Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A NATUREZA DO HOMEM


"Chegamos agora à essência da teoria: a natureza do homem. Independente do que o homem pensa a respeito da realidade do mundo ou da existência de Deus, ele sabe por certo que ele existe. E é com o propósito de entender e, ao mesmo tempo, aperfeiçoar a si mesmo, que ele estuda e busca a instrução espiritual.

O indivíduo que identifica a sua própria existência com a existência da vida no corpo físico, e o toma como “eu”, é chamado de ego. O Eu Real, que é pura Consciência, não tem sentimento de ego ligado ao corpo. Nem pode o corpo físico, que é por si só inerte, ter esse sentimento de ego. Entre os dois – ou seja, entre o Eu ou pura Consciência e o corpo físico inerte – surge misteriosamente a sensação de ego, ou noção de ‘eu’, este híbrido que não é nenhum dos dois e que floresce como ser individual. Este ego ou ser individual é a raiz de tudo o que é fútil e desagradável na vida. Por isso ele deve ser destruído por qualquer meio possível; então permanece apenas o brilho d’Aquilo que sempre é. Isso é a Libertação, Iluminação ou Auto-Realização.

Pergunta : O Bhagavan muitas vezes diz: “o mundo não é exterior a você” ou, “tudo depende de você”, ou “o que existe fora de você?” Para mim isso tudo é muito enigmático. O mundo existia antes de eu nascer e vai continuar a existir depois da minha morte, assim como continuou a existir depois da morte tantos que viveram antes de mim.

Ramana : Alguma vez eu disse que o mundo existe por sua causa? Eu apenas lhe coloquei a questão ‘o que existe além de você mesmo?’ Você deve compreender que ‘você mesmo’ não se refere ao corpo físico nem ao corpo sutil, mas ao Eu Real.
O que lhe foi dito é que uma vez que você conheça o Eu Real dentro do qual todas as idéias existem, incluindo a idéia de ‘eu mesmo’, ‘outros como eu’ e ‘mundo’, você pode compreender a verdade de que existe uma Realidade, uma Verdade Suprema que é o Eu Real de todo o mundo que você agora percebe, o Eu de todos os eus, o Real, o Supremo, o Eu eterno, distinto do ego ou ser individual, que é impermanente. Você não deve confundir o ego, ou noção de corpo, com o verdadeiro Eu.

P.: Então o Bhagavan quer dizer que o Eu Real é Deus?

Nesta resposta o Bhagavan, como lhe era peculiar, voltou a discussão da teoria à prática. Apesar de o presente capítulo como um todo ser dedicado à teoria, parece apropriado continuar este diálogo para mostrar como a teoria era posta em prática.

R.: Você percebe a dificuldade disso? A auto-inquirição “Quem sou eu?” é uma técnica diferente da meditação “Eu sou Shiva” ou “eu sou Ele”. Eu prefiro enfatizar o autoconhecimento, porque você primeiro está preocupado consigo mesmo antes de querer saber do mundo ou seu Senhor. A meditação “Eu sou Ele” ou “Eu sou Brahman” é mais ou menos mental, mas a busca pelo Eu de que eu falo é um método direto, e de fato superior a ela. Pois, na medida em que você começa a busca pelo eu e vai se aprofundando, o Eu Real está lá esperando para lhe receber; então, o que quer que seja feito é feito por algo além, e você, como ser individual, não é responsável por isso. Neste processo são automaticamente abandonadas todas as dúvidas e discussões, assim como um homem que dorme esquece todas as suas preocupações naquele momento.

A discussão que segue mostra como Bhagavan permitia que se discutisse livremente as suas respostas quando o ouvinte não era convencido por elas.

Pergunta : Que certeza existe de que há algo lá esperando para me receber?

Ramana: Quando a pessoa é suficientemente madura ela se convence disso naturalmente.

P.: Como alcançar essa maturidade?

R.: Vários caminhos são ensinados. No entanto, qualquer que seja o desenvolvimento prévio da pessoa, a prática ardente da auto-inquirição o acelera.

P.: Mas isso é uma argumentação circular: eu sou forte o bastante para praticar a autoinquirição se eu sou maduro, e é a própria prática da auto-inquirição que me torna maduro.

Esta é uma objeção que aparecia freqüentemente de uma forma ou de outra, e a sua resposta mais uma vez enfatiza que o que é necessário é a prática e não a teoria.

R.: A mente tem dificuldade de entender isso. A mente quer uma teoria para se satisfazer. Na verdade, entretanto, o homem que ardentemente busca a Deus ou ao seu Eu verdadeiro não precisa de nenhuma teoria.

Todos são o Eu Real e são, de fato, infinitos. No entanto, cada um confunde o seu corpo com o Eu Real. Para se conhecer qualquer coisa precisa-se de uma iluminação, e esta só pode ser da natureza da Luz – no entanto, ela ilumina tanto a luz física quanto a escuridão física. Ou seja, esta Luz está além da luz e escuridão aparentes. Ela em si não é nenhuma das duas, mas é chamada de Luz porque ilumina ambas. Ela é infinita e é Consciência. A Consciência é o Eu do qual todos estão conscientes. Ninguém nunca está afastado do Eu Real, e portanto todos são de fato Auto-Realizados; o que acontece é que – e este é o grande mistério – as pessoas não têm consciência disso e buscam realizar o Eu Real. A Realização consiste apenas em se libertar da falsa noção de que não somos realizados. Não é nada novo a ser adquirido. Ela deve já existir, caso contrário ela não seria eterna, e apenas vale a pena se esforçar pelo que é eterno.
Uma vez que a falsa visão “eu sou o corpo” ou “eu não sou realizado” for removida apenas a Consciência Suprema ou Eu Real permanece, e é isso o que as pessoas chamam de “Realização” no seu estado atual de conhecimento. Mas a verdade é que a Realização é eterna e já existe aqui e agora.
A Consciência é conhecimento puro. A mente surge dela e é constituída de pensamentos.
A essência da mente é apenas atenção ou consciência. Entretanto, quando o ego nubla a mente, esta adota as funções de raciocínio, pensamento e percepção. A mente universal, não sendo limitada pelo ego, não tem nada exterior a si, e portanto ela é apenas consciência. É isso o que a Bíblia quer dizer com “EU SOU O QUE EU SOU”.
A mente que é dominada pelo ego tem sua força drenada e por isso é muito fraca para resistir a pensamentos perturbadores. A mente sem ego é feliz, como nós percebemos no sono profundo, sem sonhos. Portanto, claramente se percebe que perturbação e felicidade são apenas estados da mente.


Pergunta.: Quando eu procuro o “eu” eu não vejo nada.

Ramana.: Você diz isso porque você está acostumado a identificar o seu eu com o seu corpo e a sua visão com os seus olhos. O que existe para ser visto? E por quem? E como? Existe apenas uma Consciência e esta, quando se identifica com o corpo, projeta a si mesma através dos olhos e vê os objetos a sua volta. O indivíduo está limitado ao estado de vigília; ele espera ver algo diferente e aceita a autoridade dos seus sentidos. Ele não vai aceitar que aquele que vê, os objetos vistos, e o ato de ver são todos manifestações da mesma Consciência – o “Eu-Eu”. A prática da meditação ajuda a superar a ilusão de que o Eu Real é alguma coisa [objetiva] para ser vista. Na verdade não há nada para ver. Como você se reconhece agora? Você precisa por um espelho na sua frente para reconhecer a si mesmo?
A consciência em si é o “eu”. Realize-a e isto é a verdade.

P.: Quando eu investigo a origem dos pensamentos há a percepção do “eu”, mas isso não me satisfaz.

R.: Exatamente. Isso acontece porque essa percepção de “eu” está associada a uma forma, talvez a forma do corpo físico. Mas nada deveria ser associado ao Eu puro. O Eu Real é a Realidade pura em cuja luz brilha o corpo, o ego, e tudo mais. Quando todos os pensamentos são aquietados sobra apenas a pura Consciência.

P.: Como o ego surgiu?

Eis aqui uma questão que dá origem a intermináveis conjeturas, mas o Bhagavan, atendo-se rigorosamente à verdade da não-dualidade, recusa-se a admitir sua existência.

Ramana.: Não existe ego. Se existisse, você teria que admitir a co-existência de dois “eus” em você. Portanto, também não existe ignorância. Se você investigar dentro do Eu, a ignorância, que já é não-existente, vai ser vista como tal, e então você dirá que ela sumiu.

Às vezes o ouvinte tinha a impressão que a ausência de pensamentos é um mero “vazio mental”, e por isso o Bhagavan tinha o cuidado de alertá-los sobre esse ponto.

A ausência de pensamentos não significa um vazio. Alguém deve estar consciente desse vazio. Conhecimento e ignorância são duais e pertencem apenas à mente – o Eu Real está além de ambos. Ele é pura Luz. Não é necessário que um eu veja o outro. Não existem dois eus. O que não é o Eu é apenas não-Eu, e não pode ver o Eu. O Eu Real não possui visão ou audição, mas está além deles brilhando sozinho como pura Consciência.

O Bhagavan muitas vezes apontava a existência contínua do homem mesmo durante o sono sem sonhos como uma prova de que ele existe independente do ego e do sentimento de ter um corpo. Ele também se referia ao estado de sono profundo como um estado sem corpo e sem ego.

Pergunta: Eu não sei se o Eu é diferente do ego.

Ramana: Em que estado você estava quando dormia profundamente?

P.: Eu não sei.

R.: Quem não sabe? O eu do estado de vigília? Mas você não nega que existia durante o sono profundo, certo?

P.: Eu existia no sono profundo e existo agora, mas não sei quem estava em sono profundo.

R.: Exatamente! O homem no estado de vigília diz que ele não sabia de nada no estado de sono profundo. Agora ele vê objetos e sabe que ele existe, mas no sono profundo não havia objetos e nem o observador. No entanto, a mesma pessoa que fala agora existia também no sono profundo. Qual é a diferença entre esses dois estados? Agora existem os objetos e a atividade dos sentidos, enquanto que no sono profundo não havia. Surgiu uma nova entidade: o ego. O ego age através dos sentidos, percebe objetos, se confunde com o corpo, e afirma ser o Eu. Na realidade, aquilo que era no sono profundo continua a ser agora. O Eu Real é imutável. É o ego que surgiu entre os dois. O que surge e desaparece é o ego; o que permanece imutável é o Eu Real.

Tais exemplos às vezes davam ensejo à idéia equivocada de que o estado de Realização – ou permanência no Eu Real – que Bhagavan prescrevia, era um estado de inconsciência como o sono físico, e por isso ele buscava evitar essa idéia.

Ramana: A vigília, o sonho e o sono são apenas fases da mente. Eles não são o Eu Real. O Eu Real é a testemunha desses três estados. A sua verdadeira natureza continua existindo enquanto você dorme.

Pergunta: Mas nós somos aconselhados a não pegar no sono enquanto meditamos.

Ramana: O que você deve evitar é o torpor. O sono que se alterna com a vigília não é o verdadeiro sono; a vigília que se alterna com o sono não é a verdadeira vigília. Você está desperto agora? Não. O que você precisa fazer é acordar para o seu estado verdadeiro. Você não deveria nem cair no falso sono e nem ficar falsamente acordado.

Ainda que o Eu Real esteja presente no sono também, ele não é percebido neste estado. Ele não pode ser conhecido diretamente no sono. Deve-se primeiro realizá-lo no estado de vigília, pois ele é a nossa verdadeira natureza por trás dos três estados. O esforço deve ser feito no estado de vigília e o Eu Real deve ser realizado aqui e agora. Então ele será percebido como o Eu contínuo e intocado pela alternância vigília-sonho-sono.

Com efeito, um dos nomes do verdadeiro estado de um ser realizado é o ‘Quarto Estado’, que existe eternamente e está além dos três estados de vigília, sonho e sono. Ele écomparado ao estado de sono profundo pois, como este, é sem forma e não dual; no entanto, como mostra a citação acima, está longe de ser o mesmo. No Quarto Estado o ego é absorvido pela Consciência, enquanto que no sono ele fica imerso na inconsciência."

"Os Ensinamentos de Bhagavan Sri Ramana Maharshi em suas proprias palavras" de Arthur Osborne - Sri Ramanashram - Editora Advaita


Um comentário:

devananda disse...

Divino Swarupa,
Presentão de natal

Namaste,
Devananda

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