Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

sábado, 31 de outubro de 2009

O buscador é o buscado








Um casal europeu visitou Maharaj por uma semana. Marido e esposa estiveram interessados na metafísica vedântica por muitos anos e tinham estudado profundamente o assunto. Havia neles, contudo, um toque de cansaço, quase de frustração, em seus pontos de vista e comportamento geral, o qual mostrava claramente o que foi posteriormente confirmado. Eles não tinham nenhuma compreensão clara da verdade a despeito da assídua busca por um longo período de tempo durante o qual tinham viajado intensamente, e tinham buscado orientação de numerosos Gurus, mas sem sucesso. Agora, estavam, talvez, perguntando-se se iam para outro exercício de futilidade e para mais frustração.
Depois de terem fornecido as informações sobre seus fundamentos em resposta à pergunta habitual de Maharaj, sentaram-se com indiferença. Maharaj olhou para eles por poucos momentos e disse: Por favor, entendam que eu não tenho nada para dar a vocês. Tudo o que faço é pôr diante de vocês um espelho espiritual para mostrar sua verdadeira natureza. Se o significado do que digo for entendido claramente, intuitivamente – não apenas de forma verbal –, e aceito com a mais profunda convicção e a mais urgente rapidez, não será mais necessário nenhum conhecimento. Este entendimento não é uma questão de tempo (de fato, é anterior ao conceito de tempo) e, quando ele acontece, acontece repentinamente, quase como um choque de compreensão atemporal. Efetivamente, isto significa uma repentina cessação do processo de duração, uma fração de segundo em que o funcionamento do próprio processo do tempo é suspenso – enquanto acontece a integração com o que é anterior à relatividade – e a compreensão absoluta ocorre. Uma vez que esta semente de compreensão tenha se enraizado, o processo de libertação relativa da escravidão imaginada pode seguir seu próprio curso, mas a compreensão em si mesma é sempre instantânea.
A palavra-chave no processo de entendimento do que digo é ‘espontaneidade’. A manifestação de todo o universo é como um sonho, um sonho cósmico, exatamente como o sonho microcósmico de um indivíduo. Todos os objetos são objetos sonhados, todos são aparições na consciência, tanto no caso de um sonho surgindo espontaneamente como um sonho pessoal durante o sono ou como o sonho vivente da vida no qual nós todos estamos sendo sonhados e vividos. Todos os objetos, todas as aparições são sonhadas na consciência pelos seres sensíveis.
Os seres sensíveis são, portanto, tanto figuras sonhadas como sonhadores; não há um sonhador individual, como tal. Cada sonho ativo do universo está na consciência, a qual está no interior de um aparato psicossomático particular, o meio através do qual o perceber e o interpretar ocorrem, e que é confundido com uma entidade individual. No sono profundo não há sonho e, portanto, nenhum universo. É apenas quando você usa a mente dividida que você existe separado dos ‘outros’ e do mundo.
Você não tem controle sobre os objetos em seu sonho pessoal, incluindo o objeto que ‘você’ é em seu sonho. Tudo é espontâneo e, ainda assim, cada um dos objetos em seu sonho pessoal não é senão você. No sonho que é a vida, também, todos os objetos (todos os ‘indivíduos’, mesmo se são opostos um ao outro no sonho) podem apenas ser o que-você-é. Todo funcionamento, toda ação na vida, portanto, pode ser apenas ação espontânea, pois não há nenhuma entidade a realizar qualquer ação. Você é (Eu sou) o funcionamento, o sonho, a dança cósmica de Shiva!
Finalmente, lembre-se que todo sonho de qualquer tipo deve necessariamente ser fenomênico – uma aparição na consciência –, ocorrido quando a consciência estiver ‘desperta’, que é quando a consciência é consciente de si mesma. Quando a consciência não é consciente de si mesma, não pode haver nenhum sonho, como no sono profundo.
Ao chegar neste ponto, o homem do casal tinha uma dúvida. Sua pergunta era: Se todos nós somos figuras sonhadas, sem qualquer escolha independente de decisão e ação, por que deveríamos preocupar-nos com escravidão e liberação? Por que deveríamos vir para Maharaj?
Maharaj riu e disse: Você parece ter chegado à conclusão correta pelo caminho errado! Se você quer dizer que agora está convencido, além de qualquer sombra de dúvida, que o objeto com o qual você havia se identificado é realmente apenas um fenômeno totalmente destituído de qualquer substância, independência ou autonomia – simplesmente uma aparição sonhada na consciência de outro alguém – e que, portanto, para uma simples sombra não pode haver qualquer problema de escravidão ou liberação, e que, consequentemente, não há necessidade de forma alguma de vir e ouvir-me, então você está perfeitamente certo. Se for assim, você não está apenas certo, mas já liberado! Mas, se você quer dizer que deve continuar a visitar-me apenas porque não pode aceitar que é uma mera figura sonhada, sem qualquer independência ou autonomia, então receio que nem mesmo deu o primeiro passo. E, de fato, desde que haja uma entidade buscando a liberação, ela nunca a encontrará.
Veja isto desta forma simples: Qual é a base de qualquer ação? A necessidade. Você come porque há uma necessidade disto; seu corpo evacua porque é necessário. Você me visita por causa da necessidade de visitar-me e escutar o que digo. Quando há a necessidade, a ação se segue espontaneamente sem qualquer intervenção de qualquer agente. Quem sente a necessidade? A consciência, certamente, sente a necessidade através da mediação do aparato psicossomático. Se você pensar que é este aparato, não é este o caso de identidade errada, assumindo a carga da escravidão e buscando a liberação? Mas na realidade o que pergunta, o buscador, é o buscado!
Uma calma absoluta reinou na salinha enquanto todos ponderavam sobre o que Maharaj havia dito. O casal visitante sentou com os olhos fechados, esquecido dos arredores, enquanto os demais visitantes, gradualmente, saiam.

domingo, 25 de outubro de 2009

Um jovem cego com visão verdadeira








Certa vez, ao fim de uma longa sessão de diálogo e exposição, durante a qual Maharaj repetidamente conduziu seus ouvintes ao ponto básico de seu ensinamento (que a presença consciente, ‘eu sou’, é o conceito original sobre o qual tudo aparece, e que este conceito em si mesmo é apenas uma ilusão), ele perguntou: Vocês entenderam o que estou tentando dizer?
Esta pergunta foi dirigida a todos os ouvintes. Todos permaneceram silenciosos, mas um entre eles disse:
“Sim, Maharaj, entendi suas palavras intelectualmente, mas...” Maharaj ouviu a resposta e sorriu cansadamente, talvez porque estivesse divertido pelo fato de que o seu interlocutor, embora tenha dito que entendeu, realmente não tinha entendido. Então, prosseguiu para explicar o assunto de forma clara, na maneira categórica que se segue:

1. O conhecimento eu sou, ou a consciência, é o único ‘capital’ que um ser sensível tem. De fato, sem a consciência, ele não teria qualquer sensibilidade.

2. Quando este sentido de eu sou não está presente, como no sono profundo, não há corpo nem mundo externo e nenhum ‘Deus’. É evidente que uma minúscula partícula desta consciência contém o universo inteiro.

3. Todavia, a consciência não pode existir sem um corpo físico e, sendo temporária a existência do corpo, também deve ser temporária.

4. Finalmente, se a consciência for limitada pelo tempo e não eterna, qualquer conhecimento adquirido através dela não pode ser a verdade e será, portanto, finalmente rejeitado ou, como eu disse, oferecido ao Brahman como um sacrifício – Brahman sendo a consciência, existência, o sentido de Eu Sou, ou Ishwara, ou Deus, ou qualquer nome que lhe der. Em outras palavras, os opostos inter-relacionados, conhecimento e ignorância, estão na área do conhecido e, portanto, não são a verdade – a verdade está apenas no desconhecido. Uma vez que isto seja claramente entendido, nada mais resta a ser feito. De fato, não há realmente nenhuma ‘entidade’ para fazer qualquer coisa.

Depois de pronunciar estas palavras, Maharaj ficou silencioso e fechou seus olhos. A pequena sala parecia estar mergulhada em uma paz luminosa. Ninguém falou uma única palavra. Por que, perguntei-me, a maioria de nós é incapaz de ver e sentir a manifestação dinâmica da verdade apresentada por Maharaj repetidas vezes?
E por que alguns de nós – embora poucos – a vejamos em um instante?
Depois de algum tempo, quando Maharaj abriu os olhos e todos revertemos ao estado normal, alguém atraiu sua atenção para o pobre jovem cego que havia aparecido recentemente uma ou duas vezes em suas conversas, na manhã e, novamente, ao anoitecer, e tinha retornado ‘liberado’. No fim da sessão, quando o jovem se despediu de Maharaj e lhe foi perguntado se tinha entendido o que havia sido dito, ele respondeu com segurança:
“Sim”. Quando o próprio Maharaj lhe perguntou o que ele havia entendido, ele sentou-se quietamente por alguns momentos e então falou:
"Maharaj, eu não tenho as palavras corretas para expressar meu sentimento de gratidão a você por tornar tudo tão claro para mim, de forma tão simples e tão rapidamente. Poderia resumir assim o seu ensinamento:

1. Você me pediu para lembrar-me o que eu era antes de ter este conhecimento “eu sou” junto com o corpo, isto é, antes de eu “nascer”;

2. Você me falou que este corpo com uma consciência surgiu em mim sem meu conhecimento ou concordância, portanto, ‘eu’ nunca ‘nasci’;

3. Este corpo com uma consciência que ‘nasceu’ é temporal e, quando ele desaparecer no fim de seu tempo designado, deverei voltar a meu estado original, o qual está sempre presente, mas não em manifestação;

4. Portanto, eu não sou a consciência e, certamente, não sou a estrutura física na qual mora esta consciência;

5. Finalmente, eu entendo que há apenas ‘Eu’ – nem ‘eu’, nem ‘meu’, nem ‘você’ – apenas este que é. Não há escravidão exceto o conceito de um ‘eu’ e de ‘meu’ separados nesta totalidade da manifestação e funcionamento.

Depois de ouvir estas palavras do jovem cego, declaradas com absoluta convicção, Maharaj dirigiu-lhe um olhar de entendimento e amor e perguntou-lhe: “Agora, o que você fará?” A resposta foi: “Mestre, verdadeiramente o compreendi. Não farei nada. O ‘viver’ continuará”. Então apresentou seus respeitos a Maharaj com grande devoção e o deixou.
O jovem cego não era realmente cego, disse Maharaj. Ele tem a visão verdadeira. Há poucos como ele.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

A impermanência é a prova da irrealidade










Pergunta: Meu amigo é um alemão e eu nasci na Inglaterra, de pais franceses. Estou na Índia há mais de um ano, vagando de Ashram em Ashram.

Maharaj: Alguma prática espiritual (sadhana)?

P: Estudos e meditação.

M: Sobre o que você medita?

P: Sobre o que leio.

M: Bom.

P: O que você está fazendo, senhor?

M: Estou sentado.

P: E o que mais?

M: Estou falando.

P: Do que você fala?

M: Você quer uma conferência? Melhor perguntar algo que realmente toque você, sobre o qual tenha sentimentos fortes. A menos que você esteja emocionalmente envolvido, você poderá argumentar comigo, mas não haverá nenhum entendimento real entre nós. Se você disser: ‘Nada me preocupa. Não tenho problemas’, para mim está bem, podemos ficar calados. Mas, se algo realmente o toca, então há sentido em falar.

Devo perguntar-lhe? Qual o propósito de sua movimentação de um lugar para outro?

P: Para encontrar pessoas, para tentar entendê-las.

M: Que pessoas você está tentando entender? O que busca exatamente?

P: A integração.

M: Se você quer integração, deve conhecer a quem você quer integrar.

P: Por conhecer pessoas e observá-las, chega-se a conhecer a si mesmo também. As duas coisas vão juntas.

M: Não vão juntas necessariamente.

P: Uma melhora a outra.

M: Não funciona deste modo. O espelho reflete a imagem, mas a imagem não melhora o espelho. Você não é nem o espelho nem a imagem no espelho. Tendo aperfeiçoado o espelho de modo que ele reflita correta e verdadeiramente, você poderá girá-lo e ver nele um reflexo verdadeiro de você – verdadeiro na medida em que o espelho puder refletir. Mas o reflexo não é você – você é o que vê o reflexo. Entenda claramente – você não é o que percebe, seja o que for que perceba.

P: Sou o espelho e o mundo a imagem?

M: Você pode ver ambos, a imagem e o espelho. Você não é nenhum dos dois. Quem você é? Não siga fórmulas. A resposta não está em palavras. O mais próximo que você pode dizer com palavras é: Eu sou o que faz a percepção possível, a vida além do experimentador e de sua experiência.

Agora você pode separar-se tanto do espelho quanto da imagem no espelho e permanecer completamente só, tudo por si mesmo?

P: Não, eu não posso.

M: Como sabe que não pode? Há tantas coisas que você está fazendo sem saber como as faz. Você digere, faz circular o sangue e a linfa, move seus músculos – tudo sem saber como. Do mesmo modo, você percebe, sente, pensa sem saber o porquê e o como disto. Similarmente, você é você mesmo sem saber disto. Não há nada errado com você como o Ser; é o que é com perfeição. É o espelho que não é claro e verdadeiro e, então, dá a você imagens falsas. Você não precisa corrigir-se – apenas ponha em ordem sua ideia de si mesmo. Aprenda a separar-se da imagem e do espelho, lembre sempre: não sou nem a mente nem suas ideias; faça isto pacientemente e com convicção, e certamente chegará à visão direta de si mesmo como a fonte do ser, do conhecer, do amor, a qual é eterna, universal e que a tudo permeia. Você é o infinito enfocado em um corpo. Agora, você vê apenas o corpo. Tente seriamente e chegará a ver apenas o infinito.

P: A experiência da realidade, quando chegar, durará?

M: Toda experiência é necessariamente transitória. Mas o fundamento de toda experiência é imóvel. Nada que possa ser chamado um fato durará. Mas alguns fatos purificam a mente e outros a mancham. Os momentos de profundo discernimento e amor universal purificam a mente, enquanto os desejos e lágrimas, invejas e cólera, cegas crenças e arrogância intelectual poluem e embotam a psique.

P: A autorrealização é tão importante?

M: Sem ela, você será dominado por desejos e temores, repetindo-os incessantemente em um sofrimento interminável. A maioria das pessoas não sabe que pode haver um fim para a dor. Mas, uma vez que tenham ouvido as boas novas, obviamente, ir além de todo conflito e luta será a tarefa mais urgente que poderão fazer. Você sabe que pode ser livre e, agora, é capaz disto. Ou você permanece para sempre faminto e sedento, desejando, buscando, tomando à força, aferrando-se, sempre perdendo e sofrendo, ou sai sinceramente em busca do estado da eterna perfeição a qual nada pode ser adicionado e da qual nada pode ser retirado. Todos os desejos e medos estão ausentes nela, não porque foram abandonados, mas porque perderam seus significados.

P: Até aqui eu o tenho seguido. Agora, o que se espera que eu faça?

M: Não há nada a fazer. Apenas seja. Nada faça. Seja. Nada de escalar montanhas e sentar em cavernas. Nem sequer eu digo: ‘Seja você mesmo’, visto que não se conhece. Apenas seja. Tendo visto que você não é nem o mundo ‘exterior’ dos perceptíveis, nem o mundo ‘interior’ do que pode ser pensado, que você não é nem o corpo nem a mente – apenas seja.

P: Seguramente, há graus de realização.

M: Não há nenhum passo para a autorrealização. Não há nada gradual nela. Acontece repentinamente e é irreversível. Você se volta para uma nova dimensão desde a qual as dimensões anteriores são vistas como meras abstrações. Exatamente como ao amanhecer você vê as coisas como elas são, assim, após a autorrealização, você vê tudo como é. O mundo de ilusões é deixado para trás.

P: As coisas mudam no estado de realização? Elas se tornam coloridas e cheias de significado?

M: A experiência é totalmente correta, mas não é a experiência da realidade (sadanubhav), mas da harmonia (satvanubhav) do universo.

P: Todavia, há progresso.

M: Apenas pode haver progresso na preparação (sadhana). A realização é repentina. O fruto amadurece lentamente, mas cai repentinamente e sem retorno.

P: Estou física e mentalmente em paz. O que mais eu necessito?

M: O seu pode não ser o estado final. Você reconhecerá que retornou a seu estado natural pela completa ausência de todo desejo e medo. Depois de tudo, na raiz de todos os desejos e medos está o sentimento de não ser o que você é. Da mesma forma que uma junta deslocada dói apenas enquanto está fora de lugar, e é esquecida logo que for colocada em ordem, assim, todo interesse próprio é um sintoma de distorção mental que desaparece logo que se está no estado normal.

P: Sim, mas qual é o sadhana para alcançar o estado natural?

M: Aferre-se ao sentido ‘Eu sou’ com a exclusão de tudo o mais. Quando a mente assim se tornou completamente silenciosa, ela brilha com uma nova luz e vibra com novo conhecimento. Tudo vem espontaneamente, você necessita apenas continuar no ‘Eu sou’. Exatamente como quando sai do sono ou de um estado de êxtase você se sente descansado e, mesmo assim, não pode explicar porquê e como chegou a sentir-se tão bem, da mesma maneira, na realização, você se sente completo, pleno, livre do complexo prazer-dor e, ainda assim, nem sempre capaz de explicar o que aconteceu, o porquê e o como. Você só pode pô-lo em termos negativos: ‘Nada mais está errado comigo’. É apenas por comparação com o passado que você sabe que está fora dele. De qualquer forma – você é exatamente você mesmo. Não tente comunicá-lo a outros. Se pode fazê-lo, não é a coisa real. Seja silencioso e observe-o expressando-se em ação.

P: Se você pudesse dizer-me em que me converterei, poderia ajudar-me a observar meu desenvolvimento.

M: Como pode alguém dizer a você o que deve tornar-se quando não há vir-a-ser? Você meramente descobre o que você é. Todo amoldar-se a um padrão é uma penosa perda de tempo. Não pense nem no passado nem no futuro, apenas seja.

P: Como posso apenas ser? As mudanças são inevitáveis.

M: As mudanças são inevitáveis no mutável, mas você não está sujeito a elas. Você é o fundo imutável contra o qual as mudanças são percebidas.

P: Tudo muda, o fundo também muda. Não há a necessidade de um fundo imutável para notar as mudanças. O ser é momentâneo – é meramente o ponto onde o passado encontra o futuro.

M: É certo que o ser baseado na memória é momentâneo. Mas tal ser exige uma continuidade uniforme por trás dele. Você conhece pela experiência que há intervalos em que o ser é esquecido. O que o traz de volta à vida? O que o desperta de manhã? Deve existir um fator constante unindo os intervalos na consciência. Se você observar cuidadosamente, você achará que mesmo sua consciência diária existe em lampejos, com intervalos interpondo-se todo o tempo. O que há nos intervalos? Que pode existir senão seu ser real que é eterno; a mente e a inconsciência são um para ele.

P: Existe algum lugar particular que possa aconselhar-me a ir para a realização espiritual?

M: O único lugar adequado é seu interior. O mundo exterior não pode nem ajudar nem obstruir. Nenhum sistema, nenhum padrão de ação levará você à sua meta. Abandone todo trabalho por um futuro, concentre-se totalmente no agora, esteja interessado apenas em sua resposta a cada movimento da vida como ele acontecer.

P: Qual a causa do impulso de andar a esmo?

M: Não há causa. Você meramente sonha que você anda a esmo. Em poucos anos, sua permanência na Índia parecerá como um sonho para você. Você sonhará alguns outros sonhos de qualquer maneira. Compreenda que não é você que se move de sonho para sonho, mas o sonho que flui diante de você, e que você é a testemunha imutável. Nenhum acontecimento afeta seu ser real – esta é a verdade absoluta.

P: Não posso mover-me fisicamente e manter-me interiormente estável?

M: Pode, mas com que propósito? Se você for sério, perceberá que, no fim, ficará cansado de andar sem rumo, e se arrependerá da perda de energia e tempo. Para encontrar seu ser, você não necessita dar um único passo.

P: Há alguma diferença entre a experiência do Ser (atman) e do Absoluto (brahman)?

M: Não pode haver experiência do Absoluto, pois ele está além de toda experiência. Por outro lado, o ser é o fator experimentador de cada experiência e, assim, em certo modo, valida a multiplicidade de experiências. O mundo pode estar cheio de coisas de grande valor, mas não há ninguém para comprá-las, elas não têm preço. O Absoluto contém todas as coisas que podem ser experimentadas, mas sem o experimentador elas nada são. O que faz a experiência possível é o Absoluto; o que a faz real é o Ser.

P: Nós não alcançamos o Absoluto através de uma gradação de experiências? Começando com a mais grosseira, terminamos com a mais sublime.

M: Não há experiência sem que seja desejada. Pode existir gradação entre desejos, mas entre o desejo mais sublime e a liberdade de todos os desejos há um abismo que deve ser cruzado. O irreal pode parecer real, mas é transitório. O real não tem medo do tempo.

P: Não é o irreal a expressão do real?

M: Como pode ser? É como dizer que a verdade se expressa em sonhos. Para o real, o irreal não existe. Parece ser real apenas porque você acredita nele. Ponha-o em dúvida e ele cessa. Quando você está enamorado de alguém, você lhe dá realidade – você imagina que seu amor é todo-poderoso e eterno. Quando isto termina, você diz: ‘Eu pensei que era real, mas não era’. A impermanência é a melhor prova da irrealidade. O que é limitado no tempo e espaço, e aplicável a apenas uma pessoa, não é real. O real é para todos e para sempre.

Acima de todas as coisas, você aprecia a si mesmo. Você não iria aceitar nada em troca de sua existência. O desejo de ser é o mais forte de todos os desejos e só desaparecerá com a realização de sua verdadeira natureza.

P: Mesmo no irreal há um toque de realidade.

M: Sim, a realidade que você lhe dá tomando-o por real. Tendo-se convencido, você é limitado por sua convicção. Quando o sol brilha, as cores aparecem. Quando ele se põe, elas desaparecem. Onde estão as cores sem a luz?

P: Isto é pensar em termos de dualidade.

M: Todo pensamento está na dualidade. Na identidade, nenhum pensamento sobrevive.


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Toda busca de felicidade é miseria




Pergunta: Vim da Inglaterra e estou a caminho de Madras. Lá eu me encontrarei com meu pai e iremos de carro até Londres. Vou estudar psicologia, mas eu ainda não sei o que farei quando obtiver meu título. Talvez tente psicologia industrial, ou psicoterapia. Meu pai é um clínico geral e posso seguir a mesma linha.

Mas isto não esgota meus interesses. Há certas questões que não mudam com o tempo. Entendi que você tem algumas respostas a tais questões e isto me fez vir para vê-lo.


Maharaj: Surpreendo-me que seja o homem certo para responder suas questões. Sei muito pouco sobre as coisas e pessoas. Conheço apenas o que sou, e isto você também sabe. Somos iguais.


P: Certamente, sei o que sou. Mas não sei o que significa.


M: Você não é o que acredita ser – o “eu” e o “eu sou”. É natural saber que se é; saber o que é você é o resultado de muita investigação. Você terá que explorar o campo inteiro da consciência e ir além. Para isto, você deve encontrar o mestre certo e criar as condições necessárias para a descoberta. Falando de modo geral, há dois caminhos: o externo e o interno. Ou você vive com alguém que conhece a Verdade e se submete inteiramente à sua orientação e influência modeladora, ou você busca a orientação interna e segue a luz interior para onde ela o levar. Em ambos os casos, seus desejos e medos pessoais devem ser desprezados. Você aprende pela proximidade ou pela investigação, o caminho passivo ou o ativo. Você se deixa ser levado pelo rio da vida e do amor representado pelo seu Guru, ou você faz seus próprios esforços, guiado pela estrela interior. Em ambos os casos, você deve ir adiante e deve ser sério. Raras são as pessoas que têm a sorte de encontrar alguém digno de confiança e amor. A maioria delas deve tomar o caminho difícil, o caminho da inteligência e do entendimento, da discriminação e do desapego (viveka-vairagya). Este é o caminho aberto para todos.


P: Tive a sorte de vir aqui. Embora esteja indo embora amanhã, uma conversa com você poderá afetar toda minha vida.


M: Sim, uma vez que você diga “eu quero encontrar a Verdade”, toda sua vida será profundamente afetada por ela. Todos os seus hábitos mentais e físicos, sentimentos e emoções, desejos e medos, planos e decisões sofrerão a mais radical transformação.


P: Uma vez que tenha decidido encontrar a Realidade, o que farei depois?


M: Depende de seu temperamento. Se você for sério, qualquer caminho que escolher o levará a sua meta. É a seriedade o fator decisivo.


P: Qual é a fonte da seriedade?


M: É o instinto de voltar para casa que faz o pássaro voltar para seu ninho e o peixe para a corrente da serra onde nasceu. A semente retorna para a terra quando o fruto está maduro. Maturidade é tudo.


P: E o que me amadurecerá? Necessito de experiência?


M: Você já teve toda a experiência de que necessita, de outra forma não viria aqui. Você não precisa acumular mais, em vez disto você deverá ir além da experiência. Qualquer esforço que fizer, qualquer método (sadhana) que seguir, meramente gerará mais experiência, mas não o levará além. Nem a leitura de livros o ajudará. Eles enriquecerão sua mente, mas a pessoa que você é permanecerá intacta. Se esperar qualquer benefício de sua busca material, mental ou espiritual, você errará o alvo. A verdade não dá nenhuma vantagem. Não lhe dá um status mais elevado, nenhum poder sobre os outros; tudo o que você obtém é a verdade e a liberdade do falso.


P: Seguramente, a verdade lhe dará o poder para ajudar outros.


M: Isto é mera imaginação, de qualquer forma nobre! Na verdade, você não ajuda outros porque não há outros. Você divide as pessoas em nobres e ignóbeis e você pede ao nobre que ajude o ignóbil. Você separa, avalia, julga e condena – em nome da verdade você a destrói. Seu próprio desejo de formular a verdade a nega, porque ela não pode ser contida em palavras. A verdade só pode ser expressa pela negação do falso – em ação. Para isto você deve ver o falso como falso (viveka) e rejeitá-lo (vairagya). A renúncia do falso é libertadora e dá energia. Abre o caminho para a perfeição.


P: Quando saberei que descobri a verdade?


M: Quando a idéia “isto é verdadeiro”, “aquilo é verdadeiro”, não surgir. A verdade não afirma a si mesma, ela está na visão do falso como falso e em rejeitá-lo. É inútil buscar a verdade quando a mente estiver cega ao falso. Deverá ser purificada completamente do falso antes que a verdade possa despontar em você.


P: Mas o que é falso?


M: Certamente, o que não tem nenhum ser é falso.


P: O que você quer dizer por não ter nenhum ser? O falso existe, duro como um prego.



M: O que se contradiz não tem ser. Ou só o tem momentaneamente, o que vêm a ser o mesmo. Pois o que não tem um princípio e um fim não tem nenhum meio. É um oco. Só tem um nome e uma forma dados pela mente, mas não tem nem substância nem essência.


P: Se tudo que passar não tem ser, então o universo não terá nenhum ser tampouco.



M: Quem o negou? Certamente, o universo não tem ser.


P: O que tem?


M: Aquilo que não depende de nada para sua existência, que não surge quando surge o universo nem se põe quando o universo se põe, que não necessita de qualquer prova, mas dá realidade a tudo que toca. A natureza do falso é parecer real por um momento. Pode-se dizer que a verdade torna-se o pai do falso. Mas o falso está limitado no tempo e no espaço e é produzido pelas circunstâncias.


P: Como me liberto do falso e obtenho o real?



M: Com que propósito?


P: Para viver uma vida melhor, mais satisfatória, integrada e feliz.



M: O que quer que seja concebido pela mente deve ser falso, pois é obrigado a ser relativo e limitado. O real é inconcebível e não pode ser aparelhado para um propósito. Deve ser desejado por si mesmo.


P: Como posso querer o inconcebível?


M: O que mais é digno de desejo? Concordo, o real não pode ser desejado como uma coisa é desejada. Mas você pode ver o irreal como irreal e descartá-lo. É o descarte do falso que abre o caminho para o verdadeiro.


P: Entendo, mas como se parece na vida diária atual?


M: O interesse próprio e o egocentrismo são os pontos focais do falso. Sua vida diária vibra entre o desejo e o medo. Observe-a atentamente e verá como a mente assume inumeráveis nomes e formas, como um rio espumante entre as pedras. Siga o motivo egoísta em cada ação e olhe-o atentamente até que se dissolva.


P: Para viver se deve cuidar de si mesmo, deve-se ganhar dinheiro para si mesmo.


M: Não necessita ganhá-lo para si mesmo, mas pode ter que ganhá-lo para uma esposa ou um filho. Pode ser que deva seguir trabalhando para os outros. Mesmo só manter-se vivo pode ser um sacrifício. Não há nenhuma necessidade de ser egoísta. Descarte todo motivo egoísta logo que o veja e não necessitará buscar a verdade; a verdade o encontrará.


P: Há um mínimo de necessidades.


M: Não foram satisfeitas desde que você foi concebido? Abandone a escravidão do egoísmo e seja o que é – inteligência e amor em ação.


P: Mas se deve sobreviver!


M: Você não pode contribuir para a sobrevivência! Seu ser real é eterno e está além do nascimento e da morte. E o corpo sobreviverá enquanto for necessário. Não é importante uma vida longa. Uma vida plena é melhor que uma longa vida.


P: Quem vai dizer que é uma vida plena? Depende de meu fundo cultural.


M: Se você buscar a realidade, deverá se libertar de todos os antecedentes, de todas as culturas, de todos os padrões de pensamento e sentimento. Mesmo a idéia de ser um homem ou uma mulher, ou mesmo humano, deve ser descartada. O oceano da vida contém tudo, não apenas os humanos. Assim, em primeiro lugar abandone a auto-identificação, pare de pensar de si mesmo como assim e assado, esse e aquele, isto ou aquilo. Abandone todo interesse próprio, não se preocupe com seu bem-estar, material ou espiritual, abandone todo desejo grosseiro ou sutil, deixe de pensar em avanços de qualquer tipo. Você é completo aqui e agora, não necessita absolutamente de nada.

Isto não quer dizer que deva ser tolo e imprudente, imprevidente ou indiferente; apenas a ansiedade básica por si mesmo deve cessar. Você necessita algum alimento, roupa e abrigo para você e para os seus, mas este desejo não cria problemas enquanto a ambição não passar por necessidade. Viva em sintonia com as coisas como elas são e não como são imaginadas.


P: O que sou eu se não um ser humano?


M: Aquilo que o faz pensar que você é humano não é humano. Não é senão um ponto de consciência sem dimensão, um nada consciente; tudo o que pode dizer sobre si mesmo é: “eu sou”. Você é puro ser – Consciência – bem-aventurança. Compreenda que este é o fim de toda busca. Você chega a ele quando vir que tudo o que pensa sobre si mesmo é mera imaginação, e permanecer distante, na pura consciência do transitório como transitório, do imaginário como imaginário, do irreal como irreal. Isto não é de forma alguma difícil, mas o desapego é necessário. É o apego ao falso que faz tão difícil a visão do verdadeiro. Uma vez que entenda que o falso precisa de tempo e que necessitar de tempo é falso, você estará mais próximo da Realidade, a qual é eterna, sempre no agora. A eternidade no tempo é mera repetição, como o movimento de um relógio. Flui do passado para o futuro interminavelmente, uma perpetuidade vazia. A Realidade é que faz o presente tão vivo, tão diferente do passado e do futuro, os quais são meramente mentais. Se você precisar de tempo para alcançar algo, deverá ser falso. O real está sempre com você; não precisa esperar para ser o que você é. Apenas não deve permitir que sua mente saia de você mesmo na busca. Quando quiser algo, pergunte a si mesmo: realmente necessito disto? E, se a resposta for não, então meramente o abandone.


P: Não devo ser feliz? Posso não necessitar de algo, mas se puder me fazer feliz não deverei pegá-lo?


M: Nada pode lhe fazer feliz mais do que é. Toda busca de felicidade é miséria e leva a mais miséria. A única felicidade digna do nome é a felicidade natural de ser consciente.


P: Não necessito de grande experiência antes de poder alcançar tão elevado nível de consciência?



M: A experiência deixa apenas recordações atrás de si e aumenta a carga que é bastante pesada. Não precisa de mais experiências. Bastam as passadas. E se sentir que necessita de mais, olhe para dentro do coração das pessoas a seu redor. Encontrará tal variedade de experiências que você não poderia passar nem em mil anos. Aprenda com as aflições dos outros e salve-se a si próprio. Não é experiência o que você necessita, mas a liberdade de toda a experiência. Não seja ávido por mais experiência, não necessita de nenhuma.


P: Você não passa por experiências?


M: As coisas acontecem a meu redor, mas eu não tomo parte nelas. Um evento torna-se uma experiência apenas quando estou emocionalmente envolvido. Estou em um estado que é completo, que não busca melhorar-se. Para mim, qual a utilidade da experiência?


P: Necessita-se de conhecimento, educação.


M: Para tratar com as coisas é necessário o conhecimento das coisas. Para tratar com as pessoas, é necessário percepção, simpatia. Para tratar consigo mesmo, não precisa de nada. Seja o que você é – ser consciente, e não se perca.


P: A educação universitária é muito útil.


M: Sem dúvida, ajuda-o a ganhar a vida. Mas não o ensina a viver. Você é um estudante de psicologia. Isto pode ajudá-lo em certas situações. Mas você pode viver pela psicologia? A vida é digna deste nome quando reflete a Realidade em ação. Nenhuma universidade o ensinará a viver de modo que, quando chegar a hora da morte, você possa dizer: vivi bem, não preciso viver de novo. A maioria de nós morre desejando viver novamente. Tantos erros cometidos, tanta coisa deixada sem fazer. A maioria das pessoas vegeta, mas não vive. Meramente acumulam experiência e enriquecem suas memórias. Mas a experiência é a negação da Realidade, a qual não é nem sensória nem conceitual, nem do corpo, nem da mente, embora inclua e transcenda a ambos.


P: Mas a experiência é muito útil. Pela experiência se aprende a não tocar uma chama.


M: Já disse que o conhecimento é mais útil para tratar com as coisas. Mas não o ensina a como tratar com as pessoas e consigo mesmo, a como viver uma vida. Não estamos falando de dirigir um automóvel, ou ganhar dinheiro. Para isto você necessita de experiência. Mas, para ser uma luz dentro de si mesmo, o conhecimento material não o ajudará. Você necessita algo muito mais íntimo e mais profundo do que o conhecimento mediato, para ser seu ser no verdadeiro sentido da palavra. Sua vida externa não é importante. Você pode tornar-se um vigilante noturno e viver com muita alegria. É o que você é internamente que interessa. Sua paz e alegria interiores devem ser merecidas. É muito mais difícil que ganhar dinheiro. Nenhuma universidade pode ensinar-lhe a ser você mesmo. O único modo de aprender é pela prática. Comece agora mesmo a ser você mesmo. Descarte tudo o que você não é e vá sempre mais profundamente. Como um homem que cava um poço e rejeita o que não é água até chegar ao veio d’água, igualmente você deve descartar o que não é seu até que não fique nada que possa ser rejeitado. Você perceberá que o que fica não é nada ao qual a mente possa agarrar-se. Você nem mesmo é um ser humano. Simplesmente é – um ponto de Consciência, co-extensivo com o tempo e espaço e além de ambos, a causa última, ela mesma incausada. Se me perguntar: “Quem sou eu?” Minha resposta seria: “Nada em particular. Não obstante, eu sou”.


P: Se você não for nada em particular, então você deverá ser o universal.



M: O que é ser universal – não como um conceito, mas como um modo de vida? Não separar, não opor, mas compreender e amar tudo quanto entra em contato com você é viver universalmente. Ser capaz de dizer verdadeiramente: eu sou o mundo, o mundo sou eu, estou em casa no mundo, o mundo me pertence. Toda existência é minha existência, toda consciência é minha consciência, toda aflição é minha aflição e toda alegria é minha alegria – esta é a vida universal. Mesmo assim, meu ser real – e o seu também – está além do universo e, portanto, além das categorias do particular e do universal. É o que é, totalmente autônomo e independente.


P: Acho difícil entender.


M: Você deve dar tempo a si mesmo para pensar sobre estas coisas. Os velhos sulcos em seu cérebro devem ser apagados sem que se formem novos. Você deve se entender como o imóvel, por trás e além do que muda, a silenciosa testemunha de tudo o que acontece.


P: Quer dizer que devo abandonar toda idéia de uma vida ativa?


M: Não, de forma alguma. Haverá casamento, filhos, ganhar dinheiro para manter a família; tudo isto acontecerá no curso natural dos eventos porque o destino deve cumprir-se; você passará por isto sem resistência, confrontando as tarefas como vierem – interessada e completamente –, nas pequenas e grandes coisas. Mas a atitude geral será de carinhoso desapego, enorme boa vontade, sem esperar retorno, dando constantemente sem nada pedir. No casamento, você não é nem o marido nem a esposa; você é o amor entre os dois. Você é a clareza e a bondade que tornam tudo ordenado e feliz. Pode parecer vago para você, mas, se pensar um pouco, descobrirá que o místico é o mais prático, pois faz com que sua vida seja criativamente feliz. Sua consciência é elevada a uma dimensão superior, da qual se vê tudo muito mais claramente e com maior intensidade. Você compreenderá que a pessoa que você se tornou no nascimento, e que cessará de ser na morte, é temporária e falsa. Você não é a pessoa sensual, emocional e intelectual, oprimida por desejos e temores. Descubra seu ser real. O “que sou eu?” é a questão fundamental de toda filosofia e psicologia. Vá profundamente para dentro dela.


De: "Eu Sou Aquilo" Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj - Editora Advaita

sábado, 10 de outubro de 2009

Planeta Advaita








Contatos Imediatos do Grau Advaita (por Chris Parish)

O nihilismo euforico de Ramesh Balsekar

"Imagine, se puder, que uma manhã você acorda em outro mundo. Esfrega seus olhos pra ficar acostumado à luz brilhante do sol, você vê que sob muitos aspectos não é um mundo muito diferente deste. Você está cercado por criaturas que, aos seus olhos, aparecem idênticas aos seres humanos com quem você normalmente compartilha o mundo. Você os observa em suas atividades diárias, vivendo suas vidas, empenhando-se em conversas com outros, fazendo escolhas inumeráveis e tomando as decisões inerentes às exigências da vida. O quadro parece tranqüilizante, familiar e normal.
Mas neste mundo, você logo descobre que as coisas não são necessariamente como parecem. Porque estes não são seres humanos. Não, estes são "organismos corpo/mente" que, diversamente de seus pares humanos, não tem a faculdade de escolher entre opções nem de tomar decisões. De fato, estes organismos não têm nada mesmo que se assemelhe ao que nós chamaríamos de livre arbítrio. As tramas de suas vidas foram escritas na pedra muito antes deles nascerem, deixando a eles somente a possibilidade de cumprir mecanicamente os atos para os quais foram programados. Estas criaturas aparentemente humanas, não são nada mais que máquinas. Enquanto aparentam comportar-se como indivíduos normais com liberdade de escolha , ativamente empenhados nas atividades diárias, estranhamente, quando perguntados, respondem que eles não fazem absolutamente nada. Aliás, neste mundo peculiar, eles dizem que não ha "aqueles que agem". Além do mais, ninguém neste mundo jamais é julgado responsável por algo. Mesmo quando um destes seres parece prejudicar outro, não há nenhum remorso, nenhum sentido de culpa é atribuído. Se perguntasse a um destes organismos corpo/mente sobre esse evento, a resposta seria que não havia ninguém que tinha feito algo. A ética é um conceito desconhecido aqui. As leis da natureza não parecem aplicar-se neste admirável novo mundo. Ou talvez tenham sido reescritas aqui, desde que parece que esses seres observam algumas leis estranhas. Você se pergunta em que lugar da terra poderia estar. Mas você não está na terra. Você aterrisou no Planeta Advaita.

Tinha vindo a Bombaim entrevistar Ramesh Balsekar, um dos mais conhecidos professores de Advaita Vedanta atualmente em vida. Vive no coração desta caótica e vasta cidade numa área exclusiva frente mar que, me informou meu motorista de táxi, é um bairro onde moram muitos VIPs. O porteiro do seu prédio, deduzindo automaticamente que, sendo um ocidental ,devo estar vindo ver Ramesh Balsekar, dirigiu-me a um andar superior, onde Balsekar tem uma residência espaçosa e bem decorada. Balsekar foi um anfitrião muito cortês, saudando-me calorosamente em seu imaculado traje indiano tradicional. Seu comportamento era brilhante e animado e foi difícil para mim acreditar que tinha oitenta anos de idade.
Ramesh Balsekar tem um background insólito para um guru indiano. Educado no ocidente, teve uma carreira muito bem sucedida como dirigente executivo, aposentando-se de seu cargo de presidente do banco da Índia quando tinha sessenta anos. E, apesar de declarar que ele sempre tem sido inclinado a acreditar no destino, foi somente depois que se aposentou que iniciou sua busca espiritual, uma busca que o levou rapidamente ao seu guru, o famoso mestre de Advaita Vedanta Sri Nisargadatta Maharaj. Nisargadatta era um professor impetuoso que se tornou famoso no ocidente nos anos 70 quando foi publicada uma tradução inglesa de seus diálogos, intitulada Eu Sou Aquilo. Um livro que se tornou um clássico espiritual moderno. Menos de um ano depois de encontrar Nisargadatta, Balsekar alcançou o que ele denominou de "a compreensão final" - a iluminação - enquanto traduzia para seu guru. Segundo conta Balsekar, Nisargadatta autorizou-o a ensinar logo antes de morrer e desde então ele tem compartilhado constantemente sua mensagem como sucessor desse Mestre muito respeitado. Balsekar publicou muitos livros sobre seus ensinamentos e ensinou na Europa, nos Estados Unidos e na Índia. Oferece satsang [encontros com um mestre espiritual ou, literalmente - do sanscrito - "Comunhão (sanga) com a Verdade (Satya)"] no seu apartamento cada manhã, e um fluxo constante de buscadores quase que exclusivamente ocidentais vai para Bombaim para vê-lo.
Inicialmente quisemos entrevistar Balsekar seja porque é um popular e influente professor de Advaita - agora ele autorizou tambem alguns de seus estudantes a ensinar - seja porque é considerado, por muitos, como o sucessor de um dos professores de Advaita mais reconhecidos da era moderna. Entretanto, estudando os escritos de Balsekar, nós logo compreendemos que ele ensina uma forma de Advaita insólita e possivelmente excêntrica, que poderia, a nosso franco parecer, induzir a conclusões discutíveis e até perturbadoras. Mesmo que o pensamento indiano tenha sido longamente criticado por suas inclinações determinísticas, parecia-nos que Balsekar tem levado este fatalismo a um extremo sem precedentes. Enfim, foi seja um desejo de explorar estas áreas inquietantes, quanto para aprofundar-me no interesse sobretudo dos ensinamentos do Advaita, que trouxe-me finalmente a Bombaim para conversar com ele. E enquanto cheguei imaginando um encontro diferente, olhando posteriormente, me é claro que, enquanto nos era oferecido um café e nos sentávamos confortavelmente em sua sala, não teria tido nenhuma possibilidade de me preparar para o dialogo que seria iniciado.

WIE : . Você está cada vez mais conhecido como professor do Advaita Vedanta seja na Índia que no ocidente. Pode descrever para nós o que é que ensina?
Ramesh Balsekar: Posso realmente resumi-lo numa só frase. A frase na qual meu ensinamento inteiro é baseado é: "Seja feita a tua vontade." Ou, como dizem os muçulmanos, "Inshallah " - A vontade de Deus." Ou, nas palavras do Buddha: "Eventos acontecem, ações são feitas, mas não tem nenhum individuo que age". Veja, o conflito básico na vida é: "eu sempre faço tudo direito então quero minha recompensa. Ele ou ela sempre fazem algo errado então deveriam ser punidos." Essa é a vida, não é assim?
WIE : Bem, certamente acontece muito.
RB : Essa é a base daquilo que eu observei. O problema inteiro surge porque alguém diz , "Eu fiz algo e portanto mereço uma recompensa, ou ele fez algo e portanto eu quero puni-lo pelo que ele fez."
WIE : Como leva as pessoas compreender isso - que não há aquele que age, que não ha fazedor?
RB : Isso é muito simples. Se voce analisar qualquer ação que você considera como sendo sua ação, você vai descobrir que é uma reação do cérebro a um evento externo sobre o qual você não tem nenhum controle. Um pensamento vem - você não tem nenhum controle sobre o pensamento que chega. Algo é visto ou é ouvido - você não tem nenhum controle sobre o que você verá ou ouvirá em seguida. Todos esses eventos acontecem sem seu controle. E então o que acontece? O cérebro reage ao que pensou ou à coisa que é vista, é ouvida, é provada, é cheirada ou é tocada. A reação do cérebro é o que você chama "sua ação." Mas, de fato, isto é meramente um conceito.
WIE : Qual é a diferença então entre pensamentos, sensações e ações de uma pessoa iluminada e de uma pessoa não iluminada ?
RB : Acontece a mesma coisa. A única diferença é que, no caso do sábio, ele entende que é isso que acontece. Portanto ele sabe que não há nada que ele esteja fazendo: as coisas simplesmente acontecem. O sábio sabe que "eu não faço nada". Mas o homem comum diz, "faço coisas ou fazem coisas. Portanto quero minha recompensa e quero que eles sejam punidos." A recompensa ou o castigo dependem da idéia que eu, ele ou ela fazemos coisas, de que somos agentes.
WIE : Posso entender através de minha própria experiência que nós não temos qualquer controle sobre qual pensamentos nem sentimentos que surgem. Mas às vezes a uma ação segue outra, às vezes não, e me parece que existe uma grande diferença entre quando um pensamento meramente surge e quando é empreendida uma ação que envolve uma outra pessoa.
RB : A ação que acontece é o resultado da reação do cérebro ao pensamento. Se se é simplesmente a testemunha do pensamento e o cérebro não reage aaquele pensamento, então não há nenhuma ação.
WIE : Mas se, como você diz, não há ninguém que decide como responder, então o que é que causa o manifestar-se de uma ação?
RB : Uma ação acontece se for vontade de Deus que aconteça. Se não está em sua vontade, a ação não acontece.
WIE : Quer dizer que cada ação acontece por vontade de Deus?
RB : Sim, é a vontade de Deus.
WIE : Que age através de uma pessoa?
RB : Sim, através de uma pessoa.
WIE : Que seja uma pessoa iluminada ou não? Através de cada um, em outras palavras?
RB : Exatamente. A única diferença, como disse, é que o homem comum pensa, "é minha ação" enquanto o sábio sabe que não é a ação de ninguém. O sábio sabe isso: "Ações são feitas, eventos acontecem, mas não há um individuo, não ha "aquele que age". Essa é a única diferença quanto a mim. A única diferença entre um sábio e uma pessoa comum é que a pessoa comum pensa que cada indivíduo faz aquilo que acontece através daquele organismo corpo/mente. Portanto, desde que o sábio sabe não há nenhuma ação que ele faz, se se produz uma ação que possa machucar alguém, então ele fará tudo que for possível para ajudar aquela pessoa, mas não haverá nenhum sentimento de culpa.
WIE : Quer dizer que, se um indivíduo age de maneira que possa ferir outro, então a pessoa que fez, ou, como você diz, o "organismo corpo/mente" que agiu, não é responsável?
RB : O que eu estou dizendo é que você sabe que "eu" não o fiz. Não digo que eu não lamente por ter machucado alguém. O fato de que alguém foi machucado produzirá um sentimento de compaixão e o sentimento de compaixão resultará em meu tentar fazer qualquer coisa que possa aliviar essa ferida. Mas não haverá nenhum sentimento de culpa: eu não o fiz! O outro lado da moeda é que, se acontecer uma ação que é elogiada pela sociedade e essa me oferecer uma recompensa por isso, eu não digo que não surgirá um sentimento de felicidade por causa da recompensa. Assim como surgiu a compaixão por causa do magoado, um sentimento de satisfação ou de felicidade pode surgir por causa de uma recompensa. Mas não haverá nenhum orgulho.
WIE : Mas você literalmente quer dizer que se vou e firo alguém, não sou eu a fazê-lo? Quero simplesmente ficar claro em relação a isso.
RB : O fato inicial, o conceito original ainda resta: você feriu alguém. Surge o conceito adicional que o que acontece é a vontade de Deus, e a vontade de Deus respeito a cada organismo corpo/mente é o destino daquele organismo corpo/mente.
WIE : Então eu poderia somente dizer, "Bem, agi pela vontade de Deus; não tenho culpa" ?
RB : Certamente. Um ato acontece porque é o destino deste organismo corpo/mente e porque é a vontade de Deus. E as conseqüências daquela ação são também o destino daquele organismo corpo/mente. Se uma boa ação acontece, isso é o destino. Por exemplo, nós tivemos um Madre Teresa. O organismo corpo/mente conhecido como "Madre Teresa" era programado de modo que acontecessem somente boas ações. Então o acontecimento das boas ações era o destino do organismo corpo/mente chamado Madre Teresa. E as conseqüências foram: um Prêmio Nobel, recompensas, prêmios, e doações para as várias causas. Tudo isso era o destino daquele organismo corpo/mente chamado Madre Teresa. Por outro lado há um organismo psicopata que é programado de tal maneira - pela mesma fonte - que somente aconteçam ações perversas e maldosas. A manifestação dessas ações maldosas e perversas são o destino de um organismo corpo/mente que a sociedade chama de psicopata. Mas o psicopata não escolheu ser psicopata. Aliás não há nenhum psicopata; há só um organismo corpo/mente psicopático, cujo destino é produzir ações maldosas e pervertidas. E as conseqüências dessas ações são também o destino daquele organismo corpo/mente.
WIE : Você acha que tudo seja predestinado? Que tudo seja pré-programado desde o nascimento?
RB : Uso a palavra "programar" em referencia às características inerentes ao organismo corpo/mente. A "programação" para mim significa os gens mais os condicionamentos ambientais. Você não pude escolher seus pais, portanto você não teve escolha quanto aos seus genes. Do mesmo modo, você não teve escolha quanto ao ambiente onde você nasceu. Portanto você não teve nenhuma escolha sobre os condicionamentos da infância que você recebeu naquele ambiente, que inclui o condicionamento em casa, na sociedade, escola e a igreja. Os psicólogos dizem que o condicionando total que você recebeu até a idade de três ou quatro anos é seu condicionamento básico. Haverá mais condicionamentos, mas o condicionamento básico que cria a personalidade é a soma dos genes mais o condicionamento ambiental. Chamo isso de programação. Cada organismo corpo/mente é programado de maneira única. Não há dois organismos corpo/mente iguais.
WIE : Sim, mas não é verdade que duas pessoas podem ter bases muito semelhantes de condicionamento e, mesmo assim, serem completamente diferentes uma da outra?
RB : Claro. Essa é a razão pela qual eu uso dois termos: um é a programação do organismo corpo/mente, o outro é o destino. O destino é a vontade de Deus em relação aauele organismo corpo/mente, imprimido no momento de concebimento. O destino de um concebido poderia ser o de não nascer absolutamente, nesse caso ele será abortado. Isto tudo é um conceito, não se engane. Isto é meu conceito.
WIE : Você afirma que isto é um conceito e, certamente, todas as palavras são conceitos, mas como sabemos que este conceito é a verdade? Tendo a pensar que todo mundo tem responsabilidades indivíduais e que, embora haja uma certa quantidade de condicionamentos que nós herdamos, nós ainda podemos escolher como respondemos. Um indivíduo pode transcender os aspectos de seu condicionamento, enquanto outro pode ficar preso a eles durante toda sua vida. Desde que isto ocorra, diria que é devido à vontade individual transcender seus condicionamentos e prosperar.
RB : Mas se isso acontecer, pode acontecer a menos que seja a vontade de Deus? Vamos supor que haja duas pessoas: uma tenta superar seus limites e consegue, a outra não consegue. O que eu entendo é que seja aquela que prospera, seja aquela que fracassa, cada uma o faz porque isso é o destino de cada organismo corpo/mente - que é a vontade de Deus.
WIE : Mas não poderíamos simplesmente dizer que é a vontade de Deus dar a cada individuo a livre escolha de tomar suas próprias decisões?
RB : Não. Veja. A minha pergunta a você é: Qual das duas vontades prevalece? Aquela do indivíduo ou aquela de Deus? Pela sua própria experiência, até que ponto seu livre arbítrio prevaleceu?
WIE : Bem, acho que, às vezes, a vontade do individuo poderá certamente prevalecer.
RB : Em relação a vontade de Deus? Quando você quer algo e você trabalha para isso e isso acontece, acontece porque sua vontade coincidia com a vontade de Deus.
WIE: Vamos fazer o exemplo de um indivíduo que se torna um viciado durante toda sua vida. Alguém poderia argumentar que ele escolheu ir contra a vontade de Deus e conseguiu exatamente porque tinha o livre arbítrio.
RB : Mas seja que você aceite ou não, essa é a vontade de Deus, você não vê? Que você aceite a vontade de Deus ou você não aceite a vontade de Deus, isso tambem é a vontade de Deus!
WIE : Eu diria - não necessariamente.
RB : Sei, você quer fazer o advogado do diabo.
WIE : Bem, não, tento chegar a perceber qual é a verdade.
RB : Mas o que é verdade? Eu já disse que qualquer coisa que eu diga é um conceito.
WIE : Sim, eu entendo, mas nem todos os conceitos são iguais. Alguns afirmam algo que é verdadeiro e outros não.
RB : Todos os conceitos tentam apontar para algo, mas ainda assim são todos conceitos. A pergunta real seria, "o que é a verdade que não é um conceito?"
WIE : Afirmar que tudo é programado antecipadamente, que é tudo destino e que não há livre arbítrio parece-me como uma forma muito extrema de reducionismo. De acordo com esta visão, os seres humanos são como computadores; tudo que nos concerne já está pré-determinado.
RB : Sim, exatamente.
WIE : Mas essa me parece ser uma visão sem coração. Então somos somente máquinas, tudo nós acontece. Não há nada que nós pssamos fazer, nada que nós possamos mudar.
RB : Sim, precisamente.
WIE : Mas isso pode levar facilmente a uma indiferença profunda em relação a vida.
RB : Sim, e se isso acontecesse, então seria maravilhoso!
WIE : Realmente?
RB : Mas esse é o ponto! Claro. Então pode dizer que qualquer coisa que aconteça é aceita. Então não há nenhuma infelicidade, não há nenhuma miséria, nenhuma culpa, nenhum orgulho, nenhum ódio, nenhuma inveja. O que ha de errado nisso? E, como já disse, as ações acontecem através desse organismo corpo/mente e, se esse individuo descobre que uma atitude feriu alguém, nasce a compaixão. Como a compaixão poderia surgir se não houvesse nenhum coração?
WIE : Mas não parece um pouco estranho ferir alguém e depois sentir compaixão? Não seria melhor, em primeiro lugar, não machucá-lo?
RB : Mas não está sob seu controle! Se assim fosse, em primeiro lugar, você nunca o teria feito.
WIE : Mas se alguém acredita poder exercitar o controle, se opondo à crença que afirma o contrario, poderia escolher fazê-lo.
RB : Então por que o ser humano não exercita o controle em cada ação que acontece? Deixe-me fazer uma pergunta. E' evidente que o ser humano possui um intelecto extraordinário, tanto que um pequeno ser humano foi capaz de enviar um homem à lua.
WIE : Sim, isso é verdade.
RB : E ele também tem o intelecto pra saber que se faz certas coisas, coisas terríveis acontecerão. Tem o intelecto para saber que se produz armamentos nucleares ou armas químicas, então as pessoas as usarão e coisas terríveis acontecerão ao mundo. Tem o intelecto - portanto se tiver livre arbítrio, então por que o faz? Se possui o livre arbítrio, por que reduziu o mundo a essa condição?
WIE : Admito, a situação que você descreve é obviamente demente. Mas diria que é devido ao fato que as pessoas são indolentes. E acredito que as pessoas podem mudar se queserem.
RB : Então por que elas não o fizeram?
WIE : Algumas pessoas mudam, mas, como disse, infelizmente parece que a maioria das pessoas é muito indolente.
RB : Significa eles não têm nenhum livre arbítrio!
WIE: Tendo somente o livre arbítrio não nos assegura que agiremos inteligentemente. Como no exemplo que você acaba de dar, está claro que as pessoas freqüentemente escolhem fazer coisas que são bastante prejudiciais.
RB : Qdizer temos o livre arbítrio para destruir o mundo? Se dizem que temos o livre arbítrio para destruir o mundo, em outras palavras, significa que destruímos o mundo porque queremos fazê-lo - sabendo muito bem que o mundo será destruído! Livre arbítrio significa que quer fazê-lo.
WIE : Penso que o problema deve-se mais ao fato que as pessoas normalmente não assumem as conseqüências de suas ações. Elas freqüentemente pensam somente em si mesmas, sem considerar onde suas ações podem levá-las.
RB : Mas o ser humano é extremamente inteligente. Por que eles não pensam nesses termos que você propõe? Minha resposta é - porque não é previsto que eles o façam!
WIE : Quando você diz que "não é previsto que eles o façam" o que quer dizer?
RB : Não é a vontade de Deus que os seres humanos pensem dessa maneira. Não é a vontade de Deus que o ser humano seja perfeito. A diferença entre o sábio e a pessoa comum é que a sábio aceita o que é enquanto vontade de Deus mas, e isto é importante, isto não o impede de fazer o que ele pensa deva ser feito. E o que ele pensa que ele deva fazer é baseado na programação.
WIE : Mas porque o sábio faria "o que ele pensa deva ser feito" se, como você já explicou, sabe que, em primeiro lugar, não é ele que pensa?
RB : Quer dizer, como a ação acontece? A resposta é que a energia dentro deste organismo corpo/mente produz a ação de acordo com a programação.
WIE : Então a ação, como você a descreve, acontece somente através da pessoa.
RB : Sim, flui. A ação acontece. Portanto esse é o ponto daquilo que eu digo - voltando novamente as palavras do Buda "Eventos acontecem, ações são feitas."
WIE : Pelo que eu conheço sobre o pensamento do Buda, ele também sentia fortemente que os indivíduos eram pessoalmente responsáveis por suas ações. Não é essa a base do seu inteiro ensinamento sobre o carma, a lei de causa e efeito?
RB : Não o Buda!
WIE : É minha impressão que o Buda ensinou bastante sobre a "ação correta." Parece que ele prezava muito aquilo que as pessoas faziam e punha muita ênfase no fato de que as pessoas tinham que fazer um grande esforço para mudar.
RB : Isso é uma interpretação subseqüente do Budismo. As palavras do Buda são muito claras. Quem tem o controle sobre aquilo que acontece? Deus tem o controle! Isso, como vimos, é a base de cada religião. E', mas porque existem as guerras religiosas se isso está na base de cada religião? São os intérpretes que causam estas guerras! E como é que isso poderia acontecer se não fosse a vontade de Deus?
WIE : E' claro que você acredita que tudo que nós fazemos é porque é a vontade de Deus que nós o façamos. Mas me parece que isso só faria realmente sentido no caso de um indivíduo que chegou ao fim do caminho espiritual - que tenha acabado com o ego - porque as ações dessa pessoa não estão a serviço de si mesma e, portanto, não surgiria nenhuma deformação com a vontade de Deus. Mas até esse ponto, se um indivíduo age incorretamente em relação a outro, bem poderia ser somente uma reação compulsiva porque a pessoa sente-se egoísta. Se este é o caso, então o que você diz poderia realmente ser usado como uma justificativa para um comportamento desagradável ou agressivo. Você acaba de dizer, "é tudo a vontade de Deus. Não tem importância!"
RB : Sei, mas isso é a verdade. Sua pergunta real é, "por que Deus criou o mundo como é?" Mas veja, um ser humano é somente um objeto criado que é parte da totalidade da manifestação que veio da Fonte. Portanto minha resposta é: "um objeto criado jamais poderia conhecer seu criador!" Deixe-me trazer uma metáfora. Vamos imaginar que você pinte um quadro, e nesse quadro você pinta uma figura. Então aquela figura quer saber primeiro, por que você, como um pintor pintou esse quadro particular, e segundo, por que você pintou aquela figura de modo tão feio! Veja, como pode um objeto criado jamais conhecer a vontade do próprio criador? Meu ponto de vista é que, embora seja assim, isso não o impede de fazer o que você pensa que você deva fazer! Aceitar que nada acontece a menos que seja a vontade de Deus isso não impede a qualquer pessoa de fazer o que ela pensa que ele deva fazer. Poderia ser de outra forma?
WIE : Mas baseado nesta linha de raciocínio, como disse antes, seria bastante fácil concluir que, "Ok, tudo é a vontade de Deus, não importa o que acontece!".
RB : Quer dizer, "Então por que deveria fazer qualquer coisa em vez de ficar na cama o dia inteiro?"
WIE : Sim, por que continuar a fazer qualquer esforço?
RB : A resposta é que a energia dentro deste organismo corpo/mente não permitirá a este organismo corpo/mente permanecer inativo nem mesmo por um momento. A energia continuará a produzir alguma ação, física ou mental, a cada instante, de acordo com a programação do organismo corpo/mente e o destino do organismo corpo/mente, que é a vontade de Deus. Mas isso não impede a você, que ainda pensa que é um indivíduo, de fazer o que você pensa que você deve fazer. Portanto, o que de fato eu digo é, "Aquilo que você pensa você deve fazer em qualquer situação em qualquer momento particular é precisamente aquilo que Deus quer que você pense que você deve fazer!" Definitivamente , aceitar a vontade de Deus não vai impedi-lo de fazer o que você pensa que você deve fazer. Vê? Aliás, você não pode fazer nada mais que fazê-lo!
WIE : De acordo com sua maneira de ver o mundo, isso soa como se, tudo que quer que nós consideremos como sendo nossa escolha, nossa própria vontade e responsabilidade, foi transferida do indivíduo para Deus ou a Consciência. E' isso o que você diz?
RB : Quando você pensa que é você que faz , o que acontece? Ha culpa, orgulho, ódio e inveja. Mas isso ainda não impede ao que acontece de continuar a acontecer. Mas quando você pensa que você não faz , então não há nenhuma culpa, nenhum orgulho, nenhum ódio, nenhuma inveja! A vida torna-se mais pacífica.
WIE : Leio algo num folheto escrito por vários de seus estudantes que parece relevante a esse propósito. Diz: "Aquilo que você gosta só pode ser porque é a vontade de Deus que você goste. Nada pode acontecer a menos que seja Sua vontade.."
RB : Sim, é isso.
WIE : O folheto também diz: "Não se sinta culpado mesmo que um adultério aconteça. Você, a Fonte, é sempre pura."
RB : Isso é Ramana Maharshi quem disse.
WIE : Meu ponto é que a Fonte pode ser sempre pura, mas novamente, parece-me que isso poderia facilmente ser tomado como uma desculpa para agir sem consciência.Você poderia dizer, "não importa se cometo adultério, não importa se machuco meus amigos porque é simplesmente uma ação que acontece". Poderia facilmente ser tomada como uma permissão para agir segundo meu desejo, só porque me aconteceu de ter aquele desejo.
RB : Mas não é isso que acontece?
WIE : Acontece, certamente, mas. . .
RB : Quer dizer que aconteceria mais freqüentemente?
WIE : Com facilidade, poderia acontecer mais. Eu poderia dizer, "Hei, não importa o que eu faça agora. Eu não devo conter-me se sinto um desejo." E' claro o que eu quero dizer?
RB : A pergunta, normalmente formulada seria essa: "Se eu realmente não faço nada, o que me impede de pegar uma metralhadora e sair por aí e matar vinte pessoas?" E' isto que você pergunta, não?
WIE : Bem, isso é um exemplo extremo.
RB : Sim, vamos pegar um exemplo extremo!
WIE : Mas eu acho que seria mais interessante considerar o exemplo do adultério, porque muita gente realmente não faria algo tão extremo como sair por aí de metralhadora para derrubar outras pessoas.
RB : Bem. É a mesma coisa quando conversamos sobre cometer adultério. Leio que os psicólogos e biólogos, baseados em suas pesquisas, chegaram à conclusão que se você trair sua esposa, você não deve se culpar.
WIE : Bem, eu não creio que essa seja a opinião de toda a comunidade cientifica.
RB : O que eu digo é isso, cada vez mais os cientistas estão chegando à conclusão que os místicos sempre sustentaram - de que qualquer ação que aconteça, podemos sempre buscar o motivo na programação.
WIE : Me dou conta de que, em alguns casos, isto pode ser verdade, mas deixe-me dizer, por exemplo, que eu tenha o desejo cometer adultério. Posso dizer, "deve ser a vontade de Deus que eu faça isto e então seguirei adiante" ou, posso conter-me e não causar tanto sofrimento para meus amigos. Não seria melhor se eu me contivesse?
RB : Então o que é que o impede de se conter? Faça como quiser! O que o impede de conter-se? Contenha-se!
WIE : Meu ponto de vista é que é melhor fazer assim!
RB : Também é o meu.
WIE : Mas de acordo com sua visão, assim eu poderia facilmente dizer, "se eu sinto esse desejo deve ser porque é a vontade de Deus," e então não me contenho.
RB : Você afirma que você sabe que deveria se conter então por que você não se contém? Se um organismo corpo/mente não é programado para trair sua esposa, então qualquer coisa que digam os outros, ele não o fará. Se você for programado de maneira que você não levantará sua mão contra ninguém, você começará a matar as pessoas? Agora se existisse uma lei permitindo que você bata em sua esposa sem que você corra nenhum risco, você começaria a surrar sua esposa? Não, a menos que o organismo corpo/mente seja programado para fazer isso, e se é programado para fazer isso, o fará de qualquer jeito. Então como disse, aceitar a vontade de Deus não vai impedi-lo de fazer qualquer coisa que você pense que você deva fazer. Faça-a! Faça exatamente aquilo que você acha que deva ser feito!
WIE : Todavia, no final, como podemos dizer que sabemos que é destino ou a vontade de Deus? Tudo que nós sabemos é que certos eventos se manifestam. Em seguida, podemos rever algo que fizemos e admitir, "Aconteceu, simplesmente" e se gostamos, podemos chamá-lo de destino. Mas não é mais exato dizer que nós realmente não sabemos se é destino ou não?
RB : Esse é o ponto. Nós não sabemos.
WIE : Mas dizer que não sabemos é diferente de dizer "sabemos que é a vontade de Deus". É diferente de dizer "sabemos que tudo é predestinado". Veja, me parece que você quer afirmar que você sabe que tudo é a vontade de Deus.
RB : Nós não sabemos, e isto é um fato; então se você quiser você pode jogar fora o conceito de destino e dizer que ninguém realmente pode saber alguma coisa sobre nada. Ótimo! Não ha nenhuma necessidade de manter o conceito de destino. Afinal de contas, se se aceita que o que acontece não está em seu controle, então quem estaria preocupado com o destino?
WIE : Já que muitos buscadores espirituais vêm a você para receber algum conselho sobre o caminho espiritual, eu gostaria de saber que valor, se é que tem algum valor, você dá ao caminho espiritual como instrumento em direção à Iluminação.
RB : Se a sadhana [a prática espiritual] é necessária, um organismo corpo/mente é programado para seguir uma sadhana.
WIE : Em outras palavras, se tem que acontecer, acontece?
RB : Isso mesmo. As pessoas às vezes me perguntam, "Se nada está nas nossas mãos, deveríamos meditar ou não?" Minha resposta é muito simples. Se vocês gostam de meditar, meditem; se vocês não gostam de meditar, não se forcem a meditar.
WIE : A busca espiritual então é um obstáculo para Iluminação?
RB : Sim, buscar é o maior obstáculo por causa da presença do buscador. O buscador é o obstáculo - não a busca; a busca acontece por si mesma. A busca acontece porque o organismo corpo/mente é programado para buscar. Se a busca da iluminação acontece, então o organismo corpo/mente foi programado para buscar. O obstáculo é o buscador que diz, "quero a Iluminação."
WIE : Então porque tantos sábios falaram sobre a importância da busca? Ramana Maharshi disse que o buscador tem que querer a Iluminação com a mesma intensidade que um homem que esteja afogando-se quer o ar, com o mesmo grau de concentração e sinceridade.
RB : Certamente. Portanto isso quer dizer que tem que ter esse tipo de intensidade na busca. Mas ele também disse, "Se você quer fazer um esforço, você deve fazer um esforço; mas se o esforço não é destinado a acontecer, o esforço não será feito." E' isso que Ramana Maharshi disse. Então veja, se alguém busca ou não busca não está em seu controle. Se a busca por Deus ou a busca pelo dinheiro acontece, não é nem seu mérito nem sua culpa.
WIE : Num de seus livros você afirmou que alguém realmente alcançou uma certa profundidade de entendimento quando pode dizer, "eu não estou nem aí se a Iluminação acontece ou não neste organismo corpo/mente."
RB : E' verdade. Quando alcança esse estagio, então significa que o buscador não está mais aí. Está extremamente perto da Iluminação porque se não há ninguém que se interesse, então não há mais nenhum buscador.
WIE : Mas o resultado não pode ser uma indiferença extraordinariamente profunda que não é Iluminação?
RB : Isso poderia levar a Iluminação!
WIE : Tenho mais uma pergunta. Você freqüentemente diz que nós deveríamos "somente aceitar o que é".
RB : Sim, se é possível para você fazer isto - e isto não está em seu controle!


EPÍLOGO


Enquanto passei meio zonzo pelo porteiro e saia nas ruas tumultuadas de Bombaim minha mente vacilava. Como poderia ser, perguntei-me enquanto abria caminho no meio da multidão, que um homem educado e inteligente como Ramesh Balsekar pudesse realmente acreditar que tudo seja predestinado, que antes de ter nascido, nosso destino já estava gravado numa espécie de granito etéreo? Poderia ele ser realmente sério em sua insistência de que nossa vida inteira, com seu fluxo aparentemente interminável de escolhas e decisões e oportunidades para sistematizar o próprio curso para melhor ou para pior, seja realmente, desde o primeiro respiro, um destino? Enquanto atravessava a calçada em busca de um café onde encontrar um refugio do caos, os pontos difíceis de nosso breve diálogo iam passando em minha cabeça. Sim, "Assim seja" é a essência da maioria das religiões, pensei comigo, mas para os grandes místicos e sábios que fizeram tais declarações por toda a história, a rendição à vontade de Deus tem um significado muito maior do que simplesmente aceitar que não há nada que ninguém possa fazer para influenciar as circunstâncias da vida. Certamente aquilo que tradicionalmente se referia "a vontade Deus" é algo que alguém descobre quando o ego foi absolutamente abandonado, quando todas as motivações egoísticas foram todas queimadas, deixando-o completamente rendido para cumprir a vontade de Deus, qualquer ela seja! Para um Jesus ou um Ramakrishna ou um Ramana Maharshi dizer que se rendeu à vontade de Deus é um fato. Mas dizer que isto é verdade para todo o mundo, naquele momento, pareceu-me refletir uma forma perigosa e particular de loucura que poderia ser usada para justificar as mais extremas formas de comportamento. A declaração de Balsekar, "O que você acha que você deve fazer em qualquer situação. . . é precisamente aquilo que Deus quer que você ache que deva fazer," significa que para ele o Buda Iluminado não está fazendo em medida maior a vontade de Deus que o assassino em série que ataca sua próxima vítima.Tinha vindo a entrevista esperando que houvesse algum desacordo, mas de qualquer forma até os livros de Balsekar, nos quais todas essas idéias são claramente e repetidamente expressadas, não me tinham preparado para meu encontro com o homem. Como tinham lhe surgido essas idéias? Perguntei-me. E por que? Meus pensamentos rodavam e rodavam, lembrando-me de sua arrepiante afirmação de que, mesmo quando machucamos alguém, não precisamos sentirmo-nos culpados, pois nós não somos responsáveis por nossas ações - que mesmo "Hitler foi meramente um instrumento através o qual os acontecimentos horríveis que tinham que acontecer aconteceram" sua afirmação, desafiando todo bom senso, que nós não temos nenhum poder de controlar nosso comportamento ou até de influenciar o dos outros. E tudo isto no contexto de sua descrição fantástica de todos nós como "organismos corpo/mente exercitando nossa "programação". De repente a visão bem-vinda de uma loja de chá apareceu através da névoa e enquanto conseguia um espaço para entrar, senti alivio ao achar aquele tipo de oásis tranqüilo que tinha esperado encontrar. Foi aí, numa das muitas mesas vazias, enquanto o primeiro gole de chá ao leite de sabor adocicado passava pelos meus lábios que num flash, minha ficha caiu. Eu não estava bebendo aquele chá! Eu não estava sentado naquela mesa! De fato, eu não era aquele que tinha entrado na loja de chá. E eu não era aquele que acabava de se atormentar durante uma hora numa conversa com um homem que naquele momento começava a parecer como um indivíduo são. Aliás, eu nunca tinha feito alguma coisa. Era como se um peso que eu tinha carregado durante minha vida inteira de repente fosse levantado no céu graças a um balão de ar quente, e levado para longe, para nunca mais voltar novamente. Todos aqueles anos eu tinha lutado para virar um ser humano melhor, mais generoso mais honesto - todo aquele esforço que eu tinha feito para renunciar a minhas inclinações de superioridade, egoísmo e agressividade - foram todos uma louca empreitada, todos estupidamente e sem necessidade, baseados na idéia importante de que eu tinha algum controle sobre meu destino e a mesquinha presunção de que aquilo que eu fazia pudesse importar aos "outros". Como podia ter me desviado tanto? Mas espera , não era sequer eu quem se tinha desviado! Como se as nuvens se abrissem, de relance agora eu vejo claramente que aquilo que eu tinha pensado como "a minha vida" tinha sido na verdade somente um processo mecânico. A pessoa que eu pensava ser sempre tinha sido somente uma máquina. E o mundo em que eu pensei que eu tinha vivido não era, como tinha suposto, um mundo de complexidade humana, mas um mundo de simplicidade mecanicista, de ordem perfeita, um matemático desenrolar de programas em movimento desde o começo do tempo. Como a perfeição clínica do plano científico de Deus começou a abrir-se perante mim, a emoção extática da liberdade absoluta - da preocupação, do cuidado, da obrigação, da culpa - começou a fluir pelas minhas veias como uma torrente sem margens. E com isso veio uma paz envolvente e retumbante, uma cessação absoluta de tensão, no reconhecimento de que nenhuma ambigüidade aparente ou incerteza eu poderia encontrar daí pra frente, não importa quais decisões aparentemente difíceis poderia encontrar, eu poderia sempre descansar na certeza de que qualquer escolha que eu fizer era exatamente a escolha que Deus queria que eu fizesse. A sensação misteriosa de um desconhecido que tinha me arrastado por tanto tempo tinha evaporado. Os outros no café viraram suas cabeças enquanto eu ria alto, uma risada longa, de barriga, e fiquei pensando comigo mesmo que jogo fantástico seria a vida se todo o mundo entendesse como ela realmente funciona, se todo o mundo pudesse pelo menos ter um vislumbre de como poderíamos ser livres se todos vivêssemos no Planeta Advaita."

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Amor e Deus







"O diálogo, ocorrido ao anoitecer, foi iniciado por um jovem canadense que vestia um Lungi e um fino Kurta (vestuário típico hindu). Disse que tinha vinte e três anos, mas parecia apenas ter saído de sua adolescência. Exibia, em torno do pescoço, uma elegante e pequena cruz de prata em uma delicada corrente. Ele disse que havia encontrado o livro Eu Sou Aquilo em uma livraria de Bombaim, dois dias atrás. Uma olhada rápida em poucas páginas motivou o desejo de encontrar pessoalmente Maharaj. Ele tinha lido o livro quase continuamente, do meio-dia até à noite, e terminou ambos os volumes apenas há poucas horas.

Maharaj: Você é tão jovem. Desejo saber desde que idade tem estado interessado na busca espiritual.

Visitante: Senhor, desde que me recordo tenho estado profundamente interessado no Amor e em Deus; e senti, com intensidade, que eles não são diferentes. Quando eu sento em meditação, freqüentemente...

M
: Espere um momento. O que você entende exatamente por meditação?

V: Realmente, não sei. Tudo o que faço é sentar com as pernas cruzadas, fechar meus olhos, e permanecer absolutamente quieto. Sinto meu corpo relaxando, quase se desvanecendo, e minha mente ou ser, ou o que quer que seja, funde-se no espaço, e o processo de pensamento fica gradualmente suspenso.

M: Isto está bem. Por favor, prossiga.

V: Freqüentemente, durante a meditação, um devastador sentimento de amor extático surge em meu coração junto com uma efusão de bem-estar. Eu não sei o que é. Foi durante um de tais momentos de encanto que me senti inspirado a visitar a Índia – e aqui estou.

M: Quanto tempo ficará em Bombaim?

V: Realmente, não sei. Raramente, faço planos. Tenho dinheiro suficiente para viver frugalmente por quinze dias e tenho minha passagem de retorno.

M: Agora, diga-me, o que exatamente quer saber? Tem alguma pergunta específica?

V: Eu era um homem muito confuso quando desembarquei em Bombaim. Senti que iria perder o juízo. Realmente, não sei o que me levou à livraria, pois não leio muito. No momento em que apanhei o primeiro volume de Eu Sou Aquilo, experimentei o mesmo sentimento esmagador que obtinha durante minhas meditações. Conforme fui lendo o livro, um peso parecia estar sendo removido de dentro de mim e, agora que estou sentado aqui diante de você, sinto como se estivesse falando para mim mesmo. E o que estou dizendo para mim mesmo parece blasfêmia. Eu estava convencido que o amor é Deus. Mas agora penso que o amor é, seguramente, um conceito e, se o amor for um conceito, Deus também deve ser um.

M: E o que está errado nisto?

V: (Rindo) Bom, se você coloca isto desta maneira, não tenho nenhum sentimento de culpa em transformar Deus em um conceito.

M: De fato, você disse que Deus é amor. O que você quer dizer com a palavra ‘amor’? Quer dizer ‘amor’ como o oposto de ‘ódio’? Ou alguma outra coisa, embora, certamente, nenhuma palavra possa ser adequada para descrever ‘Deus’.

V: Não. Não. Pela palavra ‘amor’, certamente, não me refiro ao oposto de ‘ódio’. Refiro-me àquele amor que é a abstenção da discriminação entre ‘mim’ e o ‘outro’.

M: Em outras palavras, a unidade do ser?

V: Sim, sem dúvida. O que é então o ‘Deus’ a quem eu supunha orar?

M: Falaremos mais tarde sobre a oração. Agora, então, o que exatamente é este ‘Deus’ sobre o qual você está falando? Não é a própria consciência – o sentido de ‘ser’ que se tem – pela qual você é capaz de fazer perguntas? O próprio ‘eu sou’ é Deus. Que é o que você mais ama? Não é este ‘eu sou’ a presença consciente a qual você quer preservar a qualquer custo? A própria busca é Deus. Na busca você descobre que ‘você’ está separado deste complexo corpo-mente. Se você não fosse consciente, o mundo existiria para você? Existiria qualquer idéia de Deus? A consciência em você e a consciência em mim – são diferentes? Não são separadas apenas como conceitos que buscam a unidade não concebida que, por sua vez, não é outra coisa senão amor?

V: Agora entendo o que quer dizer “Deus está mais próximo de mim que eu mesmo.”

M: Lembre, também, não há nenhuma prova da Realidade exceto sê-la. De fato, você é ela, e sempre foi. A consciência cessa com o fim do corpo (e é, portanto, limitada pelo tempo) e, com ela, cessa a dualidade que é a base da consciência e da manifestação.

V: O que, então, é a oração, e qual o seu propósito?

M: A oração, como é geralmente entendida, é somente suplicar por alguma coisa. Mas, na realidade, a oração significa comunhão, união, Ioga.

V: Tudo está tão claro agora, como se um monte de escombros fosse repentinamente lançado fora de meu sistema, apagado da existência.

M: Quer dizer que você agora parece ver tudo claramente?

V: Não. Não! Não ‘parece’. É claro, tão claro que estou assombrado de não ter visto antes. Várias afirmações que li na Bíblia, que pareciam importantes, mas vagas, são agora claras como cristal – declarações como: Antes de Abrahão ser, eu era; Eu e meu pai somos um; Eu sou o que Eu sou.

M: Bem. Agora que você compreendeu, que Sadhana o fará obter a liberação de sua ‘escravidão’?

V: Ah! Maharaj. Agora você está certamente ridicularizando-me. Ou está me testando? Seguramente, agora eu sei que Eu Sou Aquilo – Eu sou, o qual sempre fui e sempre serei. O que resta fazer? Ou desfazer? E quem vai fazer isto? Para que finalidade?

M: Excelente! Apenas seja.

V: Sem dúvida, deverei ser.


Então, o jovem canadense prostrou-se diante de Maharaj – seus olhos cheios de lágrimas de gratidão e alegria. Maharaj perguntou-lhe se iria voltar novamente, e o jovem disse: “Honestamente, eu não sei”. Quando ele saiu, Maharaj sentou por um tempo com os olhos fechados e com o mais doce dos sorrisos em seus lábios. Então disse muito suavemente: “Alguém excepcional”; pude apenas entender as palavras.
Nunca mais vi o jovem canadense novamente e, às vezes, pergunto-me sobre ele."



De: "Sinais do Absoluto" - Pointers from Nisargadatta Maharaj - o 1° livro de Ramesh Balsekar sobre ops ensinamentos do grande jnani. Futura publicação da Editora Advaita



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