Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

domingo, 10 de janeiro de 2010

O Nectar da Imortalidade







Se obtemos e saboreamos o néctar dos pés do Senhor, o charan-amrita, a mente pode ser conquistada. Isso significa que a mente não vai mais ter domínio sobre nós. Seu domínio imposto sobre nós desde a infância não irá mais nos oprimir. Isso é chamado de manojaya – vitória sobre a mente. Mas isso torna-se possível apenas através da Graça Dele. Sem a Graça, não podemos saborear o néctar. Entretanto, apenas um devoto verdadeiro, um bhakta, um deus, pode obter o charan-amrita. Mas quem e o que é esse devoto? Ele não é nada além da consciência, o sentido de ser, o conhecimento que “nós somos”, que apareceu inconsciente e espontaneamente em nós. A consciência é o charan-amrita, o néctar dos pés do Senhor.

O cosmos inteiro em seu vibrante movimento ativo é representado pela consciência, os pés do Senhor, e o universo é o corpo da consciência. Mas qual é sua relação com todos os seres? Ela reside no âmago de todos os seres como o conhecimento “eu sou”, o amor de “ser”, o charan-amrita.

Aquele que bebe o néctar dos pés do Senhor é um verdadeiro devoto. Ele habita no conhecimento “eu sou”. Ele é divino. Então, quando a pessoa beberica continuamente esse néctar ao testemunhar a consciência ou o sentido de ser, a sua mente - que diferencia e avalia as pessoas observadas como masculinas e femininas, ela gradualmente remove a si mesma do foco de atenção, deixando a consciência em sua glória inata.
Mas como tal estado pode ser alcançado? Apenas se aceitamos totalmente o conhecimento “eu sou” como sendo nós mesmos com total convicção e fé, e se firmemente acreditarmos no dito: "eu sou aquilo pelo qual eu sei que 'eu sou'”. Esse conhecimento “eu sou” é o charan-amrita. Por que é chamado de Amrita – o néctar? Porque é dito que, ao beber néctar a pessoa se torna imortal . Portanto, um devoto real, ao habitar neste conhecimento “eu sou” transcende a experiência da morte e atinge a imortalidade. Mas enquanto a mente permanece não conquistada, a experiência da morte é inevitável.
Embora meus discursos continuem sem parar com os muitos visitantes, meu ponto de vista permanece inalterado. Por que? Porque meu ponto de vista está estabilizado no charan-amrita. Ele permanece fixo na consciência - a fonte dos conceitos e linguagens. Dela emana a linguagem desde sua formação mais sutil até a sua expressão mais grosseira, vocal, como para, pashyanti, madhyama, e vaikhari*.
Se você pudesse apenas abandonar todos os outros esforços espirituais e disciplinas e absorver-se em saborear o charan-amrita, através da permanência na consciência, a mente libertaria você de suas garras. Atualmente, você aceita gentilmente o que quer que a mente dita como sendo de você próprio. Se a mente for silenciada, onde fica você e o que você é?
Uma vez que você afundar dentro da consciência, o fatual estado da Realidade será revelado a você com o conhecimento que irá emanar de você intuitivamente, como uma fonte de água. Isso irá capacitá-lo a discernir não apenas o que é real e o que é irreal, mas mais importante, a realizar o que “eu sou”.
O que sou eu para mim apenas? O que é a vida? Uma vez que essas questões são resolvidas intuitivamente e a realidade emerge, a mente não pode mais predominar. Entretanto, o funcionamento da mente continuará, mas a qualidade do funcionamento será totalmente diferente. Alguém que atingiu tal estado, permanece não afetado por qualquer acontecimento, visto que as balburdias da mente não podem ter efeito. E quem poderia ser essa pessoa? Certamente não um individuo que está aprisionado na concha da mente. Mas essa pessoa é o conhecimento “eu sou” - a consciência.
É dito que devemos quebrar as algemas que nos prendem ao corpo e ao mundo. O que isso significa? O que quer que seja visto e percebido está no nível do corpo e do mundo. Um apego é desenvolvido com os objetos percebidos, e então nós nos identificamos com um corpo como sendo nós mesmos e clamamos os objetos como sendo de nossa propriedade. O apego é a natureza da mente, e ela obstinadamente persiste nesses apegos. Mas se você beber o charan-amrita ao se estabilizar na consciência, tudo será resolvido e você será iluminado. Você não precisa ir à ninguém para clarificar suas dúvidas.
Enquanto faço minhas tarefas e canto bhajans em louvor a Deus e assim por diante, para vocês eu pareço estar profundamente envolvido nessas atividades. Mas na verdade eu permaneço aparte de mim mesmo, desprovido do sentido do corpo e da mente, e assim testemunhando as atividades acontecerem à Mim. Pergunto-me se vocês notaram isso! Muitas pessoas estão relacionadas a mim de uma maneira ou de outra. Embora aparentemente eu tenha intimidade com elas, estou aparte delas. Quanto a mim, eu realizei completamente o que “eu sou”, e agora está absolutamente claro para mim o que e como “eu sou”. Mas o que essas pessoas pensam que “elas são”, apenas elas sabem. Elas presumem terem adquirido conhecimento, terem alcançado algum status espiritual superior ao das outras pessoas … e assim por diante. Isso está fadado a acontecer, pois eles ainda são escravos de suas mentes. No meu caso, isso não pode acontecer. Eu embebi totalmente o néctar dos pés do Senhor – a consciência.
Atualmente, todas as comunicações e funções acontecem por meio deste néctar – a consciência. E o que é esse meio? É o conhecimento “eu sou”. Ele é representado pelo Senhor Vishnu, o Deus mais elevado que recosta-se cheio de bem-aventurança no corpo da serpente, sheshashayi, e por isso é chamado de Sheshashayi-Bhagavan.
Bem, é bom ter conversas desse tipo, mas embeber e realizar a essência é muito difícil, de fato. Por que? Porque você acredita firmemente que você é o corpo e vive de acordo, enquanto alimenta desejos apaixonados de que você vai conquistar algo bom no mundo, e mais tarde algo ainda melhor. Essas expectativas estão baseadas primeiramente numa noção errônea de que você é o corpo. Essa identificação errada, entretanto, dissolve-se no néctar dos pés do Senhor, quando você se afunda na consciência e perde sua individualidade.
A dissolução da individualidade não é possível sem devoção ao mestre – guru-bhakti – que em outras palavras novamente é a consciência, o guru-charan-amrita. A permanência na consciência remove todos os problemas passados e futuros, e estabiliza a pessoa no presente – Aqui e Agora.
A consciência é o sentido de se estar ciente, “eu sou” sem palavras, e ela apareceu inconscientemente e sem ser solicitada. Ela é a força vital universal manifesta e, portanto, não pode ser individualística. Ela se estende dentro e fora, como o brilho de um diamante. Você vê um mundo de sonhos dentro de você e um mundo perceptível fora de você, previsto que a consciência prevalece. Do nível do corpo, você pode dizer dentro e fora do corpo, mas do ponto de vista da consciência, onde e o que é dentro e fora? Apenas no reino do sentido de estar ciente “eu sou” - a consciência – pode o mundo existir, e também que uma experiência pode existir.
Segure-se neste sentido de estar ciente “eu sou”, e a fonte do conhecimento irá nascer dentro de você, revelando o mistério do Universo; do seu corpo e psique; da interação dos cinco elementos, dos três gunas e prakriti-purusha; e de tudo mais. No processo dessa revelação, sua personalidade individualística confinada ao corpo se expandirá no universo manifestado, e será realizado que você permeia e abarca o cosmos todo como seu “corpo” apenas. Isso é conhecido como o “Puro Super-conhecimento” - shuddhavijnana.
Não obstante, mesmo no estado sublime shuddhavijnana, a mente se recusa a acreditar que ela é uma não-entidade. Mas conforme afundamos na consciência, desenvolvemos uma firme convicção de que o conhecimento “eu sou” - o sentido do seu ser – é a própria fonte do mundo. Esse conhecimento apenas faz você sentir que “você é” e que o mundo é. Na verdade, esse conhecimento manifesto, tendo ocupado e permeado o cosmos, reside em você como o conhecimento “você é”. Segure-se à esse conhecimento. Não tente dar-lhe um nome ou um título.
Agora chegando numa situação muito sutil: o que é isso em você que entende esse conhecimento “eu sou” - ou do seu ponto de vista “eu sou”, sem nome, título ou palavra? Afunde-se no cetro mais íntimo e testemunhe o conhecimento “eu sou” e apenas Seja. Essa é a “bênção do ser” - o swarupananda.
Você deriva prazer e felicidade através da ajuda de vários auxílios e processos externos. Alguns gostam de apreciar uma boa comida, alguns gostam de ver um filme, alguns ficam absorvidos na música … e assim por diante. Para todas essas apreciações alguns fatores externos são essenciais. Mas para residir na “bênção do ser”, absolutamente nenhuma ajuda externa é requerida. Para entender isso, tome o exemplo do sono profundo. Uma vez que você está em sono profundo, nenhuma ajuda ou tratamento são requeridos e você aprecia uma felicidade silenciosa. Por que? Porque nesse estado a identidade com um corpo masculino ou feminino é esquecida totalmente.
Alguns visitantes me perguntam, “Por favor mostre-nos o caminho que nos levará à Realidade”. Como eu poderia? Todos os caminhos levam à irrealidade. Caminhos são criações dentro do escopo do conhecimento. Portanto, caminhos e movimentos não podem te transportar para a Realidade, pois a função deles é enredar você dentro da dimensão do conhecimento, enquanto que a Realidade prevalece antes dessa dimensão. Para compreender isso, você deve fixar-se na fonte da sua criação, no início do conhecimento “eu sou”. Enquanto você não atingir isso, você estará enrolado nas correntes forjadas por sua mente e ficará enredado nas correntes das outras pessoas. Portanto, eu repito, você estabiliza-se na fonte do seu ser e então todas as correntes irão se romper e você será liberado. Você irá transcende o tempo, com o resultado que você estará além dos tentáculos dele e prevalecerá na Eternidade. E esse estado sublime pode ser atingido apenas ao beber incessantemente o néctar dos pés sagrados do guru – o guru-charan-amrita. Esse estado de beatitude extática – o ser afundando-se abençoadamente no Ser. Esse êxtase está além das palavras; ele é também o estado de estar ciente em total quietude.
A quintessência do discurso está clara. Sua posse mais importante é o “conhecimento” que “você é” anterior à emanação da mente. Segure-se nesse “conhecimento” e medite. Nada é superior a isso, nem mesmo a devoção ao guru – guru bakti – ou a devoção a Deus – Iswara bhakti.
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28 de janeiro de 1980

Maharaj: Visto da terra, o sol parece nascer e se pôr. Mas do ponto de vista do sol, ele brilha continuamente e não tem conhecimento de nascer e se pôr. Enquanto o sentido de ser e sua manifestação, incluindo as atividades dentro dela, são temporárias e limitadas ao tempo, aquilo que é anterior ao sentido de ser é eterno. Você é um estudante do Bhagavad-gita; o que eu digo, está de acordo com o Gita?

Visitante: Após escutar seus discursos pude compreender claramente o décimo quinto capítulo do Gita, onde é feito uma menção do Purushottama.

M: Purushottama é o Absoluto, o Eterno. Ao mesmo tempo que o Absoluto é sem nenhum suporte externo, sendo totalmente auto-suficiente, ele em si é o suporte de todas as coisas manifestas.

V: Krishna disse: “Apenas aqueles que compreendem que Eu, o Absoluto, estou além dos estados de Ser e de não-Ser realizam minha verdadeira natureza, e todos os outros são tolos.”

M: Aqueles que são criados de uma ação estúpida também são estúpidos.

V: O que quer que um Jnani fala, é conhecimento espiritual e mesmo seu comportamento revela conhecimento.

M: Na verdade, todo nosso comportamento é de qualidade sattva-guna, expressado da essência da comida, e não é nem seu nem meu. O sattva-guna tem três estados, vigília, sono profundo e sentido de ser (beingness). Quando o conhecimento é entendido corretamente a pessoa é puro Brahman apenas, embora tenha a forma de um corpo. Não tem modificação mental. Isso é o que Krishna disse.

O corpo é um produto da essência da comida. Todas as plantas, raízes, árvores, animais, etc., são criados de sementes, e uma semente (bija) significa recriar uma forma prévia. Uma semente também é um produto do sattva-guna. De uma semente brota uma planta e depois uma grande árvore, mas a fonte é a semente apenas. Também de uma semente humana, a qual é o produto dos três gunas (sattvas, rajas e tamas) e a essência da comida, brota o corpo, o sentido de ser e a manifestação. Isso pode ser percebido apenas por um ser humano.

Tendo entendido isso, eu realizei Brahman embora tendo a forma de um corpo. Raramente, alguém embebe esta sabedoria. Muitos adquirem o assim chamado 'conhecimento', mas o que quer que seja adquirido não é conhecimento verdadeiro.

V: O sentido de ser, ou o conhecimento “eu sou”, é então o conhecimento verdadeiro final?

M: Esse verdadeiro conhecimento, o conhecimento "eu sou", também é rendido ao status de não-conhecimento no estado Absoluto final. Quando a pessoa está estabelecida em seu estado final livre, o conhecimento 'eu sou' torna-se “não-conhecimento”.

Quando você vê uma árvore florida você olha apenas para a folhagem, mas não pensa na raiz e na semente da qual ela brotou. Ao menos que você entenda a semente também, não haverá compreensão total. No presente momento você entende a si como sendo um corpo, mas você não inclui no entendimento a fonte e a semente da qual este corpo manifestou-se. Uma pontinha de uma caneta tinteiro molhada com tinta escreve volume atrás de volume. A pontinha da caneta é a fonte de todos os escritos. Similarmente, o seu sentido de ser é a fonte e o início do seu mundo inteiro. O material escrito é facilmente observado e lido, mas a fonte dele – a ponta da caneta, que é quase sem dimensão – não é percebida facilmente. Assim também é a “semente-sentido de ser”, que é sem forma, muito elusiva.

Você não identifica-se com o seu sentido de ser, mas você é rápido em identificar-se com a forma visível do seu corpo. Você refere-se à forma como “eu” em vez do sentido de ser. Entretanto, para a sustentação do sentido de ser um corpo é essencial. Mesmo se o Senhor Krishna fosse reincarnar novamente, ele poderia fazer isso apenas com o intermédio da semente-sentido de ser, que por sua vez seria um produto de um corpo proveniente da essência da comida. (food-essence body) Não apenas Krishna, mas também Cristo e Buda manifestam apenas através do sentido de ser da essência-comida. Mas você sabe o significado de Buda, o bodhisattva?

V: Buda significa a natureza inata de todos nós.

M: E quando você foi iniciado, qual foi a forma da iniciação e no que você foi iniciado?

V: Fui levado para a ordem dos Santos Sangh, como um monge, que trabalhava para a felicidade total...

M: Não me diga tudo isso. Disha (iniciação) significa “apenas seja”, de maneira alerta “Seja o que você é”. Qual concelho foi lhe dado na época da sua iniciação?

V: Para observar meu corpo-mente.

M: De que ponto de vista, ou identidade, você observou?

V: Não observei meu corpo de nenhum ponto de vista, Havia apenas a observação.

M: Quando você não conhece a si mesmo, então quem está observando? E como isso acontece?

V: O objeto da minha observação surge no observador. Através do objeto constituído pelo pensamento – emoção e copro, há um sentido de ser. Eu podia observar esse sentido de ser. Vi muito claramente que não há nada de substancial dentro deste processo corpo-mente.

M: Como foi-lhe pedido para estar alerta na época da sua iniciação?

V: O tempo todo.

M: Mas com que identidade você deveria estar alerta?

V: Eles não me falaram a respeito de nenhuma identidade. Falaram para eu ficar apenas alerta.

M: Para quem eles disseram? Eles não deveriam indicar o que a testemunha deveria parecer?

V: Não.

M: Esse é um tipo inferior de iniciação. Primeiro reconheça o princípio residente, o conhecimento “eu sou” ou o “auto-amor real”, que está testemunhando. O testemunhar acontece para esse princípio. Quando existe dor, espontaneamente eu testemunho a dor que estou experimentando.

V: Parece haver um sentido de separação entre eu mesmo e o objeto que está sendo testemunhado. Então quando eu testemunho …

M: Mas quando você testemunha?

V: Quando testemunho o corpo-mente, sinto estar separado do corpo-mente.

M: Para quem o testemunho acontece?

V: Isso eu não sei.

M: Então que tipo de espiritualidade você pratica?

V: Embora eu use um roupão, não sigo nenhuma avenida particular de espiritualidade ou nenhuma ordem. Apenas tento estar ciente de que eu sou.

M: Para todos os seres é a mesma experiência. De manhã cedo, imediatamente após acordar, apenas o sentimento “eu sou” é sentido dentro ou o sentido de ser acontece, e depois acontece o testemunho seguinte de todas as coisas. O primeiro testemunho é aquele do “eu sou “. Esse testemunho primário é o pré-requisito para todos os outros testemunhos. Mas para quem o processo de testemunhar está acontecendo? Para aquele que sempre é, mesmo sem acordar; o testemunho do estado desperto acontece para aquele substrato sempre-presente. O mistério da experiência do mundo está neste ponto. O conhecimento esotérico da 'semente-sentido de ser' também está aqui. Agora você acordou, e o testemunho do despertar acontece. O testemunho primário é da minha própria presença, da minha existência. Esse estado desperto, ou o sentido de existência, é um estado temporário, sendo um dos três estados – de sono profundo, vigília e sentido de estar ciente que juntos constituem o sentido de ser (beingness). Esse sentido de ser é como aquela qualidade da pontinha molhada da caneta. O agregado desses três é a energia sutil representada pelos princípios masculino e feminino, chamado purushaprakriti. Nesse sentido de ser, o sattva-guna, é o visva-sutra, brahma-sutra, atma-sutra*. Nesse sentido de ser reside a manifestação universal. Esse sattva-guna é o cordão pelo qual Brahman e o universo manifesto estão amarrados.

V: Uma pergunta que eu gostaria de ….

M: Que perguntas você poderia ter sobre esse assunto?

O próprio foco dessa pontinha da caneta molhada assumiu múltiplas formas. Esse sentido de ser é conhecido como sattva-shakti e prakriti-purushashakti. O sattva-guna que deu origem a esse sentido de ser é o produto da essência dos pais que pertence à espécie do vachaspati*. Essa própria essência assumiu forma, e o universo é revelado em seu interior e exterior. Entenda claramente a fonte. É como uma pequenina semente de uma árvore banyan crescendo numa magnífica árvore e ocupando um grande espaço; mas quem é esse que ocupa o espaço? É o poder da pequena semente. Similarmente, entenda que é essa emissão quintessencial dos pais que leva o toque o “sentido de eu sou”, que se manifesta-se num universo. Portanto, vá nessa fonte e entenda-a completamente. Assim como a semente carrega a forma latente da planta, também a semente dos pais carrega a forma latente do masculino ou feminino na imagem dos pais.

Pai e mãe são também uma expressão do sattva-guna, o princípio quintessencial apenas. Como um resultado da fricção, a emissão aconteceu. Essa emissão tendo tirado a foto dos pais, cresce numa criança na imagem dos pais. Antes do seu nascimento, onde estava o seu sentido de ser repousando dormente? Ele não era a quintessência dos pais? Esse não é o eterno drama da reprodução de toda as espécies através do princípio sattva e a energia denotada por purushaprakriti?

V: Esse toque de “sentido de eu sou” em si não é nada pessoal; ele é pessoal apenas quando ligado com o corpo e mente.

M: Esse toque de “sentido de eu sou” é o manifesto apenas, e não é individualista.

V: Você falou sobre o estado do “Eu-amor”. Se eu digo que amo alguém, significa realmente o “sentido de eu sou” daqui deste ponto reconhecendo o “sentido de eu sou” naquele outro ponto.

M: Não existe 'outro' de maneira nenhuma com quem fazer amor. Apenas o “amor de ser” brotou. Para sustentar o estado de “amor por ser” você passa por uma porção de dificuldades e adversidades. Apenas para manter o estado agradado e satisfeito, você se envolve em tantas atividades.

V: O sofrimento é direcionar a atenção para algo além do estado “Eu-amor”, mas se tudo isso pretende perpetuar o “sentido de eu sou”, não é um desejo?

M: Isso não é desejo, é a própria natureza de ser do “sentido de eu sou”. O sentido de ser quer ser e quer perpetuar-se. Essa é sua própria natureza; isso não é a natureza do individuo.

V: Mesmo quando ele está ligado com o corpo-mente?

M: Um número de mentes e corpos são formados desse princípio. Ele é a fonte da criação. Milhões de espécies são criadas desse princípio básico. Ele é moolamaya, a semente-ilusão.

V: O “eu sou” está criando você?

M: Do meu 'sentido de ser' (beinness) são criados os três mundos. No meu mundo de sonho milhões de vermes, seres humanos, etc. são criados. Quando e da onde esse mundo-sonho emergiu? Ele emergiu do aparente despertar no estado de sonho.

V: Se eu fecho meus olhos, isso significa que você não existe?

M: Quem te falou que seus olhos estão fechados?

V: Meu “sentido de eu sou”.

M: Quando você fechou seus olhos a consciência também foi fechada?

V: Não.

M: Como um resultado da união do amor dos objetos encarnados chamados pais, você é o lembrete que você é a criação resultante do momento bem-aventurado deles. A memória “eu sou”, lembra do momento bem-aventurado. Esta forma, a pessoa encarnada, é um lembrete da bem-aventurança. Você coletou um monte de conhecimento, e você considera-se pronto para ser um guru e então você irá expor o conhecimento – isto é, o conhecimento coletado, e não o conhecimento revelado de você próprio. O conhecimento não foi totalmente revelado a vocês, vocês não realizaram a si mesmos, e portanto serão pseudo-gurus. Sua existência estava numa condição dormente no seu pai e sua mãe. Agora você quer prosseguir para algum lugar daqui. De onde você surgiu? Vá para a fonte da qual você emergiu. Esteja lá primeiro. Alguém teve a diversão da bem-aventurança e Eu sofro e choro por uma centena de anos.

V: É correto comparar o “sentido de eu sou” (I-am-ness) à uma sala com duas portas? De um lado você vê o mundo, e do outro você percebe Parabrahman.

M: Não existem portas para Parabrahman, filho querido. Olhe para a porta de onde você emergiu. Antes de emergir daquela porta, como e onde estava você? Você pode colocar perguntas relacionadas a esse assunto.

V: Há amor e sofrimento também, neste “eu sou”.

M: A causa é a felicidade, e o resultado é o “sentido de eu sou”. A causa é bem-aventurança, mas o resultado tem que sofrer do início até o fim.

V: Naquele momento passageiro há consciência do amor e do sofrimento simultaneamente?

M: Tudo aquilo que prevalece no cosmos no momento do amor é registrado no resultado; e, acidentalmente, o resultado assume uma forma, ele é uma réplica dos pais. Seu nascimento significa um filme do universo naquele período. Não é meramente um nascimento, está carregado com o universo dentro e fora.

V: Uma vez que você nasce, a consciência é contínua, mas na meditação ela vem e vai.

M: O sentido de ser é contínuo e ele conhece a si mesmo apenas com o auxílio de uma forma, do corpo, enquanto que sem isso (ou seja, no estado absoluto), ele não conhece a si mesmo . Quem é a testemunha das idas e vindas da consciência?

V: Apenas a ciência (awareness).

M: O que você diz está correto num sentido, mas na verdade não é assim. É como dizer que eu prometo te dar dez mil rúpias, mas … A ciência (estado de estar ciente) é o estado Parabrahma, mas isso é apenas uma palavra; você tem que residir nesse estado. Atualmente, o “eu sou” está no estado do sentido de ser. Mas quando eu não tenho a consciência da ilusão “eu sou”, então o estado Poornabrahman ou Parabrahman prevalece. Na ausênsia do toque do “sentido de eu sou”, sou o total estado completo Poornabrahman, o estado permanente.

A fronteira do sentido de ser e do sentido de não-ser é uma hesitação do intelecto, pois o intelecto afasta-se de vista precisamente naquele ponto. Essa fronteira é o maha-yoga.

Na frase “você e eu”, uma vez que a conjunção 'e' é removida, não existe dualidade – isto é, não há separação de “você” e “eu”. Similarmente, esse sentido de ser é como a conjunção: quando ele é removido, nenhuma dualidade permanece. Você deve ficar naquela fronteira, naquele estado maha-yoga."

Agradecemos o Blog Portal do Conhecimento, onde essa tradução foi encontrada.



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sábado, 9 de janeiro de 2010

Maharaj fala outra vez de si mesmo



"Que conhecimento poderia dar às pessoas que vêm aqui buscando o entendimento, disse Maharaj em um anoitecer. Muitos daqueles que vêm aqui estão tão completamente identificados com seus corpos que, apesar de toda sua sinceridade, o que direi a eles será, certamente, considerado inaceitável. Mesmo aqueles que podem ‘sentir’ a sutileza e profundidade no ensinamento podem não ser capazes de aperceber-se de seu significado real. Mas aqueles que intuitivamente entendem o que digo necessitarão apenas uma sessão comigo.

Quantos me entenderiam se eu dissesse que:

  1. Estou sempre presente porque estou sempre ausente; e estou apenas presente quando estou ausente. Para elucidar isto, eu acrescentaria que estou sempre presente absolutamente, mas relativamente, minha presença aparente é minha ausência aparente como ‘Eu’ (uma confusão ainda mais danada);

  2. Eu, que não sou uma ‘coisa’, é tudo o que não sou, mas o universo aparente é meu ser;

  3. Depois que todos os vocês e eus se tenham negado uns aos outros, permanecerei como ‘Eu’;

  4. Como você poderia me amar? Você é o que Eu sou. Como eu poderia odiá-lo? Eu sou o que você é;

  5. Não tendo nascido nunca, como poderia morrer? Não sendo nunca um escravo, onde está a necessidade de buscar a libertação?

  6. Como poderia o relativo julgar o Absoluto? O Absoluto é de fato o relativo quando o relativo não mais for relativo – quando o relativo abandonar tudo o que o faz relativo. Na ausência da forma física, a consciência não é consciente de si mesma;

  7. O que você era antes de nascer?

  8. Todas as preferências e diferenças são disparates conceptuais. Podem apenas aparecer de maneira relativa. Absolutamente, não pode existir nenhuma aparência e, portanto, nem preferências nem diferenças.

  9. Junte todo o conhecimento que você quiser – mundano ou não – e, então, ofereça-o em sacrifício ao Absoluto, e assim por diante. O que um ouvinte pensará de mim? O que ele pode pensar de mim? A única conclusão a que poderia chegar, disse Maharaj com uma forte risada, seria que eu sou absolutamente – e também relativamente – louco!"


De: "Sinais do Absoluto"



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terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Sobre o Silencio


"A dor é sobreposta ao silêncio?

Tudo surge do silêncio.

Então o silêncio é constante e a dor é, de alguma forma, estranha?

Quando você fala de dor, alguém sente esta dor, um “alguém” que aparece do silêncio. A dor é uma percepção que nós, geralmente, evitamos sentir mediante um muito rápido processo de conceituação. Como o conceito de dor e sua percepção não podem ocorrer simultaneamente, devemos abandonar a idéia e sentir a percepção pura. Ao sermos conscientes da sensação, sendo seu conhecedor, nós estamos fora da dor, ou mais precisamente, a dor aparece em nossa observação, em nosso silêncio sempre presente.
Há diversos modos de relacionar-se com a dor. Geralmente, tendemos a evadi-la ou a dirigi-la de alguma maneira, mas então ficamos nela enredados através do esforço da vontade. Quando simplesmente observamos e permitimos que a dor se expresse, a energia estabelecida como dor se torna fluida. No olhar puro, não há ninguém, nenhum ego dirigente, e esta energia, não encontrando lugar algum para se localizar, reintegra-se à totalidade.
É importante para você aprender a viver com a dor. Nunca a conceitue. Eu lhe darei um exemplo do que quero dizer. Se você se sente cansado e diz a si mesmo “Estou cansado”, identifica-se instantaneamente com a fadiga. Esta identificação faz de você um cúmplice deste estado, com isso, você o sustenta. Mas se você descansa e permite que a fadiga se expresse, ele se torna um objeto de sua observação. E, como você não é mais um cúmplice dela, o sentimento de cansaço se dissolve rapidamente e você se sente completamente descansado.

Tenho um nervo comprimido em minha perna. Se eu pudesse desapegar-me da dor o suficiente para observá-la, isto ajudará a curá-lo?

Este nervo em sua perna tem sua origem entre a quarta e a quinta vértebra da coluna vertebral. Quando há pressão sobre esta parte, a primeira coisa a fazer é libertar o nervo. O melhor procedimento é sentar-se com as pernas estiradas e permitir que a área pélvica relaxe completamente. Mas você não deve estar no movimento. Deixe-me explicar.
Assuma esta postura, feche seus olhos, e permita que sua atenção percorra o corpo. Deste modo, você pode sentir onde a tensão está localizada. Mas não antecipe qualquer resultado. A antecipação significa que a mente já está em algum lugar antes que a sensação tenha a oportunidade de se expressar, e você permanece na idéia e não na sensação. Podemos chamar tal antecipação de “ganho final”. Você não deve viver neste ganho final.
Se eu fecho meus olhos, não posso dizer-lhe exatamente onde estou porque meu corpo está desperto em cada parte, despertado por sua sensitividade preservada. Em cada passo, o fim é alcançado.

Quando desperto na manhã, eu sinto freqüentemente que há alguma substância densa que devo ultrapassar para realmente acordar. Por que ainda me sinto tão cansado?

Quando você desperta pela manhã, é o corpo que desperta em sua Consciência. Mas o que nós chamamos nosso corpo é um padrão inscrito no cérebro, um tipo de reflexo impresso ali em algum momento de nossa vida. No princípio, este reflexo era ocasional, então se tornou mais freqüente, até que finalmente se estabeleceu. Você adotou este padrão e pensa de seu corpo segundo estes termos. Acontece o mesmo com os estados psíquicos. Podemos despertar e sentir-nos imediatamente deprimidos.

É também o condicionamento que nos faz pensar que necessitamos de oito horas de sono a cada noite?

Na medida em que você se torna mais desperto, você enfrenta os eventos do dia e as situações em um modo não-reativo, vivendo-os totalmente como eles acontecem. Nada é postergado e, portanto, não permanece resíduo algum em sua mente. Não havendo nenhum remanescente da reação e da tensão, seu corpo está completamente relaxado quando você dorme e, neste estado, quatro horas e meia a cinco horas é o suficiente.

Então, você precisa dormir mais se não vive conscientemente durante o dia?

Sim, algumas vezes o que você postergou durante o dia surge na forma de um sonho.

Os sonhos são necessários?

O que geralmente chamamos um sonho é uma eliminação do que não se resolveu durante o estado de vigília. Mas, se aparece como o que em francês se denomina songe, então não é uma eliminação. Você pode ver seu passado ou futuro aparecer em uma perfeita simultaneidade, pois a idéia de viver no tempo e no espaço é devida apenas ao fato de sermos educados para pensar nestes termos. Realmente, eventos e situações aparecem simultaneamente. O que você fará amanhã ou em quatro semas ou quatro anos, já está presente. Mas sua mente foi organizada para captar as percepções sucessivamente, e assim aparece o tempo. Ele existe apenas na mente humana. Na realidade não há tempo.

Os mestres espirituais dizem freqüentemente que o mundo dos fenômenos aparece e desaparece e não há nada que a pessoa necessite fazer. Mas muitos de nós sentimos a necessidade de controlar nossas vidas.

Por que controlar a vida? Ela não tem nenhuma necessidade de controle. A vida se encarrega de si mesma. Tentar controlar a vida significa viver na memória, na repetição, no processo contínuo de ter e devenir. Uma vez deixado de lado este impulso para controlar, você não tem conflito e é um com a corrente de vida. Seja um espectador do espetáculo. A representação continua, mas você está observando na audiência. Se subir ao palco e se envolver na obra, você estará perdido.

Nunca pratiquei a meditação por medo de descobrir tudo que tenha reprimido. Esta reação é um sinal de que devo olhar mais profundamente dentro de mim mesmo ou significa que não sou suficientemente maduro?

O que aparece durante a meditação são resíduos do passado. Estes resíduos são energia localizada mediante a associação de idéias, energia mobilizada no medo e na insegurança. Permaneça como testemunha de tudo isto. Sendo o observador indiferente, a atenção é imotivada, e todo condicionamento diminui. Você pode achar que o consciente, o inconsciente e o superconsciente aparecem, mas não são novos – eles são o passado. Permita-os emergir, mas permaneça como o observador.
Inicialmente, o observador é também um objeto da percepção. Então, você é este silêncio – atemporalidade – tanto na presença quanto na ausência de tempo.

Por que, às vezes, tenho medo do silêncio?

Quem é este “eu” que tem medo? É o ego, a imagem que temos de nós mesmos. Ele se dissolve quando você permite que se vá, no momento em que o observa. A observação pura não tem lugar para a imagem do “eu”. Assim, pois, deixe-o ir. Seja absolutamente livre de todas as situações.

Para mim, é difícil observar o medo quando estou totalmente aprisionado nele.

Olhe o mecanismo do medo. Veja o que existe diante deste medo, que associações o levaram a este estado.Você sente uma sensação e a etiqueta como “medo”. Você projeta uma imagem de um “eu” que se sente assustado, então coloca esta imagem em uma floresta escura diante de um enorme leão.
A projeção de si mesmo como um homem, como uma personalidade, faz surgir o medo porque a personalidade necessita de uma situação para existir. Muitos de nós preferimos sofrer, preferimos prolongar uma condição sem esperança porque isto dá ao “eu” um ponto ao qual apegar-se. Se o “eu” não tem nada em que se agarrar, morre. Mas nós devemos acostumar-nos a morrer!
Veja cada nova situação sem referência a uma imagem passada de você mesmo. Quando você pára de projetar uma pessoa, uma imagem de si mesmo como um homem, como ser inteligente, como um certo tipo de personalidade, como tendo muitas amantes, etc., o que acontece? Você está calmo e vigilante, mas não atento a alguma coisa. Então, a situação não pertence a uma imagem, mas à consciência global.
Quando você está preocupado, o “eu” está envolvido neste medo e não pode, intencionalmente, permitir que ele se vá. Esta imagem do eu se reduz no momento em que o medo se torna percepção. E, como o medo necessita do estímulo de uma imagem para existir, quando não há imagem, não há medo.
A idéia de ser uma entidade separada e individual é incorreta. Uma entidade independente não existe. Você é um com as estrelas, com a lua, com os animais, plantas e pedras e com a sociedade. Você não tem existência independente da totalidade.

Se o indivíduo não existe, o que existe?

Existem pensamentos, emoções e percepções, mas não há nada pessoal neles. O “eu” é uma convenção nas relações humanas. Existe como um conceito, mas não tem realidade.
Aceita a vida. Deixe-a acontecer. Você não é sua vida, apenas um observador sentado na audiência observando seu ator no palco. O ator pode interpretar um herói, ou um marido, ou alguém que sofre, mas sabe que está atuando. Não está identificado com o papel. É a mesma coisa em sua vida.

Então não há nada a fazer?

Nada a fazer. Quando você olha com profundidade, você verá que a maioria do “fazer” é reação. Apenas a pura observação imotivada é vazia de reações, pois não há ninguém para reagir. Então, toda a ação é espontânea, momento a momento.

(Longo silêncio)

Você não deve chegar a algumas conclusões neste tipo de encontro. Falar é mais ou menos um pretexto. O verdadeiro perfume está no silêncio.

Eu não entendo a razão pela qual me sinto tão desconfortável no silêncio.

Se você tenta ser silencioso, você não pode sê-lo. O silêncio é sua natureza original. Não há nenhuma necessidade de tentar ser o que você naturalmente é. Simplesmente, observe quando você está silencioso. Podemos apenas falar realmente de comunicação quando nós permanecemos silenciosos. A beleza da vida jaz na comunicação, mas não aquela que ocorre entre dois objetos, duas personalidades, duas imagens. Não há nenhum significado, nenhuma ação, em uma relação entre duas imagens, entre a idéia de ser um homem e a idéia de ser uma mulher.
No silêncio, não há homem ou mulher, há apenas amor. Então, a comunicação é comunhão.

É tão fácil interpretar o papel, mas...

Não desempenhe o papel de modo algum. Tomar-se como um homem significa que você deve preencher muitas qualificações: como se apresentar, como ceder, como falar, como atuar, etc. Você foi educado para pensar como um homem, confinado por todas estas etiquetas. O mesmo é verdadeiro quando você se considera um pai ou uma mãe. Não há nenhum homem ou mulher, nenhum pai ou mãe. Pare de projetar-se em seu ambiente e permita que cada momento o encontre de um modo novo e sem memória. Olhe para as coisas como se fosse a primeira vez. Seja totalmente despido, informe, anônimo. Você é simplesmente um belo ser, nada mais, e isto não requer educação. Seja simplesmente o belo ser que você é.

Se eu me comportasse desta maneira, eu me sentiria como se não tivesse proteção, como se estivesse indefeso...

De quem você se protegeria? Não há ninguém a defender."
.
De: A Simplicidade de Ser - Dialogos com Jean Klein

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A Gota e o Oceano






"Todos sabem que a gota se perde no oceano,
mas poucos sabem que o oceano se perde na gota."

Kabir & Sri Ramana Maharshi


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sábado, 2 de janeiro de 2010

A liberdade da autoidentificação


"Maharaj: Você pode sentar no chão? Precisa de uma almofada? Tem qualquer pergunta a fazer? Não é que você necessite perguntar, você pode também ficar quieto. Ser, só ser, é importante. Você não precisa perguntar nem fazer nada. Tal modo aparentemente preguiçoso de passar o tempo é altamente considerado na Índia. Significa que por enquanto você está livre da obsessão do ‘e agora?’ Quando você não tem pressa e a mente está livre da ansiedade, ela se torna tranquila e, no silêncio, algo pode ser ouvido, o qual é ordinariamente muito tênue e sutil para ser percebido. A mente deve estar aberta e serena para ver. O que estamos tentando fazer aqui é trazer nossas mentes para dentro do estado adequado ao entendimento do que é real.
 

P: Como podemos remover nossas preocupações?

  M: Você não necessita preocupar-se com suas preocupações. Apenas seja. Não tente estar tranquilo; não faça do ‘estar tranquilo’ uma tarefa a ser realizada. Não se inquiete a respeito de ‘estar tranquilo’, miserável sobre ‘ser feliz’. Simplesmente, seja consciente de que você é, e permaneça consciente – não diga ‘sim, eu sou; e agora?’ Não há um ‘e agora?’ no ‘Eu sou’. É um estado eterno.

  P: Se for um estado eterno, ele se expressará de qualquer modo.

  M: Você é o que é, eternamente, mas de que lhe serve isto a menos que você o conheça e saiba agir de acordo? Sua tigela de mendigo pode ser de puro ouro, mas, enquanto você não souber disto, será um miserável. Você deve conhecer seu valor interno e confiar nele, e expressá-lo no sacrifício diário do desejo e do medo.

  P: Se eu me conhecesse, não deveria desejar ou temer?

  M: Durante algum tempo, os hábitos mentais podem demorar-se apesar da nova visão – o hábito de desejar o passado conhecido e temer o futuro desconhecido. Quando você souber que estes só pertencem à mente, poderá ir além deles. Enquanto tiver todo o tipo de ideia sobre si mesmo, conhecer-se-á através da névoa destas ideias; para conhecer-se tal com é, abandone-as todas. Você não pode imaginar o sabor da água pura, só pode descobri-lo abandonando todos os condimentos.
  Enquanto estiver interessado em seu modo atual de vida, você não o abandonará. O descobrimento não poderá vir, enquanto você estiver aderido ao familiar. Só quando você compreender plenamente a imensa aflição de sua vida e se rebelar contra ela poderá encontrar a saída.

  P: Posso ver agora que o segredo da vida eterna da Índia está nestas dimensões da existência, das quais a Índia sempre teve a custódia.

  M: É um segredo aberto e sempre houve pessoas querendo, e dispostas a distribuí-lo. Mestres, há muitos; discípulos corajosos, muito poucos.

  P: Estou desejoso de aprender.

  M: Aprender palavras não é o bastante. Você pode conhecer a teoria, mas sem a experiência real de si mesmo como o impessoal e não qualificado centro de ser, amor e bem-aventurança, o mero conhecimento verbal é estéril.

  P: Então, o que faço?

  M: Tente ser, apenas ser. A palavra mais importante é ‘tentar’. Destine tempo suficiente a cada dia para sentar-se quietamente e tentar, apenas tentar, ir além da personalidade, com seus vícios e obsessões. Não pergunte como, não pode ser explicado. Siga tentando até ser bem-sucedido. Se perseverar, não poderá haver fracasso. O que interessa no grau máximo é a sinceridade, a seriedade; deve estar farto de ser a pessoa que é, e ver a urgente necessidade de libertar-se desta desnecessária autoidentificação com um punhado de recordações e hábitos. Esta firme resistência contra o desnecessário é o segredo do êxito.
  No final das contas, você é o que é a cada momento de sua vida, mas nunca é consciente disto, exceto, talvez, no momento de acordar do sono. Tudo quanto necessita é ser consciente do ser, não como uma afirmação verbal, mas como um fato sempre presente. A Consciência que você é abrirá os seus olhos para o que você é. É tudo muito simples. Em primeiro lugar, estabeleça um contato constante consigo mesmo, esteja consigo mesmo todo o tempo. Todas as bênçãos fluem da Consciência de si mesmo. Comece como um centro de observação, de conhecimento deliberado, e torne-se um centro de amor em ação. ‘Eu sou’ é uma pequena semente que se tornará uma poderosa árvore – de forma totalmente natural, sem um traço de esforço. 

  P: Vejo tanto mal em mim mesmo. Não devo mudar isto?

  M: O mal é a sombra da falta de atenção. Na luz da Consciência de si mesmo, ele secará e cairá.
  Toda dependência de outro é fútil, pois o que os outros podem dar, outros levarão. Apenas o que é seu no princípio permanecerá seu ao final. Não aceite orientação exceto de dentro e, mesmo então, examine bem todas as lembranças, pois elas o enganarão. Mesmo que desconheça totalmente os caminhos e os meios, fique quieto e olhe para dentro de si mesmo; a orientação, seguramente, virá. Você nunca é deixado sem conhecer que próximo passo deverá dar. O problema é que você pode evitá-lo. O Guru está aí para dar-lhe coragem, devido à sua experiência e realização. Mas só aquilo que você descobre através de sua própria Consciência, seu próprio esforço, será de uso permanente para você.
  Lembre-se, nada do que você percebe é seu. Nada de valor vem a você do exterior; apenas seu próprio sentimento e entendimento são relevantes e reveladores. Palavras ouvidas, ou lidas, apenas criarão imagens em sua mente, mas você não é uma imagem mental. Você é o poder da percepção e da ação por trás e além da imagem.

  P: Parece que você me aconselha a centrar-me em mim mesmo o ponto de ser egoísta. Não devo render-me a meu interesse pelas outras pessoas?

  M: Seu interesse nos outros é egoísta, em interesse próprio, orientado para si mesmo. Você não está interessado nos outros como pessoas, mas só na medida em que eles enriquecem ou enobrecem sua própria imagem de si mesmo. E o maior egoísmo é cuidar apenas da proteção, preservação e multiplicação do próprio corpo. Por corpo quero dizer tudo o que está relacionado com seu nome e forma – sua família, tribo, país, raça, etc. O egoísmo é estar apegado à forma e ao nome. Um homem que sabe que não é nem corpo nem mente não pode ser egoísta, pois não tem nada para ser egoísta. Ou, você pode dizer que é igualmente ‘egoísta’ em benefício de todos aqueles que encontra; o bem-estar de todos é o seu bem-estar. O sentimento ‘Eu sou o mundo, o mundo sou eu mesmo’ torna-se bastante natural; uma vez que isto esteja estabelecido, não haverá modo de ser egoísta. Ser egoísta significa invejar, adquirir, acumular em benefício da parte e contra o todo.

  P: Pode-se ser rico e com muitas posses por herança ou matrimônio, ou simplesmente boa sorte.

  M: Se você não se aferrar a elas, serão levadas de você.

  P: Em seu estado presente você pode amar outra pessoa como uma pessoa?

  M: Eu sou a outra pessoa, a outra pessoa sou eu mesmo; em nome e forma somos diferentes, mas não há separação. Na raiz de nosso ser nós somos um.

  P: Não é assim toda vez que há amor entre pessoas?

  M: É, mas não são conscientes disto. Elas sentem a atração, mas não conhecem a razão.

  P: Por que o amor é seletivo?

  M: O amor não é seletivo, o desejo é seletivo. No amor não há estranhos. Quando o centro do egoísmo não existe mais, todos os desejos de prazer e temor da dor cessam; não se está mais interessado em ser feliz; além da felicidade está a pura intensidade, a energia inesgotável, o êxtase de dar de uma fonte perene.

  P: Não devo começar resolvendo por mim mesmo o problema do certo e do errado?

  M: O que é agradável, as pessoas tomam por bom, e o que é doloroso é tido por mau.

  P: Sim, é assim, para nós, pessoas comuns. Mas como é para você, no nível da unidade? O que é bom e o que é mau para você?

  M: O que aumenta o sofrimento é mau e o que o remove é bom.

  P: De modo que você não considera bom o sofrimento em si mesmo. Há religiões em que o sofrimento é considerado bom e nobre.

  M: O karma, ou destino, é a expressão de uma lei benéfica; o universal tende ao equilíbrio, à harmonia e à unidade. A cada momento, aquilo que acontece agora é no sentido do melhor. Pode parecer doloroso ou feio, um sofrimento amargo e sem sentido, mesmo assim, considerando o passado e o futuro, é para melhor, como a única saída de uma situação desastrosa.

  P: Sofre-se apenas pelos próprios pecados?

  M: Sofre-se junto com o que se acredita ser. Se você se sentir um com a humanidade, você sofrerá com ela.
 
  P: E, posto que você pretende ser um com o universo, não há limite no tempo e no espaço para seu sofrimento!

  M: Ser é sofrer. Quanto mais estreito for o círculo de minha autoidentificação, mais agudo o sofrimento causado pelo desejo e pelo medo.

  P: O Cristianismo aceita o sofrimento como purificador e enobrecedor, enquanto o Hinduísmo o olha com desgosto.

  M: O Cristianismo é uma maneira de juntar palavras e o Hinduísmo é outra. O real é, por trás e além das palavras, incomunicável, diretamente experimentado, explosivo em seus efeitos sobre a mente. É facilmente obtido quando não se quer nada mais. O irreal é criado pela imaginação e perpetuado pelo desejo.

  P: Pode haver sofrimento que seja necessário e bom?

  M: A dor acidental, ou casual, é inevitável e transitória; a dor deliberada, infligida inclusive com a melhor das intenções, é absurda e cruel.

  P: Você não castigaria o crime?

  M: A punição não é senão crime legalizado. Na sociedade construída sobre a prevenção em vez da retaliação, haveria poucos delitos. As poucas exceções seriam tratadas medicamente, como mente e corpo enfermos.

  P: Parece que você tem pouco emprego para a religião.

  M: O que é a religião? Uma nuvem no céu. Eu vivo no céu, não nas nuvens, as quais são muitas palavras unidas. Elimine a verbosidade e o que permanece? A verdade permanece. Meu lar está no imutável, o qual parece ser o estado de constante reconciliação e integração dos opostos. As pessoas vêm aqui para aprender sobre a existência real de tal estado, sobre os obstáculos a seu surgimento e, uma vez percebido, sobre a arte de estabelecê-lo na consciência, de modo que não haja choque entre o entendimento e o viver. O próprio estado está além da mente e não é necessário aprendê-lo. A mente pode apenas focar os obstáculos; ver um obstáculo como obstáculo é eficaz, porque é a ação da mente sobre a mente. Comece do início; dê atenção ao fato de que você é. Em nenhum momento você pode dizer ‘Eu não fui’, tudo o que pode dizer é: ‘Não recordo’. Você sabe quão incerta é a memória. Aceite que, preocupado com mesquinhos assuntos pessoais, esqueceu o que é; trate de recuperar a memória perdida mediante a eliminação do conhecido. Não se pode falar a você sobre o que vai acontecer, nem tampouco é desejável; a antecipação criará ilusões. Na busca interior, o inesperado é inevitável; o descobrimento está invariavelmente além de toda a imaginação. Do mesmo modo que uma criança ainda não nascida não pode conhecer a vida depois do nascimento, pois não tem em sua mente nada para formar uma imagem válida, assim também a mente é incapaz de pensar no real em termos do irreal exceto mediante a negação: ‘Isto não, aquilo não’. A aceitação do irreal como real é o obstáculo; ver o falso como falso, e abandoná-lo, traz a realidade para dentro do ser. Os estados de total claridade, amor imenso, coragem completa, são meras palavras no momento, perfis sem cor, sinais do que pode ser. Você é como um homem cego esperando ver depois de uma operação – desde que você não a evite! No estado em que estou, as palavras não interessam de forma alguma. Nem há qualquer dependência delas. Só importam os fatos.

  P: Não pode haver nenhuma religião sem palavras.

  M: As religiões documentadas são meros montes de verbosidade. As religiões mostram seu verdadeiro rosto na ação, na ação silenciosa. Para saber no que o homem acredita, observe como ele age. Para a maioria das pessoas, o serviço a seus corpos e mentes é sua religião. Podem ter ideias religiosas, mas não agem de acordo com elas. Brincam com elas, muitas vezes sentem-se muito orgulhosas delas, mas não agirão de acordo com elas.

  P: As palavras são necessárias para a comunicação.

  M: Para a troca de informações, sim. Mas a comunicação real entre as pessoas não é verbal. Para estabelecer e manter uma relação afetuosa, requer-se uma Consciência expressa na ação direta. Não o que você diz, mas o que faz é que importa. As palavras são fabricadas pela mente e só são significativas no nível mental. Você não pode comer nem viver da palavra ‘pão’ que meramente comunica uma ideia. Ela adquire significado apenas com a refeição real. No mesmo sentido, estou lhe falando que o Estado Normal não é verbal. Posso dizer que é o amor sábio expresso na ação, mas estas palavras transmitem pouco, a menos que você as experimente em toda sua plenitude e beleza.
  As palavras têm sua utilidade limitada, mas não pôr nenhum limite a elas nos leva à beira do desastre. Nossas nobres ideias estão elegantemente equilibradas por ações desprezíveis. Nós falamos de Deus, Verdade e Amor, mas, em lugar de experiências diretas, nós temos definições. Em vez de aumentar e aprofundar a ação, nós cinzelamos nossas definições. E imaginamos que conhecemos o que podemos definir!

  P: Como se pode transmitir a experiência senão por palavras?

  M: A experiência não pode ser transmitida através de palavras. Vem com a ação. Um homem cuja experiência é intensa irradiará confiança e coragem. Outros também agirão, e ganharão a experiência nascida da ação. O ensinamento verbal tem sua utilidade, prepara a mente para esvaziar-se de suas acumulações.
  Um nível de maturidade mental é alcançado quando nada externo é de algum valor e o coração está pronto para abandonar tudo. Então o real tem uma oportunidade e a aproveita. Os atrasos, se houver algum, são causados pela mente que se recusa a ver ou a descartar.

  P: Estamos tão totalmente sós?

  M: Oh, não! Não estamos. Aqueles que têm podem dar. E tais doadores são muitos. O próprio mundo é um presente supremo, mantido por um amoroso sacrifício. Mas, os adequados receptores, sábios e humildes, são poucos. ‘Pedi e será dado’ é a lei eterna.
  Tantas palavras você tem aprendido, tantas você tem dito. Você conhece tudo, mas não a si mesmo. Porque o ser não é conhecido através de palavras – apenas a percepção direta o revelará. Olhe dentro de si mesmo, busque no interior.

  P: É muito difícil abandonar as palavras. Nossa vida mental é uma corrente contínua de palavras.

  M: Não é questão de fácil ou difícil. Você não tem alternativa. Ou você tenta, ou não. Depende de você.

  P: Tentei muitas vezes e fracassei.

  M: Tente novamente. Se continuar tentando, alguma coisa poderá acontecer. Mas se você não tentar, estará preso. Você pode conhecer todas as palavras adequadas, citar as escrituras e ser brilhante em suas discussões e, mesmo assim, continuar sendo um saco de ossos. Ou pode ser discreto e humilde, uma pessoa totalmente insignificante, todavia resplandecente de amorosa bondade e profunda sabedoria."


sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

A Vida agora


"Pergunta: Pelo que posso ver, não há nada errado com meu corpo e nem com meu ser real. Ambos não são de minha fabricação e não necessitam ser melhorados. O que se perdeu foi ‘o corpo interno’, chame-o mente, consciência, antahkarana, seja que nome for.

Maharaj: O que você considera que não vai bem em sua mente?

P: Está inquieta, ávida pelo agradável e temendo o desagradável.

M: O que está errado em buscar o agradável e em evitar o desagradável? Entre as margens da dor e do prazer, flui o rio da vida. Só quando a mente se nega a fluir com a vida, e encalha nas margens, ela se torna um problema. Fluir com a vida quer dizer aceitação – deixar que chegue o que vem, e deixar que parta o que se vai. Não deseje, não tema, observe como e quando as coisas acontecem, posto que você não é o que acontece, mas a quem acontece. Finalmente você nem sequer é o observador. Você é a última potencialidade da qual a consciência todo-abrangente é a manifestação e expressão.

P: Ainda assim, entre o corpo e o ser há uma nuvem de pensamentos e sentimentos que não servem nem ao corpo nem ao ser. Estes pensamentos e sentimentos são frágeis, transitórios e sem sentido, mera poeira mental que cega e sufoca, e que aí estão, obscurecendo e destruindo.

M: Certamente, uma recordação do fato não pode passar pelo próprio fato. Tampouco a antecipação. Há algo excepcional, único, no fato presente, o qual o anterior, ou o posterior, não tem. Tem certa vida, certa atualidade; sobressai como se estivesse iluminado. No presente, existe o ‘selo da realidade’, que nem o passado nem o futuro têm.

P: O que dá ao presente este ‘selo de realidade’?

M: Não há nada peculiar no fato presente que o diferencie do passado e do futuro. Por um instante o passado foi presente e o futuro o será. O que faz o presente tão diferente? Obviamente, minha presença. Eu sou real porque estou sempre agora, no presente, e o que está comigo agora compartilha minha realidade. O passado está na memória; o futuro, na imaginação. Não há nada no próprio fato presente que o faça sobressair como real. Pode ser um fato simples, periódico, como as batidas do relógio. Apesar de sabermos que os sons sucessivos são idênticos, o som presente é bastante diferente do anterior e do próximo, tal como o lembramos ou o esperamos. Uma coisa concentrada no agora está comigo, pois eu estou sempre presente; é minha própria realidade que eu dou ao fato presente.

P: Mas nós tratamos as recordações como se fossem reais.

M: Só consideramos as recordações quando vêm ao presente. O esquecido não conta até que seja relembrado, o que implica trazê-lo ao agora.

P: Sim, posso ver que no agora há algum fator desconhecido que dá realidade momentânea à atualidade transitória.

M: Não necessita dizer que é desconhecido, já que o vê em constante operação. Desde que você nasceu, mudou alguma vez? As coisas e os pensamentos mudam todo o tempo. Mas o sentimento de que o que existe agora é real nunca mudou, inclusive em sonhos.

P: No sono profundo não há experiência da realidade presente.

M: O espaço vazio do sono profundo deve-se inteiramente à falta de recordações especificas. Mas há uma recordação geral de bem-estar. Há uma diferença de sentimentos quando digo ‘eu estava dormindo profundamente’ ou ‘eu estava ausente’.

P: Repetiremos o assunto com que começamos: entre a origem da vida e sua expressão (que é o corpo), existe a mente e seus estados em constante mudança. A corrente de estados mentais é interminável, sem sentido e dolorosa. A dor é o fator constante. O que chamamos prazer não é senão uma pausa, um intervalo entre dois estados dolorosos. O desejo e o medo são a trama e a urdidura do viver, e ambos são feitos de dor. Nossa pergunta é: pode haver uma mente feliz?

M: O desejo é a recordação do prazer, e o medo é a recordação da dor. Ambos não deixam a mente descansar. Os momentos de prazer são meras pausas na corrente da dor. Como pode a mente ser feliz?

P: Isto é certo quando desejamos prazer ou esperamos a dor. Mas existem momentos de uma inesperada, não antecipada, alegria. Pura alegria não contaminada pelo desejo – não buscada, não merecida, um dom de Deus.

M: Ainda assim, a alegria é apenas alegria contra um fundo de dor.

P: A dor é um fato cósmico ou puramente mental?

M: O universo é completo, e onde há plenitude, onde nada falta, o que pode causar a dor?

P: O universo pode ser completo como uma totalidade, mas incompleto nos detalhes.

M: Uma parte da totalidade vista em relação com a totalidade também é completa. Só quando é vista isoladamente se faz deficiente e, portanto, um assento de dor. O que produz esse isolamento?

P: As limitações da mente, eu suponho. A mente não pode tomar a totalidade pela parte.

M: Muito bem. A mente, por sua própria natureza, divide e opõe. Pode haver alguma outra mente, que una e harmonize, que veja a totalidade na parte e a parte completamente relacionada com a totalidade?

P: Essa outra mente – onde buscá-la?

M: Indo além da mente que limita, divide e opõe. Terminando com os processos mentais tal como os conhecemos. Quando isto terminar, aquela mente nascerá.

P: Nesta mente, os problemas da alegria e da aflição não existirão?

M: Não como os conhecemos, como desejáveis ou repugnantes. Ela se converte em uma questão de amor que busca expressão e encontra obstáculos. A mente inclusiva é amor em ação, batalhando contra as circunstâncias, inicialmente frustrada e finalmente vitoriosa.

P: Entre o espírito e o corpo, é o amor que constrói a ponte?

M: Que outra coisa? A mente cria o abismo, o coração o cruza."


De "Eu Sou Aquilo" Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj



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