Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A Mente e o Mundo não estão Separados











Pergunta: Vejo aqui imagens de diversos santos e me disseram que são seus antepassados espirituais. Quem são eles e como tudo isto começou?

Maharaj: Somos chamados coletivamente os ‘Nove Mestres’. A lenda diz que nosso primeiro mestre foi o Rishi Dattatreya, a grande encarnação da Trindade de Brahma, Vishnu e Shiva. Mesmo os ‘Nove Mestres’ (Navnath) são mitológicos.

P: Qual é a peculiaridade de seus ensinamentos? 

M: A simplicidade, tanto em teoria como na prática.                   

P: Como alguém se torna um Navnath? Pela iniciação ou pela sucessão?

M: Nem uma nem outra.  A tradição dos ‘Nove Mestres’, Navnath Parampara, é como um rio que flui para o oceano da realidade, e quem quer que entre nele será levado junto.

P: Isto implica em ser aceito por um mestre vivo pertencente à mesma tradição?

M: Aqueles que praticam o sadhana de enfocar suas mentes no ‘Eu sou’ podem sentir-se relacionados a outros que seguiram o mesmo sadhana e foram bem-sucedidos. Eles podem decidir verbalizar seu sentido de afinidade chamando-se Navnats; isto lhes dá o prazer de pertencer a uma tradição estabelecida.

P: Eles são beneficiados de algum modo juntando-se à tradição?

M: O círculo de satsang, ‘a companhia dos santos’, expande-se em número à medida que o tempo passa.

P: Eles retêm assim uma fonte de poder e graça da qual teriam sido excluídos de outra forma?

M: O poder e a graça são para todos, basta pedi-los. Dar a si mesmo um nome particular não ajuda. Chame-se por qualquer nome – enquanto estiver intensamente atento a si mesmo, os acumulados obstáculos ao autoconhecimento estarão condenados a desaparecer.

P: Se eu gosto de seu ensinamento e aceito sua direção, posso chamar-me Navnath?

M: Satisfaça sua mente viciada às palavras! O nome não o mudará. No melhor dos casos, poderá lembrá-lo para que se comporte. Há uma sucessão de Gurus e seus discípulos, os quais por sua vez preparam outros discípulos, e assim a linha é mantida. Mas a continuidade da tradição é informal e voluntária. É como um nome de família, mas neste caso a família é espiritual.

P: Você deve realizar-se para unir-se a Sampradaya?

M: A Navnath Sampradaya é apenas uma tradição, um modo de ensinamento e de prática. Não denota um nível de consciência. Se você aceitar como Guru um mestre da Navnath Sampradaya, você se juntará a esta Sampradaya. Geralmente, você recebe um sinal da graça do Guru – um olhar, um toque, ou uma palavra, às vezes um sonho vívido ou uma forte recordação. Às vezes, o único sinal da graça é uma mudança rápida e significativa no caráter e no comportamento.

P: Conheço-o há alguns anos e o encontro regularmente. Sua lembrança nunca está longe de minha mente. Isto me faz pertencer a sua Sampradaya?

M: O pertencer é uma questão de seu próprio sentimento e convicção. No final das contas, tudo é verbal e formal. Na realidade, não há nem Guru nem discípulo, nem teoria nem prática, nem ignorância nem realização. Tudo depende do que você acredita ser. Conheça-se corretamente. Não há substituto nenhum para o autoconhecimento.

P: Que prova eu terei de que me conheço corretamente?

M: Você não precisa de provas. A experiência é única e inequívoca. Aparecerá em você subitamente quando os obstáculos estiverem eliminados em certa medida. É como uma corda gasta rompendo-se. Seu esforço está nos cabos. A ruptura está destinada a acontecer. Pode ser adiada, mas não impedida.

P: Estou confuso por sua negação da causalidade. Isto quer dizer que ninguém é responsável pelo mundo como ele é?

M: A idéia de responsabilidade está em sua mente. Você pensa que deve haver algo ou alguém unicamente responsável por tudo que acontece. Há uma contradição entre um universo múltiplo e uma causa única. Ou um ou o outro deve ser falso. Ou ambos. Tal como eu o vejo, tudo é um devaneio. Não há nenhuma realidade nas ideias. O fato é que, sem você, nem o universo nem sua causa poderiam ter vindo a existir.

P: Não posso perceber se sou a criatura ou o criador do universo.

M: ‘Eu sou’ é um fato sempre presente, enquanto ‘Eu sou criado’ é uma ideia. Nem Deus nem o universo vieram a você para lhe dizer que eles o criaram. A mente, obcecada pela ideia de causalidade, inventa a criação e, então, deseja saber ‘quem é o criador?’ A própria mente é o criador. Mesmo isto não é totalmente verdadeiro, porque o criado e seu criador são um. A mente e o mundo não estão separados. Entenda que o que você pensa ser o mundo é sua própria mente.

P: Existe um mundo além, ou fora da mente?

M: Todo o espaço e todo o tempo estão na mente. Onde você localizaria um mundo além da mente? Existem muitos níveis de mente e cada um projeta sua própria versão, mesmo assim todos estão na mente e são criados por ela.

P: Qual é sua atitude quanto ao pecado? Como você vê o pecador, alguém que rompe a lei interna ou externa? Você quer que ele mude ou apenas se compadece dele? Ou você lhe é indiferente por causa de seus pecados?

M: Não conheço nenhum pecado, nem pecador. Suas distinções e avaliações não me limitam. Todos se comportam segundo sua natureza. Não se pode evitar, nem se lamentar por isto.

P: Outros sofrem.

M: A vida vive da vida. Na natureza o processo é compulsório; na sociedade, deveria ser voluntário. Não pode haver nenhuma vida sem sacrifício. O pecador nega-se ao sacrifício e atrai a morte. Isto é como é, e não há razão para condenação ou piedade.

P: Seguramente você sente ao menos compaixão quando vê um homem mergulhado no pecado.

M: Sim, sinto que sou esse homem e seus pecados são meus pecados.

P: Certo, e depois?

M: Por tornar-me um com ele, ele se torna um comigo. Não é um processo consciente, ocorre inteiramente por si mesmo. Nenhum de nós pode evitá-lo. O que necessita mudar deverá mudar de qualquer modo; basta conhecer-se tal como se é, aqui e agora. A investigação intensa e metódica, dentro da própria mente, é a Ioga.

P: O que acontece com as cadeias do destino forjadas pelo pecado?

M: Quando a ignorância, a mãe do pecado, é dissolvida, o destino, a compulsão para pecar novamente, cessa.

P: Há retribuições a fazer.

M: Quando a ignorância chega ao fim, tudo acaba. As coisas são vistas tais como elas são, e são boas.

P: Se um pecador, um infrator da lei, chegar diante de você e pedir sua graça, qual será sua resposta?

M: Ele obterá o que pede.

P: Apesar de ser um homem mau?

M: Não conheço pessoas más, só conheço a mim mesmo. Não vejo nem santos nem pecadores, só seres vivos. Eu não distribuo a graça. Não há nada que eu possa dar ou negar, o qual você já não tenha em igual medida. Simplesmente, seja consciente de suas riquezas e utiliza-as ao máximo. Enquanto imaginar que necessita minha graça estará em minha porta mendigando-a.
    Se eu mendigasse sua graça, teria pouco sentido! Não estamos separados, o real é comum.

P: Uma mãe vem a você com uma história de infortúnio. Seu único filho entregou-se às drogas e ao sexo e vai de mal a pior. Ela pede sua graça. Qual será sua resposta?

M: Provavelmente, eu devo me ouvir dizendo a ela que tudo irá bem.

P: Isto é tudo?

M: Isto é tudo. O que mais você espera?

P: Mas o filho da mulher mudará?

M: Pode mudar ou não.

P: As pessoas que se reúnem ao redor de você, e que o conhecem há muitos anos, sustentam que, quando você diz que ‘ficará tudo bem’, invariavelmente, acontece como você disse.

M: Também pode ser dito que foi o coração da mãe que salvou o filho. Para tudo há inumeráveis causas.

P: Disseram-me que o homem que nada quer para si mesmo é todo-poderoso. O universo inteiro está à sua disposição.

M: Se você assim acredita, aja de acordo com isto. Abandone todo desejo pessoal e use o poder assim resgatado para mudar o mundo!

P: Todos os Budas e Rishis não foram bem sucedidos em salvar o mundo.

M: O mundo não se rende à mudança.  Por sua própria natureza, é doloroso e transitório. Veja-o como ele é, e se despoje de todo o desejo e de todo o medo. Quando o mundo não o aprisiona ou o vincula mais, ele converte-se numa morada de alegria e beleza. Você pode ser feliz no mundo apenas quando é livre dele.

P: O que é certo e o que é errado?

M: Geralmente, o que causa sofrimento é errado, e o que o elimina é certo. O corpo e a mente são limitados e, portanto, vulneráveis; eles necessitam de proteção, o que dá lugar ao medo. Enquanto você se identificar com eles, estará condenado a sofrer; compreenda sua independência e fique feliz. Eu lhe digo, este é o segredo da felicidade. Acreditar que você depende de coisas e pessoas para ser feliz se deve à ignorância de sua verdadeira natureza; saber que você não necessita de nada para ser feliz, exceto o autoconhecimento, é sabedoria.

P: O que vem primeiro, o ser ou o desejo?

M: Quando o ser surge na consciência, surgem também na mente as ideias do que você é junto com as ideias do que deveria ser. Isto causa o desejo e a ação, e o processo de transformar-se começa. O vir a ser não tem, aparentemente, nenhum início e nenhum fim, porque recomeça a cada momento. Com a cessação da imaginação e do desejo, o vir a ser cessa e o ser isto ou aquilo se funde no puro ser, o qual não é descritível e apenas pode ser experienciado.
    O mundo lhe parece tão esmagadoramente real porque você pensa nele o tempo todo; deixe de pensar nele, e ele se dissolverá numa névoa sutil. Você não precisa esquecer; quando o desejo e o medo terminam, o cativeiro também termina. O que cria o cativeiro é o envolvimento emocional, o padrão estabelecido de gostos e desgostos, o que denominamos caráter e temperamento.

P: Sem desejo e medo, que motivo há para a ação?

M: Nenhum, a menos que considere motivo suficiente o amor à vida, à retidão e à beleza. Não tenha medo da liberdade do desejo e do medo. Ela permite que você viva uma vida tão diferente de tudo o que você conhece, tão muito mais intensa e interessante, que, verdadeiramente, por perder tudo você ganha tudo.

P: Desde que você conta que sua ascendência espiritual vem do Rishi Dattatreya, estou certo em acreditar que você e seus predecessores são reencarnações do Rishi?

M: Você pode acreditar no que quiser e, se agir de acordo com sua crença, você obterá seus frutos; mas, para mim, isto não tem nenhuma importância. Eu sou o que sou, e isto me basta. Não tenho o desejo de identificar-me com ninguém, por ilustre que seja. Nem necessito tomar os mitos por realidade. Estou apenas interessado na ignorância e na libertação da ignorância. O papel apropriado a um Guru é dissipar a ignorância nos corações e mentes de seus discípulos. Uma vez que o discípulo tenha entendido, a ação confirmatória dependerá dele. Ninguém pode agir por outro. E se alguém não age corretamente, apenas significa que não compreendeu e que o trabalho do Guru não terminou.

P: Deve haver também alguns casos sem esperança?

M: Nenhum caso é sem esperança. Os obstáculos podem ser superados. O que a vida não pode emendar, a morte concluirá, mas o Guru não pode falhar.

P: O que lhe dá esta segurança?

M: O Guru e a realidade interior do homem são realmente uma coisa só e trabalham juntos para a mesma meta – a redenção e salvação da mente. Eles não podem falhar. Em consequência das muitas pedras que os obstruem, eles constroem suas pontes.  A consciência não é a totalidade do ser – há outros níveis nos quais o homem é muito mais cooperativo. O Guru está familiarizado com todos os níveis, e sua energia e paciência são inesgotáveis. 

P: Você continua assegurando-me que estou sonhando e que já é hora de despertar. Como é que o Maharaj que veio a mim em meus sonhos não foi bem-sucedido em despertar-me? Ele continua me encorajando e lembrando, mas o sonho continua.

M: Isto é porque você realmente não entendeu que você está sonhando. Esta é a essência do cativeiro – a mistura do real com o irreal. Em seu estado presente, só o ‘Eu sou’ se refere à realidade; o ‘que’ e o ‘como eu sou’ são ilusões impostas pelo destino, ou por acidente.

P: Quando o sonho começou?

M: Parece ser sem começo, mas de fato é apenas agora. De momento a momento, você o está renovando. Uma vez que você tenha visto que está sonhando, você deverá acordar. Mas você não vê porque quer que o sonho continue. Virá o dia em que você ansiará pelo fim do sonho, com todo o seu coração e toda sua mente, e estará disposto a pagar qualquer preço; o preço será o desapego e o distanciamento, a perda do interesse no próprio sonho.

P: Quão desamparado estou. Enquanto o sonho da existência dura, eu quero que continue. Enquanto quero que continue, durará.

M: O querer que continue não é inevitável. Veja claramente sua condição, sua própria claridade o libertará.

P: Enquanto estou com você, tudo quanto diz parece óbvio; mas, logo que me afasto de você, fico inquieto e cheio de ansiedade.

M: Não é necessário ficar longe de mim, em sua mente pelo menos. Mas sua mente procura o bem-estar do mundo!

P: O mundo está cheio de problemas, não é de estranhar que minha mente também esteja.

M: Houve alguma vez um mundo sem problemas? Sua existência como uma pessoa depende da violência em relação aos outros. Seu próprio corpo é um campo de batalha, cheio de mortos e agonizantes. A existência implica violência.

P: Como corpo, sim. Como ser humano, definitivamente não. Para a humanidade, a não violência é a lei da vida; e a violência, a lei da morte.

M: Na natureza há pouca não violência.

P: Deus e a natureza não são humanos e não precisam ser. Estou interessado só no homem. Para ser humano, devo ser absolutamente compassivo.

M: Você compreende que, enquanto possuir um eu a defender, você deve ser violento?

P: Sim. Para ser verdadeiramente humano, devo ser sem eu. Enquanto for egoísta, serei subumano, apenas um ‘humanoide’.

M: Portanto, nós todos somos subumanos e só alguns poucos são humanos. Poucos ou muitos, o que nos faz humanos é novamente a ‘claridade e a caridade’. Os subumanos – os ‘humanoides’, são dominados por tamas e rajas, e os humanos, por sattva. Claridade e caridade são sattva no modo em que afetam a mente e a ação. Mas o real está além de sattva. Desde que eu o conheço, você parece estar sempre procurando ajudar o mundo. Quanto já o ajudou?

P: Nem um pouco.  Nem o mundo mudou, nem eu. Mas o mundo sofre e eu sofro com ele. Lutar contra o sofrimento é uma reação natural. E o que são a civilização e a cultura, a filosofia e a religião, senão uma revolta contra o sofrimento? O mal e a cessação do mal – não são sua principal preocupação? Você pode chamar a isto de ignorância – vêm a dar no mesmo.

M: Bem, as palavras não importam, nem tampouco interessa a forma em que você está agora. Os nomes e as formas mudam sem cessar. Saiba que você é a testemunha imutável da mente que muda. Isso é o suficiente.



De: "Eu Sou Aquilo" Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj






segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Um jovem cego com visão verdadeira









Certa vez, ao fim de uma longa sessão de diálogo e exposição, durante a qual Maharaj repetidamente conduziu seus ouvintes ao ponto básico de seu ensinamento (que a presença consciente, ‘eu sou’, é o conceito original sobre o qual tudo aparece, e que este conceito em si mesmo é apenas uma ilusão), ele perguntou: Vocês entenderam o que estou tentando dizer?
Esta pergunta foi dirigida a todos os ouvintes. Todos permaneceram silenciosos, mas um entre eles disse:


“Sim, Maharaj, entendi suas palavras intelectualmente, mas...” Maharaj ouviu a resposta e sorriu cansadamente, talvez porque estivesse divertido pelo fato de que o seu interlocutor, embora tenha dito que entendeu, realmente não tinha entendido. 
Então, prosseguiu para explicar o assunto de forma clara, na maneira categórica que se segue:

1. O conhecimento 'eu sou', ou a consciência, é o único ‘capital’ que um ser sensível tem. De fato, sem a consciência, ele não teria qualquer sensibilidade. 

2. Quando este sentido de 'eu sou' não está presente, como no sono profundo, não há corpo nem mundo externo e nenhum ‘Deus’. 
É evidente que uma minúscula partícula desta consciência contém o universo inteiro.

3. Todavia, a consciência não pode existir sem um corpo físico e, sendo temporária a existência do corpo, também deve ser temporária.

4. Finalmente, se a consciência for limitada pelo tempo e não eterna, qualquer conhecimento adquirido através dela não pode ser a verdade e será, portanto, finalmente rejeitado ou, como eu disse, oferecido ao Brahman como um sacrifício – Brahman sendo a consciência, existência, o sentido de Eu Sou, ou Ishwara, ou Deus, ou qualquer nome que lhe der. Em outras palavras, os opostos inter-relacionados, conhecimento e ignorância, estão na área do conhecido e, portanto, não são a verdade – a verdade está apenas no desconhecido. Uma vez que isto seja claramente entendido, nada mais resta a ser feito. De fato, não há realmente nenhuma ‘entidade’ para fazer qualquer coisa.

Depois de pronunciar estas palavras, Maharaj ficou silencioso e fechou seus olhos. A pequena sala parecia estar mergulhada em uma paz luminosa. Ninguém falou uma única palavra. Por que, perguntei-me, a maioria de nós é incapaz de ver e sentir a manifestação dinâmica da verdade apresentada por Maharaj repetidas vezes?
E por que alguns de nós – embora poucos – a vemos num instante?

Depois de algum tempo, quando Maharaj abriu os olhos e todos revertemos ao estado normal, alguém atraiu sua atenção para o pobre jovem cego que havia aparecido recentemente uma ou duas vezes em suas conversas, na manhã e, novamente, ao anoitecer, e tinha retornado ‘liberado’. 

No fim da sessão, quando o jovem se despediu de Maharaj e lhe foi perguntado se tinha entendido o que havia sido dito, ele respondeu com segurança:

“Sim”. 

Quando o próprio Maharaj lhe perguntou o que ele havia entendido, ele sentou-se quietamente por alguns momentos e então falou:

"Maharaj, eu não tenho as palavras corretas para expressar meu sentimento de gratidão a você por tornar tudo tão claro para mim, de forma tão simples e tão rapidamente. 
Poderia resumir assim o seu ensinamento:

1. Você me pediu para lembrar-me o que eu era antes de ter este conhecimento “eu sou” junto com o corpo, isto é, antes de eu “nascer”;

2. Você me falou que este corpo com consciência surgiu em mim sem meu conhecimento ou concordância, portanto, ‘eu’ nunca ‘nasci’;

3. Este corpo com consciência que ‘nasceu’ é temporal e, quando ele desaparecer no fim de seu tempo designado, deverei voltar a meu estado original, o qual está sempre presente, mas não em manifestação;

4. Portanto, eu não sou a consciência e, certamente, não sou a estrutura física na qual mora esta consciência;

5. Finalmente, eu entendo que há apenas ‘Eu’ – nem ‘eu’, nem ‘meu’, nem ‘você’ – apenas este que é. 
Não há escravidão exceto o conceito de um ‘eu’ e de ‘meu’ separados nesta totalidade da manifestação e funcionamento.

Depois de ouvir estas palavras do jovem cego, declaradas com absoluta convicção, Maharaj dirigiu-lhe um olhar de entendimento e amor e perguntou-lhe: 

“Agora, o que você fará?” 

A resposta foi: 

“Mestre, verdadeiramente o compreendi. Não farei nada. O ‘viver’ continuará”. 

Então apresentou seus respeitos a Maharaj com grande devoção e saiu.

O jovem cego não era realmente cego, disse Maharaj. 

Ele tem a visão verdadeira. 
Há poucos como ele!




De "Sinais do Absoluto" Conversações resolutivas com Sri Nisargadatta Maharaj





sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Planeta Advaita











O nihilismo euforico de Ramesh Balsekar (por Chris Parish)


"Imagine, se puder, que uma manhã você acorda em outro mundo. Esfrega seus olhos para ficar acostumado à luz brilhante do sol, você vê que sob muitos aspectos não é um mundo muito diferente deste. Você está cercado por criaturas que, aos seus olhos, aparecem idênticas aos seres humanos com quem você normalmente compartilha o mundo. Você os observa em suas atividades diárias, vivendo suas vidas, empenhando-se em conversas com outros, fazendo escolhas inumeráveis e tomando as decisões inerentes às exigências da vida. O quadro parece tranqüilizante, familiar e normal.
Mas neste mundo, você logo descobre que as coisas não são necessariamente como parecem. Porque estes não são seres humanos. Não, estes são "organismos corpo/mente" que, diversamente de seus pares humanos, não tem a faculdade de escolher entre opções nem de tomar decisões. De fato, estes organismos não têm nada mesmo que se assemelhe ao que nós chamaríamos de livre arbítrio. As tramas de suas vidas foram escritas na pedra muito antes deles nascerem, deixando a eles somente a possibilidade de cumprir mecanicamente os atos para os quais foram programados. Estas criaturas aparentemente humanas, não são nada mais que máquinas. Enquanto aparentam comportar-se como indivíduos normais com liberdade de escolha , ativamente empenhados nas atividades diárias, estranhamente, quando perguntados, respondem que eles não fazem absolutamente nada. Aliás, neste mundo peculiar, eles dizem que não ha "aqueles que agem". Além do mais, ninguém neste mundo jamais é julgado responsável por algo. Mesmo quando um destes seres parece prejudicar outro, não há nenhum remorso, nenhum sentido de culpa é atribuído. Se perguntasse a um destes organismos corpo/mente sobre esse evento, a resposta seria que não havia ninguém que tinha feito algo. A ética é um conceito desconhecido aqui. As leis da natureza não parecem aplicar-se neste admirável novo mundo. Ou talvez tenham sido reescritas aqui, desde que parece que esses seres observam algumas leis estranhas. Você se pergunta em que lugar da terra poderia estar. Mas você não está na terra. Você aterrissou no Planeta Advaita.

Tinha vindo a Bombaim entrevistar Ramesh Balsekar, um dos mais conhecidos professores de Advaita Vedanta atualmente em vida. Vive no coração desta caótica e vasta cidade numa área exclusiva frente mar que, me informou meu motorista de táxi, é um bairro onde moram muitos VIPs. O porteiro do seu prédio, deduzindo automaticamente que, sendo um ocidental ,devo estar vindo ver Ramesh Balsekar, dirigiu-me a um andar superior, onde Balsekar tem uma residência espaçosa e bem decorada. Balsekar foi um anfitrião muito cortês, saudando-me calorosamente em seu imaculado traje indiano tradicional. Seu comportamento era brilhante e animado e foi difícil para mim acreditar que tinha oitenta anos de idade.
Ramesh Balsekar tem um background insólito para um guru indiano. Educado no ocidente, teve uma carreira muito bem sucedida como dirigente executivo, aposentando-se de seu cargo de presidente do Banco da Índia quando tinha sessenta anos. E, apesar de declarar que ele sempre tem sido inclinado a acreditar no destino, foi somente depois que se aposentou que iniciou sua busca espiritual, uma busca que o levou rapidamente ao seu guru, o famoso mestre Advaita Sri Nisargadatta Maharaj. Nisargadatta era um professor impetuoso que se tornou famoso no ocidente nos anos 70 quando foi publicada uma tradução inglesa de seus diálogos, intitulada Eu Sou Aquilo. Um livro que se tornou um clássico espiritual moderno. Menos de um ano depois de encontrar Nisargadatta, Balsekar alcançou o que ele denominou de "a compreensão final" - a iluminação - enquanto traduzia para seu guru. Segundo conta Balsekar, Nisargadatta autorizou-o a ensinar logo antes de morrer e desde então ele tem compartilhado constantemente sua mensagem como sucessor desse Mestre muito respeitado. Balsekar publicou muitos livros sobre seus ensinamentos e ensinou na Europa, nos Estados Unidos e na Índia. Oferece satsang [encontros com um mestre espiritual ou, literalmente - do sanscrito - "Comunhão (sanga) com a Verdade (Satya)"] no seu apartamento cada manhã, e um fluxo constante de buscadores quase que exclusivamente ocidentais vai para Bombaim para vê-lo.
Inicialmente quisemos entrevistar Balsekar seja porque é um popular e influente professor de Advaita - agora ele autorizou tambem alguns de seus estudantes a ensinar - seja porque é considerado, por muitos, como o sucessor de um dos professores de Advaita mais reconhecidos da era moderna. Entretanto, estudando os escritos de Balsekar, nós logo compreendemos que ele ensina uma forma de Advaita insólita e possivelmente excêntrica, que poderia, a nosso franco parecer, induzir a conclusões discutíveis e até perturbadoras. Mesmo que o pensamento indiano tenha sido longamente criticado por suas inclinações determinísticas, parecia-nos que Balsekar tem levado este fatalismo a um extremo sem precedentes. Enfim, foi seja um desejo de explorar estas áreas inquietantes, quanto para aprofundar-me no interesse sobretudo dos ensinamentos do Advaita, que trouxe-me finalmente a Bombaim para conversar com ele. E enquanto cheguei imaginando um encontro diferente, olhando posteriormente, me é claro que, enquanto nos era oferecido um café e nos sentávamos confortavelmente em sua sala, não teria tido nenhuma possibilidade de me preparar para o dialogo que seria iniciado.

WIE : . Você está cada vez mais conhecido como professor do Advaita Vedanta seja na Índia que no ocidente. Pode descrever para nós o que é que ensina?
Ramesh Balsekar: Posso realmente resumi-lo numa só frase. A frase na qual meu ensinamento inteiro é baseado é: "Seja feita a tua vontade." Ou, como dizem os muçulmanos, "Inshallah " - A vontade de Deus." Ou, nas palavras do Buddha: "Eventos acontecem, ações são feitas, mas não tem nenhum individuo que age". Veja, o conflito básico na vida é: "eu sempre faço tudo direito então quero minha recompensa. Ele ou ela sempre fazem algo errado então deveriam ser punidos." Essa é a vida, não é assim?
WIE : Bem, certamente acontece muito.
RB : Essa é a base daquilo que eu observei. O problema inteiro surge porque alguém diz , "Eu fiz algo e portanto mereço uma recompensa, ou ele fez algo e portanto eu quero puni-lo pelo que ele fez."
WIE : Como leva as pessoas compreender isso - que não há aquele que age, que não ha fazedor?
RB : Isso é muito simples. Se voce analisar qualquer ação que você considera como sendo sua ação, você vai descobrir que é uma reação do cérebro a um evento externo sobre o qual você não tem nenhum controle. Um pensamento vem - você não tem nenhum controle sobre o pensamento que chega. Algo é visto ou é ouvido - você não tem nenhum controle sobre o que você verá ou ouvirá em seguida. Todos esses eventos acontecem sem seu controle. E então o que acontece? O cérebro reage ao que pensou ou à coisa que é vista, é ouvida, é provada, é cheirada ou é tocada. A reação do cérebro é o que você chama "sua ação." Mas, de fato, isto é meramente um conceito.
WIE : Qual é a diferença então entre pensamentos, sensações e ações de uma pessoa iluminada e de uma pessoa não iluminada ?
RB : Acontece a mesma coisa. A única diferença é que, no caso do sábio, ele entende que é isso que acontece. Portanto ele sabe que não há nada que ele esteja fazendo: as coisas simplesmente acontecem. O sábio sabe que "eu não faço nada". Mas o homem comum diz, "faço coisas ou fazem coisas. Portanto quero minha recompensa e quero que eles sejam punidos." A recompensa ou o castigo dependem da idéia que eu, ele ou ela fazemos coisas, de que somos agentes.
WIE : Posso entender através de minha própria experiência que nós não temos qualquer controle sobre qual pensamentos nem sentimentos que surgem. Mas às vezes a uma ação segue outra, às vezes não, e me parece que existe uma grande diferença entre quando um pensamento meramente surge e quando é empreendida uma ação que envolve uma outra pessoa.
RB : A ação que acontece é o resultado da reação do cérebro ao pensamento. Se se é simplesmente a testemunha do pensamento e o cérebro não reage aaquele pensamento, então não há nenhuma ação.
WIE : Mas se, como você diz, não há ninguém que decide como responder, então o que é que causa o manifestar-se de uma ação?
RB : Uma ação acontece se for vontade de Deus que aconteça. Se não está em sua vontade, a ação não acontece.
WIE : Quer dizer que cada ação acontece por vontade de Deus?
RB : Sim, é a vontade de Deus.
WIE : Que age através de uma pessoa?
RB : Sim, através de uma pessoa.
WIE : Que seja uma pessoa iluminada ou não? Através de cada um, em outras palavras?
RB : Exatamente. A única diferença, como disse, é que o homem comum pensa, "é minha ação" enquanto o sábio sabe que não é a ação de ninguém. O sábio sabe isso: "Ações são feitas, eventos acontecem, mas não há um individuo, não ha "aquele que age". Essa é a única diferença quanto a mim. A única diferença entre um sábio e uma pessoa comum é que a pessoa comum pensa que cada indivíduo faz aquilo que acontece através daquele organismo corpo/mente. Portanto, desde que o sábio sabe não há nenhuma ação que ele faz, se se produz uma ação que possa machucar alguém, então ele fará tudo que for possível para ajudar aquela pessoa, mas não haverá nenhum sentimento de culpa.
WIE : Quer dizer que, se um indivíduo age de maneira que possa ferir outro, então a pessoa que fez, ou, como você diz, o "organismo corpo/mente" que agiu, não é responsável?
RB : O que eu estou dizendo é que você sabe que "eu" não o fiz. Não digo que eu não lamente por ter machucado alguém. O fato de que alguém foi machucado produzirá um sentimento de compaixão e o sentimento de compaixão resultará em meu tentar fazer qualquer coisa que possa aliviar essa ferida. Mas não haverá nenhum sentimento de culpa: eu não o fiz! O outro lado da moeda é que, se acontecer uma ação que é elogiada pela sociedade e essa me oferecer uma recompensa por isso, eu não digo que não surgirá um sentimento de felicidade por causa da recompensa. Assim como surgiu a compaixão por causa do magoado, um sentimento de satisfação ou de felicidade pode surgir por causa de uma recompensa. Mas não haverá nenhum orgulho.
WIE : Mas você literalmente quer dizer que se vou e firo alguém, não sou eu a fazê-lo? Quero simplesmente ficar claro em relação a isso.
RB : O fato inicial, o conceito original ainda resta: você feriu alguém. Surge o conceito adicional que o que acontece é a vontade de Deus, e a vontade de Deus respeito a cada organismo corpo/mente é o destino daquele organismo corpo/mente.
WIE : Então eu poderia somente dizer, "Bem, agi pela vontade de Deus; não tenho culpa" ?
RB : Certamente. Um ato acontece porque é o destino deste organismo corpo/mente e porque é a vontade de Deus. E as conseqüências daquela ação são também o destino daquele organismo corpo/mente. Se uma boa ação acontece, isso é o destino. Por exemplo, nós tivemos um Madre Teresa. O organismo corpo/mente conhecido como "Madre Teresa" era programado de modo que acontecessem somente boas ações. Então o acontecimento das boas ações era o destino do organismo corpo/mente chamado Madre Teresa. E as conseqüências foram: um Prêmio Nobel, recompensas, prêmios, e doações para as várias causas. Tudo isso era o destino daquele organismo corpo/mente chamado Madre Teresa. Por outro lado há um organismo psicopata que é programado de tal maneira - pela mesma fonte - que somente aconteçam ações perversas e maldosas. A manifestação dessas ações maldosas e perversas são o destino de um organismo corpo/mente que a sociedade chama de psicopata. Mas o psicopata não escolheu ser psicopata. Aliás não há nenhum psicopata; há só um organismo corpo/mente psicopático, cujo destino é produzir ações maldosas e pervertidas. E as conseqüências dessas ações são também o destino daquele organismo corpo/mente.
WIE : Você acha que tudo seja predestinado? Que tudo seja pré-programado desde o nascimento?
RB : Uso a palavra "programar" em referencia às características inerentes ao organismo corpo/mente. A "programação" para mim significa os gens mais os condicionamentos ambientais. Você não pude escolher seus pais, portanto você não teve escolha quanto aos seus genes. Do mesmo modo, você não teve escolha quanto ao ambiente onde você nasceu. Portanto você não teve nenhuma escolha sobre os condicionamentos da infância que você recebeu naquele ambiente, que inclui o condicionamento em casa, na sociedade, escola e na igreja. Os psicólogos dizem que o condicionando total que você recebeu até a idade de três ou quatro anos é seu condicionamento básico. Haverá mais condicionamentos, mas o condicionamento básico que cria a personalidade é a soma dos genes mais o condicionamento ambiental. Chamo isso de programação. Cada organismo corpo/mente é programado de maneira única. Não há dois organismos corpo/mente iguais.
WIE : Sim, mas não é verdade que duas pessoas podem ter bases muito semelhantes de condicionamento e, mesmo assim, serem completamente diferentes uma da outra?
RB : Claro. Essa é a razão pela qual eu uso dois termos: um é a programação do organismo corpo/mente, o outro é o destino. O destino é a vontade de Deus em relação aauele organismo corpo/mente, imprimido no momento de concebimento. O destino de um concebido poderia ser o de não nascer absolutamente, nesse caso ele será abortado. Isto tudo é um conceito, não se engane. Isto é meu conceito.
WIE : Você afirma que isto é um conceito e, certamente, todas as palavras são conceitos, mas como sabemos que este conceito é a verdade? Tendo a pensar que todo mundo tem responsabilidades indivíduais e que, embora haja uma certa quantidade de condicionamentos que nós herdamos, nós ainda podemos escolher como respondemos. Um indivíduo pode transcender os aspectos de seu condicionamento, enquanto outro pode ficar preso a eles durante toda sua vida. Desde que isto ocorra, diria que é devido à vontade individual transcender seus condicionamentos e prosperar.
RB : Mas se isso acontecer, pode acontecer a menos que seja a vontade de Deus? Vamos supor que haja duas pessoas: uma tenta superar seus limites e consegue, a outra não consegue. O que eu entendo é que seja aquela que prospera, seja aquela que fracassa, cada uma o faz porque isso é o destino de cada organismo corpo/mente - que é a vontade de Deus.
WIE : Mas não poderíamos simplesmente dizer que é a vontade de Deus dar a cada individuo a livre escolha de tomar suas próprias decisões?
RB : Não. Veja. A minha pergunta a você é: Qual das duas vontades prevalece? Aquela do indivíduo ou aquela de Deus? Pela sua própria experiência, até que ponto seu livre arbítrio prevaleceu?
WIE : Bem, acho que, às vezes, a vontade do individuo poderá certamente prevalecer.
RB : Em relação a vontade de Deus? Quando você quer algo e você trabalha para isso e isso acontece, acontece porque sua vontade coincidia com a vontade de Deus.
WIE: Vamos fazer o exemplo de um indivíduo que se torna um viciado durante toda sua vida. Alguém poderia argumentar que ele escolheu ir contra a vontade de Deus e conseguiu exatamente porque tinha o livre arbítrio.
RB : Mas seja que você aceite ou não, essa é a vontade de Deus, você não vê? Que você aceite a vontade de Deus ou você não aceite a vontade de Deus, isso tambem é a vontade de Deus!
WIE : Eu diria - não necessariamente.
RB : Sei, você quer fazer o advogado do diabo.
WIE : Bem, não, tento chegar a perceber qual é a verdade.
RB : Mas o que é verdade? Eu já disse que qualquer coisa que eu diga é um conceito.
WIE : Sim, eu entendo, mas nem todos os conceitos são iguais. Alguns afirmam algo que é verdadeiro e outros não.
RB : Todos os conceitos tentam apontar para algo, mas ainda assim são todos conceitos. A pergunta real seria, "o que é a verdade que não é um conceito?"
WIE : Afirmar que tudo é programado antecipadamente, que é tudo destino e que não há livre arbítrio parece-me como uma forma muito extrema de reducionismo. De acordo com esta visão, os seres humanos são como computadores; tudo que nos concerne já está pré-determinado.
RB : Sim, exatamente.
WIE : Mas essa me parece ser uma visão sem coração. Então somos somente máquinas, tudo nós acontece. Não há nada que nós pssamos fazer, nada que nós possamos mudar.
RB : Sim, precisamente.
WIE : Mas isso pode levar facilmente a uma indiferença profunda em relação a vida.
RB : Sim, e se isso acontecesse, então seria maravilhoso!
WIE : Realmente?
RB : Mas esse é o ponto! Claro. Então pode dizer que qualquer coisa que aconteça é aceita. Então não há nenhuma infelicidade, não há nenhuma miséria, nenhuma culpa, nenhum orgulho, nenhum ódio, nenhuma inveja. O que ha de errado nisso? E, como já disse, as ações acontecem através desse organismo corpo/mente e, se esse individuo descobre que uma atitude feriu alguém, nasce a compaixão. Como a compaixão poderia surgir se não houvesse nenhum coração?
WIE : Mas não parece um pouco estranho ferir alguém e depois sentir compaixão? Não seria melhor, em primeiro lugar, não machucá-lo?
RB : Mas não está sob seu controle! Se assim fosse, em primeiro lugar, você nunca o teria feito.
WIE : Mas se alguém acredita poder exercer o controle, se opondo à crença que afirma o contrario, poderia escolher fazê-lo.
RB : Então por que o ser humano não exercita o controle em cada ação que acontece? Deixe-me fazer uma pergunta. E' evidente que o ser humano possui um intelecto extraordinário, tanto que um pequeno ser humano foi capaz de enviar um homem à lua.
WIE : Sim, isso é verdade.
RB : E ele também tem o intelecto para saber que se faz certas coisas, coisas terríveis acontecerão. Tem o intelecto para saber que se produz armamentos nucleares ou armas químicas, então as pessoas as usarão e coisas terríveis acontecerão ao mundo. Tem o intelecto - portanto se tiver livre arbítrio, então por que o faz? Se possui o livre arbítrio, por que reduziu o mundo a essa condição?
WIE : Admito, a situação que você descreve é obviamente demente. Mas diria que é devido ao fato que as pessoas são indolentes. E acredito que as pessoas podem mudar se queserem.
RB : Então por que elas não o fizeram?
WIE : Algumas pessoas mudam, mas, como disse, infelizmente parece que a maioria das pessoas é muito indolente.
RB : Significa eles não têm nenhum livre arbítrio!
WIE: Tendo somente o livre arbítrio não nos assegura que agiremos inteligentemente. Como no exemplo que você acaba de dar, está claro que as pessoas freqüentemente escolhem fazer coisas que são bastante prejudiciais.
RB : Quer dizer que temos o livre arbítrio para destruir o mundo? Se diz que temos o livre arbítrio para destruir o mundo, em outras palavras, significa que destruímos o mundo porque queremos fazê-lo - sabendo muito bem que o mundo será destruído! Livre arbítrio significa que quer fazê-lo.
WIE : Penso que o problema deve-se mais ao fato que as pessoas normalmente não assumem as conseqüências de suas ações. Elas freqüentemente pensam somente em si mesmas, sem considerar onde suas ações podem levá-las.
RB : Mas o ser humano é extremamente inteligente. Por que eles não pensam nesses termos que você propõe? Minha resposta é - porque não é previsto que eles o façam!
WIE : Quando você diz que "não é previsto que eles o façam" o que quer dizer?
RB : Não é a vontade de Deus que os seres humanos pensem dessa maneira. Não é a vontade de Deus que o ser humano seja perfeito. A diferença entre o sábio e a pessoa comum é que a sábio aceita o que é enquanto vontade de Deus mas, e isto é importante, isto não o impede de fazer o que ele pensa deva ser feito. E o que ele pensa que ele deva fazer é baseado na programação.
WIE : Mas porque o sábio faria "o que ele pensa deva ser feito" se, como você já explicou, sabe que, em primeiro lugar, não é ele que pensa?
RB : Quer dizer, como a ação acontece? A resposta é que a energia dentro deste organismo corpo/mente produz a ação de acordo com a programação.
WIE : Então a ação, como você a descreve, acontece somente através da pessoa.
RB : Sim, flui. A ação acontece. Portanto esse é o ponto daquilo que eu digo - voltando novamente as palavras do Buda "Eventos acontecem, ações são feitas."
WIE : Pelo que eu conheço sobre o pensamento do Buda, ele também sentia fortemente que os indivíduos eram pessoalmente responsáveis por suas ações. Não é essa a base do seu inteiro ensinamento sobre o carma, a lei de causa e efeito?
RB : Não o Buda!
WIE : É minha impressão que o Buda ensinou bastante sobre a "ação correta." Parece que ele prezava muito aquilo que as pessoas faziam e punha muita ênfase no fato de que as pessoas tinham que fazer um grande esforço para mudar.
RB : Isso é uma interpretação subseqüente do Budismo. As palavras do Buda são muito claras. Quem tem o controle sobre aquilo que acontece? Deus tem o controle! Isso, como vimos, é a base de cada religião. E', mas porque existem as guerras religiosas se isso está na base de cada religião? São os intérpretes que causam estas guerras! E como é que isso poderia acontecer se não fosse a vontade de Deus?
WIE : E' claro que você acredita que tudo que nós fazemos é porque é a vontade de Deus que nós o façamos. Mas me parece que isso só faria realmente sentido no caso de um indivíduo que chegou ao fim do caminho espiritual - que tenha acabado com o ego - porque as ações dessa pessoa não estão a serviço de si mesma e, portanto, não surgiria nenhuma deformação com a vontade de Deus. Mas até esse ponto, se um indivíduo age incorretamente em relação a outro, bem poderia ser somente uma reação compulsiva porque a pessoa sente-se egoísta. Se este é o caso, então o que você diz poderia realmente ser usado como uma justificativa para um comportamento desagradável ou agressivo. Você acaba de dizer, "é tudo a vontade de Deus. Não tem importância!"
RB : Sei, mas isso é a verdade. Sua pergunta real é, "por que Deus criou o mundo como é?" Mas veja, um ser humano é somente um objeto criado que é parte da totalidade da manifestação que veio da Fonte. Portanto minha resposta é: "um objeto criado jamais poderia conhecer seu criador!" Deixe-me trazer uma metáfora. Vamos imaginar que você pinte um quadro, e nesse quadro você pinta uma figura. Então aquela figura quer saber primeiro, por que você, como um pintor pintou esse quadro particular, e segundo, por que você pintou aquela figura de modo tão feio! Veja, como pode um objeto criado jamais conhecer a vontade do próprio criador? Meu ponto de vista é que, embora seja assim, isso não o impede de fazer o que você pensa que você deva fazer! Aceitar que nada acontece a menos que seja a vontade de Deus isso não impede a qualquer pessoa de fazer o que ela pensa que ele deva fazer. Poderia ser de outra forma?
WIE : Mas baseado nesta linha de raciocínio, como disse antes, seria bastante fácil concluir que, "Ok, tudo é a vontade de Deus, não importa o que acontece!".
RB : Quer dizer, "Então por que deveria fazer qualquer coisa em vez de ficar na cama o dia inteiro?"
WIE : Sim, por que continuar a fazer qualquer esforço?
RB : A resposta é que a energia dentro deste organismo corpo/mente não permitirá a este organismo corpo/mente permanecer inativo nem mesmo por um momento. A energia continuará a produzir alguma ação, física ou mental, a cada instante, de acordo com a programação do organismo corpo/mente e o destino do organismo corpo/mente, que é a vontade de Deus. Mas isso não impede a você, que ainda pensa que é um indivíduo, de fazer o que você pensa que você deve fazer. Portanto, o que de fato eu digo é, "Aquilo que você pensa você deve fazer em qualquer situação em qualquer momento particular é precisamente aquilo que Deus quer que você pense que você deve fazer!" Definitivamente , aceitar a vontade de Deus não vai impedi-lo de fazer o que você pensa que você deve fazer. Vê? Aliás, você não pode fazer nada mais que fazê-lo!
WIE : De acordo com sua maneira de ver o mundo, isso soa como se, tudo que quer que nós consideremos como sendo nossa escolha, nossa própria vontade e responsabilidade, foi transferida do indivíduo para Deus ou a Consciência. E' isso o que você diz?
RB : Quando você pensa que é você que faz , o que acontece? Ha culpa, orgulho, ódio e inveja. Mas isso ainda não impede ao que acontece de continuar a acontecer. Mas quando você pensa que você não faz , então não há nenhuma culpa, nenhum orgulho, nenhum ódio, nenhuma inveja! A vida torna-se mais pacífica.
WIE : Leio algo num folheto escrito por vários de seus estudantes que parece relevante a esse propósito. Diz: "Aquilo que você gosta só pode ser porque é a vontade de Deus que você goste. Nada pode acontecer a menos que seja Sua vontade.."
RB : Sim, é isso.
WIE : O folheto também diz: "Não se sinta culpado mesmo que um adultério aconteça. Você, a Fonte, é sempre pura."
RB : Isso é Ramana Maharshi quem disse.
WIE : Meu ponto é que a Fonte pode ser sempre pura, mas novamente, parece-me que isso poderia facilmente ser tomado como uma desculpa para agir sem consciência.Você poderia dizer, "não importa se cometo adultério, não importa se machuco meus amigos porque é simplesmente uma ação que acontece". Poderia facilmente ser tomada como uma permissão para agir segundo meu desejo, só porque me aconteceu de ter aquele desejo.
RB : Mas não é isso que acontece?
WIE : Acontece, certamente, mas. . .
RB : Quer dizer que aconteceria mais freqüentemente?
WIE : Com facilidade, poderia acontecer mais. Eu poderia dizer, "Hei, não importa o que eu faça agora. Eu não devo conter-me se sinto um desejo." E' claro o que eu quero dizer?
RB : A pergunta, normalmente formulada seria essa: "Se eu realmente não faço nada, o que me impede de pegar uma metralhadora e sair por aí e matar vinte pessoas?" E' isto que você pergunta, não?
WIE : Bem, isso é um exemplo extremo.
RB : Sim, vamos pegar um exemplo extremo!
WIE : Mas eu acho que seria mais interessante considerar o exemplo do adultério, porque muita gente realmente não faria algo tão extremo como sair por aí de metralhadora para derrubar outras pessoas.
RB : Bem. É a mesma coisa quando conversamos sobre cometer adultério. Leio que os psicólogos e biólogos, baseados em suas pesquisas, chegaram à conclusão que se você trair sua esposa, você não deve se culpar.
WIE : Bem, eu não creio que essa seja a opinião de toda a comunidade cientifica.
RB : O que eu digo é isso, cada vez mais os cientistas estão chegando à conclusão que os místicos sempre sustentaram - de que qualquer ação que aconteça, podemos sempre buscar o motivo na programação.
WIE : Me dou conta de que, em alguns casos, isto pode ser verdade, mas deixe-me dizer, por exemplo, que eu tenha o desejo cometer adultério. Posso dizer, "deve ser a vontade de Deus que eu faça isto e então seguirei adiante" ou, posso conter-me e não causar tanto sofrimento para meus amigos. Não seria melhor se eu me contivesse?
RB : Então o que é que o impede de se conter? Faça como quiser! O que o impede de conter-se? Contenha-se!
WIE : Meu ponto de vista é que é melhor fazer assim!
RB : Também é o meu.
WIE : Mas de acordo com sua visão, assim eu poderia facilmente dizer, "se eu sinto esse desejo deve ser porque é a vontade de Deus," e então não me contenho.
RB : Você afirma que você sabe que deveria se conter então por que você não se contém? Se um organismo corpo/mente não é programado para trair sua esposa, então qualquer coisa que digam os outros, ele não o fará. Se você for programado de maneira que você não levantará sua mão contra ninguém, você começará a matar as pessoas? Agora se existisse uma lei permitindo que você bata em sua esposa sem que você corra nenhum risco, você começaria a surrar sua esposa? Não, a menos que o organismo corpo/mente seja programado para fazer isso, e se é programado para fazer isso, o fará de qualquer jeito. Então como disse, aceitar a vontade de Deus não vai impedi-lo de fazer qualquer coisa que você pense que você deva fazer. Faça-a! Faça exatamente aquilo que você acha que deva ser feito!
WIE : Todavia, no final, como podemos dizer que sabemos que é destino ou a vontade de Deus? Tudo que nós sabemos é que certos eventos se manifestam. Em seguida, podemos rever algo que fizemos e admitir, "Aconteceu, simplesmente" e se gostamos, podemos chamá-lo de destino. Mas não é mais exato dizer que nós realmente não sabemos se é destino ou não?
RB : Esse é o ponto. Nós não sabemos.
WIE : Mas dizer que não sabemos é diferente de dizer "sabemos que é a vontade de Deus". É diferente de dizer "sabemos que tudo é predestinado". Veja, me parece que você quer afirmar que você sabe que tudo é a vontade de Deus.
RB : Nós não sabemos, e isto é um fato; então se você quiser você pode jogar fora o conceito de destino e dizer que ninguém realmente pode saber alguma coisa sobre nada. Ótimo! Não ha nenhuma necessidade de manter o conceito de destino. Afinal de contas, se se aceita que o que acontece não está em seu controle, então quem estaria preocupado com o destino?
WIE : Já que muitos buscadores espirituais vêm a você para receber algum conselho sobre o caminho espiritual, eu gostaria de saber que valor, se é que tem algum valor, você dá ao caminho espiritual como instrumento em direção à Iluminação.
RB : Se a sadhana [a prática espiritual] é necessária, um organismo corpo/mente é programado para seguir uma sadhana.
WIE : Em outras palavras, se tem que acontecer, acontece?
RB : Isso mesmo. As pessoas às vezes me perguntam, "Se nada está nas nossas mãos, deveríamos meditar ou não?" Minha resposta é muito simples. Se vocês gostam de meditar, meditem; se vocês não gostam de meditar, não se forcem a meditar.
WIE : A busca espiritual então é um obstáculo para Iluminação?
RB : Sim, buscar é o maior obstáculo por causa da presença do buscador. O buscador é o obstáculo - não a busca; a busca acontece por si mesma. A busca acontece porque o organismo corpo/mente é programado para buscar. Se a busca da iluminação acontece, então o organismo corpo/mente foi programado para buscar. O obstáculo é o buscador que diz, "quero a Iluminação."
WIE : Então porque tantos sábios falaram sobre a importância da busca? Ramana Maharshi disse que o buscador tem que querer a Iluminação com a mesma intensidade que um homem que esteja afogando-se quer o ar, com o mesmo grau de concentração e sinceridade.
RB : Certamente. Portanto isso quer dizer que tem que ter esse tipo de intensidade na busca. Mas ele também disse, "Se você quer fazer um esforço, você deve fazer um esforço; mas se o esforço não é destinado a acontecer, o esforço não será feito." E' isso que Ramana Maharshi disse. Então veja, se alguém busca ou não busca não está em seu controle. Se a busca por Deus ou a busca pelo dinheiro acontece, não é nem seu mérito nem sua culpa.
WIE : Num de seus livros você afirmou que alguém realmente alcançou uma certa profundidade de entendimento quando pode dizer, "eu não estou nem aí se a Iluminação acontece ou não neste organismo corpo/mente."
RB : E' verdade. Quando alcança esse estagio, então significa que o buscador não está mais aí. Está extremamente perto da Iluminação porque se não há ninguém que se interesse, então não há mais nenhum buscador.
WIE : Mas o resultado não pode ser uma indiferença extraordinariamente profunda que não é Iluminação?
RB : Isso poderia levar a Iluminação!
WIE : Tenho mais uma pergunta. Você freqüentemente diz que nós deveríamos "somente aceitar o que é".
RB : Sim, se é possível para você fazer isto - e isto não está em seu controle!


EPÍLOGO


Enquanto passava meio zonzo pelo porteiro e saia nas ruas tumultuadas de Bombaim minha mente vacilava. Como poderia ser, perguntei-me enquanto abria caminho no meio da multidão, que um homem educado e inteligente como Ramesh Balsekar pudesse realmente acreditar que tudo seja predestinado, que antes de ter nascido, nosso destino já estava gravado numa espécie de granito etéreo? Poderia ele ser realmente sério em sua insistência de que nossa vida inteira, com seu fluxo aparentemente interminável de escolhas e decisões e oportunidades para sistematizar o próprio curso para melhor ou para pior, seja realmente, desde o primeiro respiro, um destino? Enquanto atravessava a calçada em busca de um café onde encontrar um refugio do caos, os pontos difíceis de nosso breve diálogo iam passando em minha cabeça. Sim, "Assim seja" é a essência da maioria das religiões, pensei comigo, mas para os grandes místicos e sábios que fizeram tais declarações por toda a história, a rendição à vontade de Deus tem um significado muito maior do que simplesmente aceitar que não há nada que ninguém possa fazer para influenciar as circunstâncias da vida. Certamente aquilo que tradicionalmente se referia "a vontade Deus" é algo que alguém descobre quando o ego foi absolutamente abandonado, quando todas as motivações egoísticas foram todas queimadas, deixando-o completamente rendido para cumprir a vontade de Deus, qualquer ela seja! Para um Jesus ou um Ramakrishna ou um Ramana Maharshi dizer que se rendeu à vontade de Deus é um fato. Mas dizer que isto é verdade para todo o mundo, naquele momento, pareceu-me refletir uma forma perigosa e particular de loucura que poderia ser usada para justificar as mais extremas formas de comportamento. A declaração de Balsekar, "O que você acha que você deve fazer em qualquer situação. . . é precisamente aquilo que Deus quer que você ache que deva fazer," significa que para ele o Buda Iluminado não está fazendo em medida maior a vontade de Deus que o assassino em série que ataca sua próxima vítima.Tinha vindo a entrevista esperando que houvesse algum desacordo, mas de qualquer forma até os livros de Balsekar, nos quais todas essas idéias são claramente e repetidamente expressadas, não me tinham preparado para meu encontro com o homem. Como tinham lhe surgido essas idéias? Perguntei-me. E por que? Meus pensamentos rodavam e rodavam, lembrando-me de sua arrepiante afirmação de que, mesmo quando machucamos alguém, não precisamos sentirmo-nos culpados, pois nós não somos responsáveis por nossas ações - que mesmo "Hitler foi meramente um instrumento através o qual os acontecimentos horríveis que tinham que acontecer aconteceram" sua afirmação, desafiando todo bom senso, que nós não temos nenhum poder de controlar nosso comportamento ou até de influenciar o dos outros. E tudo isto no contexto de sua descrição fantástica de todos nós como "organismos corpo/mente exercitando nossa "programação". De repente a visão bem-vinda de uma loja de chá apareceu através da névoa e enquanto conseguia um espaço para entrar, senti alivio ao achar aquele tipo de oásis tranqüilo que tinha esperado encontrar. Foi aí, numa das muitas mesas vazias, enquanto o primeiro gole de chá ao leite de sabor adocicado passava pelos meus lábios que num flash, minha ficha caiu. Eu não estava bebendo aquele chá! Eu não estava sentado naquela mesa! De fato, eu não era aquele que tinha entrado na loja de chá. E eu não era aquele que acabava de se atormentar durante uma hora numa conversa com um homem que naquele momento começava a parecer como um indivíduo são. Aliás, eu nunca tinha feito alguma coisa. Era como se um peso que eu tinha carregado durante minha vida inteira de repente fosse levantado no céu graças a um balão de ar quente, e levado para longe, para nunca mais voltar novamente. Todos aqueles anos eu tinha lutado para virar um ser humano melhor, mais generoso mais honesto - todo aquele esforço que eu tinha feito para renunciar a minhas inclinações de superioridade, egoísmo e agressividade - foram todos uma louca empreitada, todos estupidamente e sem necessidade, baseados na idéia importante de que eu tinha algum controle sobre meu destino e a mesquinha presunção de que aquilo que eu fazia pudesse importar aos "outros". Como podia ter me desviado tanto? Mas espera , não era sequer eu quem se tinha desviado! Como se as nuvens se abrissem, de relance agora eu vejo claramente que aquilo que eu tinha pensado como "a minha vida" tinha sido na verdade somente um processo mecânico. A pessoa que eu pensava ser sempre tinha sido somente uma máquina. E o mundo em que eu pensei que eu tinha vivido não era, como tinha suposto, um mundo de complexidade humana, mas um mundo de simplicidade mecanicista, de ordem perfeita, um matemático desenrolar de programas em movimento desde o começo do tempo. Como a perfeição clínica do plano científico de Deus começou a abrir-se perante mim, a emoção extática da liberdade absoluta - da preocupação, do cuidado, da obrigação, da culpa - começou a fluir pelas minhas veias como uma torrente sem margens. E com isso veio uma paz envolvente e retumbante, uma cessação absoluta de tensão, no reconhecimento de que nenhuma ambigüidade aparente ou incerteza eu poderia encontrar daí pra frente, não importa quais decisões aparentemente difíceis poderia encontrar, eu poderia sempre descansar na certeza de que qualquer escolha que eu fizer era exatamente a escolha que Deus queria que eu fizesse. A sensação misteriosa de um desconhecido que tinha me arrastado por tanto tempo tinha evaporado. Os outros no café viraram suas cabeças enquanto eu ria alto, uma risada longa, de barriga, e fiquei pensando comigo mesmo que jogo fantástico seria a vida se todo o mundo entendesse como ela realmente funciona, se todo o mundo pudesse pelo menos ter um vislumbre de como poderíamos ser livres se todos vivêssemos no Planeta Advaita."







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