Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Resenha sobre o livro de Sri Nisargadatta Maharaj

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A afirmação parece confusa. Eu sou “aquilo” o que? Parece que a frase não foi completada. Mas para quem já leu essa obra primorosa, estas três palavras fazem muito sentido. Mais do que isso, são um lembrete para não perdermos o rumo. Sri Nisargadatta Maharaj as repetia o tempo todo, em cada um de seus satsangas (encontro com os discípulos) para enfatizar que devemos parar de acrescentar adjetivos à nossa essência. Somos aquilo que somos. Por que limitar nosso ser usando adjetivos?

É inquietante pensar em nós mesmos sem adicionar adjetivos, sem dizer “eu sou bonito”, “eu sou infeliz”, “eu sou inteligente”, “eu sou casado e tenho dois filhos”, “eu sou advogado”. Mas esse é o objetivo de Maharaj ao nos conduzir por seus diálogos iluminadores. Usando a estrutura de ensino que aparece freqüentemente nos Upanishads (literatura hindu), Sri Nisargadatta Maharaj se sentava com as pessoas que vinham procurá-lo, buscadores de todas as partes do mundo, para conversar durante uma hora ou duas todos os dias. Essas conversas gravadas e transcritas por um desses buscadores (Maurice Frydman), se transformou no livro I Am That.

Lembro que meu primeiro contato com esse livro foi num retiro de meditação, onde o instrutor leu alguns de seus capítulos. Senti-me tocado pela simplicidade e clareza dos ensinamentos de Maharaj e logo consegui uma cópia do livro. Comecei a ler avidamente, numa manhã de domingo. Bebia o néctar de cada palavra. Era como se eu estivesse lá, em sua salinha (que nunca conheci pessoalmente) rodeado por outros buscadores e envolvido em sua luz. Após alguns poucos capítulos, minha cabeça rodava. Tudo parecia tão claro e, ao mesmo tempo, tão estranho. Parecia que o meu quarto, os objetos ao meu redor e a minha própria vida era apenas uma miragem comparados àquela sensação de eternidade e grandeza que eu sentia. Aquele homem dizia tantas verdades, me dava tantos tapas com luvas de pelica, que eu, com medo de me iluminar naquele momento, fechei o livro e fui para o cinema. Assim, são os diálogos de Sri Nisargadatta Maharaj: iluminadores, comoventes e simples. Muitas vezes, mais do que responder aos ouvientes, ele os desafia com perguntas cujo objetivo é destruir a ignorância e nos dar um lampejo da grande realidade. Depois de lê-los é impossível esquecer seus ensinamentos. Pelo menos foi assim para mim.

Sri Nisargadatta Maharaj viveu uma vida comum: trabalhou, casou-se, teve filhos. Era dono de uma pequena loja em Mumbai (Bombay), onde vendia roupas para crianças, tabaco e cigarros artesanais, o que lhe deu alguma estabilidade financeira. Apesar da vida pacata, Maruti (seu antigo nome), era dono de uma mente inquieta, repleta de questões. Um amigo lhe apresentou, um dia, ao mestre Sri Siddharameshwar Maharaj e este foi seu ponto de mutação. O Guru lhe deu um mantra e algumas instruções sobre meditação. Ele praticou assiduamente e em pouco tempo começou a ter visões e estados de transe. Alguma coisa explodiu dentro dele dando nascimento à uma consciência cósmica e a um sentido de vida eterna. A identidade de Maruti, o pequeno comerciante, se dissolveu e a personalidade iluminada de Sri Nisargadatta emergiu.

Quando questionado sobre como aconteceu sua iluminação, ele diz:

Aconteceu que eu acreditei em meu Guru. Ele me disse que eu não sou nada além de mim mesmo, e eu acreditei nele. Acreditando nele, passei a me comportar de acordo e parei de me preocupar com tudo o que não era eu ou que não era do meu ser.

Parece simples demais. Bastou a ele perceber que não era nada além de si mesmo e tornar-se fiel a essa percepção. Mas, talvez, a iluminação seja realmente simples. Quando um ouvinte lhe pergunta qual a diferença básica entre ele e Maharaj, este lhe responde que não há nenhuma diferença. Sua vida é uma sucessão de eventos como a de qualquer um de nós. A diferença, segundo ele, está no fato de que o iluminado não se apega a esses fatos e olha “o show que passa apenas como um show que passa”, enquanto nós nos apegamos às coisas e acontecimentos e nos movemos com eles de um lado para o outro. Assim, nossa mente está sempre cheia de coisas, pessoas e idéias. Nunca estamos focados em nós mesmos. Vamos aonde os pensamentos nos mandam, mas nunca penetramos em nós mesmos. Ele nos aconselha:

Coloque a si mesmo dentro do foco. Torne-se consciente da sua própria existência. Veja como você funciona, verifique os motivos e os resultados das suas ações. Estude a prisão que você, inadvertidamente, construiu a sua volta.

Porém, afirmar “eu sou” não é o final da jornada. Pensar em si mesmo sem se definir é apenas o começo, uma útil ferramenta que pode nos levar a vislumbrar a nossa essência. Mas, de acordo com seus ensinamentos, até o sentido de “eu sou” desaparece quando nos iluminamos. Não que perdemos a consciência de quem somos ou tenhamos que deixar de lado o ego e suas atribuições. Mas o corpo, o ego, a mente e nossos próprios pensamentos se tornam acessórios da nossa essência, que ele chama de Self. São como roupas que usamos. Vestir uma roupa diferente não nos modifica na essência. Nem o que acontece às nossas roupas nos afeta, tanto que quando estão velhas, jogamo-las fora e compramos uma outra. Quando alguém pergunta a ele se um iluminado também sente fome ou sono, Maharaj responde que sim e que pode até ficar irritado por não ter sua refeição na hora certa. Mas a fome e a irritação são percebidas por ele como um eco distante de algo que está acontecendo na periferia de seu ser. O mesmo acontece quando alguém lhe faz uma pergunta. Ele conhece a resposta ao mesmo tempo em que a pergunta é formulada. Ela não passa pelo racional ou pela mente.

No texto “O Self Está Além da Mente” podemos compreender um pouco mais sobre a maneira como a mente atua. Um ouvinte lhe pede uma técnica ou um conselho para tornar sua mente estável, ao que Maharaj responde que a natureza da mente é a instabilidade. Ela está habituada a ficar vagando de uma coisa para outra. O que podemos fazer é mudar o foco da consciência para além da mente. Ele nos prescreve a seguinte técnica:

Recuse todos os pensamentos, exceto um: o pensamento “Eu Sou”. A mente se rebelará no início, mas com paciência e perseverança, ela irá render-se e ficará quieta. Uma vez quieta, as coisas começarão a acontecer espontânea e naturalmente, sem nenhuma interferência da sua parte.

Muitos dos ouvintes de Nisargadatta Maharaj lhe perguntam sobre a felicidade e o sofrimento e, em suas perguntas podemos perceber o quanto todos nós buscamos a felicidade no lugar errado. A felicidade verdadeira não pode estar em coisas que vêm e vão. O prazer não é duradouro. Ele vem sempre seguido da dor. Muitas vezes, começamos a sofrer no momento em que alcançamos aquilo que nos é prazeroso, pois já pensamos na dor que sentiremos ao perdê-lo. Assim, a verdadeira felicidade só é encontrada no Self. “Encontre seu Self real (svarupa) e tudo mais virá com ele.”

Ao descobrirmos nossa verdadeira natureza, nem o medo, nem o sofrimento ou a dúvida terão lugar em nossa mente. O Self é nossa essência imortal. Por isso, um iluminado não teme nem mesmo a morte. Ele percebe que o fim do corpo não é o fim do ser. Sri Nisargadatta nos surpreende ao afirmar: “O que se ganha estando vivo? O que se perde ao morrer? Aquilo que nasceu, deve morrer; aquilo que nunca nasceu, não pode morrer. Tudo depende do que você acredita ser”. Se acreditarmos ser o corpo, teremos que morrer, já que esse corpo nasceu um dia.

Sem nenhuma cerimônia, Sri Nisargadatta coloca sempre a responsabilidade em nossas mãos. Quando alguém lhe diz que tudo o que deseja é ter paz, prontamente ele responde:

Desprenda-se de tudo que não deixa sua mente descansar. Renuncie a tudo que perturba sua paz. Se você quer paz, mereça-a.

O Buscador retruca que todo mundo merece ter paz e Maharaj dispara “Somente a merecem aqueles que não a perturbam”.

De conversa em conversa, Maharaj vai iluminando a escuridão de seus ouvintes, ajudando-os a se desapegarem da dor, do medo, da confusão. Em sua generosidade, nos brinda com a realidade, com a sabedoria libertadora, com a consciência do que somos em essência. Seus ensinamentos não estão limitados a um lugar, um povo ou uma época pois ele não é um homem com um passado ou um futuro. Ele é o presente vivo - eterno e imutável.

Agradecemos Anderson Allegro e Pedro Kupfer pela permissão de reproduzir esse artigo.


domingo, 29 de novembro de 2009

DESCOBRINDO NISARGADATTA MAHARAJ

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"Meu nome é Lakshyan Schanzer. Pratico e ensino Yoga e meditação desde 1971. Também sou psicólogo e trabalho com uma abordagem meditativa na psicoterapia. Esta é a primeira vez em que escrevo algo sobre minhas experiências com Nisargadatta Maharaj.

Em 1978, já praticava e ensinava há pelo menos sete anos (principalmente, Yoga Integral) e havia alcançado um 'muro' em minha prática. Eu estava tendo maravilhosas experiências/resultados dia após dia. Contudo, para mim, estas experiências eram apenas isso: somente experiências. Sim, eram importantes e curativas, traziam revelações e idéias sobre minha história, liberavam profundos sentimentos, guiavam-me para o próximo dia, e refinavam premonições sobre o futuro.

Contudo? como me acostumara a 'apertar os gatilhos' que geravam essas experiências, comecei a me perguntar: 'Há algum valor além destes efeitos condicionantes temporários, da prática regular?' Isto é, se nos experimentamos como o resultado dos condicionamentos, e se a prática é somente para criar-se uma condição de corpo-mente sattviko, cultivar uma condição no lugar de outra dará alguma liberdade real?

Apesar de meu raciocínio pessimista, é claro que continuei a minha prática. Obviamente é melhor condicionar-se a ter experiências de vida positivas do que negativas. Mas por causa do meu senso de verdade ou, talvez, pela tendência científica, eu realmente não estava satisfeito em pensar que o resultado da prática era apenas um estado de condicionamento.

Comecei a fazer-me perguntas do tipo 'era apenas mais sortudo do que aqueles que não praticavam?', 'O que aconteceria se minhas condições mudassem de forma que eu não pudesse continuar esta prática de sadhana (ou seja, se minha saúde ou meios de sobreviver mudassem)?', 'Como poderia meu estado sattviko realmente ser diferente do sofrimento não-sattviko de qualquer outro?'.

Comecei a fazer estas perguntas aos meus professores, questionando-os se algo estava faltando em minha prática. Muitos, realmente, não entendiam meu problema. Na melhor das hipóteses, a resposta era 'apenas pratique mais'.

Eu acredito que foi este tipo de auto-examinação que me levou a Maharaj. Eu já havia começado uma carreira integrando prática meditativa com o mundo da saúde mental e psicológica.

Interessado em continuar meus estudos, especialmente sobre a integração do Yoga em ambientes médicos, e esperando levar estas questões para algum guru conhecido ou desconhecido, planejei uma viagem para a Índia em dezembro de 1978.

Organizei a visita para vários centros, ashrams, até mesmo hospitais, e, é claro, gurus. Eu nem sequer sabia que Nisargadatta existia, embora eu fosse direcionado a vê-lo. Assim, após dois dias da minha chegada a Bombaim, um dos monges-chefes (acho que seu nome era Pierre) no ashram de Svami Muktananda disse: 'Como o meu guru não está aqui agora, você realmente deve conhecer um mestre completamente iluminado. Aqui está o endereço dele'.

O que segue neste texto são algumas das minhas primeiras impressões do meu primeiro encontro com Maharaj, que tomei como notas durante a viagem.


'... o motorista do táxi estava tendo problemas para localizar o endereço. O apartamento de Maharaj estava localizado na rua Ketwadi, uma humilde área residencial, não longe do distrito das prostitutas. Os vizinhos não sabiam dizer-me onde encontrar este jñana yogi, embora ele estivesse residindo e ensinando lá há vários anos.

Finalmente, após achar o apartamento, um dos devotos de Maharaj viu o táxi e estava direcionando as pessoas a subirem para uma minúscula sala, talvez de 3,5 x 3,5m. Havia em torno de dez pessoas já sentadas ao redor de um homem velho, pequeno e robusto.

Maharaj inspecionou cada pessoa à medida que subiam para o andar onde ele dava satsang. Assim que sentei, tive um tremendo sentimento de pressão em meu coração. Senti-me como se estivesse chorando. Decidi apenas sentar e ficar com esse sentimento.

"Maharaj sentou conversando com Mularpattan, um tradutor. Era uma discussão livre e aberta com Maharaj, respondendo às questões feitas pelo grupo. O tópico era sobre como treinar a mente para que ela permanecesse não-identificada com as suas percepções. O assunto e a discussão estavam totalmente afinados com os meus pensamentos e os meus esforços para entender os efeitos da prática. Eu estava em casa. E, apesar da minha decisão de sentar e refletir, peguei-me apenas mergulhando, fazendo perguntas.


"Estar com Maharaj era uma alegria! Existia muita alegria e felicidade em seus gestos de expressão e nas respostas para o grupo. Eu estava cativado pela energia em torno dele. Ao final de uma das visitas, Maharaj perguntou: 'Quantos de vocês entenderam o que eu disse?'. Uns poucos entre nós levantaram as mãos. Para estes, ele disse: 'Então vocês não precisam mais voltar'. Então anunciou: 'E aqueles dentre vocês que não entenderam, também não precisam mais voltar'. Finalmente levantou a questão: 'E quem estará aqui amanhã?' Todos levantaram as mãos!


Existia algo sobre o lugar a partir do qual ele falava que era intelectualmente tão impressionante e atrativo, pela sua lucidez, franqueza e espontaneidade. Eu também havia lido Ramana Maharishi e me sentia atraído por seus ensinamentos. Minha própria prática era acompanhada desse jeito analítico. Contudo existia um homem que o estava experienciando constantemente.


"Está claro?"

Maharaj era o mais despretensioso guru que havia conhecido. Ele fumava constantemente bidis, cigarros indianos feitos de folhas enroladas. Vestia-se de maneira simples e, algumas vezes, roupas levemente manchadas (e então brincava como ele era conhecido por sua aparência elegante).

A cada manhã chegavam ao pequeno apartamento oferendas de frutas e flores. Eu observei Maharaj decorando seu altar para a meditação e conversando com a sua esposa. Ele saia para ir ao banheiro e conseguia ouvir os seus sons de lá... Ele era completamente normal e humano em seu comportamento.


Aparência.

Ainda assim, com a sua aparência de normalidade diária, era o guru que estava respondendo às minhas questões sobre 'prática' e 'condicionamento' com misteriosa precisão, mesmo que ele não falasse inglês. Aqui estão algumas das minhas percepções perto do fim dessas visitas:

1. A existência 'corpo-mente' não é uma realidade. Ou seja, qualquer experiência subjetiva ou pensamento ou objeto, é condicionado pelo tempo, mutável e, portanto, pela definição, não real.

2. Aquilo que é real, é permanente, imutável e incontaminável pelo irreal, ou seja, aquilo que é real, nunca pode combinar com o irreal.

3. A realidade é no sentido do 'Ser'', e Isto é a realidade que procuramos na prática do Yoga.

4. O desapego começa com essa percepção. Este é um entendimento muito mais profundo de desapego do que a idéia de simplesmente privar-se de desejos. Isto é, as experiências subjetivas (percepções, pensamentos e sentimentos) também são objetos mutáveis e, por isso, também não são reais.

Estes apontamentos podem parecer com 'pregação religiosa'. Mas, para mim, eles eram a resposta para as minhas idéias sobre condicionamento, e se tornaram a fundação de meu acesso ao Yoga. Isto é, 'prática' não é 'condicionamento'. Ao invés de estar criando uma condição de corpo-mente, a prática remove os condicionamentos. Prática é realmente uma restauração, trazendo a pessoa ao original, pré-condicionado senso do ser.



Minha experiência com Maharaj nem sempre foi serena. Um dia, um grupo de discípulos de um dos mais populares gurus da época veio para um satsang. Maharaj deleitou-se em desafiar esses estudantes. Maharaj ostentou quão boas eram suas conversas: 'Vocês nunca acharão alguém que fale como eu!' Também o observei dizendo a seus estudantes: 'lembrem-se de mim como o Senhor Krishna', como parte de suas práticas.

Tendo estado com um bom número de gurus, minha mente estava chocada. Desde quando um Jnani ensina buscadores a adorá-lo? Por que essa fascinação em derrotar estudantes de outros professores? Deixei o satsang sentindo-me desgostoso e perturbado.

Na próxima manhã eu resolvi confrontar Maharaj. Mesmo sendo maravilhoso o que senti sobre os apontamentos entre o real e o irreal, essas dúvidas precisavam ser esclarecidas! Perguntei a Maharaj por que ele disse essas coisas para os estudantes visitantes. Maharaj disse: 'O que ensino aos outros não é para seu uso'. Contudo, Maharaj também mexeu com minha raiva. Ele disse que se tivesse tais dúvidas que eu deveria partir. As pessoas no grupo ficaram chocadas.

Ainda assim, algo em mim acendeu. Vi Maharaj atuando completamente como exemplo de desapego. Ele não estava realmente pedindo-me para ir (o que eu poderia fazer, se eu fosse apegado a ter raiva da hipocrisia percebida).

Ele estava me pedindo para não ficar à mercê de nenhum estado subjetivo. Agradeci-lhe, dizendo que meu falatório era para que eu me tornasse quieto (no silêncio do meu Ser). Maharaj parou, aparentemente pensando nisso, e então passou para a próxima pergunta.

Senti outra mudança em mim, de 'deixar ir' e sentindo completamente o espontâneo 'agora'. Minha excitação inicial de estar com este guru voltou e ainda com mais força e claridade.

Esse senso de espontaneidade de presença resistiu. Senti que me havia conectado com algum senso de fonte no qual o homem que chamamos 'Maharaj' estava operando. Lembro-me de um outro incidente próximo ao fim da minha estadia com ele que ilustra isso. Em determinada ocasião, Maharaj incitava as pessoas a perguntarem.

Ele falou a um companheiro com barba: 'Você tem uma barba. Você deve ser sábio. Faça algumas perguntas!' Absorvido no senso da fonte espontânea, percebi minha boca abrindo-se e dizendo 'a barba cresce por si mesma! A sabedoria está neste estado espontâneo!' Maharaj apressou-se em meu comentário: 'Exatamente isso! Tudo acontece dessa forma!'

Em tudo, desde o início de minha breve visita a Maharaj, senti-me aprovado como um buscador que encontrou algo que nunca foi perdido. E por isso serei sempre grato."



O Dr. Lakshyan Schanzer é psicólogo e ensina Yoga há mais de 30 anos, nos EUA. Seu website é www.bodymindri.com

Tradução por Rafael Kraisch: www.yogabhumi.blogspot.com

Este texto foi publicado originalmente nos Cadernos de Yoga: http://www.cadernosdeyoga.com.br/
Agradecimento a Pedro Kupfer que permitiu a reprodução do artigo do seu site: http://www.yoga.pro.br/artigos/734/170/descobrindo-nisargadatta-maharaj

Vendo no Agora

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"O ser humano não percebe que não se precisa de tempo na vida, porque a vida realmente acontece no momento presente. É equivocada a nossa noção, reforçada pelas religiões e pelos teoricos evolucionistas, de que precisamos de tempo para evoluir e completarmo-nos, para mudar d' 'o que é' para 'o que deveria ser'. O tempo é certamente necessário no campo do aprendizado, para atingir metas e para ganhar a vida por tornarmo-nos peritos em alguma profissão. Mas no mundo da psique, seguimos o velho padrão tradicional, e nos tornamos frustrados e miseráveis quando a esperança da plenitude não é alcançada. Nos tornamos acostumados ao condicionamento de que precisamos de tempo para evoluir para algo diferente do que já somos. No entanto, uma pessoa que se baseie no tempo horizontal como um meio de alcançar a felicidade ou de realizar a Verdade está enganando a si mesma. Não há entendimento no tempo: é agora ou nunca. O que há, é agora. Não existe o "nunca". Ver "o que é" é sempre imediato. A Verdade está além da razão e do cálculo. O observador só pode ser no passado ou no futuro. A natureza e futilidade do tempo horizontal é vista quando o ver é no agora sem "aquele que vê".



Ramesh Balsekar: "The One in the Mirror"

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Não-ser

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1 dezembro 1979

Maharaj: O meu sentido de ser náo estava aqui, apareceu e é temporário. Não tenho controle algum sobre ele. Não posso ser um cliente daquilo que Deus tem para dar, deixai-O ser grande, eu não estou interessado. O conhecimento não pode ser dado a todos. Tem que se perder o interesse. Se você perder o interesse o mundo também arresta sua existência. É por causa das substancias químicas (sensação de ser), o Sattva guna, que tomam-se fotografias e assim cresce a entidade. Todas as atividades são mecânicas, assim cada coisa acontece segundo planos preestabelecidos. Falo em relação a o que? Sobre o que se baseia? Sobre a sensação de ser. Quando a sensação de ser se vai, ha o não-ser que é eterno. Não ha conhecimento, nem Deus, nem Ishwara. De que posso falar? A sensação de ser desaparecerá. Eu prevaleço sempre no não-ser. Do não-ser a sensação de ser aparece. Eu deveria saber como isso aconteceu. Alguns louvam-me, eu sou como uma montanha. Sei que nada existe: os nomes e as formas são categorias. Nada de bom ou de ruim pode acontecer a alguem. Nunca aconteceu e nunca acontecerá. Então, porque se preocupar? A forma e o conhecimento apareceram sem sabe-lo, de outra maneira, como poderia ter entrado num lugar tão sujo durante nove meses? Mesmo se o rato está morto, alguem foge. As pessoas falam em espiritualidade, ma no processo excluem o Ser mais profundo. Permaneça em seu Ser e depois fale. Pesquise sobre voce. O Absoluto é eterno, um estado de não-ser, e real. O Ser é temporâneo e com ele aparecem os cinco elementos e assim pra frente: não-ser-nada. Nada poderá oferecer companhia a você nesse mundo sobre bases permanentes. As pessoas terão algumas memorias sobre mim, alguma felizes, outras tristes, algumas chatas mas o impacto sobre mim é nulo.



De: "Eu Sou o Não-nascido" Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj

futura publicação da Editora Advaita

domingo, 22 de novembro de 2009

SUIÇA NOVEMBRO 1981

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"Pergunta: Requer-se esforço neste caminho? Pessoalmente, acho que tenho cada vez menos energia para fazer um esforço em qualquer direção.

Jean Klein: Você não pode fazer um esforço sem tensão. Mas, porque você faz um esforço? Apenas porque busca um resultado, algo fora de você mesmo. Uma vez que você saiba realmente que o que busca é sua natureza real, você perde o ímpeto para o esforço. Assim, em primeiro lugar, veja como você está fazendo esforço constantemente. Assim que estiver consciente deste processo, você já estará fora dele. E isto pode surgir como uma percepção original de que você é realmente quietude.

Pergunta: Mas mesmo a visão disto não requer algum esforço?

Jean Klein: Não. Esta visão é seu estado natural. Simplesmente, seja consciente daquilo que você não vê. Torne-se mais consciente de que você reage constantemente. A visão não requer esforço porque sua natureza é ver, é estar em silêncio. No momento em que não busca um resultado, não busca criticar, avaliar ou concluir, simplesmente limitado ao ver, então você pode perceber esta reação e não é mais cúmplice dela.

Pergunta: No curso da meditação, à medida que o processo de esvaziamento continua, vem este pensamento: “Isto é apenas um pensamento”. Mas o pensamento “Isto é apenas um pensamento” é um pensamento também, não é?

Jean Klein: Absolutamente. A própria visão não é um pensamento, mas, no princípio, nós a conhecemos como limitada apenas à percepção de objetos. Mais tarde, surge a visão pura sem um objeto. Então, há o discernimento de que você é esta visão pura e que tudo o que é visto aparece em você. Neste momento, a visão não é mais afetada pelo que vê.
Focalizar a atenção sobre algo estimula a tensão. Embora possam existir momentos de desapego, a maior parte das vezes você está envolvido com o que está vendo. Mas, através do processo da observação, você pode chegar à visão pura sem um objeto. Dê ao visto a liberdade total sem tentar controlá-lo. E, como o visto é energia projetada sobre uma aparição naquele que vê, no momento em que o que se vê está livre de localização, dissolve-se no que vê, posto que o visto é descontínuo, enquanto o que vê é contínuo. O percebedor final e encontrado, em primeira instância, através desta relação entre o que vê e o que é visto.
Nós, geralmente, apenas conhecemos o que vê através do que é visto. Nos momentos de visão pura, dizemos que nada existe, pois apenas nos conhecemos na relação sujeito-objeto. Mas, uma vez que estejamos convencidos de que por trás do que é visto está o que vê e que o que é visto aparece no que vê, então não colocamos mais a ênfase no que é visto, mas no que vê.


Pergunta: Isto não representa um objetivo para quem nunca o experimentou? Eu nunca vi sem um objeto ou sem projetar minha própria imagem sobre um objeto, ainda assim, sei que há um modo de ver no qual não estou vendo apenas imagens criadas pela mente... E então como...

Jean Klein: Para ir para trás? Mas você conhece momentos em sua vida nos quais há apenas pura visão sem nada que seja visto. Digamos que você tenha um problema. À medida que o penetra, chega o momento em que o problema está completamente resolvido. Há satisfação completa, sem algum desejo de acrescentar ou subtrair qualquer coisa. Quando um desejo é realizado, você chega a um estado de completa ausência de desejo no qual nem o sujeito que deseja nem o objeto desejado estão presentes. Você nem mesmo pode dizer que haja felicidade, pois você é felicidade. Mas, depois de viver isto, veja como o ego se intromete para aproveitar o momento e objetivá-lo, tranformando-o em um tipo de caricatura, semelhante ao palhaço em um circo que exige o aplauso do público embora não seja o artista principal.

Pergunta: Poderia falar mais sobre o pensamento como uma defesa?

Jean Klein: Certamente, quando falo sobre isto, falo com muito cuidado. Há um momento em que você pode ver que, antes de surgir o pensamento, há uma pulsação, e a potencialidade do pensamento já está presente ali. A pulsação impressiona o cérebro e você, instintivamente, busca o símbolo, a formulação.

Pergunta: Esta pulsação pode se aquietar antes de transformar-se em pensamento?

Jean Klein: Sim, se você estiver muito atento, poderá deter a pulsação. Percebê-la antes que se transforme em pensamento reduz as vibrações do cérebro e, assim, acalma-se a agitação mental e física.
Devemos ver que fazer ou não fazer são ainda fazer. Este processo de ter e vir a ser cessa apenas quando escutamos, pois nossa verdadeira natureza é a escuta. Os estados de vigília, sonho e sono profundo são sobreposições à pura escuta, a qual não se refere ao ouvinte ou ao que é ouvido. Todos os estados aparecem na escuta. Assim, quanto mais você estiver presente na escuta, maior será o abandono do fazer e do não-fazer.
Habitualmente, quando nós falamos da escuta, pretendemos falar de atenção a algo em particular. Mas, quando eu falo da escuta, tenho em vista a escuta que se refere apenas a si mesma. É como alguém perguntando: “O que você tem em sua boca?” Você diz: “Nada”. Mas na realidade você tem o sabor de sua boca. Pode não haver sal, açúcar, ou ácido nela, mas o sabor de sua boca está presente. A escuta pura tem seu próprio sabor.

Pergunta: Algumas vezes, escuto uma de suas palestras e, depois, não posso recordar nada do que você disse.

Jean Klein: Quando você escuta sem avaliar ou concluir, você não pode memorizar o que ouviu. Isto volta para você, mas não através do processo ordinário de memória. Se você tenta retê-lo, o que você guarda? Apenas as palavras, a formulação, e então você ouve através do véu do já conhecido, através da comparação com o passado. Você deve tornar-se inocente em sua escuta.
Quando você ouve sem tirar quaisquer conclusões, o que estava por trás da escuta aflora em um determinado momento, talvez no dia seguinte ou em um mês, ou em seis meses, mas este afloramento não é devido a qualquer esforço para guardar o que ouviu. O sabor real é perdido no processo de memorização.

Pergunta: Freqüentemente há coisas que você diz que me impressionam particularmente e que aderem à minha mente. Por exemplo, há poucos dias, você disse: “Pare de eliminar. Veja o que você está construindo continuamente”.

Jean Klein: Mas você não tem feito nenhum esforço para lembrar disto. Vem a você.
Nós podemos lembrar muito pouco de um modo consciente. Pense sobre todas as experiências que teve durante sua vida e em quão pouco delas você lembra realmente. Você esqueceu inclusive o sentimento com o qual acordou esta manhã ou o que você comeu ontem ou o que estava pensando às três horas de hoje.
Conforme a vibração do cérebro diminui, é possível relembrar coisas que foram esquecidas pela memória ordinária. Em uma freqüência muito baixa, o índivíduo pode retornar inclusive à uma encarnação anterior. Mas as experiências deste tipo são, mais ou menos, distrações, formas de dar sustentação à idéia da pessoa. Não obstante a redução da freqüência do cérebro, continuamos a nos identificar com o ego. Por outro lado, a tensão ainda aparece quando se realizou o Eu. Mas alguém que vive no Eu com pleno conhecimento está fora do processo de vir-a-ser, de modo que as funções do cérebro e do corpo são totalmente diferentes daquelas de uma pessoa que não tenha realizado o Eu.

Pergunta: Então seus sentidos funcionam diferentemente?

Jean Klein: Geralmente, todos os nossos sentidos funcionam através da apreensão. A mente projeta algo externamente para ser apropriado pelos sentidos. Na realidade, não há nada fora de nossa Consciência.
Quando vemos um pássaro, há inicialmente pura percepção, mas, depois, nós o conceituamos. No momento em que há conceituação, a percepção não está mais presente, porque um conceito e uma percepção não podem existir simultaneamente. Se você abandona o conceito, o que permanece? Você se identifica com o pássaro. Mas esta identidade não é uma imagem mental da unidade. É uma experiência global.

Pergunta: Mas, no momento da unidade, você é um com o todo, não é? Ou você pode ser simplesmente um com o pássaro e não o ser com tudo o mais?

Jean Klein: Você é apenas ser. Quando você abandona a forma e o nome do homem que você vê, o que permanece? O homem real aparece, e nisto há unidade. No instante em que você abandona a forma, abandona o corpo. Quando abandona o nome, abandona a mente. Assim, só o ser permanece, e o ser é indivisível. É a corrente da qual falamos antes. Quando a corrente está presente, não há mais fixação ou repetição, apenas o refluxo e o fluir da criatividade."

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De: "A Simplicidade de Ser": Dialogos com Jean Klein






A inexistência do indivíduo

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O Rei Milinda se aproximou de Nagasena e, tendo lhe dirigido os cumprimentos costumeiros de civilidade, sentou a seu lado. Nagasena lhe retribuiu a polidez, de maneira que isso inspirou ao rei disposições favoráveis ao monge. Então o rei começou a conversação:

- Qual é o seu nome, ó Venerável?

- Me chamam Nagasena; mas, ó rei, embora os pais dêem aos filhos nomes como Nagasena, Surasena, Virasena, aí existe apenas um modo de chamar, uma noção vulgar, uma expressão corrente, um simples nome: não há sob esse nome um indivíduo.

Respondeu o rei:

- Escutem todos o que diz Nagasena: não há sob esse nome um indivíduo! Será possível admitir isso? Mas, o Venerável Nagasena diz que não há indivíduos!

- Quem então lhe dá roupas, alimentos, abrigos, remédios, utensílios, e quem usa isso tudo? Quem pratica a virtude, que se entrega à meditação? E quem se entrega ao assassínio, ao roubo, à impureza, à mentira, à bebida? Quem comete os cinco pecados (matar o pai, a mãe, um sábio, derramar o sangue de um Buda, criar um cisma no Budismo)?

- Não há então bem nem mal, não há o autor ou instigador de atos salutares ou perniciosos, não há fruto, não há amadurecimento das boas e más ações?

- Se, ó Nagasena, aquele que mata você não existe, não há portanto assassínio! Não há nada em seu mosteiro: nem mestres, nem preceptores, nem ordenação! (...) a sua fala, ó Nagasena, é falsa e mentirosa!

Ao que Nagasena redargüiu:

- Como, ó rei, você veio a este encontro? veio a pé ou por meio de um veículo?

- Não vim a pé, Venerável, vim de carruagem, respondeu o rei.

- Então, ó rei, peça a um soldado para trazer a carruagem.

Assim foi feito, e uma magnífica carruagem veio até o local, conduzida pelo cocheiro, estacionando perto dos debatedores, sob as vistas de centenas de discípulos de Nagasena e soldados de Milinda.

Em seguida, disse Nagasena:

- Ó rei, peça ao cocheiro para desatrelar os cavalos.

Assim foi feito de novo, e Nagasena então perguntou:

- São os cavalos a carruagem?

- Não, Venerável, os cavalos não são a carruagem.

- Agora, ó rei, peça ao cocheiro para retirar os assentos.

Pacientemente, o cocheiro, com ajuda de alguns soldados, retirou os assentos, e então Nagasena perguntou:

- Os assentos são carruagem?

- Não, Venerável, os assentos não são a carruagem.

Continuando, Nagasena pediu ao rei, subseqüentemente, que mandasse retirar as rodas, o jugo, ao suporte da cabina, o eixo e todas as demais partes constituintes da carruagem, que ficaram espalhadas ao lado dos cavalos e dos assentos, perguntando, ao final de cada etapa, se a carruagem era a parte retirada, e ouvindo do rei, em cada caso, sempre a mesma resposta de antes:

- Não, Venerável, tal parte não é a carruagem.

Ao final, desmontada completamente a carruagem e estando suas partes espalhadas ao redor, Nagasena perguntou:

- Ó rei, faço bem em lhe perguntar: não vejo carruagem alguma! (...) Escutem todos! O rei Milinda aqui presente declarou: "Eu vim de carruagem", mas, convidado a definir o que é uma carruagem, não pôde ele demonstrar a existência de uma carruagem.

Diante dessas palavras, os presentes ao encontro aclamaram Nagasena e disseram ao rei Milinda: "Agora, marajá, responda se puder!"

O rei retomou a palavra:

- Não minto, ó Venerável, é por causa do agrupamento das partes, do nome e da utilização, que se forma a noção comum, a expressão corrente e o significado da "carruagem".

- Muito bem, marajá! Você sabe o que é a carruagem. Do mesmo modo, é por causa dos cabelos, das unhas, da carne, dos dentes, dos ossos, dos pulmões, dos intestinos, do sangue, do suor, do pus, da bile, das lágrimas, da gordura e dos demais elementos do corpo, bem como dos agregados da mente, que se forma a designação, a noção comum, a expressão corrente, que recebe o nome de "Nagasena", mas na realidade não existe aí um indivíduo.

- Maravilhoso, Nagasena! Admirável! Você responde completamente a minha pergunta. Se o Buda estivesse aqui, ele aplaudiria você. Muito bem, muito bem, Nagasena!



sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A mente e o mundo não estão separados

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Pergunta: Vejo aqui imagens de vários santos e me disseram que são seus antepassados espirituais. Quem são eles e como tudo isto começou?

Maharaj: Somos chamados coletivamente os ‘Nove Mestres’. A lenda diz que nosso primeiro mestre foi o Rishi Dattatreya, a grande encarnação da Trindade de Brahma, Vishnu e Shiva. Mesmo os ‘Nove Mestres’ (Navnath) são mitológicos.

P: Qual é a peculiaridade de seus ensinamentos?

M: A simplicidade, tanto em teoria como na prática.

P: Como alguém se torna um Navnath? Pela iniciação ou pela sucessão?

M: Nem uma nem outra. A tradição dos ‘Nove Mestres’, Navnath Parampara, é como um rio que flui para o oceano da realidade, e quem quer que entre nele será levado junto.

P: Isto implica em ser aceito por um mestre vivo pertencente à mesma tradição?

M: Aqueles que praticam o sadhana de enfocar suas mentes no ‘Eu sou’ podem sentir-se relacionados a outros que seguiram o mesmo sadhana e alcançaram a meta. Eles podem decidir verbalizar seu sentido de afinidade chamando-se Navnats; isto lhes dá o prazer de pertencer a uma tradição estabelecida.

P: São beneficiados de algum modo por unir-se à tradição?

M: O círculo de satsang, ‘a companhia dos santos’, expande-se em número à medida que o tempo passa.

P: Eles retêm assim uma fonte de poder e graça da qual teriam sido excluídos de outra forma?

M: O poder e a graça são para todos, basta pedi-los. Dar a si mesmo um nome particular não ajuda. Chame-se por qualquer nome – enquanto estiver intensamente atento a si mesmo, os acumulados obstáculos ao autoconhecimento estarão condenados a desaparecer.

P: Se eu gosto de seu ensinamento e aceito sua direção, posso chamar-me Navnath?

M: Satisfaça sua mente viciada às palavras! O nome não o mudará. No melhor dos casos, poderá lembrá-lo para que se comporte. Há uma sucessão de Gurus e seus discípulos, os quais por sua vez preparam outros discípulos e assim a linha é mantida. Mas a continuidade da tradição é informal e voluntária. É como um nome de família, mas neste caso a família é espiritual.

P: Você deve realizar-se para unir-se a Sampradaya?

M: A Navnath Sampradaya é apenas uma tradição, um modo de ensinamento e de prática. Não denota um nível de consciência. Se você aceitar como Guru um mestre da Navnath Sampradaya, você se unirá a esta Sampradaya. Geralmente, você recebe uma prova da graça do Guru – um olhar, um toque, ou uma palavra, às vezes um vivo sonho ou uma forte recordação. Às vezes, o único sinal da graça é uma mudança rápida e significativa no caráter e no comportamento.

P: Conheço-o há alguns anos e o encontro regularmente. Sua lembrança nunca está longe de minha mente. Isto me faz pertencer a sua Sampradaya?

M: O pertencer é uma questão de seu próprio sentimento e convicção. No final das contas, tudo é verbal e formal. Na realidade, não há nem Guru nem discípulo, nem teoria nem prática, nem ignorância nem realização. Tudo depende do que você acredita ser. Conheça-se corretamente. Não há substituto para o autoconhecimento.

P: Que prova terei de que me conheço corretamente?

M: Você não precisa de provas. A experiência é única e inconfundível. Aparecerá em você subitamente quando os obstáculos estiverem eliminados em certa medida. É como uma corda gasta estalando. Seu esforço está nos cabos. A ruptura está destinada a acontecer. Pode ser adiada, mas não impedida.

P: Estou confuso por sua negação da causalidade. Isto quer dizer que ninguém é responsável pelo mundo como ele é?

M: A ideia de responsabilidade está em sua mente. Você pensa que deve haver alguém ou algo unicamente responsável por tudo que acontece. Há uma contradição entre um universo múltiplo e uma só causa. Ou um ou o outro deve ser falso. Ou ambos. Tal como eu o vejo, tudo é um devaneio. Não há realidade nas ideias. O fato é que, sem você, nem o universo nem suas causas poderiam existir.

P: Não posso perceber se sou a criatura ou o criador do universo.

M: ‘Eu sou’ é um fato sempre presente, enquanto ‘Eu sou criado’ é uma ideia. Nem Deus nem o universo vieram a você para lhe dizer que eles o criaram. A mente, obcecada pela ideia de causalidade, inventa a criação e, então, deseja saber ‘quem é o criador?’ A própria mente é o criador. Mesmo isto não é totalmente verdadeiro, porque o criado e seu criador são um. A mente e o mundo não estão separados. Entenda que o que você pensa ser o mundo é sua própria mente.

P: Existe um mundo além, ou fora da mente?

M: Todo o espaço e todo o tempo estão na mente. Onde você localizaria um mundo além da mente? Existem muitos níveis de mente e cada um projeta sua própria versão, mesmo assim todos estão na mente e são criados por ela.

P: Qual é sua atitude quanto ao pecado? Como você vê o pecador, alguém que rompe a lei interna ou externa? Você quer que ele mude ou só se compadece? Ou você lhe é indiferente por causa de seus pecados?

M: Não conheço nenhum pecado, nem pecador. Suas distinções e avaliações não me limitam. Todos se comportam segundo sua natureza. Não se pode evitar, nem se lamentar por isto.

P: Outros sofrem.

M: A vida vive da vida. Na natureza o processo é compulsório; na sociedade, deveria ser voluntário. Não pode haver vida sem sacrifício. O pecador nega-se ao sacrifício e atrai a morte. Isto é como é, e não há razão para condenação ou piedade.

P: Seguramente você sente ao menos compaixão quando vê um homem mergulhado no pecado.

M: Sim, sinto que sou esse homem e seus pecados são meus pecados.

P: Certo, e daí?

M: Por tornar-me um com ele, ele se torna um comigo. Isto não é um processo consciente, ocorre inteiramente por si mesmo. Nenhum de nós pode evitá-lo. O que necessita mudar deverá mudar de qualquer modo; basta conhecer-se tal como se é, aqui e agora. A investigação intensa e metódica, dentro da própria mente, é a Ioga.

P: O que acontece com as cadeias do destino forjadas pelo pecado?

M: Quando a ignorância, a mãe do pecado, é dissolvida, o destino, a compulsão para pecar novamente, cessa.

P: Há retribuições a fazer.

M: Quando a ignorância chega ao fim, tudo acaba. As coisas são vistas tal como são, e são boas.

P: Se um pecador, um infrator da lei, vier a você e pedir sua graça, qual será sua resposta?

M: Ele obterá o que pede.

P: Apesar de ser um homem mau?

M: Não conheço pessoas más, só conheço a mim mesmo. Não vejo nem santos nem pecadores, só seres vivos. Eu não concedo a graça. Não há nada que eu possa dar ou negar que você já não tenha em igual medida. Simplesmente, seja consciente de suas riquezas e utiliza-as ao máximo. Enquanto imaginar que necessita minha graça estará em minha porta mendigando-a.
Se eu mendigasse sua graça, teria pouco sentido! Não estamos separados, o real é comum.

P: Uma mãe vem a você com uma história de infortúnio. Seu único filho entregou-se às drogas e ao sexo e vai de mal a pior. Ela pede sua graça. Qual será sua resposta?

M: Provavelmente, eu devo me ouvir dizendo a ela que tudo irá bem.

P: Isto é tudo?

M: Isto é tudo. O que mais você espera?

P: Mas o filho da mulher mudará?

M: Pode mudar ou não.

P: As pessoas que se reúnem ao redor de você e que o conhecem há muitos anos sustentam que, quando você diz ‘ficará tudo bem’, invariavelmente, acontece como você disse.

M: Também pode ser dito que foi o coração da mãe que salvou o filho. Para tudo há inumeráveis causas.

P: Disseram-me que o homem que nada quer para si mesmo é todo-poderoso. O universo inteiro está à sua disposição.

M: Se você assim acredita, aja de acordo com isto. Abandone todo desejo pessoal e use o poder assim resgatado para mudar o mundo!

P: Todos os Budas e Rishis não foram bem sucedidos em salvar o mundo.

M: O mundo não se rende à mudança. Por sua própria natureza, é doloroso e transitório. Veja-o como ele é, e negue-se todo o desejo e todo o temor. Quando o mundo não o aprisiona, ou limita, converte-se em uma morada de alegria e beleza. Você pode ser feliz no mundo apenas quando é livre dele.

P: O que é certo e o que é errado?

M: Geralmente, o que causa sofrimento é errado e o que o elimina é certo. O corpo e a mente são limitados e, portanto, vulneráveis; necessitam proteção, o que dá lugar ao medo. Enquanto você identificar-se com eles, estará condenado a sofrer; torne real sua independência e fique feliz. Eu lhe digo, este é o segredo da felicidade. Acreditar que você depende de coisas e pessoas para ser feliz se deve à ignorância de sua verdadeira natureza; saber que você de nada necessita para ser feliz, exceto o autoconhecimento, é sabedoria.

P: O que vem primeiro, o ser ou o desejo?

M: Quando o ser surge na consciência, surgem também na mente as ideias do que você é junto com as ideias do que deveria ser. Isto causa o desejo e a ação, e o processo de transformar-se começa. O vir-a-ser não tem, aparentemente, nenhum início e nenhum fim porque recomeça a cada momento. Com a cessação da imaginação e do desejo, o vir-a-ser cessa e o ser isto ou aquilo se funde no puro ser, o qual não é descritível e apenas pode ser experimentado.
O mundo se mostra a você tão imperiosamente real porque pensa nele todo o tempo; deixe de pensar nele, e ele desaparecerá numa névoa sutil. Não precisa esquecer; quando o desejo e o medo terminam, o cativeiro também termina. O que cria o cativeiro é o envolvimento emocional, o padrão estabelecido de preferências e desagrados que denominamos caráter e temperamento.

P: Sem desejo e medo que motivo há para a ação?

M: Nenhum, a menos que considere motivo suficiente o amor à vida, à retidão e à beleza.
Não tenha medo de libertar-se do desejo e do temor. Isto lhe permitirá viver uma vida tão diferente de tudo o que conhece, muito mais intensa e interessante que, verdadeiramente, por perder tudo você ganhará tudo.

P: Desde que você considera que sua ascendência espiritual vem do Rishi Dattatreya, estou certo em acreditar que você e seus predecessores são encarnações do Rishi?

M: Você pode acreditar no que quiser e, se agir de acordo com sua crença, você obterá seus frutos; mas, para mim, isto não tem nenhuma importância. Eu sou o que sou, e isto me basta. Não tenho o desejo de identificar-me com ninguém, por ilustre que seja. Nem necessito tomar os mitos por realidade. Estou apenas interessado na ignorância e na libertação da ignorância. O papel apropriado a um Guru é dissipar a ignorância nos corações e mentes de seus discípulos. Uma vez que o discípulo tenha entendido, a ação confirmatória dependerá dele. Ninguém pode agir por outro. E se alguém não age corretamente, apenas significa que não compreendeu e que o trabalho do Guru não terminou.

P: Deve haver também alguns casos sem esperança?

M: Nenhum caso é sem esperança. Os obstáculos podem ser superados. O que a vida não pode emendar, a morte concluirá, mas o Guru não pode falhar.

P: O que dá a você esta segurança?

M: O Guru e a realidade interior do homem são realmente uma coisa só e trabalham juntos para a mesma meta – a redenção e salvação da mente. Eles não podem falhar. Em consequência das muitas pedras que os obstruem, eles constroem suas pontes. A consciência não é a totalidade do ser – há outros níveis nos quais o homem é muito mais cooperativo. O Guru está familiarizado com todos os níveis, e sua energia e paciência são inesgotáveis.

P: Você continua assegurando-me que estou sonhando e que já é hora de despertar. Como é que o Maharaj que veio a meus sonhos não conseguiu despertar-me? Ele continua me encorajando e lembrando, mas o sonho continua.

M: Isto é porque você realmente não entendeu que você está sonhando. Esta é a essência do cativeiro – a mistura do real com o irreal. Em seu estado presente, só o ‘Eu sou’ se refere à realidade; o ‘que’ e o ‘como sou’ são ilusões impostas pelo destino, ou por acidente.

P: Quando o sonho começou?

M: Parece ser sem começo, mas de fato é apenas agora. De momento a momento, você o está renovando. Uma vez que você tenha visto que está sonhando, você deverá acordar. Mas você não vê porque quer que o sonho continue. Virá o dia em que você ansiará pelo fim do sonho, com todo o seu coração e toda sua mente, e estará disposto a pagar o preço; o preço será o desapaixonamento e o desapego, a perda do interesse no próprio sonho.

P: Quão desamparado estou. Enquanto o sonho da existência dura, eu quero que continue. Enquanto quero que continue, durará.

M: O querer que continue não é inevitável. Veja claramente sua condição, a própria claridade o libertará.

P: Enquanto estou com você, tudo quanto diz parece bastante óbvio; mas, logo que me afasto de você, fico inquieto e cheio de ansiedade.

M: Não é necessário ficar longe de mim, em sua mente pelo menos. Mas sua mente procura o bem-estar do mundo!

P: O mundo está cheio de problemas, não é de estranhar que minha mente também esteja.

M: Houve alguma vez um mundo sem problemas? Seu ser como uma pessoa depende da violência em relação aos outros. Seu próprio corpo é um campo de batalha, cheio de mortos e agonizantes. A existência implica violência.

P: Como corpo, sim. Como ser humano, definitivamente não. Para a humanidade, a não-violência é a lei da vida; e a violência, a lei da morte.

M: Na natureza há pouca não-violência.

P: Deus e a natureza não são humanos e não precisam ser. Estou interessado só no homem. Para ser humano, devo ser absolutamente compassivo.

M: Você compreende que, enquanto possuir um ser a defender, você deve ser violento?

P: Sim. Para ser verdadeiramente humano, devo ser desinteressado. Enquanto for egoísta, serei subumano, apenas um ‘humanoide’.

M: Portanto, todos somos subumanos e só alguns poucos são humanos. Poucos ou muitos, o que nos faz humanos é novamente a ‘claridade e a caridade’. Os subumanos – os ‘humanoides’, são dominados por tamas e rajas, e os humanos, por sattva. Claridade e caridade são sattva no modo em que afetam a mente e a ação. Mas o real está além de sattva. Desde que eu conheço você, parece estar sempre procurando ajudar o mundo. Quanto já o ajudou?

P: Nem um pouco. Nem o mundo mudou, nem eu. Mas o mundo sofre e eu sofro com ele. Lutar contra o sofrimento é uma reação natural. E o que são a civilização e a cultura, a filosofia e a religião, senão uma revolta contra o sofrimento? O mal e a cessação do mal – não são sua principal preocupação? Você pode chamar a isto de ignorância – vêm a dar no mesmo.

M: Bom, as palavras não importam, nem tampouco interessa a forma em que você está agora. Os nomes e as formas mudam sem cessar. Saiba que você é a testemunha imutável da mente inconstante. Isto basta.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

A experiência não é a coisa real

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Maharaj: O buscador é aquele que está na busca de si mesmo. Logo ele descobre que seu próprio corpo não pode ser ele. Uma vez que a convicção ‘Eu não sou o corpo’ tenha se tornado muito bem fundamentada, ele não pode mais sentir, pensar e atuar por e em benefício do corpo, e facilmente descobrirá que é o ser universal, conhecendo, agindo, já que nele e através dele o universo inteiro é real, consciente e ativo. Este é o âmago do problema; ou você é consciente do corpo e escravo das circunstâncias, ou você é a própria consciência universal – e em pleno controle de cada fato.
Ainda assim, a consciência, individual e universal, não é meu verdadeiro lar; não estou nela, ela não é minha, não há nenhum ‘eu’ nela. Estou além, embora não seja facilmente explicado como alguém pode ser nem consciente, nem inconsciente, mas além. Eu não posso dizer que estou em Deus ou que eu sou Deus; Deus é a luz e o amor universais, a testemunha universal; eu estou além inclusive do universal.

Pergunta: Neste caso você é sem nome e forma. Que tipo de ser você tem?

M: Sou o que sou, nem com forma nem sem forma, nem consciente nem inconsciente. Estou fora de todas estas categorias.

P: Você está empregando o método do neti-neti (não isto, não aquilo).

M: Você não pode encontrar-me pela mera negação. Eu sou tanto tudo quanto nada; nem ambos, nem um ou outro. Estas definições se aplicam ao Senhor do Universo, não a mim.

P: Você pretende transmitir que você é exatamente nada.

M: Oh, não! Sou completo e perfeito. Sou a existência do ser, a essência do conhecer, a plenitude da felicidade. Você não pode me reduzir ao vazio!

P: Se você está além das palavras, sobre o que deveremos falar? Falando metafisicamente, o que você diz se mantém coeso, não há contradição interna. Mas não há alimento para mim no que você diz. Está completamente além de minhas necessidades urgentes. Quando peço pão, você me dá joias. São bonitas, sem dúvida, mas eu estou faminto.

M: Não é assim. Estou oferecendo a você exatamente o que você necessita – o despertar. Você não está faminto e não precisa de pão. Você necessita de cessação, renúncia, desembaraço. O que você acredita necessitar não é o que você necessita. Eu conheço sua necessidade real, você não. Você necessita retornar ao estado no qual eu estou – seu estado natural. Qualquer outra coisa que você possa pensar é uma ilusão e um obstáculo. Acredite em mim, não necessita nada exceto ser o que é. Você imagina que aumentará seu valor pela aquisição. É como o ouro imaginando que uma adição de cobre o melhorará. A eliminação e a purificação, a renúncia de tudo o que é estranho à sua natureza é o bastante. Tudo o mais é vaidade.

P: É mais fácil dizer que fazer. Um homem vem a você com uma dor de estômago e você o aconselha a vomitá-lo. Certamente, não haverá problema nenhum sem a mente. Mas a mente existe – de forma muito tangível.

M: É a mente que lhe diz que a mente existe. Não seja enganado. Todos os infindáveis argumentos sobre a mente são produzidos pela própria mente, para sua própria proteção, continuação e expansão. É a vazia recusa a considerar os espasmos e convulsões da mente que pode levá-lo além dela.

P: Senhor, sou um humilde buscador, enquanto você é a própria Realidade Suprema. Agora o buscador se aproxima do Supremo para ser iluminado. O que o Supremo faz?

M: Escute o que continuo lhe falando e não se afaste dele. Pense nele todo o tempo e em nada mais. Tendo chegado a este ponto, abandone todos os pensamentos, não apenas do mundo, mas de você mesmo também. Permaneça além de todo pensamento, na silenciosa Consciência do ser. Isto não é progresso, pois o que vem já está em você, esperando por você.

P: Assim você diz que devo tentar a parada do pensamento e permanecer firme na ideia ‘Eu sou’.

M: Sim, e esvazie de todo significado qualquer pensamento que venha a você em conexão com o ‘Eu sou’, não lhes dê atenção.

P: Acontece que tenho encontrado muitos jovens que vêm do ocidente e percebo uma diferença básica quando os comparo aos indianos. Parece como se suas psiques (antahkarana) fossem diferentes. Conceitos como o Ser, Realidade, mente pura, consciência universal são compreendidos facilmente pela mente indiana. Soam familiares, têm sabor doce. A mente ocidental não responde, ou apenas os rejeita. Ela os materializa e deseja para o emprego imediato a serviço dos valores aceitos. Estes valores são frequentemente pessoais: saúde, bem-estar, prosperidade; algumas vezes são sociais – uma sociedade melhor, uma vida mais feliz para todos; todos estão conectados com os problemas mundanos, pessoais ou impessoais. Outra dificuldade com a qual nos defrontamos frequentemente nas conversas com ocidentais é que, para eles, tudo é experiência – do mesmo modo que eles querem experimentar o alimento, a bebida e as mulheres, a arte e as viagens, assim eles desejam experimentar a Ioga, a realização e a liberação. Para eles é como outra experiência, a ser obtida por um preço. Eles imaginam que tais experiências possam ser compradas e pechincham sobre o preço. Quando um Guru põe o preço muito alto, em termos de tempo e esforço, eles vão para outro que ofereça pagamentos a prazo, aparentemente mais acessíveis, mas carregados de condições que não possam ser cumpridas. É a velha história de não pensar em um macaco cinza quando tomar o remédio! Neste caso, são coisas como não pensar no mundo, ‘abandonar toda proteção’, ‘extinguir todo desejo’, ‘tornar-se perfeitamente celibatário’, etc. Naturalmente, há um enorme engano em todos os níveis, e os resultados são nulos. Alguns Gurus, em aguda desesperação, abandonam toda disciplina, não prescrevem condições, aconselham o não-esforço, a naturalidade, a viver simplesmente em uma Consciência passiva, sem qualquer padrão de ‘deve’ ou ‘não deve’. E há muitos discípulos cujas experiências passadas os levaram ao desgosto de si mesmos de tal maneira que, simplesmente, não querem olhar para si mesmos. Se não estiverem enojados, estarão entediados. Estão fartos do autoconhecimento, querem alguma outra coisa.

M: Permita-lhes que não pensem em si mesmos, se não lhes agrada. Deixe-os que estejam com um Guru, que o observem, que pensem nele. Logo experimentarão um tipo de bem-aventurança, totalmente nova, nunca experimentada antes, exceto, talvez, na infância. A experiência é tão inconfundivelmente nova que atrairá sua atenção e gerará interesse; uma vez desperto o interesse, ordenadamente a aplicação se seguirá.

P: Estas pessoas são muito críticas e desconfiadas. Não podem ser de outra forma, tendo passado por tanto aprendizado e tantas decepções. Por um lado elas querem a experiência, pelo outro desconfiam dela. Só Deus sabe como chegar a elas!

M: A verdadeira compreensão e amor as alcançarão.

P: Quando elas têm alguma experiência espiritual, surge uma outra dificuldade. Elas se queixam de que a experiência não dura, que vem e vai de modo aleatório. Tendo agarrado o pirulito, querem sugá-lo todo o tempo.

M: A experiência, por sublime que seja, não é a coisa real. Por natureza, ela vai e vem. A autorrealização não é uma aquisição. É mais da natureza do entendimento. Uma vez alcançada, não pode ser perdida. Por outro lado, a consciência varia, é fluida e sofre transformação de momento a momento. Não se aferre à consciência e a seu conteúdo. A consciência retida cessa. Tentar a perpetuação de um momento de discernimento ou de uma explosão de felicidade é destruir o que se quer preservar. O que vem deve ir. O permanente está além de todas as idas e vindas. Vá à raiz de toda experiência, para o sentido de ser. Além do ser e do não-ser está a imensidade do real. Tente-o repetidamente.

P: Para tentar é necessário fé.

M: Primeiro deve existir o desejo. Quando o desejo for forte, a disposição para tentar virá. Você não precisa da garantia do sucesso quando o desejo for forte. Você está pronto para apostar.

P: Desejo forte, fé forte – vêm a ser o mesmo. Estas pessoas não confiam nem em seus pais nem na sociedade, nem sequer em si mesmas. Tudo o que tocaram se transformou em cinzas. Dê-lhes uma experiência genuína, indubitável, além da argumentação da mente, e elas o seguirão até o fim do mundo.

M: Mas não estou fazendo outra coisa! Incansavelmente levo sua atenção ao fator incontestável – o do ser. O ser não precisa de provas – prova todas as outras coisas. Se apenas se aprofundarem no fato de ser e descobrirem a vastidão e a glória das quais o ‘Eu sou’ é a porta, cruzando-a e indo além, suas vidas serão cheias de felicidade e luz. Acredite em mim, o esforço necessário não é nada quando comparado com as descobertas a que se chega.

P: O que você diz está certo. Mas estas pessoas não têm nem confiança nem paciência. Mesmo um pequeno esforço cansa-as. É realmente patético vê-las tateando cegamente e, ainda assim, incapazes de agarrarem a mão que as ajuda. Basicamente são boas pessoas, mas estão totalmente confusas. Eu lhes falo: Vocês não podem ter a verdade em seus próprios termos. Devem aceitar as condições. A isto respondem: Alguns aceitarão as condições e outros não. A aceitação e a não aceitação são superficiais e acidentais; a realidade está em tudo; deve haver um caminho que todos possam seguir – sem condições agregadas.

M: Existe tal caminho, aberto a todos, em cada nível, em cada modo de vida. Todos são conscientes de si mesmos. O aprofundamento e a ampliação da autoconsciência – é o caminho real. Chame-o plena atenção, ou testemunhar, ou apenas atenção – é para todos. Ninguém é imaturo para ele e ninguém pode fracassar.
Mas, certamente, você não deve estar meramente alerta. Sua atenção deve incluir a mente também. Testemunhar é antes de tudo Consciência da consciência e de seus movimentos.

De: "Eu Sou Aquilo" Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj



segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sempre sobre a Atenção sem Objeto

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Pergunta: Pela minha observação, parece que a atenção fica canalizada pelo mundo objetivo, ou o assim chamado mundo objetivo, nos momentos de elevada atividade quando muito é exigido de você. É como uma máquina que fica congestionada se gastar energia demais. Este consumo excessivo de energia é o que causa a diminuição da atenção?

Jean Klein: Sim, a atenção diminui porque você está envolvido na atividade. Você ainda está na relação sujeito-objeto. A atenção pura é atemporal, e tudo que está no tempo aparece e desaparece neste estado atemporal. Mas você esquece a totalidade para focar sobre a parte, sobre a aparência. Em outras palavras, ao buscar um resultado, você se identifica com o sujeito-objeto. Esta busca exterior bloqueia a Consciência à própria Consciência.

Pergunta: Mas parece que a atividade cotidiana está sempre focada em algum resultado. Você vai ao banco porque deseja retirar dinheiro. Não se vai lá de forma absolutamente desmotivada.

Jean Klein: Isto é verdade. O pensamento pode ser funcional, pode ser calculado. Quando devo limpar meus sapatos, escovar meu cabelo, vestir-me e retirar algum dinheiro para viver, estas são ações intencionais, e obviamente estamos buscando um resultado. Mas nós não estamos pessoalmente envolvidos ou emocionalmente afetados por isto. Nós simplesmente as fazemos.
Essencialmente, não há divisão entre o pensamento prático, o que devo fazer, e o pensamento intuitivo, pois este abrange a totalidade da situação. Mas o verdadeiro pensamento espontâneo surge apenas quando somos livres de desejo, da expectativa e da antecipação. Isto é o que Heidegger se referia como “espera sem espera”. Nada é buscado. Há apenas ser, apenas audição sem a projeção de nada que deva ser ouvido.

Pergunta: O estabelecimento do pensamento espontâneo é algo que acontece gradualmente?

Jean Klein: Não. O pensamento espontâneo surge naturalmente durante nossa vida diária e chegamos a um tipo de compreensão ou resultado. Mas, mais tarde, confrontamos este pensamento e o avaliamos a partir do ponto de vista do sujeito-objeto.
O pensamento espontâneo, a ação espontânea, é estético, ético e funcional. Mas o ego entra e diz: “Vejamos se estou de acordo com este pensamento”, e nós o colocamos em alguma estrutura, algum quadro. Quando você observar, verá quão freqüentemente questiona algo que você entendeu espontaneamente.

Pergunta: Você disse uma vez que onde há esforço há tensão. Parece-me que a tensão é um tipo de defesa. Assim, quando estou tenso, de que estou me defendendo?

Jean Klein: Você defende sua imagem, nada mais. Habitualmente, você objetififica a si mesmo. Vive com uma imagem que criou, a qual estimula a sensação e a emotividade. De qualquer forma não há necessidade de se defender, pois não há ninguém a ser defendido. Quando você está despojado de todas as qualificações, o que há a defender? Você não pode defender sua nudez. Em um estado absolutamente não qualificado, há liberdade, total liberdade.
Enquanto mantemos a perspectiva sujeito-objeto, movemo-nos com uma intenção. Mas, quando você compreende que o que você é nunca pode ser objetificado, chega ao silêncio, à consciência em que emerge o pensamento espontâneo. Pode parecer intencional, mas surge de sua posição atemporal.

Pergunta: Onde há um estado de identidade – olho para uma flor e eu sou a flor – quando nome e forma desaparecem, o que me faz voltar como um ser humano e não como uma flor? Qual é a natureza deste vínculo?

Jean Klein: O ser humano é ainda uma forma e um nome; a flor é ainda uma forma e um nome. Abandonar forma e nome significa abandonar corpo e mente. O que permanece é a Consciência atemporal, a qual é o que você tem em comum com a flor. O ser humano aparece em você exatamente como a flor. Quando você não se pensa como um ser humano, onde está o homem?
Você é um com todos os seres vivos, os quais aparecem nesta unidade. Há distinção, certamente, entre os seres humanos e os outros seres vivos, mas não há separação. Assim seu corpo e mente aparecem na presença atemporal, mas apenas como instrumentos.
A repetição acontece apenas na relação sujeito-objeto. Em outras palavras, as coisas parecem manter a mesma forma, seguindo o mesmo padrão, apenas porque o “eu”, enquanto sujeito-objeto, busca segurança. Uma vez cessada a busca, logo que você esteja fora da posição sujeito-objeto, você verá que toda repetição é ilusória.

Pergunta: Portanto, neste estado não qualificado, todas a ação aparece espontaneamente sem referência ao tempo e ao espaço?

Jean Klein: Sim, aparece espontaneamente. Não há recapitulação do passado, nem antecipação do futuro. Mas o que aparece espontaneamente necessita de tempo e espaço para sua realização. Suponha que você tenha uma intuição de que deve empreender um certo tipo de trabalho. Primeiro você tem a intuição, e então a realização desta requer tempo e espaço, mas na intuição há uma inteligência que indica precisamente como proceder.
Digamos que você seja um ator. Você lê o roteiro para uma peça dramática e compreende como ela se desenvolve psicológica, intelectual e físicamente. No momento em que você decide desempenhar um papel particular neste drama, a ambientação psicológica global permanece em você.Você desempenha o papel no tempo, de momento a momento, mas a clima desta ambientação está sempre presente. Eu inclusive diria que o clima desta ambientação é sua intuição falando “Eu devo empreender este trabalho”.
A intuição é a aparição de uma perfeita simultaneidade das coisas. Ela é externa ao processo de pensamento ordinário, porque o pensamento ordinário está no tempo. Você nunca pode ter mais de um pensamento ao mesmo tempo, mas pode intuitivamente perceber a totalidade. Depois, você compreende isto na seqüência de tempo e espaço. É como um pintor que, em um certo momento, vê a totalidade da idéia sobre o quadro. Isto não significa que ele veja todos os detalhes, mas ao menos os elementos principais, as proporções. Depois, ele executa a pintura no espaço-tempo.

Pergunta: Há uma visão intuitiva e global da criação, mas algumas vezes parece que o ator fica perdido em seu papel e não vê mais o drama total. Quando a visão é fragmentada, como poderei voltar à totalidade?

Você quer dizer que ele esquece a ambientação? Sim, ele a deixa e, portanto, deve voltar a ela. É por isto que você não deve fixá-la intelectualmente. Permita-a que permaneça um sentimento global.
Mas se você perde este sentimento global, esta totalidade, e tenta compensá-lo com a memória, então você se desencaminhou. Isto acontece algumas vezes aos artistas. Eles têm uma experiência da percepção global e com isto se pôe a trabalhar, compondo ou pintando ou escrevendo. Se eles abandonam o sentimento da totalidade e a compensam com o intelecto, com o passado, com a memória, seu trabalho freqüentemente se torna confuso. Eles podem mesmo deixá-lo de lado.
É da máxima importância não analisar a intuição. Não fixá-la ou encerrá-la em uma estrutura. Não coloque contornos nela. Deixe-a completamente aberta porque ela está viva. Certamente, a realização de uma intuição ocorre no espaço-tempo, e requer que você utilize seu cérebro prático e seu corpo. Mas o apoio de toda sua ação, de todo seu pensamento, de toda a documentação necessária, é esta intuição que subjaz por trás da aparência.
No princípio, a intuição pode se referir a seu comportamento e suas atividades. Mas chega o momento em que em que você tem uma intuição de sua vida total, quando sua totalidade da vida, passado, presente e futuro, vêm à superfície. Como o artista, você não vê os detalhes, mas sente a tensão dinâmica. Esta tensão não é uma reação, mas algo tangível que você sente do mesmo modo que sente as proporções desta sala.
Quando você não se identifica com uma imagem, quando sua observação é inocente, você sente a vida surgir. Mas no instante em que a abandona – no momento em que você se identifica com alguma imagem de você mesmo, como uma mulher, como um profissional, como tendo tanto dinheiro, e assim por diante – neste momento você está novamente vivendo em um círculo vicioso de ter e vir a ser.
Digamos que você passou uma semana na Suíça. Se você esteve presente sem nada etiquetar, sem tirar alguma conclusão, então a impressão geral trará você de volta aos detalhes. Em outras palavras, você vai da totalidade aos detalhes. Mas, se você se identificar com um detalhe, nunca poderá retornar ao total, pois o esforço para esta volta é exatamente uma construção mental, um produto de sua memória.
Quando você ouve música, lê poesia – escute isto – leia-a. Então a alegria estética brota espontaneamente. Você deve evitar completamente o hábito de tentar entendê-la, de apropriá-la. A melhor posição é estar completamente aberto, sem quaisquer conclusões. As situações surgem e as ações acontecem, mas, nesta abertura, as ações estão perfeitamente afinadas com as situações. E você pode ver as coisas como nunca antes.
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De: "A simplicidade de Ser" Conversações com Jean Klein

domingo, 15 de novembro de 2009

A Consciência é livre







Pergunta: Acabo de chegar do Sri Ramanashram. Passei ali sete meses.

Maharaj: Que práticas você esteve seguindo no Ashram?

P: Concentrei-me tudo o que pude no ‘Quem sou eu?’.

M: De que modo o fazia? Verbalmente?

P: Em meus momentos livres ao longo do dia. Algumas vezes murmurava para mim mesmo ‘Quem sou eu?’ ‘Eu sou, mas quem sou eu?’ Ou eu o fazia mentalmente. Em algumas ocasiões, tinha alguns sentimentos agradáveis ou entrava em estados de tranquila felicidade. Em geral, eu tentava estar quieto e receptivo em vez de esforçar-me em ter experiências.

M: O que experimentava realmente quando estava no humor adequado?

P: Um sentimento de quietude interior, paz e silêncio.

M: Observou-se ao se tornar inconsciente?

P: Sim, ocasionalmente, e por pouco tempo. De outro modo, estava simplesmente tranquilo, interna e externamente.

M: Que tipo de tranquilidade era? Algo parecido ao sono profundo, mas consciente ao mesmo tempo? Uma espécie de sono acordado?

P: Sim. Alertamente adormecido (jagrit-sushupti).

M: O principal é libertar-se das emoções negativas – desejo, medo, etc., os ‘seis inimigos’ da mente. Uma vez que a mente esteja livre deles, o resto virá facilmente. Assim como o tecido, mantido em água com sabão, ficará limpo, a mente se purificará na corrente do sentimento puro.
Quando você senta tranquilamente e observa a si mesmo, todos os tipos de coisas podem vir à superfície. Não faça nada a respeito, não reaja a elas; do mesmo modo que vieram, irão embora por si mesmas. Tudo o que importa é a atenção, a total Consciência de si mesmo, ou melhor, da própria mente.

P: Por ‘si mesmo’ você quer dizer o ser de todos os dias?

M: Sim, a pessoa, a única que é objetivamente observável. O observador está além da observação. O que pode ser observado não é o ser real.

P: Sempre posso observar o observador, em infindável recessão.

M: Você pode observar a observação, não o observador. Você sabe que é o observador final por percepção direta, não por um processo lógico baseado na observação. Você é o que é, mas conhece o que você não é. O ser é conhecido como existência, o não-ser é conhecido como transitório. Mas, na realidade, tudo está na mente. Observado, observação e observador são construções mentais. Só o ser é.

P: Por que a mente cria todas estas divisões?

M: A própria natureza da mente é dividir e particularizar. Não há dano em dividir. Mas a separação vai contra a realidade. As coisas e as pessoas são diferentes, mas não estão separadas. A natureza é uma, a realidade é uma. Existem opostos, mas não oposição.

P: Percebo que sou muito ativo por natureza. Aqui, sou aconselhado a evitar a atividade. Quanto mais tento permanecer inativo, maior é o impulso para fazer algo. Isto não só me torna ativo exteriormente, mas me faz lutar interiormente para ser o que não sou por natureza. Há algum remédio contra a ânsia de agir?

M: Há uma diferença entre o trabalho e a mera atividade. Toda a natureza trabalha. O trabalho é natureza, a natureza é trabalho. Por outro lado, a atividade está baseada no desejo e no medo, na ânsia de possuir e apreciar, no medo da dor e da aniquilação. O trabalho é do todo para o todo; a atividade, de si mesmo para si mesmo.

P: Há algum remédio contra a atividade?

M: Observe-a, e ela deverá cessar. Utilize toda a oportunidade para recordar-se que está aprisionado, que tudo o que acontece a você se deve ao fato de sua existência corporal. O desejo, o medo, os problemas, o gozo, não poderão aparecer a menos que você exista para que lhe apareçam. Mesmo assim, tudo o que acontece aponta para sua existência como centro de percepção. Seja indiferente aos indicadores e consciente do que apontam. É muito simples, mas deve ser feito. O que importa é a persistência com que você continua voltando para si mesmo.

P: Entro em um peculiar estado de profunda absorção em mim mesmo, mas de modo imprevisível e momentâneo. Não me sinto no controle de tais estados.

M: O corpo é algo material e necessita tempo para mudar. A mente é apenas um conjunto de hábitos mentais, de modos de pensar e sentir e, para mudar, devem ser trazidos para a superfície e examinados. Isto também leva tempo. Simplesmente, decida-se e persevere, o resto cuidará de si mesmo.

P: Parece-me que tenho uma ideia clara do que fazer, mas me percebo ficando cansado e deprimido, e buscando companhia humana, perdendo assim o tempo que deveria ser dado para a solidão e a meditação.

M: Faça o que quiser fazer. Não se intimide. A violência o tornará duro e rígido. Não lute contra os obstáculos que vê no seu caminho. Interesse-se por eles, veja-os, observe, investigue. Deixe que as coisas aconteçam – boas ou más. Mas não se deixe afundar pelo que acontece.

P: Qual o propósito de lembrar-se todo o tempo que se é o observador?

M: A mente deve aprender que, além da mente móvel, existe a base da Consciência, a qual não muda. A mente deve conhecer o verdadeiro ser e respeitá-lo, e deixar de encobri-lo, como a lua que obscurece o sol em um eclipse. Compreenda que nada observável, ou que possa ser experimentado, é você, ou o limita. Não tome conhecimento do que não é você mesmo.

P: Devo ser incessantemente consciente para fazer o que você me diz.

M: Ser consciente é estar desperto. Inconsciente significa adormecido. De qualquer modo você é consciente, não necessita tentar sê-lo. O que necessita é ser consciente de ser consciente. Seja consciente deliberada e conscientemente; amplie e aprofunde o campo da Consciência. Você sempre é consciente da mente, mas não é consciente de si mesmo como ser consciente.

P: Como posso entender, você dá distintos significados para as palavras ‘mente’, ‘consciência’ (consciousness) e ‘Consciência’ (awareness).

M: Veja deste modo. A mente produz pensamentos incessantemente, mesmo quando você não os observa. Quando sabe o que está acontecendo em sua mente, você a chama consciência (consciousness). Este é o seu estado de vigília – sua consciência se move de sensação em sensação, de percepção em percepção, de ideia em ideia, em uma sucessão sem fim. Logo vem a ‘Consciência’ (awareness), a percepção direta dentro do todo da consciência, a totalidade da mente. A mente é como um rio, fluindo sem cessar no leito do corpo; por um momento você se identifica com alguma onda em particular e a chama ‘meu pensamento". Tudo de que você está consciente é sua própria mente; a Consciência é o conhecimento da consciência como um todo.

P: Todos estão conscientes, mas nem todos são Consciência.

M: Não diga: ‘Todos estão conscientes’. Diga: ‘Há consciência’ na qual tudo aparece e desaparece. Nossas mentes são apenas ondas no oceano da consciência. Como ondas, vêm e vão. Como oceano, são infinitas e eternas. Conheça a si mesmo como o oceano do ser, o útero de toda existência. Certamente, tudo isto são metáforas; a realidade está além da descrição. Só sendo a realidade você pode conhecê-la.

P: Vale a pena buscá-la?

M: Sem ela tudo é problema. Se quiser viver uma vida sadia, criativa e feliz, tendo infinitas riquezas a compartilhar, busque o que você é. Enquanto a mente estiver centrada no corpo e a consciência na mente, a Consciência é livre. O corpo tem seus impulsos e a mente, suas dores e prazeres. A Consciência é desapegada e inabalável. É lúcida, silenciosa, pacífica, alerta e despreocupada, sem desejo nem temor. Medite nela como seu verdadeiro ser e tente sê-la em sua vida diária, e você deverá compreendê-la em sua plenitude. A mente está interessada no que acontece, enquanto a Consciência se interessa na própria mente. A criança vai atrás do brinquedo, mas a mãe observa a criança, não o brinquedo.
Observando incessantemente, esvaziei-me por completo e com esse vazio tudo regressou a mim, exceto a mente. Descobri que havia perdido a mente irreparavelmente.

P: Você está inconsciente enquanto nos está falando?

M: Não estou nem consciente nem inconsciente, estou além da mente e de seus vários estados e condições. As distinções são criadas pela mente e se aplicam apenas a ela. Sou a própria pura consciência, a Consciência íntegra de tudo que é. Estou em um estado mais real que o de vocês. As distinções e separações que constituem uma pessoa não me distraem. Enquanto o corpo durar, ele terá suas necessidades como qualquer outro, mas o processo mental terminou.

P: Você se comporta como uma pessoa que pensa.

M: Por que não? Mas meu pensamento, como minha digestão, é inconsciente e propositado.

P: Se seu pensamento é inconsciente, como você sabe que ele está correto?

M: Não há nenhum desejo nem temor que o impeça. O que pode fazê-lo incorreto? Uma vez que me conheça e ao que represento, não necessito verificar-me todo o tempo. Quando você sabe que seu relógio marca a hora certa, você não duvida cada vez que o consulta.

P: Quem fala neste próprio momento senão a mente?

M: Este que ouve a pergunta a responde.

P: Mas quem é?

M: Não quem, mas o quê. Eu não sou uma pessoa no seu sentido da palavra, embora eu possa parecer uma pessoa para você. Sou o infinito oceano de consciência no qual tudo acontece. Estou também além de toda existência e conhecimento, pura bem-aventurança de ser. Nada existe que eu sinta como separado de mim, portanto sou tudo. Nada sou eu, assim eu sou nada.
O mesmo poder que faz arder o fogo e fluir a água, que faz a semente brotar e a árvore crescer, faz com que responda suas perguntas. Não há nada pessoal sobre mim, embora a linguagem e o estilo possam parecer pessoais. Uma pessoa é um conjunto de padrões de desejos e pensamentos, e ações resultantes; no meu caso não existem tais padrões. Não há nada que eu deseje ou tema – como pode existir um padrão?

P: Seguramente, você morrerá.

M: A vida escapará, o corpo morrerá, mas isto não me afetará o mínimo. Além do espaço e do tempo eu sou, sem causa, causa de nada, e ainda assim a própria matriz da existência.

P: Permita-me perguntar como você chegou à sua presente condição?

M: Meu mestre falou-me para agarrar-me tenazmente ao sentido de ‘Eu sou’ e que não me desviasse dele nem por um momento. Segui seu conselho e, em um tempo comparativamente curto, compreendi, dentro de mim mesmo, a verdade de seu ensinamento. Tudo o que fiz foi lembrar constantemente seu ensinamento, seu rosto, suas palavras. Isto acabou com a mente; na quietude da mente, vi a mim mesmo como sou – ilimitado.

P: Sua realização foi repentina ou gradual?

M: Nem uma nem outra. É-se o que se é atemporalmente. É a mente que compreende como e quando ela fica livre de desejos e temores.

P: Mesmo o desejo de realização?

M: O desejo de colocar um fim a todos os desejos é o mais peculiar, da mesma forma que ter medo de estar amedrontado é um temor muito peculiar. Um o impede de agarrar e o outro o impede de escapar. Você pode usar as mesmas palavras, mas os estados não são o mesmo. O homem que busca a realização não está viciado em desejos; ele é um buscador que vai contra o desejo, não com ele. O anseio geral por libertação é apenas o começo; encontrar os meios adequados e usá-los é o próximo passo. O buscador tem apenas uma meta: encontrar seu próprio ser verdadeiro. De todos os desejos, este é o mais ambicioso, pois nada nem ninguém poderá satisfazê-lo; o buscador e o buscado são um, e só a busca interessa.

P: A busca acabará. O buscador permanecerá.

M: Não, o buscador se dissolverá, a busca continuará. A busca é a última e atemporal realidade.

P: Busca significa carência, desejo, incompletude e imperfeição.

M: Não, ela significa recusa e rejeição do incompleto e do imperfeito. A busca da realidade é o próprio movimento da realidade. De um certo modo, toda busca é pela bem-aventurança real, ou a bem-aventurança do real. Mas aqui, por busca queremos dizer a busca de si mesmo como a raiz do ser consciente, como a luz além da mente. Esta busca nunca terminará, enquanto a ânsia incessante por tudo mais deve terminar para que o progresso real aconteça.
Deve-se entender que a busca da realidade, de Deus, ou do Guru, e a busca do ser são a mesma; quando um é encontrado, todos são encontrados. Quando ‘Eu sou’ e ‘Deus é’ tornam-se indistinguíveis em sua mente, então algo acontecerá e você conhecerá, sem sombra de dúvida, que Deus é porque você é e você é porque Deus é. Os dois são um.

P: Desde que tudo é predestinado, está predestinada nossa autorrealização? Ou somos livres ao menos nisto?

M: O destino se refere apenas ao nome e à forma. Desde que você não é nem o corpo nem a mente, o destino não tem nenhum controle sobre você. Você é completamente livre. A taça é condicionada por sua forma, material, uso e assim por diante. Mas o espaço no interior da taça é livre. Ele está na taça apenas quando visto em conexão com ela. De outra forma é apenas espaço. Enquanto há corpo, você aparenta estar encarnado. Sem o corpo, você não está desencarnado – você simplesmente é.
Mesmo o destino é apenas uma ideia. As palavras podem estar juntas de muitas maneiras! As frases podem diferir, mas mudam algo no real? Há muitas teorias inventadas para explicar as coisas – todas são plausíveis, nenhuma é verdadeira. Quando você dirigir um carro, você estará sujeito às leis da mecânica e da química: saia do carro e você estará sob as leis da fisiologia e da bioquímica.

P: O que é meditação e para que serve?

M: Enquanto você for um principiante, certas meditações formais, ou orações, poderão ser boas para você. Mas, para o buscador da realidade, existe apenas uma meditação – a recusa rigorosa a acolher pensamentos. Estar livre de pensamentos é a própria meditação.

P: Como isto é feito?

M: Você começa por permitir que os pensamentos fluam, e os observa. A própria observação aquieta a mente até que ela para totalmente. Uma vez quieta a mente, mantenha-a quieta. Não fique entediado com a paz, esteja nela, vá profundamente para dentro dela.

P: Ouvi acerca de agarrar-se a um pensamento para manter todos os outros afastados. Mas como afastar todos os pensamentos? A própria ideia é também um pensamento.

M: Experimente novamente, não se guie por experiências passadas. Observe seus pensamentos e observe a si mesmo observando os pensamentos. O estado de liberdade de todos os pensamentos acontecerá repentinamente, e você o reconhecerá pela sua bem-aventurança.

P: Você não está de forma alguma interessado sobre o estado do mundo? Olhe para todos os horrores do leste paquistanês. Eles não o afetam em nada?

M: Leio jornais, sei o que está acontecendo! Mas minha reação não é como a sua. Você está buscando uma medida saneadora, enquanto eu estou interessado na prevenção. Enquanto houver causas, deverá haver resultados. Enquanto as pessoas estiverem propensas a dividir e separar, enquanto elas forem egoístas e agressivas, tais coisas acontecerão. Se você quer paz e harmonia no mundo, você deve ter paz e harmonia em seu coração e em sua mente. Tais mudanças não podem ser impostas; devem vir de dentro. Aqueles que abominam a guerra devem expulsá-la de seu sistema. Sem pessoas pacíficas, como você pode ter paz no mundo? Enquanto as pessoas forem como são, o mundo deverá ser como é. Eu estou fazendo a minha parte ao tentar ajudar as pessoas a conhecer a si mesmas como a única causa de suas próprias misérias. Neste sentido, sou um homem útil. Mas o que sou em mim mesmo, o que é meu estado normal, não pode ser expresso em termos de consciência social e utilidade.
Posso falar sobre isso utilizando metáforas ou parábolas, mas sou agudamente consciente que isto não é exatamente assim. Não que não possa ser experimentado.
É a própria experimentação! Mas não pode ser descrito em termos de uma mente que deva separar e opor para conhecer. O mundo é como uma folha de papel sobre a qual alguma coisa é datilografada. A leitura e o significado variarão com o leitor, mas o papel é o fator comum, sempre presente, raramente percebido. Quando a fita é removida, a impressão não deixa nenhum traço sobre o papel. Assim é minha mente – as impressões continuam chegando, mas nenhum traço é deixado.

P: Por que você se senta aqui e fala para as pessoas? Qual seu motivo real?

M: Nenhum. Você diz que devo ter um motivo. Eu não estou sentado aqui, nem estou falando; não é necessário procurar motivos. Não me confunda com o corpo. Não tenho nenhum trabalho para fazer, nem deveres a realizar. Esta minha parte, a qual você pode chamar Deus, cuidará do mundo. Este seu mundo, que tantos cuidados necessita, vive e se move em sua mente. Investigue profundamente nele, você encontrará suas respostas ali e somente ali. De que outra parte você espera que elas venham? Existe algo fora de sua consciência?

P: Pode existir sem que eu nunca saiba.

M: Que tipo de existência seria? Pode o ser estar divorciado do conhecer? Todo ser, como todo conhecer, relaciona-se a você. Uma coisa é porque você sabe que é, ou em sua experiência ou em seu ser. Seu corpo e sua mente existem enquanto você assim acreditar. Cesse de pensar que eles são seus e eles se dissolverão. Sem dúvida, deixe seu corpo e sua mente funcionar, mas não os deixe limitá-lo. Se você observar imperfeições, siga observando; a própria atenção que você lhes dá colocará seu coração, sua mente e seu corpo em ordem.

P: Posso curar-me de uma grave enfermidade pelo mero fato de conhecê-la?

M: Conheça a enfermidade como um todo, não apenas através dos sintomas externos. Toda doença começa na mente. Cuide da mente em primeiro lugar, achando e eliminando todas as ideias e emoções incorretas. Então viva e trabalhe sem dar atenção à enfermidade e sem pensar mais nela. Com a remoção das causas, o efeito é obrigado a partir. O homem se transforma no que ele acredita ser. Abandone todas as ideias sobre você mesmo e você descobrirá ser a pura testemunha, além de tudo que possa acontecer para o corpo ou para a mente.

P: Se eu me transformar em qualquer coisa que pensar, e começo a pensar que sou a Realidade Suprema, não será minha Realidade Suprema uma mera ideia?

M: Primeiro alcance este estado e então faça a pergunta.
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sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sobre a Escuta Incondicionada










Pergunta: Poderia falar-nos algo mais sobre o que entende por escuta incondicionada?

Jean Klein: Sempre que a escuta é intencional, a tensão surge, porque um resultado é antecipado, e este resultado é um produto, uma projeção da memória. A escuta incondicionada não tem fim na mente e, nesta abertura, todos os sentidos são receptivos. A audição não está mais confinada aos ouvidos; ao contrário, todo o corpo escuta com uma sensitividade sempre-expansiva até que você se ache na própria escuta. Um outro modo de dizer isto é que você não escuta mais, pois você é audição.
A consciência da quietude, do silêncio, pode surgir primeiro na ausência de objetos, como freqüentemente acontece na meditação. Mas, mais tarde, ela é mantida tanto na presença quanto na ausência. Esta consciência, que é escuta, é o fundamento de toda aparência, de modo que, mesmo quando em atividade, você é consciente da atividade e do ser.
A consciência de ser não é uma percepção, pois o ser nunca pode ser objetivado. Nós não podemos ter consciência de dois objetos ao mesmo tempo; não podemos ter dois pensamentos simultaneamente. Mas podemos ter consciência simultânea de nossa existência fenomênica e nossa presença, de nosso ser. Este não-estado aparece espontaneamente no instante em que cessa o produzir e o projetar.
Qualquer tentativa para produzir este não-estado na verdade nos submerge profundamente na relação sujeito-objeto. Há momentos em que alcançar o silêncio pode ser um benefício transitório, visto que uma ausência temporária de pensamento produz um estado calmo. Mas, permancer nesta relação sujeito-objeto, a qual é tudo que a ausência de pensamento é, exclui você de um silêncio mais profundo. A presença de um estado vazio pode inclusive ser um obstáculo; sendo energia em movimento, não pode ser continuamente sustentado. O verdadeiro silêncio não é nem movimento nem energia, mas quietude.

Pergunta: Quem alcançou este não-estado pode perdê-lo?

Jean Klein: Quando você compreendeu quem você é, isto nunca pode ser perdido. Mas, até o “momento” do reconhecimento, sua posição pode ser frágil. Embora a consciência global esteja sempre presente, você a abandona ao identificar-se com seus sentidos e mente, suas reações e temores. Mas ela o traz de volta. Você é solicitado por ela.

Pergunta: Martin Buber uma vez perguntou a seu irmão: “Diga-me onde sente sua dor, pois quero ajudá-lo.” E o irmão replicou: “Se me ama, saberá onde está minha dor.” Algumas vezes, somos conscientes da dor daqueles que amamos. O que devemos fazer com esta dor?

Jean Klein: Quando você retém uma imagem de seu irmão como alguém que está doente você é cúmplice de sua doença. Apenas quando toda projeção cessa é que a observação qualificada e a Consciência estarão consumadas. Então, tudo o que é observado aparece em você, nesta Consciência. Você não vê meramente o aspecto físico de seu irmão, mas também todos os níveis mais sutis. E você não é mais um cúmplice daquela dor.
Todo pensamento é uma imagem e toda imagem estimula a afetividade. Em outras palavras, no momento em que uma imagem surge na mente ela impressiona todo seu funcionamento químico e neurológico, e este resultado é uma reação. Assim, o que você pensa como dor é uma reação evocada pela imagem que você criou. Mas, pode ser surpreendente descobrir que, quando você olha para seu irmão sem projetar uma imagem sobre ele, ele pode não se localizar mais a si mesmo em um lugar, em seu corpo, em sua dor, em suas idéias. Você o liberta, pois ele já não tem mais a oportunidade de criar uma imagem de si mesmo. E, uma vez que este estímulo à produção de imagens desapareça, a cura segue seu curso natural.

Pergunta: E quando alguém sofre?

Jean Klein: Se você sofre com ele, você é um cúmplice. No momento em que o ama, a cumplicidade termina. O amor é livre de todas as imagens. Mas, onde há emotividade ou sentimentalismo, quando você sente com ele e compartilha de sua própria auto-imagem, você o ajuda a sentir sua dor.

Pergunta: Assim ter piedade de alguém me faz cúmplice e realmente atrapalha o processo de cura?

Jean Klein: Certamente, deve-se entender realmente o que significa piedade.

Pergunta: Devemos, então, compreender que, apesar da evidência de dor, não devemos aceitá-la como uma realidade?

Jean Klein: Em um momento de abertura, você é amor incondicional. E, de forma inerente nele, existe uma inteligência que indica exatamente como proceder com seu irmão. Mas você deve também entender que eliminar sua dor não é um benefício real para ele. A dor indica algo. Como um alarme, ela o desperta. Mas não tente escapar encontrando alguma interpretação psicológica. Deve-se ver realmente para o que a dor aponta.
Você pode ajudar seu irmão a descobrir quem produziu a dor. Como todo objeto, como toda percepção, a dor nos remete à consciência, ao supremo, pois é este que ilumina o objeto.

Pergunta: E em que se dissolve a dor?

Jean Klein: Na realidade há apenas o supremo. No momento em que a dor aponta para o supremo, põe a ênfase sobre ele, não sobre a dor.

Pergunta: Eu acho difícil entender como a dor aponta para o supremo.

Jean Klein: Não estou falando da dor como um conceito, mas como uma percepção, uma sensação. Habitualmente, resistimos à pura sensação por construir alguma idéia da dor. E esta resistência é uma reação que contribui para a dor. Mas, quando você permite que a dor seja pura sensação, destituída de qualquer reação psicológica, toda a energia anteriormente localizada como dor é liberada e dissolvida no supremo.
Outro modo de expressar isto é permitir que o corpo seja o corpo. O corpo tem uma memória orgânica de saúde. Você tem a prova disto no fato de que, quando você corta um dedo, ele estará curado em uma semana. O corpo, evidentemente, conhece precisamente como curar a si mesmo.

Pergunta: Então o estado natural do corpo é a saúde pura?

Jean Klein: Sim. Podem existir alguns transtornos momentâneos, mas o estado fundamental do corpo é a saúde. O verdadeiro médico encarna a saúde total porque ele é saúde. Ele ajuda a saúde a curar o corpo harmonizando-o com ela. Muitas técnicas médicas e remédios modernos se opõem à saúde por considerar o corpo como um inimigo. Não deve haver nenhuma violência. É importante para você encarar seu corpo como um amigo que conhece a saúde perfeita.

Pergunta: No caminho para a não-dualidade, muitas autoridades recomentam usar a concentração e o esforço, enquanto outros nos falam sobre a ausência de esforço. Qual é a explicação para esta contradição aparente?

Jean Klein: O esforço surge quando se projeta alguma meta a ser atingida, mas o que você fundamentalmente é nunca pode ser alcançado, pois você já o é. Assim, por que o esforço? No início, as técnicas de relaxamento podem ser úteis, desde que o estado de relaxação o habilite a ver que o que você busca é encontrado no proprio instante em que a busca pára.
O pré-sentimento da unidade fundamental é inerente à essa retenção. Este pré-sentimento pode perfeitamente estimular um tipo de esforço para chegar conscientemente à essa unidade, mas neste caso o esforço não é um processo volitivo. Surgindo do não-esforço, ele o atrai para sua origem, para sua natureza real.

Pergunta: Você está dizendo que há dois tipos de esforço, um do tipo volitivo e outro que transcende a vontade pessoal?

Jean Klein: O primeiro tipo de esforço pertence ao “eu”, o ego. O segundo flui diretamente do não-esforço, pois sua origem é o Eu.

Pergunta: Uma espécie de esforço sem esforço?

Jean Klein: Sim, porque o motivo por trás de todo esforço é ser sem esforço. O único desejo é pelo estado sem desejos. Você vê isto quando olha para o que acontece logo que um objeto desejado é obtido. Há ausência de desejo, mas ninguém que seja carente de desejo; assim, neste ponto, não há nenhum objeto como sua causa. Você vive sua natureza verdadeira não-dual. Mais tarde, contudo, você a abandona e aparece o “eu” dizendo: “Estou feliz porque comprei uma casa nova, ou encontrei um amigo novo”, etc. Mas chega um momento em que este objeto não satisfaz mais. Assim você começa novamente a buscar outro. E este círculo vicioso continua até que você, finalmente, veja que a ausência de desejo nada tem a ver com qualquer objeto. Ela está em você.

Pergunta: É perigoso tentar experimentar a não-dualidade sem um guia pessoal, sem um mestre?

Jean Klein: Esta pergunta evade uma autoconfrontação verdadeira porque dá veracidade a uma “pessoa”, a uma aparição no espaço-tempo. Você deve começar encarando você mesmo, seus medos, desejos e reações. Quero dizer com isto que você deve parar de sobrepor suas próprias projeções e aceitar a vida como ela vier para você. O modo mais certo para descobrir a verdade é parar de resistir a ela.
A autoconsciência requer um certo grau de maturidade que surge naturalmente quando você questiona seus motivos e desejos a partir de uma posição de receptividade. Você espera a resposta. Esta posição é um tipo de recapitulação de toda sua vida, sem atração-repulsão, ou agrado-desagrado. Você avalia; você olha; você observa. No momento da auto-aceitação, você está calmo. Você permite que suas percepções se revelem, que suas dores e desejos falem; o ego está ausente, mas você permanece calmo. Este é o momento de encontrar um mestre. Mas nunca a pessoa pode encontrá-lo. Ele vem para você porque ele o está esperando.

Pergunta: Você está dizendo para não procurar um Guru?

Jean Klein: A própria intenção de procurar alguém já prejudica o modo com o qual você vê. Buscar algo significa que você não está aberto para tudo que lhe vem ao encontro de momento a momento. Mas se sua atitude é inocente, receptiva ao mundo, carente de reação, você pode estar certo que encontrará tudo que necessita encontrar.

Pergunta: Pode-se educar uma criança para que seja livre do “eu”?

Jean Klein: Para libertar a criança de uma imagem, você deve primeiro ser livre, livre de todas as qualificações – particularmente da imagem de ser um pai. Preservar a imagem de pai desperta a necessidade de cumprir tudo o que define um pai e, por sua vez, seu filho deve cumprir tudo o que define sua relação com você. Há então uma espécie de aprisionamento recíproco.
Apenas quando o contato não é mais entre duas imagens, mas entre ser e ser, a comunhão é possível. Então falamos de amor.

Pergunta: Se há completa aceitação, não se questiona?

Jean Klein: Se há aceitação, não há mais qualquer problema. Mas a aceitação não é uma posição passiva. Ao contrário, é altamente alerta, atenta, ativa. Você é totalmente consciente de tudo o que você aceita. Na aceitação de algo, há inteligência, e nesta inteligência você está completamente apto a toda situação, a todo ser vivo. Você pára de alimentar seu ego, sua paternidade. E então seu filho é livre, pois sua observação se mantém constantemente nova. Nesta liberdade, ele cresce.
Quando você está consciente de seu filho, quando está aberto a ele, conhece exatamente o que ele necessita, pois há um entendimento imediato de sua forma de comunicar-se, de seus movimentos, etc. Em outras palavras, toda projeção pára. Podemos dizer que esta abertura é amor.

Pergunta: Quando você fala de projetar, o que faz o que projeta?

Jean Klein: Vê que você projeta uma imagem de você mesmo com todos os atributos obstrutores.

Pergunta: Eu projeto a mim mesmo?

Jean Klein: Sim, você projeta esta imagem com a ajuda da sociedade. A sociedade mantém certas idéias sobre você – e sua conduta consigo está baseada nelas. O reflexo para criar uma imagem de você mesmo como uma identidade independente, separada, dá à sociedade uma posição em que se agarrar. Assim, não dê à sociedade uma posição segura.
O que chamamos “iluminação” é simplesmente a compreensão de que você não é uma pessoa, nem que a imagem da sociedade tenha sido impressa em você. A iluminação é a visão de que há apenas um nada não-qualificado. Neste nada, você é livre, você se sente livre, você pensa livremente. Mas, enquanto viver com uma imagem de você mesmo, há medo apenas.

Pergunta: Continuamos a projetar uma imagem de nós mesmos mesmo quando estamos a sós?

Jean Klein: Mesmo então você objetifica a você mesmo como uma imagem. O que você realmente sabe sobre você mesmo? Você apenas se conhece nas dituações, em todas as diversas qualificações. Está só, e projeta uma idéia de uma mulher casada, o de uma mãe com um filho, ou de uma mulher que não é amada. Esta imagem já estimula uma reação emocional, química, neurológica, que, por sua vez, gera o sentimento de ser limitado, localizado em alguma parte. Esta localização estimula a tensão. E o que acontece então? Você tenta escapar desta sensação de tensão. Você lê um livro, vai ao cinema, telefona para um amigo. Toda esta atividade é compensação.
Você deve ver que o que chama “você mesmo” é apenas a projeção de uma imagem, que existe unicamente porque você a vêr. Você é o que vê, o conhecedor desta imagem. Você conhece todos os seus medos e sua insegurança. No momento em que você vê isto, você está fora do processo de projeção. E como a imagem é apenas energia em movimento, quando pára de alimentá-la, ela morre.

Pergunta: Mas a mente está sempre aderida a algo. Não compreendo como posso ir desta situação para a liberdade da qual você fala.

Jean Klein: Aceite sua mente. Deixe-a existir. Não seja contra ela, não lhe faça violência. Simplesmente, aceite-a. A aceitação lhe mostrará que você ainda quer controlá-la, para dar vida a certa direção. E assim você perde a possibilidade de viver realmente. A vida aflora no deixar ir.



De: "A Simplicidade de Ser" dialogos com Hean Klein

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