Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

O estado livre de desejos, a mais elevada bênção.



Pergunta: Encontrei-me com muitas pessoas realizadas, mas nunca com um homem liberado. Você já conheceu algum homem liberado, ou a liberação significa, entre outras coisas, abandonar também o corpo?


Maharaj: O que você quer dizer por realização e liberação?


P: Por realização quero dizer uma experiência maravilhosa de paz, bondade e beleza, quando o mundo tem sentido, e há uma total unidade de substância e essência. Apesar de tal experiência não durar, não pode ser esquecida. Brilha na mente como recordação e desejo. Sei do que estou falando porque tenho tido tais experiências.

Por liberação quero dizer estar permanentemente nesse maravilhoso estado. O que pergunto é se a liberação é compatível com a sobrevivência do corpo.


M: Que está errado com o corpo?


P: O corpo é muito débil e de breve duração. Cria necessidades e desejos. Limita-nos dolorosamente.


M: E daí? Deixe que as expressões físicas sejam limitadas. Mas a liberação é liberação do ser de suas idéias falsas e auto-impostas; não está contida em nenhuma experiência particular, por mais gloriosa que seja.


P: Dura para sempre?


M: Toda experiência é limitada no tempo. Tudo o que teve princípio deverá ter fim.


P: De modo que a liberação, em meu sentido da palavra, não existe?


M: Pelo contrário, sempre se é livre. Você é consciente e livre para ser consciente. Ninguém pode tirar isto de você. Você já se conheceu alguma vez estando inconsciente ou sem existência?


P: Eu posso não lembrar, mas isto não prova que ocasionalmente não esteja inconsciente.


M: Por que não passar da experiência para o experimentador e compreender todo o alcance da única afirmação verdadeira que pode fazer: “Eu sou”?


P: Como isto é feito?

M: Aqui não há “como”. Só conserve na mente o sentimento “eu sou”, fundindo-se nele até que sua mente e seu sentimento se tornem um. Por tentativas repetidas, você topará com o equilíbrio adequado de atenção e afeto, e sua mente estará firmemente estabelecida no pensamento-sentimento “eu sou”. Não importa o que você pense, diga ou faça, este sentido de ser imutável e afetuoso permanecerá como o sempre presente fundamento da mente.


P: E você o chama liberação?


M: Chamo-o o normal. Que há de mal em ser, conhecer e atuar sem esforço e com muita alegria? Por que considerá-lo inusual a ponto de esperar a destruição imediata do corpo? Que está errado com o corpo para que tenha que morrer? Corrija sua atitude em relação ao corpo e não o incomode. Não o mime, não o torture. Simplesmente deixe-o ir, muitas das vezes abaixo do limiar da atenção consciente.


P: A recordação de minhas experiências maravilhosas me persegue. Quero-as de volta.


M: Porque as quer de volta, não pode tê-las. O estado de ansiedade por qualquer coisa bloqueia toda experiência profunda. Nada de valor pode ocorrer a uma mente que sabe exatamente o que quer, porque nada que a mente possa visualizar e querer será de muito valor.


P: Então, o que vale a pena querer?


M: Queira o melhor. A mais alta felicidade, a maior liberdade. A ausência de desejos é a mais elevada bem-aventurança.


P: Estar livre de desejos não é a liberdade que eu quero. Eu quero a liberdade de satisfazer meus desejos.


M: Você é livre para satisfazer seus desejos. De fato, não está fazendo outra coisa.


P: Eu tento, mas existem obstáculos que me deixam frustrado.


M: Supere-os.


P: Não posso, sou demasiado fraco.


M: O que o faz fraco? Que é esta fraqueza? Outros satisfazem seus desejos, por que você não?


P: Talvez me falte energia.


M: O que aconteceu a sua energia? Para onde foi? Não a dispersou em muitos desejos e ocupações contraditórios? Você não tem uma provisão infinita de energia.


P: Por que não?


M: Os seus objetivos são pequenos e baixos. Não pedem por mais. Apenas a energia de Deus é infinita porque Ele não quer nada para si mesmo. Seja como Ele e todos os seus desejos se realizarão. Quanto mais elevados forem seus objetivos e mais amplos seus desejos, mais energia terá para sua satisfação. Deseje o bem de todos e o universo trabalhará com você. Mas, se quiser seu próprio prazer, terá que ganhá-lo duramente. Antes de desejar, mereça.


P: Eu me dedico ao estudo da filosofia, da sociologia e da educação. Creio que necessito mais desenvolvimento mental antes de poder sonhar com a auto-realização. Estou no caminho correto?


M: Para ganhar a vida é necessário algum conhecimento especializado. O conhecimento geral desenvolve a mente, não há dúvida. Mas, se vai passar toda a vida juntando conhecimento, você construirá um muro ao redor de si mesmo. Para ir além da mente, não será necessária uma mente bem preparada.


P: Então, o que será necessário?


M: Desconfiar de sua mente, e ir além.


P: O que encontrarei além da mente?


M: A experiência direta de ser, conhecer e amar.


P: Como se vai além da mente?


M: Há muitos pontos de partida, todos levam à mesma meta. Pode começar com um trabalho desinteressado, abandonado o fruto da ação; então poderá então deixar de pensar e terminar abandonando todos os desejos. Abandonar (tyaga), neste caso, é o fator operativo. Ou você pode não se preocupar com nada do que queira ou pense, ou faça, permanecendo apenas no pensamento e sentimento “eu sou”, enfocando o “eu sou” firmemente em sua mente. Todo tipo de experiências pode ocorrer então; permaneça inabalável, com o conhecimento de que tudo o que pode ser percebido é transitório, e que só o “eu sou” dura.


P: Eu não posso dedicar toda a minha vida a tais práticas. Tenho que atender as minhas obrigações.


M: Não deixe de atender as suas obrigações! A ação na qual não esteja emocionalmente implicado e que seja benéfica, e não cause sofrimento, não o limitará. Você pode ocupar-se em várias direções e trabalhar com enorme empenho, e permanecer interiormente livre e sereno, com a mente como um espelho que a tudo reflete sem ser afetada.


P: Tal estado é realizável?


M: Não falaria dele se assim não fosse. Por que haveria de ocupar-me com fantasias?


P: Todos citam as escrituras.


M: Aqueles que conhecem apenas as escrituras não conhecem nada. Conhecer é ser. Eu sei do que falo não por ter lido ou por ter ouvido.


P: Estou estudando sânscrito com um professor, mas realmente só estou lendo as escrituras. Eu busco a auto-realização, e vim obter a orientação necessária. Por favor, diga-me o que deverei fazer.


M: Já que leu as escrituras, por que pergunta?


P: As escrituras mostram as linhas gerais, mas o indivíduo necessita de instruções pessoais.


M: Seu próprio ser é seu ultimo mestre (sadguru). O mestre externo (Guru) é meramente um sinal no caminho. Só seu mestre interno caminhará com você até a meta, pois ele é a meta.


P: O mestre interior não é encontrado facilmente .


M: Já que está em você e com você, a dificuldade não pode ser séria. Olhe para dentro e o encontrará.


P: Quando olho para dentro, encontro sensações e percepções, pensamentos e sentimentos, desejos e medos, lembranças e expectativas. Estou imerso nesta nuvem e não vejo nada.


M: Este que vê tudo isto, e o nada também, é o mestre interior. Só ele é, todo o restante parece ser. Ele é seu próprio ser (swarupa), sua esperança e segurança de liberdade; encontre-o e una-se a ele, e estará a salvo e seguro.


P: Acredito, mas quando procuro este ser interior, vejo que me escapa.


M: A idéia “me escapa”, onde surge?


P: Na mente.


M: E quem conhece a mente?


P: A testemunha da mente conhece a mente.


M: Veio alguém para dizer-lhe: “Eu sou a testemunha da mente”?


P: Claro que não. Seria apenas outra idéia na mente.


M: Então, quem é a testemunha?


P: Eu sou.


M: De modo que conhece a testemunha porque você é a testemunha. Não necessita ver a testemunha em sua frente. Aqui, de novo, ser é conhecer.


P: Sim, vejo que eu sou a testemunha, a própria Consciência. Mas, em que me beneficia?


M: Que pergunta! Que tipo de benefício você espera? Não é suficiente conhecer o que se é?


P: Qual a utilidade do autoconhecimento?


M: Ajuda-o a entender o que você não é e o libera de idéias, ações e desejos falsos.


P: Se apenas fosse a testemunha, que importaria o correto e o incorreto?


M: O que ajuda a conhecer a si mesmo é correto; o que o impede, é incorreto. Conhecer o ser real de si mesmo é uma bem-aventurança, esquecê-lo é dor.


P: É a consciência da testemunha o verdadeiro Ser?


M: É o reflexo do real na mente (buddhi). O real está além. A testemunha é a porta pela qual você vai além.


P: Qual o propósito da meditação?


M: Ver o falso como falso é meditação. Isto deve continuar todo o tempo.


P: Disseram-nos para que meditemos regularmente.


M: O exercício diário deliberado de discriminar entre o verdadeiro e o falso, e a renúncia do falso, é meditação. Há muitos tipos de meditação para começar, mas, finalmente, todos se fundem em um.


P: Diga-me, por favor, qual é o caminho mais curto para a auto-realização?


M: Nenhum caminho é curto ou longo, mas algumas pessoas são mais sérias que outras. Posso contar-lhe de mim mesmo. Eu era um homem simples, mas confiei no meu Guru. O que ele me disse para fazer, eu fiz. Disse-me que me concentrasse no “eu sou”, e o fiz. Disse-me que estou além de tudo o que se pode perceber ou conceber-se, e eu acreditei nele. Dei-lhe meu coração e minha alma, toda minha atenção e todo o meu tempo disponível (tinha que trabalhar para manter minha família). Como resultado da fé e da dedicação sincera, realizei meu ser (swarupa) em três anos. Você pode escolher o caminho que lhe convenha; sua seriedade determinará o grau de progresso.


P: Nenhuma sugestão para mim?


M: Estabeleça-se firmemente na Consciência de “eu sou”. Este é o princípio e também o fim de todo esforço.

sábado, 23 de agosto de 2008





Comentario



Esse sentido de ser (o "eu sou") permea o universo inteiro e, de sua força gravitacional, nascem todas as coisas. Trata-se d'Aquele "Amor que move o Sol e as outras estrelas", do Deus onipresente das escrituras, do "Alpha e o Omega".

Nos seres senciêntes, ele gera a sensação de ser e, consequentemente a idéia de indivudualidade - portanto, de separação - necessaria para que essa divina comêdia, essa Leela baseada na dualidade, possa se manifestar.

A libertação (auto-realização ou iluminação) representa a clara realização de que, em verdade, não somos esse corpo-mente que acreditavamos ser, mas somos esse mesmo Ser impessoal, Aquilo que é a origem de todo o mundo manifesto.

Descobrimos Aquilo quando , verificados todos os atos falhos da mente para contê-lo, finalmente aceitamos essa impossibilidade e, no silencio dessa entrega, nesse abandono descobrimos uma especie de "outro sentido"... alèm de qualquer sentido. Uma apercepção da unidade evidente que somos enquanto Consciencia inclusiva. Um olhar claro e puro que denota esse esplendido paradoxo (nem isso nem aquilo.....issso e aquilo), essa atenção pacifica.... essa infinita e desconfinada planice sem tempo, o Ser impessoal que é o Amor e nosso verdadeiro lar.

Esse é o alcance que a descoberta de não ser uma entidade individualizada nos regala.
Essa é "boa nova".

O Sentido "Eu Sou"


Pergunta: É um fato da experiência diária que, ao despertarmos, o mundo repentinamente aparece. De onde ele vem?

Maharaj: Antes que algo possa chegar a ser, deve existir alguém a quem ele chega. Todo aparecimento e desaparecimento pressupõem uma mudança em relação a um fundo imutável.

P: Antes de despertar, eu estava inconsciente.

M: Em que sentido? No de haver esquecido ou no de não ter experimentado? Você não experimenta mesmo estando inconsciente? Você pode existir sem conhecer? Um lapso na memória é uma prova de inexistência? E você pode falar com validade sobre sua própria inexistência como uma experiência real? Nem sequer pode dizer que sua mente não existia. Não despertou ao ser chamado? E, ao despertar, não foi o sentido de “eu sou” que chegou primeiro? Alguma semente de consciência deve ter existido inclusive durante o sonho ou o desmaio. Ao despertar, a experiência é assim: “Eu sou o corpo no mundo”. Pode parecer que surja na seqüência, mas, de fato, tudo é simultâneo, uma única idéia de ter um corpo no mundo. Pode existir o sentido de “eu sou” sem ser alguém ou outro?

P: Eu sempre sou alguém com recordações e hábitos. Não conheço outro “eu sou”.

M: Talvez algo o impeça de conhecer? Quando você não sabe o que os demais sabem, o que faz?

P: Busco a fonte de seu conhecimento sob sua instrução.

M: Não é importante para você saber se é um mero corpo ou outra coisa? Ou talvez nada em absoluto? Não vê que todos os seus problemas são os problemas de seu corpo – alimento, vestuário, casa, família, amigos, nome, fama, segurança, sobrevivência. Tudo isto perderá seu significado no momento em que você compreender que talvez não seja um mero corpo.

P: Que beneficio há em saber que não sou o corpo?

M: Mesmo dizer que você não é o corpo não é totalmente verdadeiro. Em um certo modo você é todos os corpos, corações e mentes, e muito mais. Aprofunde-se no sentido de “eu sou” e você encontrará. Como você encontra algo que você perdeu ou esqueceu? Você o mantém na mente até que lembre dele. O sentido de ser, de “eu sou”, é o primeiro que surge. Pergunte-se de onde ele vem ou simplesmente observe-o calmamente. Quando a mente permanece no “eu sou” sem mover-se, você entra em um estado que não pode ser verbalizado, mas pode ser experimentado. Tudo o que necessita fazer é tentar e tentar novamente. Depois de tudo, o sentido de “eu sou” sempre está com você, apenas você acrescentou a ele todo tipo de coisas: o corpo, sentimentos, pensamentos, idéias, posses, etc. Todas estas auto-identificações são errôneas. Devido a elas você acredita ser o que não é.

P: Então, que sou eu?

M: É suficiente saber o que você não é. Não necessita saber o que é. Enquanto o conhecimento significar descrição em termos do já conhecido, oriundo da percepção, ou conceptual, não poderá haver conhecimento de si mesmo, pois tudo o que se é não pode ser descrito, exceto como negação total. Tudo que você pode dizer é: “Eu não sou isto, eu não sou aquilo”; você não pode dizer significativamente “isto é o que sou”. Simplesmente não tem sentido. O que pode assinalar como “isto” ou “aquilo” não pode ser você. Também não pode ser “outra coisa”. Não é algo que possa ser percebido ou imaginado. E, por sua vez, sem você, não pode haver percepção nem imaginação. Observe o sentir do coração, o pensar da mente, o atuar do corpo – o próprio ato de perceber mostra que você não é o que percebe. Pode haver percepção ou experiência sem você? Uma experiência tem que “pertencer” a alguém. Alguém deve vir e a proclamar como própria. Sem um experimentador, a experiência não é real. O experimentador é o que dá realidade à experiência. Uma experiência que você não possa ter, que valor tem para você?

P: O sentido de ser o experimentador, o sentido de “eu sou”, não é também uma experiência?

M: Obviamente, tudo o que se experimenta é uma experiência. E, em cada experiência, surge seu experimentador. A memória cria a ilusão de continuidade. Na realidade, cada experiência tem seu próprio experimentador, e o sentido de identidade se deve ao fator comum na raiz de todas as relações entre experimentador e experiência. A identidade e a continuidade não são a mesma coisa. Exatamente como cada flor tem sua cor própria, mas todas as cores são causadas pela mesma luz, do mesmo modo aparecem muitos experimentadores na Consciência não dividida e indivisível, cada um separado na memória, mas idênticos em essência. Esta essência é a raiz, a base, a “possibilidade” atemporal e ilimitada de toda experiência.

P: Como posso chegar a ela?

M: Você não necessita chegar a ela, já que você é ela. Se você lhe der uma oportunidade, virá a você. Abandone seu apego ao irreal e o real aparecerá por si mesmo, suave e tranqüilamente. Deixe de imaginar-se sendo ou fazendo isto ou aquilo, e a compreensão de que você é a fonte e o coração de tudo despontará em você. Com isto surgirá um grande amor que não será escolha ou predileção, nem apego, mas um poder que fará todas as coisas dignas de amor.


quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Editora Advaita


A Editora advaita nasce com o intuito de introduzir a filosofia da não-dualidade para o publico brasileiro e de lingua portuguesa. Essas obras, em forma de diálogos "realizativos" poderão certamente afinar o leitor atento e sincero com seu proprio Ser mais intimo e puro.

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