Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O ponto de vista para ler o Gita














Numa das sessões, uma distinta dama que visitava Maharaj fez uma pergunta sobre o Bhagavadgita. Enquanto ela formulava sua questão nas palavras adequadas, Maharaj, repentinamente, perguntou-lhe: “De que ponto de vista você lê o Gita?”

Visitante: Do ponto de vista de que o Gita é, talvez, o guia mais importante para o buscador espiritual.
         
Maharaj:
Porque você da uma resposta tão tola? Certamente, ele é um guia muito importante para o buscador espiritual; não é um livro de ficção. Minha pergunta é: Qual o ponto de vista do qual você lê o livro?
         
Outro visitante: Senhor, eu o li como um dos Arjunas do mundo, para cujo benefício o Senhor foi tão generoso expondo o Gita.

Quando Maharaj olhou ao seu redor aguardando outras opiniões, houve apenas um murmúrio geral de aprovação a essa ultima resposta.         
         
M: Por que não ler o Gita do ponto de vista do Senhor Krishna?

Esta sugestão suscitou dois tipos simultâneos de reação de assombro de dois visitantes. Uma das reações foi uma exclamação escandalizada que claramente significava que a sugestão era equivalente a um sacrilégio. A outra foi de um único e rápido bater de palmas, uma ação reflexa, obviamente, indicando alguma coisa como o "Eureka!" de Arquimedes. Ambos os visitantes envolvidos estavam como que embaraçados por suas reações inconscientes e pelo fato de que as duas eram opostas uma à outra. Maharaj deu um rápido olhar de aprovação ao que havia batido palmas e continuou.
         
M: Muitos livros religiosos são tidos como a palavra de alguma pessoa iluminada. Por mais iluminada que seja uma pessoa, ela deve falar a partir de certos conceitos que achou aceitáveis. Mas a extraordinária distinção do Gita é que o Senhor Krishna falou do ponto de vista de que ele é a fonte de toda a manifestação, isto é, não do ponto de vista de um fenômeno, mas do númeno, do ponto de vista de que ‘a manifestação total sou eu mesmo’. Esta é a exclusividade do Gita.

Agora, disse Maharaj, considerem o que deve ter acontecido antes que qualquer texto religioso antigo tenha sido escrito. Em todos os casos, a pessoa iluminada deve ter tido pensamentos que colocou em palavras e as palavras usadas podem não ter sido muito adequadas para comunicar seus pensamentos exatos. As palavras do mestre poderiam ter sido ouvidas pela pessoa que as escreveu e o que ela escreveu, certamente, seria de acordo com seu próprio entendimento e interpretação. Depois deste primeiro registro manuscrito, várias cópias dele teriam sido feitas por diversas pessoas e tais cópias conteriam numerosos erros. Em outras palavras, o que o leitor de qualquer tempo particular lê e tenta assimilar pode ser totalmente diferente do que realmente o mestre original pretendeu comunicar. Acrescentem a tudo isto as interpolações inconscientes ou deliberadas feitas por vários eruditos no curso dos séculos, e vocês entenderão o problema que eu estou tentando comunicar a vocês.

Disseram-me que o próprio Buda falou apenas na linguagem Maghadi, enquanto seu ensinamento, como foi anotado, está em Pali ou em Sânscrito, o que poderia ter sido feito apenas muitos anos mais tarde; o que agora temos de seus ensinamentos passou por numerosas mãos. Imaginem o número de alterações e acréscimos que foram infiltrados nele por um longo período. Não seria surpreendente que haja agora diferenças de opinião e disputas sobre o que Buda realmente disse, ou quis dizer?
         
Nestas circunstâncias, quando peço a vocês que leiam o Gita do ponto de vista do Senhor Krishna, peço que abandonem imediatamente a identidade com o complexo corpo-mente quando o lerem. Peço que leiam de acordo com o ponto de vista de que vocês são a consciência desperta – a consciência de Krishna – e não os objetos fenomênicos aos quais ela deu sensibilidade – para que o conhecimento que está no Gita seja verdadeiramente revelado para vocês. Vocês entenderão, então, que, no Vishva-rupa-darshan, o que o Senhor Krishna mostrou a Arjuna não era seu próprio Svarupa, mas o Svarupa – a verdadeira identidade – do próprio Arjuna e, por conseguinte, de todos os leitores do Gita.

Em resumo, leiam o Gita do ponto de vista do Senhor Krishna, como a consciência de Krishna; vocês então compreenderão que o fenômeno não pode ser ‘liberado’ porque ele não tem nenhuma existência independente; é apenas uma ilusão, uma sombra. Se o Gita for lido neste espírito, a consciência, a qual tem se identificado erradamente com o complexo corpo-mente, tornar-se-á consciente de sua verdadeira natureza e se fundirá com sua origem.




De: "Sinais do Absoluto" - Dialogos resolutivos com Sri Nisargadatta Maharaj




domingo, 20 de janeiro de 2013

Verdade é ver o falso como falso








Numa das sessões, o assunto discutido era: ‘em que exatamente se constitui a ‘escravidão’?’.  Maharaj explicou que nós somos o númeno – o atemporal, ilimitado, ser imperceptível – e não o que parecemos ser como objetos separados – temporais, finitos e perceptíveis aos sentidos. A ‘escravidão’ surge porque esquecemos nosso ser real, o númeno, e nos identificamos com o fenômeno – o corpo – o qual é somente um aparato psicossomático.

          Quando Maharaj solicitou que se perguntasse, um dos visitantes que tinha assistido a diversas sessões, e perguntado pouco, levantou a mão e perguntou: A identificação com o corpo – simplesmente por causa de tal identificação – significaria escravidão? Os Jnanis não podem abandonar seus corpos durante o tempo de duração da vida e devem vivê-la como os outros seres humanos no que diz respeito às suas funções físicas. Além disso, todos os Jnanis não agem de uma maneira uniforme, tendo cada um o seu próprio modo de comportar-se no mundo, seu próprio modo de tratar com os demais. Nesta medida, não haveria uma certa identificação com o corpo individual, inclusive no caso dos Jnanis?

          Maharaj sorriu, apreciando a boa fundamentação da pergunta, e disse: O corpo é um instrumento necessário para que a consciência permaneça em manifestação. Como os dois poderiam não se identificar até que o alento vital deixe o corpo (comumente conhecido como morte) e a consciência seja liberada da forma fenomênica? A escravidão não é causada pela simples identificação formal com o corpo, o qual é uma construção psicossomática dos cinco elementos, um instrumento que não tem existência independente. O que causa a ‘escravidão’ é a identificação que resulta no conceito imaginado de uma entidade independente, autônoma, que se considere o agente e, assim, ‘toma sobre si’ as ações e a responsabilidade pelas conseqüências.

          Eu repito que não é simplesmente o fato da identificação com o corpo que é responsável pelo conceito de ‘escravidão’. O corpo deve continuar a ser usado como um instrumento. A escravidão pode surgir apenas quando há uma vontade aparente, isto é, quando se imagina a ação como da escolha de alguém como um ‘fazedor’; e isto põe em movimento o processo de causalidade, do Karma e da ‘escravidão’.

          É necessário entender como a entidade aparente é sobreposta ao processo geral da manifestação. Uma vez que você veja o falso como falso, não será necessário nada mais para encontrar a verdade, a qual, de modo algum, não pode ser concebida como um objeto. Em que momento surge o problema da identificação? Enquanto a fenomenalidade estiver inteiramente latente na numenalidade (sendo a numenalidade latente no fenômeno), o problema da identificação não deveria surgir de forma alguma. Não há nenhuma necessidade de qualquer identificação específica entre a numenalidade (Avyakta) e a fenomenalidade (Vyakta) como tal. Tal necessidade surgiria apenas quando há a manifestação do Absoluto numenal em objetos fenomênicos separados, um processo de objetivação que requer necessariamente o ‘dualismo’ – uma divisão em dois elementos –, um sujeito (Vyakti) que percebe e conhece, e um objeto que é percebido e conhecido. O ponto importante é que tanto o sujeito-conhecedor quanto o objeto-conhecido são objetos interdependentes e podem existir apenas na consciência na qual o processo de manifestação ocorre, e esta consciência, de fato, é o que nós somos!

           Entenda este ponto básico: Podemos existir somente como objetos uns dos outros; e isto, também, só na consciência do sujeito-conhecedor que nos conhece, cada objeto tomando a posição de sujeito-conhecedor (Vyakti) em relação aos outros, os quais se convertem nos objetos. E aqui surge a ‘entidade’ (Vyakti). O sujeito-conhecedor, considerando sua função subjetiva, assume ‘a si mesmo’ como uma entidade, um ‘ser independente, autônomo, com vontade e escolha. Esta entidade-imagem ilusória, então, segue o princípio do ‘dualismo’ (que é a própria base da manifestação) para comparar, discriminar, fazer um julgamento e escolher entre seus objetos desde o ponto de vista dos opostos inter-relacionados tais como certo e errado, bom e mau, aceitável e inaceitável, etc.

          É esta ilusória ‘entificação’, e não simplesmente a identificação com o corpo, que é a raiz da ‘escravidão’. Repetindo: O que nós somos – o Absoluto numenal (Avyakta) manifestando-se como a totalidade dos fenômenos (Vyakta) – é destituído de qualquer existência objetiva individual. Portanto, o que-nós-somos não pode sofrer nenhum ‘nascimento’ ou ‘morte’ nem escravidão nem liberação. A escravidão e o sofrimento resultante são puramente conceituais, baseados na identificação com o sujeito-conhecedor-entidade (Vyakti) totalmente imaginário.

          Um exemplo do que Maharaj tinha dito é dado pela maneira na qual ele apreciava um bom dialogo sobre um assunto que se tenha desenvolvido de forma interessante. Quando, durante as discussões sobre assuntos abstrusos, alguém da audiência mostrava uma percepção penetrante no que Maharaj havia dito, ele se sentia feliz como uma criança que tivesse recebido um brinquedo desejado. Quão bem se desenvolveu o assunto nesta manhã, poderia dizer. Algumas vezes, totalmente esquecido de qualquer implicação de uma mente dividida normal, ele poderia dizer que tal alto nível de discussão sobre o Advaita não estaria disponível em qualquer outro lugar! Mas o que pode parecer em tais ocasiões um auto-elogio é, na realidade, a pura alegria da modéstia. Ele, então, era o Vyakta, e não o Vyakti.

          Diz-se de Ramana Maharshi que, quando as pessoas cantavam ‘Hinos em Louvor de Ramana’, juntava-se a eles no canto e se punha a bater palmas como todos os demais. Ele havia se desidentificado de qualquer entidade e estava, portanto, totalmente esquecido de quaisquer implicações de suas ações. Os hinos se referiam a ‘Ramana’, não a um indivíduo. O Jnani, realmente, não tem entidade individual a embaraçá-lo, e seu aparato psicossomático, o corpo, realiza suas funções de modo normal sem estar consciente delas.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Ele veio zombar.




 
Quando se participa aos diálogos entre Maharaj e seus visitantes por algum tempo, fica-se surpreso com a diversidade de perguntas que são feitas – muitas delas terrivelmente ingênuas – e com a espontaneidade e facilidade com as quais as respostas vêm do Mestre. Perguntas e respostas são traduzidas tão acuradamente quanto possível. As respostas de Maharaj em Marathi, que é a única língua que domina, seriam naturalmente baseadas nas palavras do Marathi usadas na tradução da pergunta. Em suas respostas, contudo, Maharaj faz um uso muito hábil das palavras do Marathi empregadas na tradução da pergunta, ou por meio de trocadilhos, ou leves mudanças nas próprias palavras, produzindo interpretações algumas vezes totalmente diferentes de seus significados usuais. A exata significação de tais palavras nunca poderia ser obtida em qualquer tradução.  Maharaj francamente admite que, geralmente, faz uso claro e direto do Marathi com o fim de tornar manifestos o nível mental do interlocutor, sua intenção, e o condicionamento por trás da pergunta. Se o interlocutor toma a sessão como um entretenimento, embora de um tipo superior, Maharaj está pronto para juntar-se à diversão, na ausência de melhor assunto e melhor companhia!
Entre os visitantes, há ocasionalmente um tipo pouco comum de pessoa que tem um intelecto muito penetrante, mas é dotado de um ceticismo devastador. Ele presume que tem uma mente aberta e uma curiosidade intelectual penetrante. Ele quer ser convencido e não meramente enganado por palavras vagas e incertas que os mestres religiosos freqüentemente distribuem em seus discursos. Maharaj, com certeza, rapidamente reconhece este tipo e, então, a conversa imediatamente assume um tom de mordacidade que o deixa abalado. A percepção intuitiva subjacente às palavras de Maharaj simplesmente varre a crítica metafísica proposta por semelhante intelectual. É de maravilhar-se ver como um homem, o qual não tem nem mesmo o benefício de uma educação adequada, possa mostrar mais talento que vários eruditos pedantes e cépticos agnósticos que se acreditam invulneráveis.  As palavras de Maharaj são sempre eletrizantes e brilhantes. Ele nunca cita autoridades das escrituras em Sânscrito ou em qualquer outra língua. Se um dos visitantes citasse um verso do Gita, Maharaj tinha que pedir sua tradução para o Marathi. Sua intuição perceptiva não precisa do apoio das palavras de qualquer outra autoridade. Seus próprios recursos internos são, sem dúvida, ilimitados. O que quer que eu diga, disse Maharaj, sustenta-se por si mesmo, não necessitando nenhum outro apoio.
Um dos visitantes habituais às sessões trouxe com ele um amigo e o apresentou a Maharaj como um homem com um intelecto muito aguçado que não aceitaria nada como verdade absoluta e que questionaria tudo antes de aceitar. Maharaj disse que estava feliz por encontrar tal pessoa. O novo visitante era um professor de Matemática.
Maharaj sugeriu que seria talvez melhor para ambos conversar sem hipóteses de qualquer tipo, diretamente do nível básico. Ele gostaria disto? O visitante deve ter ficado muito surpreendido com esta oferta. Ele disse que estava encantado com a sugestão.

Maharaj: Agora, diga-me, você está sentado diante de mim aqui e agora. O que exatamente pensa que ‘você’ é?

Visitante: Sou um ser humano do sexo masculino, quarenta e nove anos, com certas medidas físicas e certas esperanças e aspirações.
         
M: Qual sua imagem de si mesmo dez anos atrás? A mesma de agora? E quando você tinha dez anos de idade? E quando você era uma criança? E mesmo antes disto? Sua imagem de si mesmo não mudou o tempo todo?
         
V: Sim, o que considero como minha identidade mudou todo o tempo.
         
M: E, no entanto, não há alguma coisa, quando pensa sobre si mesmo – no fundo do coração –, que não mudou?
         
V: Sim, há, embora eu não possa especificar o que é exatamente.
         
M: Não seria o simples sentido de ser, o sentido de existir, o sentido de presença? Se você não estivesse consciente, seu corpo existiria para você? Haveria qualquer mundo para você? Teria, então, qualquer pergunta sobre Deus ou o Criador?
         
V: Isto, certamente, é algo a ponderar. Mas, diga-me, por favor, como você vê a si mesmo?
         
M: Eu sou este eu sou ou, se preferir, eu sou esse eu sou.
         
V: Desculpe-me, mas eu não entendi.
         
M: Quando você diz “eu penso que entendi”, está tudo errado. Quando você diz “eu não entendi”, isto é absolutamente verdadeiro. Deixe-me simplificar: eu sou a presença consciente – não esta pessoa ou aquela, mas Presença Consciente, como tal.
         
V: Agora, novamente, estou para dizer que penso que entendi! Mas você disse que isto é errado. Você não está tentando confundir-me deliberadamente, está?
         
M: Ao contrário, estou dizendo para você qual é a posição exata. Objetivamente, eu sou tudo que aparece no espelho da consciência. Absolutamente, eu sou Aquilo. Eu sou a consciência na qual o mundo aparece.
   
V: Infelizmente, não vejo isto. Tudo o que posso ver é o que aparece diante de mim.
         
M: Você seria capaz de ver o que aparece diante de você se não estivesse consciente? Não. Não é toda existência, portanto, puramente objetiva na medida em que você existe apenas em minha consciência e eu na sua? Não é claro que nossa experiência um do outro está limitada a um ato de cognição na consciência? Em outras palavras, o que nós chamamos nossa existência está meramente na mente de algum outro e, portanto, é apenas conceitual? Pondere sobre isto também.
         
V: Você está tentando me dizer que todos nós somos meros fenômenos na consciência, fantasmas no mundo? E o que diríamos sobre o próprio mundo? E sobre todos os eventos que acontecem?
         
M: Pondere sobre o que eu disse. Você pode descobrir alguma falha? O corpo físico, o qual geralmente alguém identifica como a si mesmo, é apenas uma estrutura física para o Prana (a força vital) e para a consciência. Sem o Prana e a consciência, o que seria o corpo físico? Apenas um cadáver! É apenas porque a consciência identificou-se erradamente como sua cobertura física – o aparato psicossomático – que o indivíduo aparece.
         
V: Agora, você e eu somos indivíduos separados que têm de viver e trabalhar neste mundo junto com milhões de outros, certamente. Como você me vê?
         
M: Vejo você neste mundo exatamente como você vê a si mesmo em seu sonho. Isto satisfaz você? Em um sonho, enquanto seu corpo está descansando em sua cama, você criou todo um mundo – paralelo ao que você chama mundo “real” – no qual existem pessoas, incluindo você mesmo. Como você se vê no seu sonho? No estado de vigília, o mundo emerge e você é levado para o que eu chamaria um estado de sonho acordado. Enquanto você está sonhando, seu mundo de sonho aparece para você como muito real, sem dúvida, não é assim? Como você sabe que este mundo que você chama ‘real’ não é também um sonho? É um sonho do qual você deve acordar pela visão do falso como falso, do irreal como irreal, do transitório como transitório; ele pode ‘existir’ apenas no espaço e no tempo conceituais. E, então, depois de tal ‘despertar’, você estará na Realidade. Então você verá o mundo como ‘vivente’, como um sonho fenomênico dentro da periferia da percepção sensorial no espaço e tempo, com um aparente livre-arbítrio.
Agora, a respeito do que você chama um indivíduo: Por que você não examina analiticamente este fenômeno com a mente aberta, depois de abandonar todo condicionamento mental existente e todas as idéias preconcebidas? Se você fizer assim, o que você encontrará? O corpo é meramente uma estrutura física para a força vital (Prana) e para a consciência, o qual constitui um tipo de aparato psicossomático; e este ‘individuo’ nada faz a não ser responder ao estimulo externo e produzir imagens e interpretações ilusórias. E, além disto, este ser sensível individual pode ‘existir’ apenas como um objeto na consciência que o reconhece! É apenas uma alucinação.
         
V: Você quer dizer com isto que você não vê diferença entre um sonho sonhado por mim e minha vida neste mundo?
         
M: Você já tem bastante para cogitar e meditar. Está certo que deseja prosseguir?
         
V: Estou acostumado a grandes doses de estudo sério e não tenho dúvidas que você também. De fato, seria mais gratificante para mim se pudéssemos prosseguir e levar isto à sua conclusão lógica.
         
M: Muito bem. Quando você está em sono profundo, o mundo fenomênico existe para você? Você não poderia, intuitiva e naturalmente, visualizar seu estado primitivo – seu ser original – antes que esta condição corpo-consciência irrompesse sobre você sem ser solicitada, por si mesma? Neste estado, você estaria consciente de sua “existência”? Não, certamente.
A manifestação universal está apenas na consciência, mas o ‘desperto’ tem seu centro de visão no Absoluto. No estado original de puro ser, não consciente de sua qualidade de ser, a consciência surge como uma onda sobre a extensão das águas, e o mundo aparece e desaparece na consciência. As ondas se levantam e caem, mas a expansão das águas permanece. Antes de todos os princípios, de todos os fins, eu sou. O que quer que aconteça, devo estar presente para testemunhar.
Não é que o mundo não ‘exista’. Ele existe, mas meramente como uma aparência na consciência – a totalidade do manifesto conhecido na infinidade do desconhecido, o não manifestado. O que começa deve terminar. O que aparece deve desaparecer. A duração da aparição é um assunto relativo, mas o princípio é que o que quer que seja sujeito ao tempo e à duração deve terminar e é, portanto, não real.
Você não pode perceber imediatamente que neste sonho da vida você ainda está dormindo, que tudo que seja reconhecível está contido nesta fantasia da vida? E que aquele que, enquanto conhecer este mundo objetificado, considerar-se uma ‘entidade’ separada da totalidade que conhece é, em realidade, parte integral deste mesmo mundo hipotético?
Considere também: Nós parecemos estar convencidos de que vivemos uma vida própria, de acordo com nossos próprios desejos, esperanças e ambições, de acordo com nosso próprio plano e objetivo, através de nossos próprios esforços individuais. Mas é realmente assim?   Ou estamos sendo sonhados e vividos sem vontade, totalmente como fantoches, exatamente como em um sonho pessoal? Pense! Nunca esqueça que, assim como o mundo existe, embora como uma aparência, as figuras sonhadas também, neste ou naquele sonho, devem ter um conteúdo – elas são o que o sujeito do sonho é. É por isto que digo: Relativamente‘Eu’não sou, mas eu mesmo sou o universo manifesto.
         
V: Penso que começo a entender toda a idéia.
         
M: Não é o pensamento de si mesmo uma noção na mente? O pensamento está ausente quando se vê as coisas intuitivamente. Quando você pensar que entendeu, você não entendeu. Quando perceber diretamente, não há nenhum pensamento. Você sabe que está vivo; você não ‘pensa’ que você está vivo.
         
V: Céus! Isto parece ser uma nova dimensão que você está apresentando.
         
M: Bem, nada sei sobre uma nova dimensão, mas você se expressou bem. De fato, poderia ser dito que tal dimensão adquire uma nova direção de medida – um centro novo de visão – na medida em que, evitando os pensamentos e percebendo diretamente as coisas, evita-se a concepção. Em outras palavras, vendo com a mente total, intuitivamente, o observador aparente desaparece, e a visão torna-se o visto.
         
O visitante então se levantou e prestou seus respeitos a Maharaj com muito maior devoção e submissão do que a que havia mostrado na chegada. Ele olhou para dentro dos olhos de Maharaj e sorriu. Quando Maharaj perguntou por que sorria, disse que havia lembrado de um provérbio em Inglês: “Eles vieram para zombar e permaneceram para orar.”



De: "Sinais do Absoluto" - Diálogos resolutivos com Sri Nisargadatta Maharaj



segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

O buscador é o buscado













Um casal europeu visitou Maharaj por uma semana. Marido e esposa estiveram interessados na metafísica vedântica por muitos anos e tinham estudado profundamente o assunto. Havia neles, contudo, um toque de cansaço, quase de frustração, em seus pontos de vista e comportamento geral, o qual mostrava claramente o que foi posteriormente confirmado. Eles não tinham nenhuma compreensão clara da verdade a despeito da assídua busca por um longo período de tempo durante o qual tinham viajado intensamente, e tinham buscado orientação de numerosos Gurus, mas sem sucesso. Agora, estavam, talvez, perguntando-se se iam para outro exercício de futilidade e para mais frustração.

          Depois de terem fornecido as informações sobre seus fundamentos em resposta à pergunta habitual de Maharaj, sentaram-se com indiferença. Maharaj olhou para eles por poucos momentos e disse: Por favor, entendam que eu não tenho nada para dar a vocês. Tudo o que faço é pôr diante de vocês um espelho espiritual para mostrar sua verdadeira  natureza. Se o significado do que digo for entendido claramente, intuitivamente – não apenas de forma verbal –, e aceito com a mais profunda convicção e a mais urgente rapidez, não será mais necessário nenhum conhecimento. Este entendimento não é uma questão de tempo (de fato, é anterior ao conceito de tempo) e, quando ele acontece, acontece repentinamente, quase como um choque de compreensão atemporal. Efetivamente, isto significa uma repentina cessação do processo de duração, uma fração de segundo em que o funcionamento do próprio processo do tempo é suspenso – enquanto acontece a integração com o que é anterior à relatividade – e a apreensão absoluta ocorre. Uma vez que esta semente de compreensão tenha se enraizado, o processo de libertação relativa da escravidão imaginada pode seguir seu próprio curso, mas a apreensão em si mesma é sempre instantânea.
          A palavra-chave no processo de entendimento do que digo é ‘espontaneidade’. A manifestação de todo o universo é como um sonho, um sonho cósmico, exatamente como o sonho microcósmico de um indivíduo. Todos os objetos são objetos sonhados, todos são aparições na consciência, tanto no caso de um sonho surgindo espontaneamente como um sonho pessoal durante o sono ou como o sonho vivente da vida no qual nós todos estamos sendo sonhados e vividos. Todos os objetos, todas as aparições são sonhadas na consciência pelos seres sensíveis.
          Os seres sensíveis são, portanto, tanto figuras sonhadas como sonhadores; não há um sonhador individual, como tal. Cada sonho ativo do universo está na consciência, a qual está no interior de um aparato psicossomático particular, o meio através do qual o perceber e o interpretar ocorrem, e que é confundido com uma entidade individual. No sono profundo não há sonho e, portanto, nenhum universo. É apenas quando você usa a mente dividida que você existe separado dos ‘outros’ e do mundo.
          Você não tem controle sobre os objetos em seu sonho pessoal, incluindo o objeto que ‘você’ é em seu sonho. Tudo é espontâneo e, ainda assim, cada um dos objetos em seu sonho pessoal não é senão você. No sonho que é a vida, também, todos os objetos (todos os ‘indivíduos’, mesmo se são opostos um ao outro no sonho) podem apenas ser o que-você-é. Todo funcionamento, toda ação na vida, portanto, pode ser apenas ação espontânea, pois não há nenhuma entidade a realizar qualquer ação. Você é (Eu sou) o funcionamento, o sonho, a dança cósmica de Shiva!
          Finalmente, lembre-se que todo sonho de qualquer tipo deve necessariamente ser fenomênico – uma aparição na consciência –, ocorrido quando a consciência estiver ‘desperta’, que é quando a consciência é consciente de si mesma. Quando a consciência não é consciente de si mesma, não pode haver nenhum sonho, como no sono profundo.
          Ao chegar neste ponto, o homem do casal tinha uma dúvida. Sua pergunta era: Se todos nós somos figuras sonhadas, sem qualquer escolha independente de decisão e ação, por que deveríamos preocupar-nos com escravidão e liberação? Por que deveríamos vir para Maharaj?
          Maharaj riu e disse: Você parece ter chegado à conclusão correta pelo caminho errado! Se você quer dizer que agora está convencido, além de qualquer sombra de dúvida, que o objeto com o qual você havia se identificado é realmente apenas um fenômeno totalmente destituído de qualquer substância, independência ou autonomia – simplesmente uma aparição sonhada na consciência de outro alguém – e que, portanto, para uma simples sombra não pode haver qualquer problema de escravidão ou liberação, e que, consequentemente, não há necessidade de forma alguma de vir e ouvir-me, então você está perfeitamente certo. Se for assim, você não está apenas certo, mas já liberado! Mas, se você quer dizer que deve continuar a visitar-me apenas porque não pode aceitar que é uma mera figura sonhada, sem qualquer independência ou  autonomia, então receio que nem mesmo deu o primeiro passo. E, de fato, desde que haja uma entidade buscando a liberação, ela nunca a encontrará.
          Veja isto desta forma simples: Qual é a base de qualquer ação? A necessidade. Você come porque há uma necessidade disto; seu corpo evacua porque é necessário. Você me visita por causa da necessidade de visitar-me e escutar o que digo. Quando há a necessidade, a ação se segue espontaneamente sem qualquer intervenção de qualquer agente. Quem sente a necessidade? A consciência, certamente, sente a necessidade através da mediação do aparato psicossomático. Se você pensar que é este aparato, não é este o caso de identidade errada, assumindo a carga da escravidão e buscando a liberação? Mas na realidade o que pergunta, o buscador, é o buscado!
          Uma calma absoluta reinou na salinha enquanto todos ponderavam sobre o que Maharaj havia dito. O casal visitante sentou com os olhos fechados, esquecido dos arredores, enquanto os demais visitantes, gradualmente, saiam.



De: "Sinais do Absoluto" - Diálogos resolutivos com Sri Nisargadatta Maharaj













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