Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

domingo, 15 de abril de 2012

SUIÇA NOVEMBRO 1981





Requer-se esforço neste caminho? Pessoalmente, acho que tenho cada vez menos energia para fazer um esforço em qualquer direção.

Você não pode fazer um esforço sem tensão. Mas, porque você faz um esforço? Apenas porque busca um resultado, algo fora de você mesmo. Uma vez que você saiba realmente que o que busca é sua natureza real, você perde o ímpeto para o esforço. Assim, em primeiro lugar, veja como você está fazendo esforço constantemente. Assim que estiver consciente deste processo, você já estará fora dele. E isto pode surgir como uma percepção original de que você é realmente quietude.

Mas esse ‘ver’ não requer algum esforço?

Não. Esse ‘ver’ é seu estado natural. Simplesmente, seja consciente de que você não vê. Torne-se mais consciente de que você reage constantemente. Ver não requer esforço porque sua natureza é ver, é estar em silêncio. No momento em que não busca um resultado, não busca criticar, avaliar ou concluir, simplesmente limitado ao ver, então você pode perceber esta reação e não é mais cúmplice dela.

No curso da meditação, à medida que o processo de esvaziamento continua, vem este pensamento: “Isto é apenas um pensamento”. Mas o pensamento “Isto é apenas um pensamento” é um pensamento também, não é?

Absolutamente. Ver, em si, não é um pensamento, mas, no princípio, nós o conhecemos como limitado apenas à percepção de objetos. Mais tarde, surge o puro ver sem objeto. Então, há o discernimento de que você é esse puro ver e que tudo o que é visto aparece em você. Neste momento, o ver não é mais afetado pelo que vê.
Focalizar a atenção sobre algo estimula a tensão. Embora possam existir momentos de desapego, a maioria das vezes você está envolvido com o que está vendo. Mas, através do processo da observação, você pode chegar ao puro ver sem objeto. Dê ao visto a liberdade total sem tentar controlá-lo. E, como o visto é energia projetada sobre uma aparição naquele que vê, no momento em que o que se vê está livre de localização, dissolve-se naquele que vê, posto que o visto é descontínuo, enquanto o que vê é contínuo. O percebedor final é encontrado, em primeira instância, através desta relação entre o que vê e o que é visto.
   Nós, geralmente, apenas conhecemos o que vê através do que é visto. Nos momentos de puro ver, dizemos que nada existe, pois apenas nos conhecemos na relação sujeito-objeto. Mas, uma vez que estejamos convencidos de que por trás do que é visto está o que vê e que o que é visto aparece no que vê, então não colocamos mais a ênfase no que é visto, mas no que vê.

Isto não é estabelecer um objetivo para quem nunca o experimentou? Eu nunca vi sem um objeto ou sem projetar minha própria imagem sobre um objeto, ainda assim, sei que há um modo de ver no qual não estou vendo apenas imagens criadas pela mente... E então como...

Para ir para trás? Mas você conhece momentos em sua vida nos quais há apenas pura visão sem nada que seja visto. Digamos que você tenha um problema. À medida que o penetra, chega o momento em que o problema está completamente resolvido. Há satisfação completa, sem algum desejo de acrescentar ou subtrair qualquer coisa. Quando um desejo é realizado, você chega a um estado de completa ausência de desejo no qual nem o sujeito que deseja nem o objeto desejado estão presentes. Você nem mesmo pode dizer que haja felicidade, pois você é felicidade. Mas, depois de viver isto, veja como o ego se intromete para aproveitar o momento e objetivá-lo, tranformando-o em um tipo de caricatura, semelhante ao palhaço em um circo que exige o aplauso do público embora não seja o artista principal.

Poderia falar mais sobre o pensamento como uma defesa?

Certamente, quando falo sobre isto, falo com muito cuidado. Há um momento em que você pode ver que, antes de surgir o pensamento, há uma pulsação, e a potencialidade do pensamento já está presente ali. A pulsação impressiona o cérebro e você, instintivamente, busca o símbolo, a formulação.

Esta pulsação pode se aquietar antes de transformar-se em pensamento?

Sim, se você estiver muito atento, poderá deter a pulsação. Percebê-la antes que se transforme em pensamento reduz as vibrações do cérebro e, assim, acalma-se a agitação mental e física.
Devemos ver que fazer ou não fazer são ainda fazer. Este processo de ter e vir a ser cessa apenas quando escutamos, pois nossa verdadeira natureza é a escuta. Os estados de vigília, sonho e sono profundo são sobreposições à pura escuta, a qual não se refere ao ouvinte ou ao que é ouvido. Todos os estados aparecem na escuta. Assim, quanto mais você estiver presente na escuta, maior será o abandono do fazer e do não-fazer.
Habitualmente, quando nós falamos da escuta, pretendemos falar de atenção a algo em particular. Mas, quando eu falo da escuta, tenho em vista a escuta que se refere apenas a si mesma. É como alguém perguntando: “O que você tem em sua boca?” Você diz: “Nada”. Mas na realidade você tem o sabor de sua boca. Pode não haver sal, açúcar, ou ácido nela, mas o sabor de sua boca está presente. A escuta pura tem seu próprio sabor.

Algumas vezes, escuto uma de suas palestras e, depois, não posso recordar nada do que você disse.

Quando você escuta sem avaliar ou concluir, você não pode memorizar o que ouviu. Isto volta para você, mas não através do processo ordinário de memória. Se você tenta retê-lo, o que você guarda? Apenas as palavras, a formulação, e então você ouve através do véu do já conhecido, através da comparação com o passado. Você deve tornar-se inocente em sua escuta.
Quando você ouve sem tirar quaisquer conclusões, o que estava por trás da escuta aflora em um determinado momento, talvez no dia seguinte ou em um mês, ou em seis meses, mas este afloramento não é devido a qualquer esforço para guardar o que ouviu. O sabor real é perdido no processo de memorização.

Freqüentemente há coisas que você diz que me impressionam particularmente e que aderem à minha mente. Por exemplo, há poucos dias, você disse: “Pare de eliminar. Veja o que você está construindo continuamente”.

Mas você não tem feito nenhum esforço para lembrar disto. Vem a você.
Nós podemos lembrar muito pouco de um modo consciente. Pense sobre todas as experiências que teve durante sua vida e em quão pouco delas você lembra realmente. Você esqueceu inclusive o sentimento com o qual acordou esta manhã ou o que você comeu ontem ou o que estava pensando às três horas de hoje.
Conforme a vibração do cérebro diminui, é possível relembrar coisas que foram esquecidas pela memória ordinária. Em uma freqüência muito baixa, o índivíduo pode retornar inclusive à uma encarnação anterior. Mas as experiências deste tipo são, mais ou menos, distrações, formas de dar sustentação à idéia da pessoa. Não obstante a redução da freqüência do cérebro, continuamos a nos identificar com o ego. Por outro lado, a tensão ainda aparece quando se realizou o Eu. Mas alguém que vive no Eu com pleno conhecimento está fora do processo de vir-a-ser, de modo que as funções do cérebro e do corpo são totalmente diferentes daquelas de uma pessoa que não tenha realizado o Eu.

E seus sentidos funcionam diferentemente?

Geralmente, todos os nossos sentidos funcionam através da apreensão. A mente projeta algo externamente para ser apropriado pelos sentidos. Na realidade, não há nada fora de nossa Consciência.
Quando vemos um pássaro, há inicialmente pura percepção, mas, depois, nós o conceituamos. No momento em que há conceituação, a percepção não está mais presente, porque um conceito e uma percepção não podem existir simultaneamente. Se você abandona o conceito, o que permanece? Você se identifica com o pássaro. Mas esta identidade não é uma imagem mental da unidade. É uma experiência global.

Mas, no momento da unidade, você é um com o todo, não é? Ou você pode ser simplesmente um com o pássaro e não o ser com tudo o mais?

Você é apenas ser. Quando você abandona a forma e o nome do homem que você vê, o que permanece? O homem real aparece, e nisto há unidade. No instante em que você abandona a forma, abandona o corpo. Quando abandona o nome, abandona a mente. Assim, só o ser permanece, e o ser é indivisível. É a corrente da qual falamos antes. Quando a corrente está presente, não há mais fixação ou repetição, apenas o refluxo e o fluir da criatividade.



De: "A Simplicidade de Ser" dilogos com Jean Klein






quarta-feira, 11 de abril de 2012

A Simplicidade de Ser






Como posso recuar de minhas emoções, desejos e agitações de modo que eu possa manter-me na pura Consciência?

Você não pode manter-se na Consciência porque ela é o que você é. O que ela é e o que é você é a luz em toda percepção. Todos os objetos, todas as percepções dependem da luz, sua natureza real. Não podem existir sem perceber a luz. Eu chamo sujeito final a esta luz em todas as percepções. Está claro que não tem nada a ver com o sujeito, o “eu”, o qual passa por nós mesmos na relação sujeito-objeto. A percepção existe apenas porque você, luz, Consciência, sujeito final, ou como o quiser nomear, é. A percepção aparece e desaparece em você.
Desta forma, seja completamente consciente da percepção. Veja que ela existe no tempo e no espaço, enquanto você é atemporal. Espaço e tempo não são senão energia em movimento. Quando nenhum sujeito volitivo interfere para cristalizá-la, a percepção toma forma e então se desfaz de volta ao silêncio, pois o silêncio é contínuo, enquanto a percepção é descontínua. Portanto acentua o que percebe, o sujeito, não o percebido, o objeto. Em um primeiro momento você experimenta a Consciência silenciosa e, depois, a dissolução da percepção, mas, mas tarde, você será o silêncio tanto na presença como na ausência de objetos.
Como uma folha de papel em branco não é afetada pelo que você escreve sobre ela, da mesma forma a Consciência indiferente não é afetada pelos três estados de vigília, sono e sonho. Estes três estados são sobreposições à consciência pura.

Parece paradoxal que devamos ultrapassar um movimento no tempo para estabelecer-nos no que você chama de atemporalidade. Nós nos estabelecemos nela ou ela em nós?

Seja consciente de como você funciona. Conheça seu corpo, suas sensações, seus sentimentos, medos e pensamentos. É então que você pode descobrir que o que chama seu corpo, sentidos e mente, são apenas idéias que você mantém na mente sem conhecer realmente o que são. Você sobrepõe uma imagem-memória a seu corpo e suas emoções.
Assim, o primeiro passo, se podemos falar de passos, é ver quão raramente você escuta devido às suas constantes reações e à antecipação. Na observação inocente, o que é visto aponta novamente para a própria visão. Não há mais nenhuma interferência de um ego que se apressa em julgar, qualificar ou concluir. Você se descobre em uma atenção que é livre de tensão e concentração, onde não há ninguém atento nem algum objeto de atenção. Viva esta atenção sem referência a algo, pois ela está fora da relação sujeito-objeto. Você é consciência que permanece durante todos os variados estados nos quais entramos e saimos. Ali e então há apenas o amor e a alegria de viver a serem descobertos.

Quando você entrou na sala, você sentou e retirou sua jaqueta. Onde estava sua mente quando você a retirou?

Não há nenhum ator, apenas atuação, apenas o retirar da jaqueta. Na realidade, não há nenhum ator de modo algum. O ator é uma sobreposição, uma forma de memória que aparece apenas depois da ação. Na própria ação, há apenas unidade. Você pode crer que é possivel atuar e, enquanto atua, pensar “Eu estou agindo”, mas estas duas coisas não acontecem ao mesmo tempo. O “eu”, como um ator, é um pensamento; a ação é outro pensamento; e dois pensamentos não podem existir simultaneamente. A rápida sucessão de pensamentos dá uma impressão de simultaneidade, mas só pode haver um pensamento num momento.

Você está dizendo que retirou a jaqueta inconscientemente?

Veja... Estou sentado aqui, mas não sou o corpo. O corpo é um objeto de minha percepção. Este objeto sente calor e este sentimento de calor remove a jaqueta, uma ação completamente espontânea, mas não há alguém que atue. Este “eu” que retirou a jaqueta aparece depois como uma idéia, como uma imagem de mim mesmo como ator. Mas, durante a própria ação não é possível estar em uma idéia de mim mesmo e no ato ao mesmo tempo.
Digamos que você seja um violinista. Enquanto toca o violino não é possível pensar, “Estou tocando o violino”. No momento de tocar, você está completamente envolvido no movimento, de forma que não há lugar para a idéia de um intérprete.  O pensamento “Estou tocando” pode passar rapidamente pela sua mente, mas neste instante você está nesta idéia, não no tocar. Nossa linguagem é dualística. Quando você diz “Estou tocando o violino” significa que o fato de tocar o violino pertence a um “eu”. Quando você identifica o “eu” com o violinista, você tem uma idéia de si mesmo como intérprete. Mas, realmente, este “eu” não tem nada a ver com o violinista.

A maioria de nós se identifica com nosso corpo, nossas ações, nossos pensamentos e sentimentos. Isto é o que aprendemos desde que éramos muito jovens. Mas você parece dizer que este processo de identificação é falso. Que percepção nos leva à posição de não-identificação?

Seus pais deram a você uma forma e um nome. Sua educação e ambiente lhe atribuíram muitas qualificações  e você se identificou com elas. Em outras palavras, a sociedade lhe deu uma idéia de ser alguém. Assim quando você pensa por si mesmo, você pensa em termos de um homem com todos os tipos de qualificações que acompanham sua imagem. Esta acumulação passou por muitas mudanças, mas ainda assim você é consciente delas. Você pode lembrar de quando tinha sete anos. Você pode lembrar de quando não tinha barba. Isto indica que há um observador destas mudanças. A habilidade para observar as mudanças indica que a mudança está em você, não você nela, pois se assim fosse, como poderia observá-la? Assim, o que realmente pertence à percepção (para usar sua palavra) é o que é imutável em você. Você é a testemunha de todas as mudanças, mas esta testemunha nunca muda. Assim, a questão real é, “Como eu posso conhecer a testemunha?”

Não estou certo de ter entendido o que você quer dizer. Entendo que as mudanças acontecem e são lembradas em meu cérebro, e estou consciente destas memórias. Não vejo a necessidade de admitir uma testemunha?

A testemunha está sempre presente, é sempre presença. É o que não se identifica com a mudança, com as circunstâncias, e então as “observa”. Sempre que você atenta para uma mudança, você o faz de uma posição do presente. É um pensamento presente. É esta presença contínua por toda a vida que nos chamamos testemunha. Não se pode dizer que nasceu, pois nascimento e morte são idéias, conhecimento de segunda mão, algo que foi falado a você. Conhecer a testemunha, portanto, significa experimentar o estado de presença em todas as mudanças. Chamar de “testemunha” à presença é apenas um artifício pedagógico para mostrar-lhe que você não é a imagem que tem de si mesmo, e para destacar o sujeito, não o objeto, em suas percepções. No fim, mesmo a testemunha se dissolve na presença da qual emergiu.

Quando o corpo morre, a consciência permanece?

O que é o corpo? O corpo é um pensamento, uma invenção da mente. Quando você olha para o céu, onde está o corpo? Quando você olha para o céu, onde está o homem? Há um homem? Há apenas visão do céu. Sem o pensamento de ser um homem, não há homem. Você tem a idéia de um corpo, mas na realidade ele não existe. O corpo, o homem, são formas de pensamento.
Você não desperta de manhã. É a idéia de um corpo que desperta em você. O que há antes que o corpo desperte? Você é!

Isto é simplesmente uma idéia... Eu não estou consciente de existir antes de despertar.

Isto é verdade, mas ainda você estava presente antes de o corpo acordar. Você conhece certos momentos em que o corpo não está completamente desperto, mas você está.
Uma vez satisfeito um desejo, há um momento de carência de desejos onde não há ninguém sem desejos. Há apenas ser, e nisto não há nem idéia nem emoção. Você pode ter uma bela esposa. Quando estão separados um do outro, você pode visualizar seu encanto, sua forma, sua inteligência e todas as suas qualidades. Mas chega o momento em que todas as qualidades desaparecem e há apenas um ser. Não há mais alguma imagem de um amado ou uma imagem de um amante. Há apenas amor. Isto é o que quero dizer quando afirmo que você não é nem os sentidos nem a mente. Você é este amor.

Como posso libertar-me desta imagem de mim mesmo?

Torne-se plenamente consciente da idéia que você tem de si mesmo. Este “eu” é um objeto que você pode conhecer. Você conhece seus desejos, medos e ansiedades, mas quem é o conhecedor? Você nunca pode objetivar o conhecedor porque você é ele. Então, seja o conhecedor. Não tente encontrar-se em algum lugar em uma auto-imagem porque você não está em parte alguma. Não procure por si mesmo!

Porque sempre nos identificamos com o que não somos?

Reformulemos esta pergunta. Perguntemos em primeiro lugar, “O que é que não somos?” Não somos o corpo, os sentidos ou a mente. Mas, para entender isto realmente, devemos aceitar primeiro nossas funções físicas e mentais. O conhecimento real de alguma coisa exige abertura total.
Talvez você seja consciente de que seu corpo está pesado ou tenso, mas seu corpo é mais do que peso e tensão. Conheça o corpo através da escuta, pois o corpo está em você, não você nele. O corpo é um depósito de histórias, devemos dar-lhe a oportunidade de revelar-se. E, para fazer isto, você deve estar silencioso. Na escuta, não há lugar para alguém que escuta. Há apenas atenção, escuta vazia, a qual permite que o corpo expresse sua história. De qualquer outra forma, você não pode nunca conhecer seu corpo, porque ele se converte em uma projeção da memória. Para a maioria de nós, não é o corpo que desperta a cada manhã, mas a impressão, a idéia que se tem dele. Ele não é real. Você pode perguntar “O que é real?” Aquilo que existe em si mesmo é real. O corpo necessita da consciência para existir. Se você não está consciente dele, o corpo não existe.

Ele existe na consciência de outras pessoas. Não é este o argumento do Bispo Berkeley para a existência de Deus?

Primeiro se deve entender o que você pretende dizer com a palavra Deus? Deus não é mais ou menos uma idéia? O que é Deus para você exceto uma idéia?

O que não depende de nossa consciência para existir?

Tudo o que pode ser percebido não tem realidade; tem necessidade de um representante para ser conhecido. Apenas a consciência é real porque não necessita de nenhum representante. O corpo é simplesmente uma idéia. Ele aparece e desaparece em você quando você não pensa sobre ele. Ele aparece e desaparece na consciência, e o que aparece e desaparece na consciência é nada mais que consciência. O corpo, a totalidade do universo, é uma expressão da consciência.

Qual a diferença entre mente e consciência?

Você pode ter consciência de sua mente. Você pode ter consciência das funções dos hemisférios direito e esquerdo de seu cérebro. Você é o conhecedor de sua mente, de seu cérebro. Portando, você não é a mente.

Você se importa se eu lhe fizer algumas perguntas pessoais?

Não há uma pessoa para responder questões pessoais. Eu escuto sua pergunta e escuto a resposta. A resposta saiu do silêncio.

Presumivelmente, você teve relação com um mestre, mas isto não tem relevância agora?

Isto se refere apenas ao presente e apenas o presente existe. Quando você fala do passado, ele existe também agora. Não há passado. Passado e futuro não existem. O que denominamos passado é um pensamento presente. O tempo, como o espaço, é apenas um modo de pensar, um estado de mente.

Neste caso, há um método particular de prática que você recomendaria?

Conhecer-se a si mesmo requer prática. Você não necessita empreender nada. Nada há a alcançar, nada a perder.


De: "A Simplicidade de Ser - Dialogos com Jean Klein"





segunda-feira, 2 de abril de 2012

O ‘Eu sou’ é Verdadeiro, tudo o mais é Inferência






Maharaj: O percebedor do mundo é anterior ao mundo ou surge junto com o mundo?
Pergunta: Que pergunta tão estranha! Por que faz tais perguntas?
M: A menos que saiba a resposta correta, você não encontrará paz.
P: Quando desperto pela manhã, o mundo já está ali, esperando-me. Sem dúvida, o mundo surge primeiro. Eu surjo, mas muito mais tarde. A primeira vez foi ao nascer. O corpo é o intermediário entre mim e o mundo. Sem o corpo, não haveria nem eu nem mundo.
M: O corpo aparece em sua mente; sua mente é o conteúdo de sua consciência; você é a testemunha imóvel do rio da consciência que está eternamente mudando sem mudar você de modo algum. Sua própria imutabilidade é tão óbvia que você nem nota ela. Olhe-se bem e todos os mal-entendidos e enganos se dissolverão. Assim como todas as pequenas vidas aquáticas existem na água e não podem existir sem ela, todo o universo está em você e não pode existir sem você.
P: Nós o chamamos Deus.
M: Deus é apenas uma ideia em sua mente. O fato é você.  A única coisa que você sabe com certeza é: ‘Aqui e agora Eu sou’. Elimine o ‘aqui e agora’, e o ‘Eu sou’ permanecerá inexpugnável. O mundo existe na memória, a memória entra na consciência; a consciência existe na Consciência, e esta é o reflexo da luz nas águas da existência.
P: Ainda assim, não posso ver como o mundo está em mim quando o oposto ‘Eu estou no mundo’ é tão óbvio.
M: Até mesmo dizer ‘Eu sou o mundo, o mundo sou eu’ é um sinal de ignorância. Mas, quando lembro e confirmo na vida minha identidade com o mundo, surge um poder em mim que destrói a ignorância, queimando-a completamente.
P: A testemunha da ignorância está separada da ignorância? Dizer ‘Eu sou ignorante’ não é parte da ignorância?
M: Certamente. Tudo o que posso dizer verdadeiramente é: ‘Eu sou’. Tudo o mais é inferência. Mas a inferência foi transformada em um hábito. Destrua todos os hábitos do pensar e do ver. O sentimento de ‘Eu sou’ é a manifestação de uma causa mais profunda que você pode chamar eu, Deus, Realidade ou qualquer outro nome. O ‘Eu sou’ está no mundo, mas ele é a chave que pode abrir a porta para sair do mundo. A lua que dança na água é vista na água, mas é causada pela lua no céu, não pela água.
P: Apesar de tudo, o ponto principal parece escapar-me. Posso admitir que o mundo em que vivo e me movo, e tenho meu ser, é de minha própria criação, uma projeção de mim mesmo, de minha imaginação, no mundo desconhecido, no mundo como ele é, o mundo de ‘matéria absoluta’, seja o que for está matéria. O mundo de minha própria criação pode ser totalmente diferente do final, do mundo real, exatamente como a tela do cinema é muito distinta das imagens que são projetadas nela. No entanto, este mundo absoluto existe, totalmente independente de mim mesmo.
M: Assim é, o mundo da Realidade Absoluta, no qual sua mente projetou um mundo de relativa irrealidade, é independente de você pela simples razão de que é você mesmo.
P: Não há contradição nestes termos? Como pode a independência provar a identidade?
M: Examine o movimento de mudança e verá. O que pode mudar enquanto você não muda pode ser dito como independente de você. Mas o que é imutável deve ser um com qualquer outro que seja imutável, já que a dualidade implica interação e a interação significa mudança. Em outras palavras, o absolutamente material e o absolutamente espiritual, o totalmente objetivo e o totalmente subjetivo, são idênticos em substância e essência.
P: Como em uma imagem tridimensional, a luz forma sua própria tela.
M: Qualquer comparação servirá. O ponto principal que deve entender é que você projetou em si mesmo um mundo de sua própria imaginação, baseado em recordações, em desejos e temores, e que você mesmo encarcerou-se nele. Rompa o encantamento e seja livre.
P: Como se rompe o encantamento?
M: Afirme sua independência no pensamento e na ação.  Afinal, tudo depende de sua fé em si mesmo, na convicção de que o que você vê e ouve, pensa e sente, é real. Por que não questiona sua fé? Não há dúvida, esse mundo é pintado por você na tela da consciência e é inteiramente seu próprio mundo privado. Apenas o seu sentido de ‘Eu sou’, apesar de estar no mundo, não é do mundo. Por nenhum esforço da imaginação ou da lógica você pode mudar o ‘Eu sou’ pelo ‘Eu não sou’. Na própria negação do seu ser você o afirma. Uma vez que entenda que o mundo é sua própria projeção, estará livre dele! Não necessitará libertar-se de um mundo que não existe exceto em sua imaginação! Seja qual for a imagem, bela ou feia, você a está pintando e não está limitado por ela. Compreenda que não há ninguém que a imponha a você, que ela é devido ao hábito de tomar o imaginário pelo real. Veja o imaginário como imaginário e liberte-se do medo.
Assim como as cores neste tapete são produzidas pela luz, mas a luz não é a cor, assim o mundo é causado por você, mas você não é o mundo.
Isto que cria e sustenta o mundo você pode chamá-lo Deus ou providência, mas, no final das contas, você é a prova de que Deus existe, não o contrário. Pois, antes que qualquer pergunta sobre Deus possa ser feita, você deve existir para fazê-la.
P: Deus é uma experiência no tempo, mas o que experiencia é atemporal.
M: Mesmo o que experiencia é secundário. O primário é a infinita expansão da consciência, a eterna possibilidade, o potencial incomensurável de tudo o que foi, é, e será. Quando você olha para qualquer coisa, o que vê é o final, mas você imagina que vê uma nuvem ou uma árvore.
Aprenda a olhar sem imaginação, a escutar sem distorção, isto é tudo. Pare de atribuir nomes e formas ao essencialmente inominável e sem forma; entenda que cada modo de percepção é subjetivo, que o visto ou ouvido, tocado e cheirado, sentido ou pensado, esperado ou imaginado, está na mente e não na realidade, e assim você experienciará a paz e a liberdade do medo.
Mesmo o sentido ‘eu sou’ é composto de pura luz e do sentimento de ser. O ‘eu’ existe mesmo sem o ‘sou’. Assim, a pura luz está ali, diga você "eu" ou não. Torne-se ciente desta pura luz , e nunca a perderá. A existência no Ser, a Consciência na consciência, o interesse em cada experiência – isso não é descritível, ainda que perfeitamente acessível, pois nada mais existe.
P: Você fala da realidade diretamente – como a primeira causa todo-abrangente, sempre presente, eterna, onisciente, a primeira causa que dá energia a tudo. Há outros mestres que se negam a discutir a realidade em absoluto. Dizem que a realidade está além da mente, enquanto todas as discussões estão dentro do reino da mente, a qual é a morada do irreal. A perspectiva deles é negativa; apontam o irreal e, assim, vão além dele, para o real.
M: A diferença está apenas nas palavras. Afinal de contas, quando eu falo do real, descrevo-o como não irreal, sem limites, atemporal, sem causa, sem princípio nem fim. Vêm a ser o mesmo. Desde que leve à iluminação, que importam as palavras? Importa que você puxe o carro ou o empurre, desde que siga se movendo? Você pode sentir-se atraído pela realidade em um momento dado e sentir repulsa pelo falso em outro; são apenas estados de ânimo que se alternam; ambos são necessários para a perfeita liberdade. Você pode ir por um caminho ou outro – mas cada vez será o caminho correto no momento; simplesmente, vá com toda confiança, não perca tempo duvidando ou hesitando. Muitos tipos de alimento são necessários para fazer uma criança crescer, mas o ato de comer é o mesmo. Teoricamente, todas as abordagens são boas. Na prática, e em um dado momento, você prossegue por um só caminho. Cedo ou tarde, você será obrigado a descobrir que, se realmente quiser encontrar, terá que escavar em um só lugar – dentro de si mesmo.
Nem seu corpo nem sua mente podem dar-lhe o que busca – o ser e o conhecer seu eu, e a grande paz que vem com ele.
P: Sem dúvida, deve haver algo importante e valioso em cada abordagem.
M: Em cada caso, o valor está em levá-lo à necessidade de buscar dentro de si mesmo. Jogar com abordagens distintas pode dever-se à resistência a ir para dentro, ao medo de ter que abandonar a ilusão de ser algo ou alguém em particular. Para encontrar água, você não cava pequenos buracos em diversos lugares, mas perfura profundamente em um só lugar. De modo similar, para encontrar seu eu, terá que explorar a você mesmo. Quando compreender que você é a luz do mundo, também compreenderá que você é o amor dele; que conhecer é amar, e amar, conhecer.
De todos os afetos, o amor a si mesmo vem primeiro. Seu amor pelo mundo é o reflexo de seu amor por você mesmo, pois seu mundo é de sua própria criação. O amor e a luz são impessoais, mas se refletem em sua mente como conhecimento e boa vontade em relação a si próprio. Sempre somos amáveis conosco mesmos, mas não sempre sábios. Um Iogue é um homem cuja boa vontade é aliada a sabedoria.

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