Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A escravidão do tempo e do espaço




Visitante: Lembro-me de ter lido em algum lugar que a combinação de espaço e tempo é a causa de nossa escravidão. Desde então, tenho me perguntado como, possivelmente, espaço e tempo poderiam resultar em escravidão.


Maharaj: Sejamos claros sobre o que estamos falando. O que você quer dizer por “escravidão”? E escravidão para quem? Se você estivesse satisfeito com este mundo que considera real e com o modo com que o está tratando, onde estaria a escravidão para você?


V: Devo reconhecer que, para mim, o mundo parece bastante real, mas não é um fato que eu esteja satisfeito com meu papel nele. Sinto-me profundamente convencido que deve haver muito mais para viver que apenas passar por ele, como muitos de nós fazemos – sem qualquer meta definida, por mera rotina. Deste ponto de vista, penso que a própria vida é escravidão.


M: Quando você usa a palavra “eu”, que imagem exata você tem sobre si mesmo? Quando você era uma criança, você se considerava apenas uma criança e era bastante feliz ao brincar com seus brinquedos. Mais tarde, você foi um jovem, com bastante força em seus braços para parar uma parelha de elefantes, e pensava que podia encarar qualquer coisa ou qualquer pessoa neste mundo. Você está agora na meia-idade, um pouco maduro, mas apreciando a vida e seus prazeres, e pensa que é um homem feliz e bem-sucedido, abençoado com uma boa família. No presente, você tem uma imagem de si mesmo que é bastante diferente das imagens que teve antes. Imagine-se dez anos à frente e, ainda mais longe, vinte anos depois. A imagem que terá então de você será diferente de todas as anteriores. Qual destas imagens é o “você” real? Já pensou sobre isto? Há qualquer identidade particular que possa chamar sua própria e que tenha permanecido com você por todo tempo, sem mudar e imutável?


V: Agora que você mencionou isto, admito que, quando uso a palavra “eu”, não tenho nenhuma idéia particular sobre mim mesmo, e concordo que qualquer idéia que eu tenha tido sobre mim mesmo mudou com o passar dos anos.


M: Bem, há alguma coisa que permaneceu sem mudar por todos esses anos, embora tudo o mais tenha mudado. E esta coisa é o sentido constante de presença, o sentimento de que você existe. Este sentido, ou sentimento “eu sou”, nunca mudou. Esta é sua imagem constante. Você está sentado em frente de mim. Você sabe disto além de qualquer dúvida, sem qualquer necessidade de confirmação de outro alguém. Similarmente, você sabe que é, que existe. Diga-me, você seria incapaz de sentir sua existência na ausência de quê?


V: Se eu estivesse dormindo ou inconsciente, não saberia que existo.


M: Exatamente. Vamos adiante. Nesta manhã, no momento em que você acordou e sua consciência assumiu o comando, você não sentiu sua consciência presente, sua existência, “eu sou”, não como uma pessoa particular, mas presença como tal?


V: Sim, é correto. Eu diria que minha personalidade particular veio à existência quando vi meu corpo e os outros objetos em volta.


M: Quando você diz que vê um objeto, o que realmente acontece é que seus sentidos reagiram a um estímulo de uma fonte exterior a seu aparato corporal. E o que seus sentidos perceberam, e sua mente interpretou, é apenas uma aparência em sua consciência. Esta aparência na consciência foi construída como um evento, estendida no espaço e em duração. Toda manifestação depende de uma combinação de dois meios intimamente unidos chamados espaço e tempo. Em outras palavras, na ausência da combinação de espaço e tempo, nenhuma manifestação poderia aparecer na consciência. Você está me seguindo?


V: Sim, entendi o que você disse. Mas onde entro como um indivíduo neste processo?


M: É aí exatamente que está a dificuldade. Toda “existência” é um processo contínuo de objetificação. Podemos apenas existir como objetos uns dos outros e, como tal, apenas na consciência que nos reconhece. Quando a exteriorização cessa, como no sono profundo, o universo objetivo desaparece.
Desde que nos imaginamos como entidades separadas, como pessoas, não será visto o quadro total da realidade impessoal. E a idéia de uma personalidade separada se deve à ilusão do espaço e do tempo que, por si mesmos, não têm existência independente, pois são apenas instrumentos, meros meios para fazer a manifestação reconhecível.
A qualquer tempo, apenas um pensamento ou sentimento, ou percepção, pode ser refletido na consciência, mas pensamentos, sentimentos e percepções movem-se em sucessão, dando a ilusão de duração. E a personalidade recebe uma existência simplesmente por causa da memória – identificando o presente com o passado e projetando-o no futuro
Pense-se momentâneo, sem passado ou futuro; então, onde estará a personalidade? Tente e descubra por si mesmo. Na memória e na antecipação, que estão no passado e no futuro, há um sentimento claro de que há um estado mental sob observação, enquanto no real o sentimento é de, antes de tudo, estar acordado e presente – aqui e agora.


V: Creio que entendi. Devo sentar-me tranqüilamente e tentar absorver este modo de pensar totalmente novo.


M: Você vê agora como o espaço e o tempo, os quais vêm juntos com a consciência e tornam a manifestação perceptível, são os culpados? Tudo o que você pode verdadeiramente dizer é: “eu sou” (significando o que é, é). No momento em que houver um pensamento de “eu” como uma personalidade separada haverá o que se denomina “escravidão”. Compreender isto é o fim de toda busca. Quando você perceber que o que pensa ser é apenas baseado na memória e na antecipação, sua busca termina e você permanecerá distante e em plena Consciência do falso como falso.



De "Sinais do Absoluto" - Pointers from Nisargadatta Maharaj - o 1° livro de Ramesh Balsekar sobre ops ensinamentos do grande jnani. Futura publicação da Editora Advaita.

Um comentário:

QL disse...

Este invólucro que chamamos de corpo é apenas um instrumento, uma mídia, que a consciência usa para 'guardar' a si mesma. Como a garrafa que guarda o vinho, o verdadeiro conteúdo, o néctar dos deuses. Este invólucro só existe no espaço-tempo e não tem existência independente, apesar de pensarmos o contrário, e é aí que mora o perigo, a escravidão, a ignorância.
Quebrado o frasco, o néctar se espalha por todos os lados!

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