forma de escutar se fez incondicionada, livre do passado e do futuro. Esta escuta incondicionada me conduziu a uma atitude receptiva e, quando me familiarizei com a atenção, esta ficou livre de toda expectativa, de toda volição. Sentí-me instalado na atenção, em uma abertura em plenitude à consciência.
Posteriormente, uma noite aconteceu uma mudança completa no Passeio Marítimo de Bombaim. Estava observando o vôo dos pássaros sem pensar nem interpretar quando fui completamente arrebatado por eles e senti que tudo acontecia em mim mesmo. Naquele momento, conheci-me conscientemente. Na manhã seguinte, ao enfrentar a multiplicidade da vida diária, soube que me havia estabelecido no ser compreensão. A imagem de mim mesmo havia se dissolvido completamente e, livre do conflito e da interferência da imagem do eu, tudo o que ocorria pertencia ao ser consciente, à totalidade. A vida fluía sem a interposição do ego. A memória psicológica, prazer e desprazer, atração e repulsão, havia se dissipado. A presença constante, o que chamamos o Eu, estava livre de repetição, memória, juízo, comparação e apreciação. O centro de meu ser havia sido espontaneamente impulsionado do tempo e espaço para uma quietude atemporal. Neste não-estado de ser, a separação entre “você” e “eu” desapareceu por completo. Nada aparecia fora. Todas as coisas estavam em mim, mas eu não estava nelas. Só havia unidade.
Conheci-me no acontecer presente, não como um conceito, mas como um ser sem localização no tempo e no espaço. Neste não-estado havia liberdade, plenitude e alegria sem objeto. Era pura gratidão, agradecimento sem objeto. Não se tratava de um sentimento afetivo, mas de liberdade a respeito de toda afetividade, uma frialdade próxima do ardor. Meu mestre me havia dado uma explicação de tudo isto, mas agora havia se convertido em uma verdade resplandecente e integral.


De: "A Naturaleza de Ser" (The Ease of Being) dialogos com Jean Klien

Futura publicação da Editora Advaita

sábado, 19 de setembro de 2009

A semente da consciência





Ele parecia inquieto e agitado. Seus movimentos eram espasmódicos e ele estava, obviamente, cheio de impaciência. Era um europeu de meia-idade, esguio e em boas condições físicas. Era sua primeira visita a Maharaj. Sua agitação atraiu a atenção de todos para ele.
Quando Maharaj olhou para ele, as lágrimas repentinamente correram de seus olhos. Um olhar compassivo de Maharaj pareceu acalmá-lo um pouco e ele, então, deu as usuais informações sobre si mesmo em poucas palavras. Disse que tinha sido um estudante do Vedanta por pelo menos vinte anos, mas que sua busca pela verdade havia fracassado. Estava profundamente desanimado e desiludido e não podia mais continuar sua frustrante busca. Um lampejo de esperança surgiu para ele quando ele leu o livro de Maharaj Eu Sou Aquilo e sabia que havia encontrado a resposta. Imediatamente ele juntou a quantidade mínima de dinheiro necessária para uma viagem à Índia, e acabava de chegar a Bombaim. Com a voz agitada, ele disse “Cheguei agora. Minha busca terminou.” Lágrimas estavam correndo livremente de seus olhos e ele não podia controlar-se.
Maharaj escutou-o com gravidade e permaneceu sentando por poucos minutos com os olhos fechados, talvez para dar a ele o tempo para se recuperar. Então, perguntou se ele estava firmemente convencido de que não era o corpo. O visitante confirmou que estava bastante claro para ele que não era meramente o corpo, mas alguma outra coisa que não o corpo e, como estava claramente explicado no livro, que este algo devia ser o conhecimento ‘eu sou’, o sentido de ser. Mas, ele acrescentou, não podia entender o que se queria dizer com a sugestão de que ele deveria permanecer continuamente com o conhecimento ‘eu sou’. O que, exatamente, supunha-se que ele deveria fazer? “Por favor, Mestre” – disse a Maharaj –, “estou agora insuportavelmente cansado de palavras. Tenho-as lido e ouvido aos milhões e nada ganhei com elas. Conceda-me a substância agora, não meras palavras. Serei eternamente grato a você.
“Muito bem” – disse Maharaj – “Você terá a substância agora. Certamente, terei que usar palavras para comunicá-la a você.” Maharaj, então, prosseguiu: Se eu dissesse para inverter a marcha e voltar para a origem de seu ser, teria algum sentido para você?
Em resposta, o visitante disse que seu coração aceitou intuitivamente a verdade da afirmação de Maharaj, mas ele teria que se aprofundar no assunto.
Maharaj, então, disse-lhe que ele devia entender toda situação clara e instantaneamente; isto ele poderia fazer apenas se fosse à raiz do assunto. Ele deveria descobrir como o conhecimento ‘eu sou’ apareceu pela primeira vez. A semente é a coisa, disse Maharaj. Descubra a semente de seu ser e você conhecerá a semente do universo inteiro.
Maharaj continuou: Como sabe, você tem um corpo e, no corpo, está o Prana, ou a força vital, e a consciência (o ser, ou o conhecimento ‘eu sou’). Agora, este fenômeno total do ser humano é de qualquer forma diferente do das outras criaturas ou mesmo da grama que brota da terra? Pense profundamente sobre isto. Suponha que um pouco de água se acumule em seu quintal; depois de um tempo, o corpo de um inseto se forma ali; ele começa a mover-se e sabe que existe. E, novamente, suponha que um pedaço de pão velho é deixado em um canto por alguns dias; um verme aparece nele e começa a mover-se, e sabe que existe. O ovo de uma ave, depois de chocado por certo tempo, quebra, repentinamente, e aparece um pequeno pinto; ele começa a mover-se e sabe que existe. O esperma do homem germinou no útero da mulher e, depois do período de nove meses, nasce como um bebê. O esperma desenvolveu-se na forma de uma criança plenamente formada que passa pelos estados de vigília e sono e realiza suas funções físicas comuns, e sabe que existe.
Em todos estes casos – o inseto, o verme, o pinto e o ser humano – o que realmente nasceu? O que ‘supervisionou’ o processo da concepção ao nascimento? Não seria o conhecimento ‘eu sou’ que permaneceu latente da concepção ao parto e, no tempo devido, ‘nasceu’? Este ser, ou consciência, idêntico em todos os quatro casos, achando-se sem qualquer tipo de ‘apoio’, identifica-se erroneamente com a forma particular que assumiu. Em outras palavras, o que é realmente sem qualquer aspecto ou forma, o conhecimento ‘eu sou’, precisamente este sentido de ser (não ser isto ou ser aquilo, mas tão só consciência), limita-se apenas a uma forma particular e, com isto, aceita seu próprio ‘nascimento’, e daí para frente vive sob a constante sombra do terror da ‘morte’. Assim nasce a noção de uma personalidade individual, ou identidade, ou ego.
Vê agora a origem desse estado de ‘eu sou’? Ele não é dependente do corpo para sua existência individual? E o corpo não é meramente o esperma germinado que desenvolveu a si mesmo? E, o que é mais importante, é o esperma outra coisa senão a essência do alimento consumido pelos pais da criança? E, finalmente, não seria o alimento algo constituído pelos quatro elementos (éter, ar, fogo e água) por meio do quinto, a terra?
Assim, segue-se o rastro da semente da consciência até chegar ao alimento, e o corpo é o ‘alimento’ da consciência; assim que o corpo morre, a consciência também desaparece. E, ainda, a consciência é a ‘semente’ do universo inteiro! Todo indivíduo tem, sempre que sonha, a experiência idêntica de um mundo sendo criado na consciência. Quando uma pessoa não está totalmente acordada e a consciência é apenas estimulada, ela sonha; e, em seu sonho, naquele ponto mínimo de consciência, cria um mundo de sonhos inteiro, similar ao mundo ‘real’ externo – tudo em um instante – e, naquele mundo, são vistos o sol, a terra com montanhas e rios, construções e pessoas (incluindo o próprio sonhador) comportando-se exatamente como as pessoas no mundo ‘real’. Enquanto durar o sonho, o mundo do sonho é, de fato, bem real, e as experiências das pessoas no sonho, incluindo o próprio sonhador, parecem ser verdadeiras, tangíveis e autênticas, talvez mesmo mais do que aquelas do mundo ‘real’. Mas, uma vez que o sonhador acorde, todo o mundo de sonhos com todas as suas ‘realidades’ que existiam se desvanecem na consciência na qual foram criados. No estado de vigília, o mundo surge por causa da semente da ignorância (Maya, consciência, ser, Prakriti, Ishwara, etc.) e o coloca em um estado de vigília-sonho. Você sonha que está acordado; você sonha que está dormindo – e você não compreende que está sonhando porque ainda está no sonho. De fato, quando você compreende que tudo é um sonho, você já terá ‘despertado’! Apenas o Jnani conhece a vigília e o sonho verdadeiros.
Neste estágio, quando Maharaj perguntou ao visitante se tinha alguma pergunta sobre o que tinha ouvido até o momento, ele perguntou prontamente: “Qual é o princípio, ou o mecanismo conceitual, por trás da criação do mundo?”
Maharaj ficou satisfeito, porque o visitante tinha usado corretamente as palavras ‘mecanismo conceitual’, pois ele freqüentemente nos lembra que toda criação do mundo é conceitual, e que é muito importante lembrar este fato e não o esquecer no meio de toda a profusão de palavras e conceitos. Maharaj, então, continuou: O estado original – o Parabrahman – é incondicionado, sem atributos, sem forma, sem identidade. Sem dúvida, este estado não é nada senão plenitude (não um ‘vácuo’ vazio, mas pleno), de modo que é impossível dar-lhe um nome adequado. Visando a comunicação, contudo, um certo número de palavras tem que ser usado para ‘indicar’ aquele estado. Naquele estado original, anterior a qualquer conceito, a consciência – o pensamento ‘eu sou’ – espontaneamente desperta para a existência. Como? Por quê? Por nenhuma razão aparente – como uma mansa onda sobre a superfície do mar!
O pensamento ‘eu sou’ é a semente do som Aum, o som primordial, ou Nada, no momento da criação do universo. Ele consiste em três sons: a, u e m. Estes três sons representam os três atributos – Sattva, Rajas, Tamas, os quais produzem os três estados de vigília, sonho e sono profundo (também chamados consciência ou harmonia, atividade e inércia). Foi na consciência que o mundo surgiu. De fato, o primeiro pensamento ‘eu sou’ criou o sentido de dualidade no estado original de unicidade. Nenhuma criação pode aparecer sem a dualidade do princípio da maternidade e paternidade – masculino e feminino, Purusha e Prakriti.
A criação do mundo como uma aparência na consciência tem dez aspectos – o princípio gerador da dualidade; a matéria física e química, sendo a essência dos cinco elementos (éter, ar, fogo, água e terra) em fricção mútua; e os três atributos de Sattva, Rajas e Tamas. Um indivíduo pode pensar que é ele que atua, mas, verdadeiramente, é a essência dos cinco elementos, o Prana, a força vital, que atua através da combinação particular dos três atributos em uma forma física particular.
Quando a criação do mundo é vista nesta perspectiva, é fácil perceber porque os pensamentos e ações de um indivíduo (o qual é apenas um aparato psicossomático) diferem tanto em qualidade e grau daqueles de milhões de outros; porque, por um lado, existem Mahatmas Ghandis e, por outro, Hitlers. É um fato evidente que as impressões digitais de uma pessoa não são nunca similares àquelas de qualquer outra pessoa; folhas da mesma árvore são diferentes umas das outras em ínfimos detalhes. A razão é que as permutações e combinações dos cinco elementos, mais os três atributos em seus milhões de matizes, chegariam a bilhões e trilhões. Certamente, podemos admirar o que é admirável e amar o que é adorável, mas devemos compreender o que é que realmente amamos e admiramos – não o indivíduo conceitual, mas a maravilhosa habilidade de atuação da consciência que é capaz de desempenhar simultaneamente milhões de papéis nesta representação de sonho que o mundo é!
Para evitar perder-se na desconcertante diversidade do espetáculo de Maya (Lila), Maharaj disse que é necessário, neste estágio, não esquecer a unidade essencial entre o Absoluto e o relativo, entre o não-manifesto e o manifesto. A manifestação aparece na existência apenas com o conceito básico ‘eu sou’. O substrato é o númeno, que é a potencialidade total. Com o surgimento do estado de ‘eu sou’, o númeno se reflete no universo fenomênico, o qual só em aparência será exterior a ele. Para ver a si mesmo, o númeno se objetiva no fenômeno e, para que esta objetivação aconteça, o espaço e o tempo são os conceitos necessários (nos quais os fenômenos são estendidos em volume e duração). O fenômeno, portanto, não é algo diferente do númeno, mas o próprio númeno objetivado. É necessário entender – e nunca esquecer – esta identidade essencial. Uma vez que o conceito ‘eu sou’ surja, a unidade fundamental fica teoricamente separada, como sujeito e objeto, na dualidade.
Quando a consciência impessoal se manifesta e identifica a si mesma em cada forma física, a noção do eu surge, e esta noção, esquecendo que não tem nenhuma entidade independente, converte sua subjetividade original em um objeto com intenções, necessidades e desejos e é, portanto, vulnerável ao sofrimento. Esta identidade errada é precisamente a ‘escravidão’ da qual se busca liberação.
E o que é ‘liberação’? Liberação, iluminação, ou despertar, não é outra coisa senão entender profundamente, aperceber-se – (a) que a semente de toda a manifestação é a consciência impessoal, (b) que o que se busca é o aspecto não-manifestado da manifestação e (c) que, portanto, o próprio buscador é o buscado!
Resumindo o discurso, Maharaj disse: Revisemos tudo isto novamente.
1.No estado original prevalece o Eu sou, sem qualquer conhecimento ou condicionamento, sem atributos, sem forma ou identidade.
2.Então, por nenhuma razão aparente (exceto aquela de que é sua natureza ser assim), surge o pensamento, ou conceito eu sou, a Consciência Impessoal, sobre a qual o mundo aparece como um sonho vívido.
3.A consciência, para se manifestar, necessita de uma forma, um corpo físico, com o qual se identifica e, assim, começa o conceito de ‘escravidão’, com uma objetivação imaginária do ‘eu’. Quando se pensa e se atua do ponto de vista desta auto-identificação, pode-se dizer que se cometeu o ‘pecado original’ de transformar a pura subjetividade (o potencial ilimitado) em um objeto, uma realidade limitada.
4.Nenhum objeto tem uma existência independente por si mesmo e, portanto, não pode despertar do sonho vivente; ainda assim – e esta é a piada – o fantasma individual (um objeto) busca algum outro objeto como o ‘Absoluto’, ou ‘Realidade’, ou o que for.
5.Se isto estiver claro, deve-se inverter o rumo e voltar para descobrir o que se era originalmente (e sempre se tem sido) antes do surgimento da consciência.
6.Neste ponto surge o ‘despertar’ de que não se é nem o corpo nem mesmo a consciência, mas o estado inefável da total potencialidade, anterior à chegada da consciência (na consciência, este estado, seja qual for o nome, pode ser apenas um conceito).
7.E, assim, o círculo está completo; o buscador é o buscado.
Em conclusão, disse Maharaj, deve-se entender profundamente que, como ‘Eu’, se é númeno. A condição atual da fenomenalidade (cuja semente é a consciência) é temporária, como uma doença ou um eclipse sobre a condição imutável original da numenalidade, e tudo o que se pode fazer é viver o tempo destinado da vida, no fim do qual o eclipse da fenomenalidade termina e a numenalidade prevalece novamente em sua pura unicidade, totalmente inconsciente de sua Consciência.
Durante toda esta exposição, o visitante permaneceu imóvel como se estivesse sob um encantamento. Fez uma ou duas tentativas infrutíferas de falar, mas Maharaj parou-o rapidamente com um gesto firme, e ele permaneceu sentado ali em perfeita paz até depois de outros visitantes terem apresentado seus respeitos a Maharaj e saírem, um por um.



sexta-feira, 18 de setembro de 2009

O buscador é o buscado




Um casal europeu visitou Maharaj por uma semana. Marido e esposa estiveram interessados na metafísica vedântica por muitos anos e tinham estudado profundamente o assunto. Havia neles, contudo, um toque de cansaço, quase de frustração, em seus pontos de vista e comportamento geral, o qual mostrava claramente o que foi posteriormente confirmado. Eles não tinham nenhuma compreensão clara da verdade a despeito da assídua busca por um longo período de tempo durante o qual tinham viajado intensamente, e tinham buscado orientação de numerosos Gurus, mas sem sucesso. Agora, estavam, talvez, perguntando-se se iam para outro exercício de futilidade e para mais frustração.
Depois de terem fornecido as informações sobre seus fundamentos em resposta à pergunta habitual de Maharaj, sentaram-se com indiferença. Maharaj olhou para eles por poucos momentos e disse: Por favor, entenda que eu não tenho nada para dar a vocês. Tudo o que faço é pôr diante de vocês um espelho espiritual para mostrar sua verdadeira natureza. Se o significado do que digo for entendido claramente, intuitivamente – não apenas de forma verbal –, e aceito com a mais profunda convicção e a mais urgente rapidez, não será mais necessário nenhum conhecimento. Este entendimento não é uma questão de tempo (de fato, é anterior ao conceito de tempo) e, quando ele acontece, acontece repentinamente, quase como um choque de compreensão atemporal. Efetivamente, isto significa uma repentina cessação do processo de duração, uma fração de segundo em que o funcionamento do próprio processo do tempo é suspenso – enquanto acontece a integração com o que é anterior à relatividade – e a apreensão absoluta ocorre. Uma vez que esta semente de compreensão tenha se enraizado, o processo de libertação relativa da escravidão imaginada pode seguir seu próprio curso, mas a apreensão em si mesma é sempre instantânea.
A palavra-chave no processo de entendimento do que digo é ‘espontaneidade’. A manifestação de todo o universo é como um sonho, um sonho cósmico, exatamente como o sonho microcósmico de um indivíduo. Todos os objetos são objetos sonhados, todos são aparições na consciência, tanto no caso de um sonho surgindo espontaneamente como um sonho pessoal durante o sono ou como o sonho vivente da vida no qual nós todos estamos sendo sonhados e vividos. Todos os objetos, todas as aparições são sonhadas na consciência pelos seres sensíveis.
Os seres sensíveis são, portanto, tanto figuras sonhadas como sonhadores; não há um sonhador individual, como tal. Cada sonho ativo do universo está na consciência, a qual está no interior de um aparato psicossomático particular, o meio através do qual o perceber e o interpretar ocorrem, e que é confundido com uma entidade individual. No sono profundo não há sonho e, portanto, nenhum universo. É apenas quando você usa a mente dividida que você existe separado dos ‘outros’ e do mundo.
Você não tem controle sobre os objetos em seu sonho pessoal, incluindo o objeto que ‘você’ é em seu sonho. Tudo é espontâneo e, ainda assim, cada um dos objetos em seu sonho pessoal não é senão você. No sonho que é a vida, também, todos os objetos (todos os ‘indivíduos’, mesmo se são opostos um ao outro no sonho) podem apenas ser o que-você-é. Todo funcionamento, toda ação na vida, portanto, pode ser apenas ação espontânea, pois não há nenhuma entidade a realizar qualquer ação. Você é (Eu sou) o funcionamento, o sonho, a dança cósmica de Shiva!
Finalmente, lembre-se que todo sonho de qualquer tipo deve necessariamente ser fenomênico – uma aparição na consciência –, ocorrido quando a consciência estiver ‘desperta’, que é quando a consciência é consciente de si mesma. Quando a consciência não é consciente de si mesma, não pode haver nenhum sonho, como no sono profundo.
Ao chegar neste ponto, o homem do casal tinha uma dúvida. Sua pergunta era: Se todos nós somos figuras sonhadas, sem qualquer escolha independente de decisão e ação, por que deveríamos preocupar-nos com escravidão e liberação? Por que deveríamos vir para Maharaj?
Maharaj riu e disse: Você parece ter chegado à conclusão correta pelo caminho errado! Se você quer dizer que agora está convencido, além de qualquer sombra de dúvida, que o objeto com o qual você havia se identificado é realmente apenas um fenômeno totalmente destituído de qualquer substância, independência ou autonomia – simplesmente uma aparição sonhada na consciência de outro alguém – e que, portanto, para uma simples sombra não pode haver qualquer problema de escravidão ou liberação, e que, consequentemente, não há necessidade de forma alguma de vir e ouvir-me, então você está perfeitamente certo. Se for assim, você não está apenas certo, mas já liberado! Mas, se você quer dizer que deve continuar a visitar-me apenas porque não pode aceitar que é uma mera figura sonhada, sem qualquer independência ou autonomia, então receio que nem mesmo deu o primeiro passo. E, de fato, desde que haja uma entidade buscando a liberação, ela nunca a encontrará.
Veja isto desta forma simples: Qual é a base de qualquer ação? A necessidade. Você come porque há uma necessidade disto; seu corpo evacua porque é necessário. Você me visita por causa da necessidade de visitar-me e escutar o que digo. Quando há a necessidade, a ação se segue espontaneamente sem qualquer intervenção de qualquer agente. Quem sente a necessidade? A consciência, certamente, sente a necessidade através da mediação do aparato psicossomático. Se você pensar que é este aparato, não é este o caso de identidade errada, assumindo a carga da escravidão e buscando a liberação? Mas na realidade o que pergunta, o buscador, é o buscado!
Uma calma absoluta reinou na salinha enquanto todos ponderavam sobre o que Maharaj havia dito. O casal visitante sentou com os olhos fechados, esquecido dos arredores, enquanto os demais visitantes, gradualmente, saiam.




"Sinais do Absoluto"











Ele veio zombar...





Quando se participa nos diálogos entre Maharaj e seus visitantes por algum tempo, fica-se surpreso com a diversidade de perguntas que são feitas – muitas delas terrivelmente ingênuas – e com a espontaneidade e facilidade com as quais as respostas vêm do Mestre. Perguntas e respostas são traduzidas tão acuradamente quanto possível. As respostas de Maharaj em Marathi, que é a única língua que domina, seriam naturalmente baseadas nas palavras do Marathi usadas na tradução da pergunta. Em suas respostas, contudo, Maharaj faz um uso muito hábil das palavras do Marathi empregadas na tradução da pergunta, ou por meio de trocadilhos, ou leves mudanças nas próprias palavras, produzindo interpretações algumas vezes totalmente diferentes de seus significados usuais. A exata significação de tais palavras nunca poderia ser obtida em qualquer tradução. Maharaj francamente admite que, geralmente, faz uso claro e direto do Marathi com o fim de tornar manifestos o nível mental do interlocutor, sua intenção, e o condicionamento por trás da pergunta. Se o interlocutor toma a sessão como um entretenimento, embora de um tipo superior, Maharaj está pronto para juntar-se à diversão, na ausência de melhor assunto e melhor companhia!
Entre os visitantes, há ocasionalmente um tipo pouco comum de pessoa que tem um intelecto muito penetrante, mas é dotado de um ceticismo devastador. Ele presume que tem uma mente aberta e uma curiosidade intelectual penetrante. Ele quer ser convencido e não meramente enganado por palavras vagas e incertas que os mestres religiosos freqüentemente distribuem em seus discursos. Maharaj, com certeza, rapidamente reconhece este tipo e, então, a conversa imediatamente assume um tom de mordacidade que o deixa abalado. A percepção intuitiva subjacente às palavras de Maharaj simplesmente varre a crítica metafísica proposta por semelhante intelectual. É de maravilhar-se ver como um homem, o qual não tem nem mesmo o benefício de uma educação adequada, possa mostrar mais talento que vários eruditos pedantes e cépticos agnósticos que se acreditam invulneráveis. As palavras de Maharaj são sempre eletrizantes e brilhantes. Ele nunca cita autoridades das escrituras em Sânscrito ou em qualquer outra língua. Se um dos visitantes citasse um verso do Gita, Maharaj tinha que pedir sua tradução para o Marathi. Sua intuição perceptiva não precisa do apoio das palavras de qualquer outra autoridade. Seus próprios recursos internos são, sem dúvida, ilimitados. O que quer que eu diga, disse Maharaj, sustenta-se por si mesmo, não necessitando nenhum outro apoio.
Um dos visitantes habituais às sessões trouxe com ele um amigo e o apresentou a Maharaj como um homem com um intelecto muito aguçado que não aceitaria nada como verdade absoluta e que questionaria tudo antes de aceitar. Maharaj disse que estava feliz por encontrar tal pessoa. O novo visitante era um professor de Matemática.
Maharaj sugeriu que seria talvez melhor para ambos conversar sem hipóteses de qualquer tipo, diretamente do nível básico. Ele gostaria disto? O visitante deve ter ficado muito surpreendido com esta oferta. Ele disse que estava encantado com a sugestão.

Maharaj: Agora, diga-me, você está sentado diante de mim aqui e agora. O que exatamente pensa que ‘você’ é?

Visitante: Sou um ser humano do sexo masculino, quarenta e nove anos, com certas medidas físicas e certas esperanças e aspirações.

M: Qual sua imagem de si mesmo dez anos atrás? A mesma de agora? E quando você tinha dez anos de idade? E quando você era uma criança? E mesmo antes disto? Sua imagem de si mesmo não mudou o tempo todo?

V: Sim, o que considero como minha identidade mudou todo o tempo.

M: E, no entanto, não há alguma coisa, quando pensa sobre si mesmo – no fundo do coração –, que não mudou?

V: Sim, há, embora eu não possa especificar o que é exatamente.

M: Não seria o simples sentido de ser, o sentido de existir, o sentido de presença? Se você não estivesse consciente, seu corpo existiria para você? Haveria qualquer mundo para você? Teria, então, qualquer pergunta sobre Deus ou o Criador?

V: Isto, certamente, é algo a ponderar. Mas, diga-me, por favor, como você vê a si mesmo?

M: Eu sou este eu sou ou, se preferir, eu sou esse eu sou.

V: Desculpe-me, mas eu não entendi.

M: Quando você diz “eu penso que entendi”, está tudo errado. Quando você diz “eu não entendi”, isto é absolutamente verdadeiro. Deixe-me simplificar: eu sou a presença consciente – não esta pessoa ou aquela, mas Presença Consciente, como tal.

V: Agora, novamente, estou para dizer que penso que entendi! Mas você disse que isto é errado. Você não está tentando confundir-me deliberadamente, está?

M: Ao contrário, estou dizendo para você qual é a posição exata. Objetivamente, eu sou tudo que aparece no espelho da consciência. Absolutamente, eu sou aquilo. Eu sou a consciência na qual o mundo aparece.

V: Infelizmente, não vejo isto. Tudo o que posso ver é o que aparece diante de mim.

M: Você seria capaz de ver o que aparece diante de você se não estivesse consciente? Não. Não é toda existência, portanto, puramente objetiva na medida em que você existe apenas em minha consciência e eu na sua? Não é claro que nossa experiência um do outro está limitada a um ato de cognição na consciência? Em outras palavras, o que nós chamamos nossa existência está meramente na mente de algum outro e, portanto, é apenas conceitual? Pondere sobre isto também.

V: Você está tentando me dizer que todos nós somos meros fenômenos na consciência, fantasmas no mundo? E o que diríamos sobre o próprio mundo? E sobre todos os eventos que acontecem?

M: Pondere sobre o que eu disse. Você pode descobrir alguma falha? O corpo físico, o qual geralmente alguém identifica como a si mesmo, é apenas uma estrutura física para o Prana (a força vital) e para a consciência. Sem o Prana e a consciência, o que seria o corpo físico? Apenas um cadáver! É apenas porque a consciência identificou-se erradamente como sua cobertura física – o aparato psicossomático – que o indivíduo aparece.

V: Agora, você e eu somos indivíduos separados que têm de viver e trabalhar neste mundo junto com milhões de outros, certamente. Como você me vê?

M: Vejo você neste mundo exatamente como você vê a si mesmo em seu sonho. Isto satisfaz você? Em um sonho, enquanto seu corpo está descansando em sua cama, você criou todo um mundo – paralelo ao que você chama mundo “real” – no qual existem pessoas, incluindo você mesmo. Como você se vê no seu sonho? No estado de vigília, o mundo emerge e você é levado para o que eu chamaria um estado de sonho acordado. Enquanto você está sonhando, seu mundo de sonho aparece para você como muito real, sem dúvida, não é assim? Como você sabe que este mundo que você chama ‘real’ não é também um sonho? É um sonho do qual você deve acordar pela visão do falso como falso, do irreal como irreal, do transitório como transitório; ele pode ‘existir’ apenas no espaço e no tempo conceituais. E, então, depois de tal ‘despertar’, você estará na Realidade. Então você verá o mundo como ‘vivente’, como um sonho fenomênico dentro da periferia da percepção sensorial no espaço e tempo, com um aparente livre-arbítrio.
Agora, a respeito do que você chama um indivíduo: Por que você não examina analiticamente este fenômeno com a mente aberta, depois de abandonar todo condicionamento mental existente e todas as idéias preconcebidas? Se você fizer assim, o que você encontrará? O corpo é meramente uma estrutura física para a força vital (Prana) e para a consciência, o qual constitui um tipo de aparato psicossomático; e este ‘individuo’ nada faz a não ser responder ao estimulo externo e produzir imagens e interpretações ilusórias. E, além disto, este ser sensível individual pode ‘existir’ apenas como um objeto na consciência que o reconhece! É apenas uma alucinação.

V: Você quer dizer com isto que você não vê diferença entre um sonho sonhado por mim e minha vida neste mundo?

M: Você já tem bastante para cogitar e meditar. Está certo que deseja prosseguir?

V: Estou acostumado a grandes doses de estudo sério e não tenho dúvidas que você também. De fato, seria mais gratificante para mim se pudéssemos prosseguir e levar isto à sua conclusão lógica.

M: Muito bem. Quando você está em sono profundo, o mundo fenomênico existe para você? Você não poderia, intuitiva e naturalmente, visualizar seu estado primitivo – seu ser original – antes que esta condição corpo-consciência irrompesse sobre você sem ser solicitada, por si mesma? Neste estado, você estaria consciente de sua “existência”? Não, certamente.
A manifestação universal está apenas na consciência, mas o ‘desperto’ tem seu centro de visão no Absoluto. No estado original de puro ser, não consciente de sua qualidade de ser, a consciência surge como uma onda sobre a extensão das águas, e o mundo aparece e desaparece na consciência. As ondas se levantam e caem, mas a expansão das águas permanece. Antes de todos os princípios, de todos os fins, eu sou. O que quer que aconteça, devo estar presente para testemunhar.
Não é que o mundo não ‘exista’. Ele existe, mas meramente como uma aparência na consciência – a totalidade do manifesto conhecido na infinidade do desconhecido, o não manifestado. O que começa deve terminar. O que aparece deve desaparecer. A duração da aparição é um assunto relativo, mas o princípio é que o que quer que seja sujeito ao tempo e à duração deve terminar e é, portanto, não real.
Você não pode perceber imediatamente que neste sonho da vida você ainda está dormindo, que tudo que seja reconhecível está contido nesta fantasia da vida? E que aquele que, enquanto conhecer este mundo objetificado, considerar-se uma ‘entidade’ separada da totalidade que conhece é, em realidade, parte integral deste mesmo mundo hipotético?
Considere também: Nós parecemos estar convencidos de que vivemos uma vida própria, de acordo com nossos próprios desejos, esperanças e ambições, de acordo com nosso próprio plano e objetivo, através de nossos próprios esforços individuais. Mas é realmente assim? Ou estamos sendo sonhados e vividos sem vontade, totalmente como fantoches, exatamente como em um sonho pessoal? Pense! Nunca esqueça que, assim como o mundo existe, embora como uma aparência, as figuras sonhadas também, neste ou naquele sonho, devem ter um conteúdo – elas são o que o sujeito do sonho é. É por isto que digo: Relativamente ‘Eu’ não sou, mas eu mesmo sou o universo manifesto.

V: Penso que começo a entender toda a idéia.

M: Não é o pensamento de si mesmo uma noção na mente? O pensamento está ausente quando se vê as coisas intuitivamente. Quando você pensar que entendeu, você não entendeu. Quando perceber diretamente, não há nenhum pensamento. Você sabe que está vivo; você não ‘pensa’ que você está vivo.

V: Céus! Isto parece ser uma nova dimensão que você está apresentando.

M: Bem, nada sei sobre uma nova dimensão, mas você se expressou bem. De fato, poderia ser dito que tal dimensão adquire uma nova direção de medida – um centro novo de visão – na medida em que, evitando os pensamentos e percebendo diretamente as coisas, evita-se a concepção. Em outras palavras, vendo com a mente total, intuitivamente, o observador aparente desaparece, e a visão torna-se o visto.

O visitante então se levantou e prestou seus respeitos a Maharaj com muito maior devoção e submissão do que a que havia mostrado na chegada. Ele olhou para dentro dos olhos de Maharaj e sorriu. Quando Maharaj perguntou por que sorria, disse que havia lembrado de um provérbio Inglês: “Eles vieram para zombar e permaneceram para orar”.


Sinais do Absoluto


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