Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

O orgulho do êxito pessoal













“Trabalhei duramente e agora me considero um homem bem sucedido. Eu seria um hipócrita se não admitisse que me sinto muito satisfeito e, sim, também, um tanto quanto orgulhoso do meu êxito pessoal. O que teria de errado nisso?”

Certa manhã, um visitante estrangeiro dirigiu-se a Sri Nisargadatta Maharaj com estas palavras. Era um homem de quarenta e poucos anos – presunçoso, autoconfiante e um pouco agressivo. A conversa prosseguiu então como se segue:

Maharaj: Antes de considerarmos o que é ‘certo’ e o que é ‘errado’, por favor, quem faz esta pergunta?

Visitante: (Um pouco surpreso) Como? ‘Eu’, certamente.

M: E quem é esse?

V: Eu. Este ‘eu’, quem está sentado em frente de você.

M: E você pensa que você é isso?

V: Você me vê. Eu me vejo. Onde está a dúvida?

M: Você quer dizer este objeto que está diante de mim? Qual é sua mais antiga lembrança desde objeto que pensa ser? Retroceda tanto quanto possa.

V: (Depois de um minuto ou dois) A recordação mais antiga seria talvez estar sendo cuidado e abraçado por minha mãe.

M: Como uma criança pequena, você quer dizer. Diria que o homem bem sucedido de hoje seria a mesma criança desamparada, ou seria um outro alguém?

V: Sem dúvida, é o mesmo.

M: Bem. Agora, se você pensar mais para trás, concordaria que essa criança, da qual lembra, é a mesma que nasceu de sua mãe e que uma vez foi tão desamparada que não se dava conta sequer do que acontecia quando seu corpo realizava suas funções físicas naturais, e só podia chorar ao sentir dor ou fome?

V: Sim, eu era aquela criança.

M: E o que você era antes que a criança adquirisse um corpo e nascesse?

V: Eu não entendo.

M: Você entende. Pense. O que aconteceu no útero de sua mãe? O que se desenvolveu em um corpo com ossos, sangue, medula, músculos, etc., durante um período de nove meses? Não foi um espermatozóide que, combinado com o óvulo no ventre feminino, deu início a uma nova vida e, no processo, passou por numerosos perigos? Não foi aquela infinitesimalmente pequena célula de esperma que, agora, está tão orgulhosa de seus êxitos? Quem pediu por você em particular? Sua mãe? Seu pai? Queriam particularmente você como filho? Você tem algo a ver com o ser nascido desses pais em particular?

V: Estou receoso, nunca havia pensado nisto.

M: Exatamente. Reflita a este respeito. Então, talvez, você terá alguma idéia de sua verdadeira identidade. Depois disto, considere se você poderia possivelmente estar orgulhoso do que você ‘alcançou’.

V: Penso que começo a entender o que você quer dizer.

M: Se você se aprofundar no assunto, compreenderá que a origem de seu corpo – o espermatozóide e o óvulo – é em si mesma a essência do alimento consumido pelos seus pais; que a forma física está composta e se alimenta dos cinco elementos que constituem o alimento; e também que, com muita freqüência, o corpo de uma criatura torna-se o alimento de outra.

V: Mas, certamente, eu, como tal, devo ser alguma coisa distinta deste corpo-alimento.

M: Sem dúvida que você é, mas não alguma ‘coisa’. Descubra o que é aquilo que dá sensibilidade a um ser sensível, aquilo sem o qual você nem mesmo saberia que você existe, sem falar no mundo exterior. E, finalmente, vá mais fundo ainda e examine se esta qualidade de ser, esta própria consciência, não está sujeita ao tempo.

V: Deverei, certamente, penetrar nas várias questões que você levantou, embora deva confessar que nunca explorei estas áreas antes, e me sinto quase tonto em minha ignorância dos novos campos que você abriu diante de mim. Voltarei a vê-lo novamente, senhor.



M: Será sempre bem-vindo.



"Sinais do Absoluto" Pointers from Nisargadatta Maharaj






segunda-feira, 28 de outubro de 2013

A semente da consciência








Ele parecia inquieto e agitado. Seus movimentos eram espasmódicos e ele estava, obviamente, cheio de impaciência. Era um europeu de meia-idade, esguio e em boas condições físicas. Era sua primeira visita a Maharaj. Sua agitação atraiu a atenção de todos para ele.
Quando Maharaj olhou para ele, as lágrimas repentinamente correram de seus olhos. Um olhar compassivo de Maharaj pareceu acalmá-lo um pouco e ele, então, deu as usuais informações sobre si mesmo em poucas palavras. Disse que tinha sido um estudante do Vedanta por pelo menos vinte anos, mas que sua busca pela verdade havia fracassado. Estava profundamente desanimado e desiludido e não podia mais continuar sua frustrante busca. Um lampejo de esperança surgiu para ele quando ele leu o livro de Maharaj "Eu Sou Aquilo" e sabia que havia encontrado a resposta. Imediatamente ele juntou a quantidade mínima de dinheiro necessária para uma viagem à Índia, e acabava de chegar a Bombaim. Com a voz agitada, ele disse: 
“Cheguei agora. Minha busca terminou.” As lágrimas estavam correndo livremente de seus olhos e ele não podia controlar-se.
Maharaj escutou-o com gravidade e permaneceu sentando por poucos minutos com os olhos fechados, talvez para dar a ele o tempo para se recuperar. Então, perguntou se ele estava firmemente convencido de que não era o corpo. O visitante confirmou que estava bastante claro para ele que não era meramente o corpo, mas alguma outra coisa que não o corpo e, como estava claramente explicado no livro, que este algo devia ser o conhecimento 'eu sou', o sentido de ser. Mas, ele acrescentou, não podia entender o que se queria dizer com a sugestão de que ele deveria permanecer continuamente com o conhecimento ‘eu sou’. O que, exatamente, supunha-se que ele deveria fazer? 
"Por favor, Mestre" – disse a Maharaj – "estou agora insuportavelmente cansado de palavras. Tenho-as lido e ouvido aos milhões e nada ganhei com elas. Conceda-me a substância agora, não meras palavras. Serei eternamente grato a você."
“Muito bem” – disse Maharaj – “Você terá a substância agora. Certamente, terei que usar palavras para comunicá-la a você." Maharaj, então, prosseguiu: 
"Se eu dissesse para inverter a marcha e voltar para a origem de seu ser, teria algum sentido para você?"
Em resposta, o visitante disse que seu coração aceitou intuitivamente a verdade da afirmação de Maharaj, mas ele teria que se aprofundar no assunto.
Maharaj, então, disse-lhe que ele devia entender toda situação clara e instantaneamente; isto ele poderia fazer apenas se fosse à raiz do assunto. Ele deveria descobrir como o conhecimento ‘eu sou’ apareceu pela primeira vez. A semente é a coisa, disse Maharaj. Descubra a semente de seu ser e você conhecerá a semente do universo inteiro.
Maharaj continuou: 
"Como sabe, você tem um corpo e, no corpo, está o Prana, ou a força vital, e a consciência (o ser, ou o conhecimento ‘eu sou’). Agora, este fenômeno total do ser humano é de qualquer forma diferente do das outras criaturas ou mesmo da grama que brota da terra? Pense profundamente sobre isto. Suponha que um pouco de água se acumule em seu quintal; depois de um tempo, o corpo de um inseto se forma ali; ele começa a mover-se e sabe que existe. E, novamente, suponha que um pedaço de pão velho é deixado em um canto por alguns dias; um verme aparece nele e começa a mover-se, e sabe que existe. O ovo de uma ave, depois de chocado por certo tempo, quebra, repentinamente, e aparece um pequeno pinto; ele começa a mover-se e sabe que existe. O esperma do homem germinou no útero da mulher e, depois do período de nove meses, nasce como um bebê. O esperma desenvolveu-se na forma de uma criança plenamente formada que passa pelos estados de vigília e sono e realiza suas funções físicas comuns, e sabe que existe.
Em todos estes casos – o inseto, o verme, o pinto e o ser humano – o que realmente nasceu? O que ‘supervisionou’ o processo da concepção ao nascimento? Não seria o conhecimento ‘eu sou’ que permaneceu latente da concepção ao parto e, no tempo devido, ‘nasceu’? Este ser, ou consciência, idêntico em todos os quatro casos, achando-se sem qualquer tipo de ‘apoio’, identifica-se erroneamente com a forma particular que assumiu. Em outras palavras, o que é realmente sem qualquer aspecto ou forma, o conhecimento ‘eu sou’, precisamente este sentido de ser (não ser isto ou ser aquilo, mas tão só consciência), limita-se apenas a uma forma particular e, com isto, aceita seu próprio ‘nascimento’, e daí para frente vive sob a constante sombra do terror da ‘morte’. Assim nasce a noção de uma personalidade individual, ou identidade, ou ego.
Vê agora a origem desse estado de ‘eu sou’? Ele não é dependente do corpo para sua existência individual? E o corpo não é meramente o esperma germinado que desenvolveu a si mesmo? E, o que é mais importante, é o esperma outra coisa senão a essência do alimento consumido pelos pais da criança? E, finalmente, não seria o alimento algo constituído pelos quatro elementos (éter, ar, fogo e água) por meio do quinto, a terra?
Assim, segue-se o rastro da semente da consciência até chegar ao alimento, e o corpo é o ‘alimento’ da consciência; assim que o corpo morre, a consciência também desaparece. E, ainda, a consciência é a ‘semente’ do universo inteiro! Todo indivíduo tem, sempre que sonha, a experiência idêntica de um mundo sendo criado na consciência. Quando uma pessoa não está totalmente acordada e a consciência é apenas estimulada, ela sonha; e, em seu sonho, naquele ponto mínimo de consciência, cria um mundo de sonhos inteiro, similar ao mundo ‘real’ externo – tudo em um instante – e, naquele mundo, são vistos o sol, a terra com montanhas e rios, construções e pessoas (incluindo o próprio sonhador) comportando-se exatamente como as pessoas no mundo ‘real’. Enquanto durar o sonho, o mundo do sonho é, de fato, bem real, e as experiências das pessoas no sonho, incluindo o próprio sonhador, parecem ser verdadeiras, tangíveis e autênticas, talvez mesmo mais do que aquelas do mundo ‘real’. Mas, uma vez que o sonhador acorde, todo o mundo de sonhos com todas as suas ‘realidades’ que existiam se desvanecem na consciência na qual foram criados. No estado de vigília, o mundo surge por causa da semente da ignorância (Maya, consciência, ser, Prakriti, Ishwara, etc.) e o coloca em um estado de vigília-sonho. Você sonha que está acordado; você sonha que está dormindo – e você não compreende que está sonhando porque ainda está no sonho. De fato, quando você compreende que tudo é um sonho, você já terá ‘despertado’! Apenas o Jnani conhece a vigília e o sonho verdadeiros."
Neste estágio, quando Maharaj perguntou ao visitante se tinha alguma pergunta sobre o que tinha ouvido até o momento, ele perguntou prontamente: 
“Qual é o princípio, ou o mecanismo conceitual, por trás da criação do mundo?”
Maharaj ficou satisfeito, porque o visitante tinha usado corretamente as palavras ‘mecanismo conceitual’, pois ele frequentemente nos lembra que toda criação do mundo é conceitual, e que é muito importante lembrar este fato e não o esquecer no meio de toda a profusão de palavras e conceitos. Maharaj, então, continuou: 
"O estado original – o Parabrahman – é incondicionado, sem atributos, sem forma, sem identidade. Sem dúvida, este estado não é nada senão plenitude (não um ‘vácuo’ vazio, mas pleno), de modo que é impossível dar-lhe um nome adequado. Visando a comunicação, contudo, um certo número de palavras tem que ser usado para ‘indicar’ aquele estado. Naquele estado original, anterior a qualquer conceito, a consciência – o pensamento ‘eu sou’ – espontaneamente desperta para a existência. Como? Por quê? Por nenhuma razão aparente – como uma mansa onda sobre a superfície do mar!
O pensamento ‘eu sou’ é a semente do som Aum, o som primordial, ou Nada, no momento da criação do universo. Ele consiste em três sons: a, u e m. Estes três sons representam os três atributos – Sattva, Rajas, Tamas, os quais produzem os três estados de vigília, sonho e sono profundo (também chamados consciência ou harmonia, atividade e inércia). Foi na consciência que o mundo surgiu. De fato, o primeiro pensamento ‘eu sou’ criou o sentido de dualidade no estado original de unicidade. Nenhuma criação pode aparecer sem a dualidade do princípio da maternidade e paternidade – masculino e feminino, Purusha e Prakriti.
A criação do mundo como uma aparência na consciência tem dez aspectos – o princípio gerador da dualidade; a matéria física e química, sendo a essência dos cinco elementos (éter, ar, fogo, água e terra) em fricção mútua; e os três atributos de Sattva, Rajas e Tamas. Um indivíduo pode pensar que é ele que atua, mas, verdadeiramente, é a essência dos cinco elementos, o Prana, a força vital, que atua através da combinação particular dos três atributos em uma forma física particular.
Quando a criação do mundo é vista nesta perspectiva, é fácil perceber porque os pensamentos e ações de um indivíduo (o qual é apenas um aparato psicossomático) diferem tanto em qualidade e grau daqueles de milhões de outros; porque, por um lado, existem Mahatmas Ghandis e, por outro, Hitlers. É um fato evidente que as impressões digitais de uma pessoa não são nunca similares àquelas de qualquer outra pessoa; folhas da mesma árvore são diferentes umas das outras em ínfimos detalhes. A razão é que as permutações e combinações dos cinco elementos, mais os três atributos em seus milhões de matizes, chegariam a bilhões e trilhões. Certamente, podemos admirar o que é admirável e amar o que é adorável, mas devemos compreender o que é que realmente amamos e admiramos – não o indivíduo conceitual, mas a maravilhosa habilidade de atuação da consciência que é capaz de desempenhar simultaneamente milhões de papéis nesta representação de sonho que o mundo é!
Para evitar perder-se na desconcertante diversidade do espetáculo de Maya (Lila), Maharaj disse que é necessário, neste estágio, não esquecer a unidade essencial entre o Absoluto e o relativo, entre o não-manifesto e o manifesto. A manifestação aparece na existência apenas com o conceito básico ‘eu sou’. O substrato é o númeno, que é a potencialidade total. Com o surgimento do estado de ‘eu sou’, o númeno se reflete no universo fenomênico, o qual só em aparência será exterior a ele. Para ver a si mesmo, o númeno se objetiva no fenômeno e, para que esta objetivação aconteça, o espaço e o tempo são os conceitos necessários (nos quais os fenômenos são estendidos em volume e duração). O fenômeno, portanto, não é algo diferente do númeno, mas o próprio númeno objetivado. É necessário entender – e nunca esquecer – esta identidade essencial. Uma vez que o conceito ‘eu sou’ surja, a unidade fundamental fica teoricamente separada, como sujeito e objeto, na dualidade.
Quando a consciência impessoal se manifesta e identifica a si mesma em cada forma física, a noção do eu surge, e esta noção, esquecendo que não tem nenhuma entidade independente, converte sua subjetividade original em um objeto com intenções, necessidades e desejos e é, portanto, vulnerável ao sofrimento. Esta identidade errada é precisamente a ‘escravidão’ da qual se busca liberação.
E o que é ‘liberação’? Liberação, iluminação, ou despertar, não é outra coisa senão entender profundamente, aperceber-se – (a) que a semente de toda a manifestação é a consciência impessoal, (b) que o que se busca é o aspecto não-manifestado da manifestação e (c) que, portanto, o próprio buscador é o buscado!"

Resumindo o discurso, Maharaj disse: "Revisemos tudo isto novamente."

1. No estado original prevalece o Eu sou, sem qualquer conhecimento ou condicionamento, sem atributos, sem forma ou identidade. 

2. Então, por nenhuma razão aparente (exceto aquela de que é sua natureza ser assim), surge o pensamento, ou conceito eu sou, a Consciência Impessoal, sobre a qual o mundo aparece como um sonho vívido.

3. A consciência, para se manifestar, necessita de uma forma, um corpo físico, com o qual se identifica e, assim, começa o conceito de ‘escravidão’, com uma objetivação imaginária do ‘eu’. Quando se pensa e se atua do ponto de vista desta auto-identificação, pode-se dizer que se cometeu o ‘pecado original’ de transformar a pura subjetividade (o potencial ilimitado) em um objeto, uma realidade limitada.

4. Nenhum objeto tem uma existência independente por si mesmo e, portanto, não pode despertar do sonho vivente; ainda assim – e esta é a piada – o fantasma individual (um objeto) busca algum outro objeto como o ‘Absoluto’, ou ‘Realidade’, ou o que for.

5. Se isto estiver claro, deve-se inverter o rumo e voltar para descobrir o que se era originalmente (e sempre se tem sido) antes do surgimento da consciência.

6. Neste ponto surge o ‘despertar’ de que não se é nem o corpo nem mesmo a consciência, mas o estado inefável da total potencialidade, anterior à chegada da consciência (na consciência, este estado, seja qual for o nome, pode ser apenas um conceito).

7. E, assim, o círculo está completo; o buscador é o buscado.

"Em conclusão", disse Maharaj, "deve-se entender profundamente que, como ‘Eu’, se é númeno. A condição atual da fenomenalidade (cuja semente é a consciência) é temporária, como uma doença ou um eclipse sobre a condição imutável original da numenalidade, e tudo o que se pode fazer é viver o tempo destinado da vida, no fim do qual o eclipse da fenomenalidade termina e a numenalidade prevalece novamente em sua pura unicidade, totalmente inconsciente de sua Consciência."

Durante toda esta exposição, o visitante permaneceu imóvel como se estivesse sob um encantamento. Fez uma ou duas tentativas infrutíferas de falar, mas Maharaj parou-o rapidamente com um gesto firme, e ele permaneceu sentado ali em perfeita paz até depois de outros visitantes terem apresentado seus respeitos a Maharaj e saírem, um por um.



De: "Sinais do Absoluto" Pointers from Nisargadatta - Ramesh Balsekar








sexta-feira, 26 de julho de 2013

O que nós somos realmente?








"O costume normal nas sessões de conversas de Maharaj é esperar pacientemente que ele comece a discussão. Algumas vezes ele começaria falando sobre um assunto definido; em outras, sentaria silenciosamente com seus olhos fechados por um tempo e, então, começaria a murmurar suavemente, talvez pensando alto. Então, novamente, no próprio começo da conversa, perguntaria aos visitantes se algum deles tinha alguma pergunta. Algumas vezes, não muito freqüentemente, acontecia que houvesse um visitante extremamente entusiasmado para perguntar alguma questão particular referente a um problema específico. Maharaj parecia sentir a ânsia de tal visitante e olhava diretamente para ele mesmo se ele estivesse na última fila, e lhe perguntava se tinha alguma questão.
          Uma manhã, quando Maharaj perguntou se havia alguma questão, um visitante levantou sua mão e começou a falar. Ele disse: Maharaj, tenho um pergunta que me confunde tanto que estou no fim de meus recursos. Li muito sobre a filosofia do Advaita, e seus princípios básicos impressionaram-me profundamente, sem dúvida. Diversos mestres me disseram que, a menos que eu abandone o conceito de minha entidade separada, a liberação não poderá ser atingida. Aceito de todo o coração que alguém que acredite no conceito de dualidade – eu e o outro – seja alguém que esteja em ‘escravidão’. Mas também me disseram que não há ‘escravidão’ para alguém, pois todos sempre fomos livres! Esta posição contraditória é, para mim, difícil de entender. Não posso ‘fazer’ nada porque se supõe que não exista nenhuma ‘entidade’. Como continuar, então, neste mundo? Por favor, esta não é uma pergunta sem valor, acadêmica. Estou profundamente interessado, e o problema está me deixando louco. O que nós somos realmente?
          Maharaj fixou seu olhar luminoso nos olhos do visitante, os quais, no momento, estavam cheios de lágrimas. Ele respirou profundamente, sentou por algum tempo com seus olhos fechados numa postura que deve ter induzido um sentido de paz no coração do interrogante. Quando Maharaj abriu seus olhos, ele percebeu que o visitante ainda estava imóvel, com os olhos fechados. Depois de poucos momentos, quando ele abriu seus olhos, encontrou Maharaj sorrindo para ele.
          Bem, disse Maharaj, o que você estava pensando durante estes últimos momentos? A resposta foi: Nada. Esta, disse Maharaj, é a resposta – ‘nada’. Quando você diz ‘nada’, o que quer dizer exatamente? Você não quer dizer que a concepção, a qual continua na consciência todo o tempo, cessou temporariamente como se você estivesse no sono profundo? Você não percebe que a culpa é da consciência, a origem de toda a concepção? Não percebe que o problema foi criado na consciência e conhecido na consciência, e que é a própria consciência que está tentando entender sua própria natureza? Não percebe, portanto, que seria virtualmente impossível entender conceptualmente o que você é?
          Agora, então, prossigamos. Você usou a palavra ‘realmente’; o que somos ‘realmente’? A pessoa média usaria a palavra ‘real’ para aludir a algo que seja perceptível aos sentidos. O corpo é perceptível aos sentidos, mas seria ‘realmente’ você? Devemos usar as palavras corretamente, apesar de todas as suas limitações. Nós consideramos como ‘real’ o que é perceptível pelos sentidos e, ainda assim, toda ‘coisa’ imaginável que é perceptível pelos sentidos deve passar pela interpretação da mente antes de ser conhecida. E qualquer coisa que seja assim percebida é apenas uma aparência; onde, então, está a realidade da forma física que parece tão ‘real’ e tangível?
          Não deveríamos ir, então, mais para trás – ao menos conceptualmente –, até chegar ao estado que prevalecia antes do aparecimento desta forma física, este aparato psicossomático, anterior mesmo à concepção desta forma? Se eu pedisse a você para me falar algo sobre seu estado antes de ser concebido no útero de sua mãe, sua resposta deveria ser necessariamente “Eu não sei”. Este ‘Eu’ que não conhece aquele estado (de fato o ‘Eu’ nada conhece até que a consciência apareça) é o que somos realmente – o Absoluto, o númeno, ilimitado, atemporal, ser imperceptível; enquanto, relativamente – fenomenalmente – finito, transitório, perceptível pelos sentidos, é o que parecemos ser como objetos separados.
         O estado de não-manifestação, o númeno, é onde nós (estritamente, a palavra não deveria ser ‘nós’, mas ‘Eu’) nem mesmo sabemos de nosso estado de ser. Quando nós nos tornamos conscientes de nosso estado de ser, o estado de unicidade não mais controla porque a dualidade é a própria essência da consciência. A manifestação daquilo-que-nós-somos como fenômeno impõe um processo de objetivação que é necessariamente baseado na divisão em um sujeito que é o que percebe, ou o conhecedor, e um objeto que é o percebido, ou o conhecido.
          Um ponto interessante sobre este processo de objetivação é que ele acontece necessariamente na consciência, a qual é a fonte de toda concepção e, portanto, efetivamente, o assim chamado conhecedor-sujeito e o conhecido-objeto são ambos objetos tornados fenomênicos na consciência como figuras de sonho. Mas aquele conhecedor-objeto (que conhece o conhecido-objeto) assume a identidade do sujeito como uma entidade separada – um ‘eu’ – e dá ao objeto conhecido uma identidade que entende como o ‘outro’. Assim nasce o conceito de ‘individuo’ através da ilusão, do poder de Maya ou do nome que a ela for dado.
          Uma vez que esta identificação com uma suposta entidade separada aconteça, o conceito de dualidade fica ampliado e o condicionamento se torna mais forte. A entidade-sujeito separada, então, estabelece-se como juiz para analisar e criticar vários objetos, e todo o esquema de opostos inter-relacionados entra na existência – bom e mau, grande e pequeno, longe e próximo – dando lugar à condenação e aprovação.
          O substrato de toda a criação deste universo fenomênico é, certamente, o conceito de espaço-tempo. O espaço é necessário para a objetivação; e o tempo, para medir a duração de sua extensão no espaço. Sem o espaço, como os objetos poderiam obter formas para tornar-se visíveis? E, sem o tempo (duração para o aparecimento), como poderiam ser percebidos?
          Agora – Maharaj perguntou ao visitante – sua pergunta foi respondida?
          O visitante, que estava escutando com arrebatada atenção, como se mesmerizado, repentinamente compreendeu que Maharaj lhe tinha feito uma pergunta. Ele estava tão impressionado pelo que tinha sido transmitido que, por algum tempo não pôde dizer uma palavra, pois parecia estar envolvido no puro escutar que elude as palavras. Ele estava em conexão com o Maharaj.
          Maharaj continuou: Se você tiver se apercebido do que eu disse, você deverá ser capaz de dizer exatamente como e onde a assim chamada escravidão surgiu, e a quem ela prejudicou. Entenda isto muito claramente. A manifestação do fenômeno não é senão o processo de funcionamento da consciência, onde não há nenhuma possibilidade de uma entidade individual. Todos são objetos, figuras de sonho funcionando em seus respectivos papéis. Nossas misérias surgem unicamente através da aceitação da responsabilidade por ‘tomar o encargo’ de nossos papéis no sonho como nós mesmos, por identificar o que-nós-somos com o sujeito-conhecedor no processo de objetificação. É esta identificação totalmente desnecessária e ilusória que causa a ‘escravidão’ e toda a miséria resultante ao indivíduo ilusório.
          Uma vez novamente agora: O-que-nós-não-somos é apenas um conceito, e este conceito está buscando o que-nós-somos. O condicionamento – o equívoco – pode ser eliminado pelo entendimento apropriado do que-nós-somos e do que-nós-não-somos. Então estará claro que a ‘escravidão’ e o ‘indivíduo’ que a sofre por esta razão são meros conceitos, e que o que-nós-somos, o númeno, pode se manifestar apenas como a fenomenalidade total. Você encontrará a paz – ou melhor, a paz encontrará a si mesma – quando houver a apercepção de que o que estamos buscando não pode ser encontrado pela simples razão de que aquele que está buscando e o que é buscado não são diferentes!

          O visitante continuou sentado com as mãos juntas, olhos fechados, lágrimas caindo na face. Ele estava em um estado de silêncio enlevado mais eloqüente do que as palavras."




"Sinais do Absoluto" (Pointers from Nisargadatta)




















terça-feira, 23 de julho de 2013

Guru Purnima









Sexta-feira, 17 de julho 1981 


Era o dia sagrado do Guru Purnima e Maharaj deve ter recorrido com dificuldade a seus parcos recursos físicos para falar algumas palavras sobre este dia dos mais auspiciosos. Estava sentado em sua cama, vestindo um grosso pulôver apesar de a salinha estar muito quente devido ao número de devotos no local. Ele começou falando muito debilmente, mas logo sua voz pareceu ganhar uma nova força.

"Vocês têm vindo aqui, todo o tempo esperando que eu lhes desse um programa do que deveriam fazer para obter a ‘liberação’. E o que continuo falando para vocês é que, desde que não há uma entidade como tal, a questão da escravidão não surge; e que, se alguém não está escravizado, não há necessidade de liberação. Tudo o que posso fazer é mostrar-lhe que o que você é não é o que você pensa ser.

Mas o que digo não é aceitável para a maioria de vocês. E alguns de vocês vão a outros lugares, onde ficarão felizes em dar-lhes uma lista de ‘coisas a fazer’ e a ‘não fazer’. E, além disto, eles agem de acordo com tais instruções com fé e diligência. Mas o que eles não compreendem é que tudo o que praticam como uma ‘entidade’ apenas fortalece suas identificações com a entidade ilusória e, portanto, o entendimento da Verdade continua tão distante como sempre.

As pessoas imaginam que elas devem de algum modo mudar a si mesmas de seres humanos imperfeitos em seres humanos perfeitos conhecidos como sábios. Se apenas vissem o absurdo neste pensamento! Aquele que pensa nestes termos é ele mesmo um conceito, uma aparição, um personagem em um sonho. Como poderia uma mera imagem ilusória fenomênica despertar de um sonho através do aperfeiçoamento de si mesma?

O único ‘despertar’ é o apercebimento daquilo-que-se-é. De fato, não há nenhuma questão de um ‘quem’ nesse apercebimento, pois a própria apercepção é a natureza verdadeira; e o pré-requisito de tal apercepção é o desaparecimento do fenômeno. O que é apercebido é a manifestação como um todo, não por um ‘quem’ que se mantém como um observador separado. A apercepção é o funcionamento total do Absoluto – apercepção é o que você é. O universo que aparece na consciência é um espelho que reflete todos os seres sensíveis, isto é, a consciência é a própria origem do universo aparente. A consciência não é diferente de seu conteúdo manifestado.

E tal apercepção não tem nada a ver com um ‘quem’, com um fenômeno, uma aparência na consciência, que é apenas uma parte infinitesimal do funcionamento total. O entendimento intuitivo profundo deste fato é o único ‘despertar’, ou ‘iluminação’, a única ‘libertação’ ilusória de uma escravidão ‘ilusória’, o despertar do sonho da vida.


O que faz o Guru? Um Guru realizado faria a única coisa que poderia ser feita: apontar para o Sadguru que está no interior. O Sadguru está sempre ali, que você se lembre  dele ou não, e uma associação constante com ele – seja o que for que você possa estar fazendo – é tudo o que é necessário. Qualquer outra coisa obtida por meio do esforço não apenas não ajudaria, como seria um obstáculo e um perigo."


De "Sinais do Absoluto" (Ponters from Nisargadatta Maharaj)







sábado, 13 de julho de 2013

Ausência total do agente











   Entre os visitantes, uma manhã, estava um professor de filosofia do norte da Índia. Ele já havia visitado o Maharaj diversas vezes. Naquela manhã, ele estava acompanhado por um de seus amigos, um artista notável mas aparentemente não particularmente interessado no assunto tratado por Maharaj.
          O professor começou a discussão. Disse que estava tão impressionado com aquilo que Maharaj lhe havia dito durante sua última visita que, cada vez que pensava sobre o assunto, sentia surgir vibrações por todo o corpo. Maharaj lhe havia dito que a única ‘maneira’ de regressar era o caminho pelo qual havia chegado, e que não havia nenhum outro. Essa sentença, disse o professor, tocou profundamente uma corda dentro dele, não deixando mais espaço para dúvidas ou questionamentos.
Mas, subseqüentemente, quando começou a pensar com maior profundidade sobre o assunto, especialmente sobre o ‘como’, havia se embaraçado irremediavelmente numa horrível desordem de idéias e conceitos. Ele disse que se sentiu como um homem que tinha recebido como presente um diamante precioso e que mais tarde o havia perdido. O que ele devia fazer agora?
          Maharaj começou falando suavemente. Ele disse: Por favor, entenda. Nenhuma verdade permanece como verdade no momento em que lhe é dada expressão. Ela se torna um conceito! Acrescente a isto o fato de que, para comunicar-se um com o outro, as palavras ‘eu’ e ‘você’, ‘nós’ e ‘eles’ deverão, necessariamente, ser usadas. Assim, o próprio primeiro pensamento quebra a unicidade e cria a dualidade; de fato, é apenas na dualidade que a comunicação pode acontecer. As próprias palavras estendem mais a dicotomia. Mas isto não é tudo. Mais tarde, o ouvinte, em vez de perceber direta e intuitivamente o que está sendo comunicado, começa o processo do pensamento relativo com suas limitações implícitas quando aplicado ao subjetivo e ao numênico.
           Você me acompanhou até aqui? – perguntou o Maharaj – e, então, continuou. O que é o pensamento relativo? É o processo do pensamento por meio do qual um sujeito cria em sua consciência objetos com qualidades ou características opostas que podem ser comparadas. Em outras palavras, o processo não pode funcionar exceto se tiver como base uma dualidade sujeito-objeto. Tal processo de pensamento relativo pode ser competente e, sem dúvida, necessário, para descrever objetos por comparação. Mas, como poderia funcionar com o subjetivo? Aquele que concebe – o sujeito – não pode, obviamente, conceber a si mesmo como um objeto! O olho pode ver tudo exceto a si mesmo!
           Não seria surpreendente, portanto, disse Maharaj, que você tenha se atolado no lodaçal das idéias e conceitos do qual você acha impossível desembaraçar-se? Se você pudesse perceber a situação real, veria quão irônico é isto!
          Estes são os fundamentos. Agora, o problema real: Quem é esse ‘você’ que está tentando fazer voltar pelo caminho que veio? Não importa quanto voltar atrás seguindo sua sombra, ela sempre o antecederá. O que quer dizer voltar atrás? Significa voltar para a posição na qual havia uma ausência total de consciência. Mas – e este é o ponto fundamental da questão – enquanto houver um negador que continue negando e negando (perseguindo a sombra), ‘você’ permanecerá sem negar-se. Tente aperceber-se do que estou dizendo, não com seu intelecto, não como ‘você’ usando seu intelecto, mas apenas como a apercepção em si.
          Pergunto-me se me fiz claro, disse Maharaj.
          Apenas então aconteceu de eu olhar para o amigo artista do professor e fiquei impressionado com a intensidade de sua concentração. Em vez de estar entediado, ou apenas indulgentemente interessado, ele estava escutando cada palavra de Maharaj como se estivesse hipnotizado. Maharaj também devia ter percebido isto, pois sorriu para ele, e o artista, sem dizer uma palavra, juntou as mãos em saudação e acenou sua cabeça diversas vezes em um gesto de comunhão silenciosa.
          O professor, contudo, parecia ter chegado a uma obstrução mental, um bloqueio impenetrável, e assim o disse. Maharaj, então, disse-lhe que esse ‘bloqueio’ era uma obstrução imaginária causada por um ‘você’ imaginário, o qual tinha se identificado com o corpo. Ele disse: Eu repito, deve existir uma negação total e final de modo que o próprio negador desapareça! O que você está tentado fazer é entender o que você é por meio de um conceito da ‘existência’, enquanto, na realidade, ‘Eu’ (você) nem sou, nem não sou, ‘Eu’ está além do próprio conceito de existência, além do próprio conceito de presença positiva ou negativa. A menos que isto seja entendido muito profundamente, você continuará a criar suas próprias obstruções imaginárias, cada uma mais poderosa que a anterior. O que você está tentando encontrar é o que você já é.
          O professor perguntou então: Isto significa, então, que ninguém pode levar-me de volta ao que eu sou? Maharaj confirmou que, de fato, assim era. Você está – sempre tem estado – onde quer ser levado. Na realidade, não há um ‘onde’ para o qual você possa ser levado. A Consciência desta posição óbvia é a resposta – apenas a apercepção; nada a ser feito. E a ironia trágica é que tal Consciência e apercepção não pode ser um ato de volição. Seu estado de vigília se produz por si mesmo, ou você desperta como um ato de volição? De fato, o menor esforço de ‘sua’ parte impedirá o que, de outra forma, poderia acontecer natural e espontaneamente. E o cúmulo da ironia é que seu deliberado não fazer nada também o impedirá de acontecer! É realmente simples; ‘fazer’ algo e ‘não fazer’ algo são esforços volitivos. Deve existir uma ausência total do ‘fazedor’, a ausência total dos aspectos tanto positivos quanto negativos do ‘fazer’. De fato, esta é a verdadeira ‘entrega’.
          Quando, no fim da sessão, o professor e seu amigo artista saiam, Maharaj sorriu para o artista e perguntou-lhe se voltaria novamente. O artista ofereceu seus respeitos muito humildemente, sorriu e disse que ele não poderia deixar de fazê-lo, e eu me perguntei quem havia sido beneficiado pela conversa daquela manhã, o professor efetivamente articulado com sua intelectualidade erudita ou o artista passivo e receptivo com sua percepção sensível.


"Sinais do Absoluto" Pointers from Nisargadatta Maharaj







segunda-feira, 1 de julho de 2013

O buscado é a apercepção










Uma outra manhã, Maharaj sentou-se inclinado em sua cama, com seus olhos fechados. Os visitantes tinham chegado um por um e sentado quietamente. Ao verem o Mestre descansando, sentaram-se em meditação com os olhos também fechados. É surpreendente como é fácil entrar no estado de ‘jejum’ da mente na presença do Mestre. Repentinamente, Maharaj começou a falar, embora com uma voz fraca.
          "Vocês, pessoas, vêm aqui desejando algo. O que vocês querem pode ser conhecimento com “C” maiúsculo – a mais alta Verdade – todavia, vocês querem alguma coisa. A maioria de vocês tem vindo aqui há bastante tempo. Por quê? Se tivessem tido a apercepção do que tenho dito, vocês deveriam ter parado de vir há muito tempo! Mas o que realmente aconteceu é que vocês vêm aqui dia após dia, identificados como seres individuais, homem ou mulher, com diversas pessoas e coisas que vocês chamam ‘minhas’. Pensam, também, que vêm aqui por vontade própria, para ver um outro indivíduo – um Guru – que, vocês esperam, lhes dará a ‘liberação’ da ‘escravidão’.
          Vocês não percebem quão ridículo é isto? O fato de que venham dia após dia mostra apenas que não estão preparados para aceitar minha palavra de que não existe nada semelhante a um ‘indivíduo’; que o ‘indivíduo’ é apenas uma aparição; que uma aparição não pode estar sujeita à ‘escravidão’ e, portanto, não há nenhuma ‘liberação’ possível para ela.
          Vocês nem mesmo compreendem que, se a própria base de suas buscas estiver errada, o que poderiam encontrar? De fato, há algo a ser alcançado? Por quem? Por uma aparição?
          Isto não é tudo. O que digo está sendo gravado por algumas pessoas; outras tomam suas próprias notas. Para qual propósito? Fazer o condicionamento ainda mais poderoso? Vocês não compreendem que nunca houve a questão do ‘quem’? Tudo que aconteceu (se de algum modo algo aconteceu) foi espontâneo. Nunca houve qualquer lugar para um indivíduo na totalidade da manifestação; todo o funcionamento está no nível do espaço físico conceitual (Mahadakash), o qual está contido em um fragmento conceitual de consciência, o espaço mental do tempo, percepção e cognição (Chidakash). Esta totalidade do conhecido se funde finalmente na potencialidade infinita que é a atemporal e ilimitada Realidade (Paramakash). Nesta manifestação conceitual, formas sem número são criadas e destruídas, sendo o Absoluto imanente em todas as formas fenomênicas. Onde figuram os indivíduos como indivíduos? Em parte alguma. E, ainda assim, em todo lugar, pois nós somos a manifestação. Nós somos o funcionamento. Nós somos a vida sendo vivida. Somos o que vive no sonho. Mas não como indivíduos.

          A apercepção desta verdade destrói o buscador individual; o buscador torna-se o buscado e o buscado é a apercepção."



De "Sinais do Absoluto"







sábado, 29 de junho de 2013

Uma entidade não pode alcançar a iluminação!











Terça-feira, 14 de Julho 1981 


Um grupo de três pessoas estava visitando Maharaj pela primeira vez. Embora padecendo na cama e extremamente fraco, Maharaj lhes perguntou se tinham alguma pergunta a fazer. Eles conversaram entre si e decidiram fazer apenas uma pergunta:
“Maharaj, todos nós fizemos certa Sadhana por algum tempo, mas o progresso não parece adequado. O que devemos fazer?”
Maharaj disse que o propósito de qualquer esforço é obter algo, algum benefício que não se possui. 
“O que é isto que tentam atingir?”
A resposta foi rápida e positiva: 
“Nós queremos ser como você – iluminados.”

          Maharaj riu e se empertigou na cama. Quando estava mais confortável com dois travesseiros para apoiar suas costas, ele continuou:
“É nisto que a idéia errada está enraizada: em pensar que vocês são entidades que devem alcançar algo para que possam se tornar como a entidade que vocês pensam que eu sou! Este é o pensamento que constitui a ‘escravidão’, a identificação com uma entidade – e nada, absolutamente nada, exceto a desidentificação causará a ‘liberação’.
          Como eu disse, vocês vêem a si mesmos e a mim como entidades, entidades separadas; eu vejo vocês exatamente como me vejo. Vocês são o que eu sou, mas vocês se identificaram com o que pensam ser – um objeto – e buscam a liberação para este objeto. Não é uma enorme piada? Poderia algum objeto ter existência independente e vontade de agir? Poderia um objeto estar escravizado? E liberado?”

          O interlocutor juntou suas mãos em namaskar e, muito respeitosamente, sugeriu que o que Maharaj tinha dito não poderia talvez ser questionado como um ideal teórico, mas que, certamente, disse ele, ainda que as pessoas possam ser entidades fictícias, nada mais que meras aparições na consciência, como viveríamos no mundo a menos que aceitássemos as diferentes entidades como suficientemente ‘reais’ na vida?
          Esta discussão pareceu animar extraordinariamente o Maharaj, e a debilidade em sua voz desapareceu gradualmente. 
Ele disse:
“Você vê quão sutil é este assunto? Você respondeu sua própria pergunta, mas a resposta lhe escapou. O que você disse é que você sabe que a entidade como tal é totalmente fictícia e não tem autonomia própria; é apenas um conceito. Mas a entidade fictícia deve viver sua vida normal. Onde está o problema? É muito difícil viver uma vida normal, sabendo que a vida em si é um conceito? Você compreendeu? Uma vez que tenha visto o falso como falso, uma vez que tenha visto a natureza dual do que chama ‘vida’ – que na realidade é viver – o restante será simples; tão simples como um ator desempenhando seu papel com entusiasmo, sabendo que é apenas um papel que ele está desempenhando em uma peça ou um filme, e nada mais.
          Reconhecer este fato com convicção, apercebendo-se desta posição, é toda a verdade. O resto é mera atuação.”


De: "Sinais do Absoluto"





quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A Mente e o Mundo não estão Separados











Pergunta: Vejo aqui imagens de diversos santos e me disseram que são seus antepassados espirituais. Quem são eles e como tudo isto começou?

Maharaj: Somos chamados coletivamente os ‘Nove Mestres’. A lenda diz que nosso primeiro mestre foi o Rishi Dattatreya, a grande encarnação da Trindade de Brahma, Vishnu e Shiva. Mesmo os ‘Nove Mestres’ (Navnath) são mitológicos.

P: Qual é a peculiaridade de seus ensinamentos? 

M: A simplicidade, tanto em teoria como na prática.                   

P: Como alguém se torna um Navnath? Pela iniciação ou pela sucessão?

M: Nem uma nem outra.  A tradição dos ‘Nove Mestres’, Navnath Parampara, é como um rio que flui para o oceano da realidade, e quem quer que entre nele será levado junto.

P: Isto implica em ser aceito por um mestre vivo pertencente à mesma tradição?

M: Aqueles que praticam o sadhana de enfocar suas mentes no ‘Eu sou’ podem sentir-se relacionados a outros que seguiram o mesmo sadhana e foram bem-sucedidos. Eles podem decidir verbalizar seu sentido de afinidade chamando-se Navnats; isto lhes dá o prazer de pertencer a uma tradição estabelecida.

P: Eles são beneficiados de algum modo juntando-se à tradição?

M: O círculo de satsang, ‘a companhia dos santos’, expande-se em número à medida que o tempo passa.

P: Eles retêm assim uma fonte de poder e graça da qual teriam sido excluídos de outra forma?

M: O poder e a graça são para todos, basta pedi-los. Dar a si mesmo um nome particular não ajuda. Chame-se por qualquer nome – enquanto estiver intensamente atento a si mesmo, os acumulados obstáculos ao autoconhecimento estarão condenados a desaparecer.

P: Se eu gosto de seu ensinamento e aceito sua direção, posso chamar-me Navnath?

M: Satisfaça sua mente viciada às palavras! O nome não o mudará. No melhor dos casos, poderá lembrá-lo para que se comporte. Há uma sucessão de Gurus e seus discípulos, os quais por sua vez preparam outros discípulos, e assim a linha é mantida. Mas a continuidade da tradição é informal e voluntária. É como um nome de família, mas neste caso a família é espiritual.

P: Você deve realizar-se para unir-se a Sampradaya?

M: A Navnath Sampradaya é apenas uma tradição, um modo de ensinamento e de prática. Não denota um nível de consciência. Se você aceitar como Guru um mestre da Navnath Sampradaya, você se juntará a esta Sampradaya. Geralmente, você recebe um sinal da graça do Guru – um olhar, um toque, ou uma palavra, às vezes um sonho vívido ou uma forte recordação. Às vezes, o único sinal da graça é uma mudança rápida e significativa no caráter e no comportamento.

P: Conheço-o há alguns anos e o encontro regularmente. Sua lembrança nunca está longe de minha mente. Isto me faz pertencer a sua Sampradaya?

M: O pertencer é uma questão de seu próprio sentimento e convicção. No final das contas, tudo é verbal e formal. Na realidade, não há nem Guru nem discípulo, nem teoria nem prática, nem ignorância nem realização. Tudo depende do que você acredita ser. Conheça-se corretamente. Não há substituto nenhum para o autoconhecimento.

P: Que prova eu terei de que me conheço corretamente?

M: Você não precisa de provas. A experiência é única e inequívoca. Aparecerá em você subitamente quando os obstáculos estiverem eliminados em certa medida. É como uma corda gasta rompendo-se. Seu esforço está nos cabos. A ruptura está destinada a acontecer. Pode ser adiada, mas não impedida.

P: Estou confuso por sua negação da causalidade. Isto quer dizer que ninguém é responsável pelo mundo como ele é?

M: A idéia de responsabilidade está em sua mente. Você pensa que deve haver algo ou alguém unicamente responsável por tudo que acontece. Há uma contradição entre um universo múltiplo e uma causa única. Ou um ou o outro deve ser falso. Ou ambos. Tal como eu o vejo, tudo é um devaneio. Não há nenhuma realidade nas ideias. O fato é que, sem você, nem o universo nem sua causa poderiam ter vindo a existir.

P: Não posso perceber se sou a criatura ou o criador do universo.

M: ‘Eu sou’ é um fato sempre presente, enquanto ‘Eu sou criado’ é uma ideia. Nem Deus nem o universo vieram a você para lhe dizer que eles o criaram. A mente, obcecada pela ideia de causalidade, inventa a criação e, então, deseja saber ‘quem é o criador?’ A própria mente é o criador. Mesmo isto não é totalmente verdadeiro, porque o criado e seu criador são um. A mente e o mundo não estão separados. Entenda que o que você pensa ser o mundo é sua própria mente.

P: Existe um mundo além, ou fora da mente?

M: Todo o espaço e todo o tempo estão na mente. Onde você localizaria um mundo além da mente? Existem muitos níveis de mente e cada um projeta sua própria versão, mesmo assim todos estão na mente e são criados por ela.

P: Qual é sua atitude quanto ao pecado? Como você vê o pecador, alguém que rompe a lei interna ou externa? Você quer que ele mude ou apenas se compadece dele? Ou você lhe é indiferente por causa de seus pecados?

M: Não conheço nenhum pecado, nem pecador. Suas distinções e avaliações não me limitam. Todos se comportam segundo sua natureza. Não se pode evitar, nem se lamentar por isto.

P: Outros sofrem.

M: A vida vive da vida. Na natureza o processo é compulsório; na sociedade, deveria ser voluntário. Não pode haver nenhuma vida sem sacrifício. O pecador nega-se ao sacrifício e atrai a morte. Isto é como é, e não há razão para condenação ou piedade.

P: Seguramente você sente ao menos compaixão quando vê um homem mergulhado no pecado.

M: Sim, sinto que sou esse homem e seus pecados são meus pecados.

P: Certo, e depois?

M: Por tornar-me um com ele, ele se torna um comigo. Não é um processo consciente, ocorre inteiramente por si mesmo. Nenhum de nós pode evitá-lo. O que necessita mudar deverá mudar de qualquer modo; basta conhecer-se tal como se é, aqui e agora. A investigação intensa e metódica, dentro da própria mente, é a Ioga.

P: O que acontece com as cadeias do destino forjadas pelo pecado?

M: Quando a ignorância, a mãe do pecado, é dissolvida, o destino, a compulsão para pecar novamente, cessa.

P: Há retribuições a fazer.

M: Quando a ignorância chega ao fim, tudo acaba. As coisas são vistas tais como elas são, e são boas.

P: Se um pecador, um infrator da lei, chegar diante de você e pedir sua graça, qual será sua resposta?

M: Ele obterá o que pede.

P: Apesar de ser um homem mau?

M: Não conheço pessoas más, só conheço a mim mesmo. Não vejo nem santos nem pecadores, só seres vivos. Eu não distribuo a graça. Não há nada que eu possa dar ou negar, o qual você já não tenha em igual medida. Simplesmente, seja consciente de suas riquezas e utiliza-as ao máximo. Enquanto imaginar que necessita minha graça estará em minha porta mendigando-a.
    Se eu mendigasse sua graça, teria pouco sentido! Não estamos separados, o real é comum.

P: Uma mãe vem a você com uma história de infortúnio. Seu único filho entregou-se às drogas e ao sexo e vai de mal a pior. Ela pede sua graça. Qual será sua resposta?

M: Provavelmente, eu devo me ouvir dizendo a ela que tudo irá bem.

P: Isto é tudo?

M: Isto é tudo. O que mais você espera?

P: Mas o filho da mulher mudará?

M: Pode mudar ou não.

P: As pessoas que se reúnem ao redor de você, e que o conhecem há muitos anos, sustentam que, quando você diz que ‘ficará tudo bem’, invariavelmente, acontece como você disse.

M: Também pode ser dito que foi o coração da mãe que salvou o filho. Para tudo há inumeráveis causas.

P: Disseram-me que o homem que nada quer para si mesmo é todo-poderoso. O universo inteiro está à sua disposição.

M: Se você assim acredita, aja de acordo com isto. Abandone todo desejo pessoal e use o poder assim resgatado para mudar o mundo!

P: Todos os Budas e Rishis não foram bem sucedidos em salvar o mundo.

M: O mundo não se rende à mudança.  Por sua própria natureza, é doloroso e transitório. Veja-o como ele é, e se despoje de todo o desejo e de todo o medo. Quando o mundo não o aprisiona ou o vincula mais, ele converte-se numa morada de alegria e beleza. Você pode ser feliz no mundo apenas quando é livre dele.

P: O que é certo e o que é errado?

M: Geralmente, o que causa sofrimento é errado, e o que o elimina é certo. O corpo e a mente são limitados e, portanto, vulneráveis; eles necessitam de proteção, o que dá lugar ao medo. Enquanto você se identificar com eles, estará condenado a sofrer; compreenda sua independência e fique feliz. Eu lhe digo, este é o segredo da felicidade. Acreditar que você depende de coisas e pessoas para ser feliz se deve à ignorância de sua verdadeira natureza; saber que você não necessita de nada para ser feliz, exceto o autoconhecimento, é sabedoria.

P: O que vem primeiro, o ser ou o desejo?

M: Quando o ser surge na consciência, surgem também na mente as ideias do que você é junto com as ideias do que deveria ser. Isto causa o desejo e a ação, e o processo de transformar-se começa. O vir a ser não tem, aparentemente, nenhum início e nenhum fim, porque recomeça a cada momento. Com a cessação da imaginação e do desejo, o vir a ser cessa e o ser isto ou aquilo se funde no puro ser, o qual não é descritível e apenas pode ser experienciado.
    O mundo lhe parece tão esmagadoramente real porque você pensa nele o tempo todo; deixe de pensar nele, e ele se dissolverá numa névoa sutil. Você não precisa esquecer; quando o desejo e o medo terminam, o cativeiro também termina. O que cria o cativeiro é o envolvimento emocional, o padrão estabelecido de gostos e desgostos, o que denominamos caráter e temperamento.

P: Sem desejo e medo, que motivo há para a ação?

M: Nenhum, a menos que considere motivo suficiente o amor à vida, à retidão e à beleza. Não tenha medo da liberdade do desejo e do medo. Ela permite que você viva uma vida tão diferente de tudo o que você conhece, tão muito mais intensa e interessante, que, verdadeiramente, por perder tudo você ganha tudo.

P: Desde que você conta que sua ascendência espiritual vem do Rishi Dattatreya, estou certo em acreditar que você e seus predecessores são reencarnações do Rishi?

M: Você pode acreditar no que quiser e, se agir de acordo com sua crença, você obterá seus frutos; mas, para mim, isto não tem nenhuma importância. Eu sou o que sou, e isto me basta. Não tenho o desejo de identificar-me com ninguém, por ilustre que seja. Nem necessito tomar os mitos por realidade. Estou apenas interessado na ignorância e na libertação da ignorância. O papel apropriado a um Guru é dissipar a ignorância nos corações e mentes de seus discípulos. Uma vez que o discípulo tenha entendido, a ação confirmatória dependerá dele. Ninguém pode agir por outro. E se alguém não age corretamente, apenas significa que não compreendeu e que o trabalho do Guru não terminou.

P: Deve haver também alguns casos sem esperança?

M: Nenhum caso é sem esperança. Os obstáculos podem ser superados. O que a vida não pode emendar, a morte concluirá, mas o Guru não pode falhar.

P: O que lhe dá esta segurança?

M: O Guru e a realidade interior do homem são realmente uma coisa só e trabalham juntos para a mesma meta – a redenção e salvação da mente. Eles não podem falhar. Em consequência das muitas pedras que os obstruem, eles constroem suas pontes.  A consciência não é a totalidade do ser – há outros níveis nos quais o homem é muito mais cooperativo. O Guru está familiarizado com todos os níveis, e sua energia e paciência são inesgotáveis. 

P: Você continua assegurando-me que estou sonhando e que já é hora de despertar. Como é que o Maharaj que veio a mim em meus sonhos não foi bem-sucedido em despertar-me? Ele continua me encorajando e lembrando, mas o sonho continua.

M: Isto é porque você realmente não entendeu que você está sonhando. Esta é a essência do cativeiro – a mistura do real com o irreal. Em seu estado presente, só o ‘Eu sou’ se refere à realidade; o ‘que’ e o ‘como eu sou’ são ilusões impostas pelo destino, ou por acidente.

P: Quando o sonho começou?

M: Parece ser sem começo, mas de fato é apenas agora. De momento a momento, você o está renovando. Uma vez que você tenha visto que está sonhando, você deverá acordar. Mas você não vê porque quer que o sonho continue. Virá o dia em que você ansiará pelo fim do sonho, com todo o seu coração e toda sua mente, e estará disposto a pagar qualquer preço; o preço será o desapego e o distanciamento, a perda do interesse no próprio sonho.

P: Quão desamparado estou. Enquanto o sonho da existência dura, eu quero que continue. Enquanto quero que continue, durará.

M: O querer que continue não é inevitável. Veja claramente sua condição, sua própria claridade o libertará.

P: Enquanto estou com você, tudo quanto diz parece óbvio; mas, logo que me afasto de você, fico inquieto e cheio de ansiedade.

M: Não é necessário ficar longe de mim, em sua mente pelo menos. Mas sua mente procura o bem-estar do mundo!

P: O mundo está cheio de problemas, não é de estranhar que minha mente também esteja.

M: Houve alguma vez um mundo sem problemas? Sua existência como uma pessoa depende da violência em relação aos outros. Seu próprio corpo é um campo de batalha, cheio de mortos e agonizantes. A existência implica violência.

P: Como corpo, sim. Como ser humano, definitivamente não. Para a humanidade, a não violência é a lei da vida; e a violência, a lei da morte.

M: Na natureza há pouca não violência.

P: Deus e a natureza não são humanos e não precisam ser. Estou interessado só no homem. Para ser humano, devo ser absolutamente compassivo.

M: Você compreende que, enquanto possuir um eu a defender, você deve ser violento?

P: Sim. Para ser verdadeiramente humano, devo ser sem eu. Enquanto for egoísta, serei subumano, apenas um ‘humanoide’.

M: Portanto, nós todos somos subumanos e só alguns poucos são humanos. Poucos ou muitos, o que nos faz humanos é novamente a ‘claridade e a caridade’. Os subumanos – os ‘humanoides’, são dominados por tamas e rajas, e os humanos, por sattva. Claridade e caridade são sattva no modo em que afetam a mente e a ação. Mas o real está além de sattva. Desde que eu o conheço, você parece estar sempre procurando ajudar o mundo. Quanto já o ajudou?

P: Nem um pouco.  Nem o mundo mudou, nem eu. Mas o mundo sofre e eu sofro com ele. Lutar contra o sofrimento é uma reação natural. E o que são a civilização e a cultura, a filosofia e a religião, senão uma revolta contra o sofrimento? O mal e a cessação do mal – não são sua principal preocupação? Você pode chamar a isto de ignorância – vêm a dar no mesmo.

M: Bem, as palavras não importam, nem tampouco interessa a forma em que você está agora. Os nomes e as formas mudam sem cessar. Saiba que você é a testemunha imutável da mente que muda. Isso é o suficiente.



De: "Eu Sou Aquilo" Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj






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