Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Bem-aventurança



"Pergunta: Se eu sou livre, porque estou em um corpo?

Maharaj: Voce não está no corpo, o corpo está em você! A mente está em você. Acontecem a você. Existem porque os acha interessantes. A sua própria natureza tem a capacidade infinita de desfrutar. Está cheia de animação e afeto. Ela derrama seu brilho em tudo o que entra no seu foco de consciência, e não exclui nada. Não conhece nem o mal nem a feiúra; ela espera, confia, ama. Você não sabe quanto perde por não conhecer seu próprio ser real. Você não é nem o corpo nem a mente, nem o combustível nem o fogo. Eles aparecem e desaparecem segundo suas próprias leis.

Você ama o próprio ser, isso que você é, e tudo o que faz o faz pela sua própria felicidade. O seu impulso básico é encontrá-lo, conhecê-lo, apreciá-lo. Você ama a si mesmo desde tempo imemorial, mas nunca sabiamente. Use o corpo e a mente sabiamente ao serviço do ser, isso é tudo. Seja fiel a seu próprio ser e o ame absolutamente. Não finja amar os demais como a si mesmo. A menos que os compreenda como um consigo mesmo, não poderá amá-los. Não finja ser o que não é, não recuse ser o que você é. O amor aos demais é o resultado do autoconhecimento, não sua causa. Nenhuma virtude é genuína sem a autorrealização. Quando souber, sem qualquer dúvida, que a mesma vida flui através de tudo o que existe, e que você é esta vida, você amará tudo, natural e espontaneamente. Quando compreender a profundidade e a plenitude do amor a si mesmo, saberá que cada ser vivo e o universo inteiro estão incluídos em seu afeto. Mas, quando você olhar para qualquer coisa como separada de você, não poderá amá-la porque a teme. A alienação causa o medo e o medo aumenta a alienação. É um círculo vicioso. Apenas a autorrealização poderá rompê-lo. Busque-a resolutamente."



De Eu Sou Aquilo


Você é Rama, Eu sou Rama


"Diferentes tipos de pessoas vêm a Maharaj com diferentes motivos. Normalmente, ele pede ao novo visitante para falar algo sobre si mesmo – seus antecedentes familiares, sua ocupação ou profissão, o período de tempo em que esteve interessado na busca espiritual, o tipo de Sadhana que ele tem feito e as razões específicas para sua visita. A intenção de Maharaj, obviamente, é descobrir de que maneira e através de que abordagem poderia ajudar a cada visitante de forma pessoal e, ao mesmo tempo, assegurar que o diálogo seja também esclarecedor para outros visitantes.

A maioria dos visitantes expõe brevemente os fatos solicitados sobre si mesmos e muitos deles dizem ter lido seu livro "Eu Sou Aquilo" e que, desde então, desejam sentar-se a seus pés e escutá-lo. Em tais casos, Maharaj sorriria e acenaria com a cabeça. Se alguém quisesse perguntar questões específicas, Maharaj pediria a ele para sentar mais próximo para que o diálogo pudesse ser conduzido mais facilmente. Aqueles que não tinham perguntas, esperava-se que sentassem mais atrás.

Em certa ocasião em que a conversa estava por começar, entraram dois cavalheiros de meia-idade que apresentaram seus respeitos a Maharaj e sentaram. Um deles falou a Maharaj que era um alto funcionário do Governo e que não tinha um interesse particular em assuntos espirituais. Tinha ido lá apenas para levar seu irmão, o qual estava profundamente interessado. Depois de apresentar seu companheiro como irmão, saiu.

Então, o irmão tomou a palavra e falou a Maharaj que havia tido um Guru por muitos anos, mas ele tinha morrido. Tinha recebido do Guru um Nama Mantra cuja repetição, tão freqüente quanto possível, era a melhor Sadhana, e que ele estava seguindo as instruções de seu Guru. Disse que tinha alcançado um estágio onde acreditava que tudo era Rama e que Rama estava em tudo, e que ele tinha atingido através desta Sadhana uma paz e uma alegria não descritíveis em palavras. Tudo isto foi declarado por ele como se fizesse uma grande revelação para o benefício da audiência diante ele, incluindo o próprio Maharaj. Depois desta narrativa, ele olhou em volta para ver o efeito criado nos ouvintes. Então, com uma auto-satisfação complacente, sentou-se com os olhos fechados, sorrindo para si mesmo.

Maharaj, calado e aparentemente sereno, mas com um brilho cintilante em seus olhos que os freqüentadores regulares conheciam tão bem, perguntou ao visitante polidamente se ele podia ajudá-lo de algum modo. Como resposta, o cavalheiro, movendo o braço direito em um gesto de resignação, disse que não queria nada de ninguém e que ele tinha vindo ver Maharaj apenas porque diversas pessoas tinham insistido para que ele estivesse presente ao menos a uma sessão de suas conversas – e ele estava ali!

Maharaj, então, perguntou ao visitante se havia qualquer propósito específico em sua Sadhana e o que ele esperava alcançar dela, no caso de ter algum objetivo.

Visitante: Quando sento em meditação, freqüentemente obtenho belas visões de meu amado Senhor Rama, e fico envolvido em glória.

Maharaj: E quando você não está em meditação?

V: Penso no Senhor e o vejo em todos e em tudo. (Maharaj escutou a resposta com uma expressão divertida e, novamente, havia um brilho em seus olhos. Nós, os visitantes regulares, sabíamos o que estava por vir, pois o brilho freqüentemente precede uma arrancada verbal de Maharaj, a qual ele, algumas vezes, utiliza para dissipar vãs presunções e destruir ilusões. Seus lábios, então, fizeram a pergunta.)

M: E o que você quer dizer por ‘Rama’?

V: Eu não entendi a pergunta. Rama é Rama.

M: Quando você vê Rama em mim, Rama em um cão e Rama em uma flor, o que você quer dizer exatamente por Rama? E como exatamente você vê Rama? Em sua tradicional postura com um arco em seus ombros e flechas em sua aljava?

V: (Um pouco confuso) Sim, creio que sim.

M: E a paz e alegria que você sente, quando você senta em meditação e obtém visões de Rama, seria algo como a paz e a alegria que alguém sentiria quando, depois de uma longa e cansativa caminhada sob um sol abrasador, pudesse descansar à sombra de uma árvore acolhedora, desfrutar da brisa que sopra e beber um pouco de água fria?

V: Você não pode realmente comparar os dois, porque em um caso se trata de algo físico e, no outro, eu diria, algo mental ou psíquico.

M: Em qualquer caso, sua Sadhana o habilitaria a ter um entendimento claro de sua verdadeira natureza?

V: Para que esta discussão? Rama é Deus e eu sou apenas um pobre ser humano que a Ele se rendeu.

M: A rendição é uma Sadhana muito boa e efetiva por si mesma. Mas devemos entender claramente o que a ‘rendição’ significa realmente, embora este seja um tema à parte em si mesmo. Você está ciente que Rama, embora um príncipe de nascimento, não foi mais que um ser humano comum como você, e que ele não se converteu em deus até ser devidamente iniciado e instruído no conhecimento pelo sábio Vasishtha? E qual foi o ensinamento que Vasishtha transmitiu ao jovem Rama? Não foi o Atma-Jnana, o conhecimento do ser, o conhecimento de nossa verdadeira natureza?

Eu sugeriria a você que jogasse fora todos os conceitos ilusórios que você reuniu durante todos estes anos e começasse com seu próprio ser. Pense em torno do seguinte: Qual é minha verdadeira natureza? Qual o ‘capital’ com o qual nasci e que comigo permaneceu – fiel e imutável – desde o momento em que tive consciência de que existo? Como adquiri esta forma física junto com o Prana (a força vital) e a consciência, a qual deu-me o sentido de presença? Quanto tempo tudo isto durará? O que era ‘eu’ antes que este corpo começasse a existir, e o que será o ‘eu’ depois que este corpo se desintegrar? Quem foi que realmente ‘nasceu’ e quem ‘morrerá’? Que sou eu? Foi este conhecimento que converteu Rama de ser humano em deus.

A esta altura da conversa, o visitante já havia compreendido que alguma coisa estava faltando em sua Sadhana, como a havia praticado, sem nunca ter dado importância ao propósito supremo de sua busca espiritual. Ele abandonou sua postura pretensiosa de ser um iluminado, e muito humildemente solicitou a Maharaj a permissão para visitá-lo novamente durante os poucos dias em que estaria em Bombaim. Maharaj, amorosamente, disse-lhe que a sinceridade e intensidade de seu desejo de visitá-lo era toda a permissão que necessitava."


Sinais do Absoluto




quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

A prova da verdade





"Poderia haver alguma prova da verdade? Maharaj, em algumas ocasiões, propunha esta questão, como se para si mesmo. Poderia a verdade ser compreendida intelectualmente?
Além de um intelecto bem preparado, diz Maharaj, o que busca deve ter fé para habilitá-lo a compreender os fundamentos básicos da verdade. E a fé deve ser do tipo que possa aceitar as palavras do Guru como a própria verdade. A fé é o primeiro passo, e nenhum progresso mais é possível a menos que tal passo seja dado.
Há pessoas de mente simples que, embora não dotadas com um intelecto afiado, têm abundante fé. Maharaj dá a elas um Mantra e pede para que o cantem e nele meditem até que suas psiques estejam purificadas o suficiente para receber o conhecimento.
Com os intelectuais, Maharaj tem que tratar diferentemente. O intelectual entende o que as várias religiões propagam, os códigos morais e éticos que prescrevem e, também, os conceitos metafísicos que esboçam; mas permanece não iluminado. O que ele realmente busca é a verdade, o fator constante que não está sujeito a qualquer mudança. E, além disso, quer provas, mas não é capaz de dizer qual o tipo de prova que o satisfaria. A prova, como tal, seria, por sua vez, algo sujeito ao espaço e ao tempo, e ele é inteligente o bastante para saber disto. A verdade, para ser verdade, deve ser atemporal e ilimitada. Maharaj diz que qualquer pessoa inteligente deve admitir que ‘eu sou’, o sentido de presença consciente, de ‘ser’, é a única verdade que todo ser sensível conhece, e que esta é a única ‘prova’ que se pode ter. E, ainda, a mera existência não pode ser comparada com a verdade pela simples razão de que a própria existência não é atemporal e ilimitada como a Realidade.
Maharaj, em suas conversas, lança luz abundante sobre este beco sem saída. Um homem cego poderia dizer: Prove-me que as cores existem, apenas então acreditarei em toda sua atraente descrição do arco-íris. Sempre que tais perguntas são propostas a Maharaj, ele reage a elas dizendo: Prove-me que há algo como Bombaim ou Londres ou Nova Iorque! Em qualquer parte, diz ele, é a mesma terra, ar, água, fogo e céu. Em outras palavras, não se pode buscar a verdade como um objeto nem se pode descrevê-la. Ela poderia ser apenas sugerida ou indicada, mas não expressa em palavras, porque a verdade não pode ser concebida. Qualquer coisa concebida será um objeto e a verdade não é um objeto. Como Maharaj o expressou: Você não pode ‘comprar’ a verdade como algo que fosse, de forma impositiva, certificado e selado como ‘Verdade’. Qualquer tentativa de encontrar a prova da verdade envolveria uma divisão da mente em sujeito e objeto e, então, a resposta não seria a verdade, porque não há nada objetivo sobre a verdade, a qual, essencialmente, é pura subjetividade.
Todo o processo, diz Maharaj, é como um cão que persegue seu próprio rabo. Na busca da solução para este enigma, deve-se analisar o próprio problema. Quem quer a prova da Verdade ou da Realidade? Entendemos com claridade o que somos? Toda existência é objetiva. Todos nós “existimos” como objetos apenas, como meras aparências na consciência que nos reconhece. Há realmente qualquer prova que ‘nós’ (que buscamos a prova da Realidade) mesmos existimos, exceto como objetos de conhecimento na mente de um outro?
Quando buscamos a prova da verdade, o que estamos tentando fazer é equivalente à sombra que busca a prova da substância! Maharaj, portanto, encoraja-nos a ver o falso como falso, e então não mais existirá busca pela verdade. Você entendeu o que eu quis dizer? Ele pergunta. Você sentiu intuitivamente qual é a posição? Aquele que é buscado é o próprio buscador! Um olho pode ver a si mesmo? Por favor, entenda, diz ele: Atemporalidade, infinitude, não reconhecíveis sensorialmente, é o que nós somos; temporalidade, finitude, reconhecíveis sensorialmente, é o que nós parecemos ser como objetos separados. Considere o que você era antes de adquirir a forma física. Você necessitaria de qualquer prova sobre alguma coisa então? O problema de uma prova surge apenas na existência relativa, e qualquer prova fornecida dentro dos parâmetros da existência relativa pode ser apenas uma inverdade. "


Uppaluri Gopala Krishnamurti "UG"


"Meu ensino, se essa é a palavra que você quer usar, não tem copyrights. Você é livre para reproduzir, distribuir, interpretar como quiser, distorcer, fazer o que você quiser, mesmo alegar autoria, sem meu consentimento ou permissão de ninguém." U.G.


Para os chamados buscadores de Deus, Felicidade ou Iluminação, este livro tem muito pouco que o recomende. Mas, para aqueles que se cansaram da busca e desenvolveram um ceticismo equilibrado, este pequeno volume pode ter valor inestimável.

Esta é a história de um homem que teve tudo - consideração, riqueza, cultura, fama, viagens, carreira - e desistiu de tudo para encontrar por si mesmo a resposta à uma questão que o queimava por dentro: "há realmente algo como liberdade, iluminação ou liberação atrás de todas as abstrações que as religiões nos deram?"

Ele nunca encontrou uma resposta. Não há respostas a questões como essa.

U.G. encaixou a filosofia em um molde inteiramente novo. Para ele, a filosofia não é nem o amor à sabedoria nem a evitação do erro, mas o desaparecimento de todas as questões filosóficas.

Diz U.G.: "Quando todas as questões se resolvem a apenas uma, a sua questão, então essa questão precisa detonar, explodir e desaparecer inteiramente, deixando atrás apenas um organismo biológico funcionando suavemente, livre da distorção e interferência da estrutura separativa do pensamento."

A mensagem de U.G. é chocante:


"Estamos todos no trem errado, na trilha errada, indo na direção errada."

Quando chegar a hora de encarar a catástrofe da presente crise do homem, você encontrará U.G. no primeiro lugar da fila, pronto e capaz de demolir os nossos pressupostos tão cuidadosamente construídos, para nós tão queridos e consoladores.

Uma amostra de U.G.: 

"Fazer amor é guerra; causa-efeito é o lema de mentes confusas; yoga e dietas saudáveis (yoga and health foods) destroem o corpo; o corpo é imortal, e não o espírito; não há comunismo na Rússia nem liberdade na América, e nenhuma espiritualidade na India; serviço humanitário é um total cultivo do ego; Jesus foi outro judeu equivocado, e o Buda foi um excêntrico; mútuo terror, não amor, salvará a humanidade; ir à igreja ou ir ao bar para um drink são idênticos; não há nada dentro de você exceto medo; comunicação é impossível entre seres humanos; Deus, Amor, Felicidade, o inconsciente, morte, reencarnação e alma são invenções de nossa rica imaginação; Freud é a fraude do século 20, enquanto J. Krishnamurti é sua maior impostura."
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A boa vontade desse homem sem medo para desprezar todo o conhecimento acumulado e a sabedoria do passado é nada menos que estupenda. Neste particular ele é um colosso, uma espécie de "Shiva" andante e falante, pronto para destruir tudo de modo que a vida possa mover-se com novo vigor e liberdade.

Seu cruel e incessante ataque às nossas mais queridas idéias e instituições atinge não menos do que uma insurreição na consciência; uma superestrutura corrupta, podre em seu núcleo, é colocada à parte sem a menor cerimônia, e nada é colocado em seu lugar.

Demonstrando grande prazer no ato da completa destruição, U.G. não oferece nada a seus ouvintes, ao contrário, retira deles tudo que eles acumularam laboriosa e inconscientemente. Se o velho deve morrer para que surja o novo, então U.G. é, certamente, o arauto de um novo começo para o homem.

A sociedade que, como apontou Aldous Huxley, é organizada em total desamor, não pode possuir qualquer lugar para um homem livre como U.G. Krishnamurti.

Ele não cabe em qualquer estrutura social, espiritual ou secular conhecida. A sociedade utiliza seus membros para assegurar sua própria continuidade, sentindo-se ameaçada por U.G., um desestabilizador convicto que não tem nada a proteger, nenhum seguidor para satisfazer, nenhum interesse em respeitabilidade, e que fala as verdades mais duras de se ouvir, não importando quais forem as conseqüências.

U.G. é um homem "acabado". Nele não há qualquer busca, e portanto nenhum destino. Sua vida agora consiste de uma série de eventos desconexos. Não há nenhum centro em sua vida, ninguém "conduzindo" sua vida, nenhuma sombra interior, nenhum "fantasma na máquina". O que existe é uma máquina biológica altamente inteligente e sensível, funcionando suavemente; você procura em vão pela evidência de um self, psique ou ego. Há apenas o simples funcionamento de um organismo sensível.

É uma pequena maravilha que um tal homem "acabado" possa descartar o banal, os lugares-comuns da ciência, religião, política e filosofia, indo diretamente no núcleo dos assuntos, apresentando seu caso de maneira simples, sem medo, vigorosa e sem corroboração, (and without corroboration) a qualquer um que queira ouvir.

O sujeito desta obra, Mr. Uppaluri Gopala Krishnamurti, nasceu em 9 de julho de 1918, na aldeia de Masulipatam, no sul da India, filho de um casal de classe média da casta Brâmane.

Até onde sabemos, não houve qualquer evento excepcional cercando seu nascimento, celestial ou de outro tipo. Sua mãe morreu de febre puerperal sete dias após dar á luz seu primeiro e único filho. Em seu leito de morte, ela implorou à avó materna do menino que tomasse cuidado especial dele, acrescentando que tinha certeza de que ele teria um grande e importante destino pela frente.

Seu avô materno tomou esssa predição muito seriamente, e prometeu dar ao menino todos os benefícios de um abastado "príncipe" brâmane. Seu pai casou-se de novo, deixando U.G. aos cuidados dos avós.

Seu avô era um ardente Teosofista e conheceu J. Krishnamurti, Annie Besant, Cel. Alcott, e os outros líderes da Sociedade Teosófica. U.G. encontrou todas essas pessoas em sua juventude e teve a maior parte de sua formação em volta de Adyar, o quartel-general da Sociedade Teosófica em Madras, na Índia.

Ali havia infindáveis discussões sobre filosofia, religiões comparadas, ocultismo e metafísica. Cada parede da casa era coberta com quadros de famosos líderes Hindus e Teosóficos, especialmente Jiddu Krishnamurti.

A infância de U.G. foi pautada pelo saber religioso, discurso filosófico e a influência espiritual de vários personagens, tudo isso interessando profundamente o menino.

Seu avô levou-o por toda a Índia a visitar lugares sagrados, ashramas, retiros e centros de ensino religioso. Ele passou diversos verões no Himalaya, estudando yoga clássica com um famoso adepto, Swami Sivananda.

Foi nesses verdes anos de sua vida que U.G. começou a sentir que "algo estava errado em algum lugar", referindo-se a toda a tradição religiosa em que ele tinha sido imerso quase desde seu nascimento. Ele presenciou certos fatos que o decepcionaram, e começou a questionar a autoridade dos outros sobre ele. Então, ele desistiu da prática da yoga, e foi desenvolvendo um sadio ceticismo sobre tudo o que era considerado como espiritual em sua adolescência.

Rompendo com as tradições bramânicas, ele arrancou de seu corpo as vestes sagradas, símbolo da herança religiosa, e tornou-se um jovem cínico, rejeitando as convenções espirituais de sua cultura e questionando tudo para si mesmo. Ele mostrava cada vez menos respeito pelas instituições e costumes religiosos considerados tão importantes por sua família e pela comunidade, e um crescente desdém pela herança religiosa.

Com vinte e um anos, U.G. tinha se tornado um estudante secular quase ateu, estudando filosofia e psicologia ocidental na Universidade de Madras. A essa altura, ele foi convidado por uma amigo para ir com ele visitar o famoso "Sábio de Arunachala", em seu ashram em Tiruvannamalai, não muito longe do sul de Madras.

No ano de 1939, U.G., relutantemente, aceitou o convite. Por essa época, ele estava convencido de que todos os homens sagrados eram impostores. Mas, para sua surpresa, Ramana Maharshi era diferente.

O Bhagavan, um homem sereno, da maior sabedoria e integridade, não poderia causar uma impressão mais forte no jovem U.G. Ele raramente falava àqueles que dele se aproximavam com questões.

U.G. aproximou-se do mestre apreensivamente, fazendo-lhe três perguntas:

"Existe algo como iluminação"?, perguntou U.G.

"Sim, existe", respondeu o mestre.

"Existe nela quaisquer tipos de níveis?"

O Bhagavan respondeu:

"Não, não há níveis. É uma coisa só. Ou você está ali ou não está absolutamente."

Finalmente, U.G. perguntou:

"Essa coisa chamada iluminação, você pode me dar?"

Olhando o sério jovem bem nos olhos, ele respondeu:

"Sim, eu posso lhe dar, mas você pode pegar?"

Daí em diante, U.G. ficou obcecado por essa resposta e implacavelmente perguntava a si mesmo: "O que é isso que eu não posso pegar?". Ele resolveu então que, "haveria de pegar" o que quer fosse aquilo sobre o que Maharshi estava falando.

Mais tarde ele disse que esse encontro mudou o curso de sua vida e "recolocou-o nos trilhos". Ele nunca mais visitou o Bhagavan novamente. Ramana Maharshi morreu in 1951, de câncer, e é considerado um dos maiores sábios que a Índia jamais produziu.

Pelos seus 20 anos, o sexo começou a ser um problema para U.G. Embora intermitentemente prometendo privar-se de sexo e casamento em consideração a uma vida de celibato religioso, ele pensava eventualmente que sexo era um impulso natural, que não era sábio suprimí-lo, e que, de qualquer modo, a sociedade tinha providenciado instituições legítimas para preencher esse anseio.

Ele escolheu como sua noiva uma das três belas jovens de origem Brâmane que sua avó havia selecionado para ele, como possíveis companheiras adequadas. Mais tarde ele foi levado a dizer, "Eu acordei na manhã seguinte ao meu casamento e soube sem dúvida que havia cometido o maior erro de minha vida".

Ele permaneceu casado por dezessete anos, cuidando de quatro filhos. Desde o começo ele quis separar-se, mas os filhos foram chegando e o casamento continuou. Seu filho mais velho, Vasant, teve poliomielite, e U.G. decidiu mudar-se com a família para os Estados Unidos, a fim de que o jovem pudesse receber o melhor tratamento. Nesse processo ele gastou praticamente toda a fortuna que ele recebera de seu avô. Ele tinha esperança de sua esposa pudesse obter educação apropriada para encontrar um emprego, ficando numa posição independente, de maneira que ele pudesse ir embora sozinho. Realmente ele conseguiu isto, achando-lhe um emprego com a World Book Encyclopedia

Por essa época toda sua fortuna tinha ido embora, e ele estava farto de ser um orador público (primeiro como representante da Sociedade Teosófica e depois como orador independente), seu casamento tinha terminado, e ele estava perdendo o interesse na batalha para ser alguém neste mundo.

Pelo início de seus quarenta anos ele estava quebrado, sozinho e esquecido por seus antigos amigos e associados. Então ele começou a peregrinar, primeiro em Nova York, depois em Londres, onde ficou reduzido a passar seus dias na Biblioteca Pública de Londres, para escapar dos rigores do inverno, dando aulas de culinária indiana por algum dinheiro.

Sua peregrinação prosseguiu em Paris. Desse período U.G. disse mais tarde, "Eu era como uma folha soprada pelos ventos inconstantes, sem passado nem futuro, nem família ou carreira, nem qualquer tipo de preenchimento espiritual. Lentamente, perdia a condição de fazer qualquer coisa.Eu não estava rejeitando ou renunciando ao mundo; ele flutuava adiante de mim e eu era não era capaz de segurá-lo, estava privado de qualquer força de vontade."

Quebrado e sozinho, ele foi até Gênova onde ele tinha deixado alguns francos em uma velha conta, suficiente apenas para mantê-lo por uns poucos dias. Então essa pequena quantia acabou, ele ficou em dívida com o aluguel, e ficou sem ter onde ir.

Decidiu então ir ao Consulado Indiano em Gênova, e pedir para ser repatriado para a India.
"Eu não tinha dinheiro, amigos, e nenhuma vontade restara. Achei que ao menos da Índia eles não poderiam me expulsar. Afinal, apesar de tudo eu era um cidadão; talvez eu pudesse apenas sentar debaixo de uma árvore banyan em algum lugar e alguém me alimentasse. "

Assim, com quarenta e cinco anos, completamente falido aos olhos do mundo, sem um penny e sozinho, ele caminhou até o Consulado e pediu para ser repatriado para a Índia. Ele tinha pouca chance. Mas isso foi um ponto de mutação em sua vida.

Ele foi ao Consulado Oficial da Índia e começou a contar sua triste história ao Cônsul. Quanto mais ele falava, mais fascinado ficava o Cônsul. Logo o escritório inteiro ficou em completo silêncio ouvindo sua extraordinária narrativa. A secretária e tradutora do Consulado, Valentine de Kerven, estava ouvindo atentamente. No início de seus sessenta anos, ela tinha muita experiência do mundo, e encheu-se de piedade pelo estranho e carismático homem à sua frente. Ninguém no escritório sabia o que fazer com ele.

Valentine, que conhecia a adversidade por si mesma, simpatizou com aquele homem errante e destituído, e logo ofereceu-lhe um lar na Europa. Ela tinha uma pequena herança e pensão que seria suficiente para ambos. U.G. , relutante em voltar para Índia e ter que encarar sua família, amigos e suas pobres perspectivas, aceitou, cheio de gratidão, o oferecimento.

Os próximos quatro anos (1963-67) foram dias pacíficos para ambos. Ela deixou seu emprego no consulado e viveu calmamente com U.G., passando temporadas na Itália, no sul da França, Paris e Suiça. Mais tarde começaram a passar os invernos no sul da Índia, onde as coisas eram relativamente baratas, e o tempo mais saudável.

Durante esses anos, U.G, como ele declarou mais tarde, não fez nada. " Eu dormia, lia o Time Magazine, e fazia caminhadas com Valentine ou sozinho. Isso era tudo." Ele estava numa espécie de período de incubação. Sua procura estava próxima do fim. Ele nunca mencionou a Valentine os poderes ocultos, experiências espirituais e fundamentos religiosos que haviam constituído grande parte de sua vida. Eles viveram simples e quietamente como donos de casa viajantes (as private migrating householders).

Eles foram passar os meses de verão no sótão de um antigo chalé de 400 anos de idade, na chamosa vila suiça de Saanen. Por alguma razão J. Krishnamurti decidiu dar uma série de palestras em uma enorme tenda levantada nas vizinhanças da mesma pequena cidade. Buscadores religiosos, yogis, filósofos e intelectuais do ocidente e do oriente começaram a aparecer na pequena vila para presenciar suas palestras, para dar e receber aulas de yoga, e trocar idéias sobre assuntos espirituais e filosóficos.

U.G. e Valentine mantiveram uma respeitável distância, não desejando participar da crescente cena que se assemelhava mais e mais a um circo. Nesse ambiente U.G. aproximou-se de seus quarenta e nove anos. Kowmara Nadi, uma famosa e respeitada astróloga de Madras, havia há muito tempo atrás predito que U.G. haveria de passar por uma profunda transformação em seu quadragésimo-nono aniversário. Aproximando-se esse dia, incontáveis coisas estranhas começaram a ocorrer com U.G. Algo radical e completamente inesperado estava para acontecer-lhe.

A partir dessa idade, U.G. começou a ter dores de cabeça recorrentes e dolorosas, e, não sabendo o que fazer, começou a tomar enormes quantidades de café e aspirina para enfrentar as terríveis dores. Por essa época ele começou também a parecer mais jovem, ao invés de mais velho. Naquela época, com quarenta e nove anos, ele parecia um homem de setenta ou oitenta anos. Após essa idade, ele começou a envelhecer normalmente, embora ele ainda aparente ser muito mais jovem do que seus atuais sessenta e sete anos (este prefácio foi escrito aproximadamente em 1985).

Entre essas dores de cabeça ele passaria por experiências extraordinárias onde, como ele mais tarde descreveu, "Eu sentia como se minha cabeça estivesse faltando". Surgindo simultaneamente com esses estranhos fenômenos, vieram os assim chamados poderes ocultos, aos quais U.G. se referia com poderes e instintos naturais do homem. Uma pessoa totalmente desconhecida podia andar pela sala e U.G. podia ver seu passado inteiro, como se estivesse lendo uma biografia. Ele podia dar uma olhada na palma da mão de um estranho e instantaneamente saber seu futuro.

Todos os poderes ocultos começaram a se manifestar nele gradualmente após a idade de trinta e cinco anos. "Eu nunca usei esses poderes para nada; eles simplesmente estavam lá. Eu sabia que eles não tinham grande importância e simplesmente deixei-os ali."

Coisas continuaram a acontecer dentro dele, e U.G., preocupado que Valentine pudesse concluir que ele estava louco, nada mencionou a ela ou a qualquer outro sobre esses assuntos. Pouco antes de completar quarenta e nove anos, ele começou a ter o que mais tarde chamou de "visão panorâmica", um jeito de ver em que o campo de visão aparecia em volta dos olhos abertos em quase 360 graus de largura, enquando o observador desaparecia inteiramente e os objetos se moviam passando direto através de sua cabeça e corpo (while the viewer or observer disappeared entirely and objects moved right through the head and body).

O organismo inteiro, desconhecido a U.G. nessa época, estava evidentemente preparando-se para alguma calamidade ou transformação de enormes proporções. U.G. não disse nada. Na manhã de 9 de julho de 1967, data de seu aniversário de quarenta e nove anos, U.G. foi com um amigo para ouvir J. Krishnamurti em uma palestra pública numa grande tenda nos arredores de Saanen, a aldeia onde ele e Valentine tinham morado por algum tempo.

U.G. contratou com um editor para escrever sua autobiografia. Enquanto trabalhava no livro, U.G. chegou à parte que descrevia sua associação com J. Krishnamurti. Ele não se lembrava muito do que sentira perante o reverenciado "Instrutor do Mundo" da Sociedade Teosófica. Ele havia perdido completamente o contato com J. Krishnamurti por muito tempo e não tinha opinião definida sobre ele. Então ele decidiu ir, naquela dia, assistir a palestra matutina de J. Krishnamurti para "refrescar a memória", como ele disse mais tarde.

No meio da palestra. U.G. ouviu a descrição que J. Krishnamurti fazia de um homem livre, e de repente percebeu que era ele mesmo que estava sendo descrito. "Que diabo estou fazendo ouvindo alguém descrever como estou funcionando?" Liberdade na consciência tornou-se naquele momento não mais algo "lá fora", mas simplesmente o jeito que ele estava funcionando psicologicamente naquele exato momento. Isso o chocou tanto que ele deixou a tenda completamente atordoado e caminhou sozinho em direção ao chalé, do outro lado do vale. Aproximando-se do chalé, ele parou para descansar num banco, de onde se avistavam os belos rios e as montanhas do Vale de Saanen.

Sentado sozinho no banco, olhando o vale verde e os picos escarpados de Oberland, ocorreu-lhe:

"Eu tenho procurado por toda parte para descobrir uma resposta para minha pergunta, 'existe iluminação?', mas nunca questionei a busca propriamente dita.

Porque implicitamente eu assumi que esse objetivo, iluminação, existe, eu tive que procurar, e é a própria busca que estava me sufocando e me afastando de meu estado natural.

Não há tal coisa como iluminação espiritual ou psicológica porque não existem essas coisas, espírito ou psique, absolutamente.

Fui um maldito idiota (damn fool) toda a minha vida, procurando por aquilo que não existe.

Minha busca terminou."



Agradecemos ao pessoal do site Desenredo pela tradução desse artigo.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A NATUREZA DO HOMEM


"Chegamos agora à essência da teoria: a natureza do homem. Independente do que o homem pensa a respeito da realidade do mundo ou da existência de Deus, ele sabe por certo que ele existe. E é com o propósito de entender e, ao mesmo tempo, aperfeiçoar a si mesmo, que ele estuda e busca a instrução espiritual.

O indivíduo que identifica a sua própria existência com a existência da vida no corpo físico, e o toma como “eu”, é chamado de ego. O Eu Real, que é pura Consciência, não tem sentimento de ego ligado ao corpo. Nem pode o corpo físico, que é por si só inerte, ter esse sentimento de ego. Entre os dois – ou seja, entre o Eu ou pura Consciência e o corpo físico inerte – surge misteriosamente a sensação de ego, ou noção de ‘eu’, este híbrido que não é nenhum dos dois e que floresce como ser individual. Este ego ou ser individual é a raiz de tudo o que é fútil e desagradável na vida. Por isso ele deve ser destruído por qualquer meio possível; então permanece apenas o brilho d’Aquilo que sempre é. Isso é a Libertação, Iluminação ou Auto-Realização.

Pergunta : O Bhagavan muitas vezes diz: “o mundo não é exterior a você” ou, “tudo depende de você”, ou “o que existe fora de você?” Para mim isso tudo é muito enigmático. O mundo existia antes de eu nascer e vai continuar a existir depois da minha morte, assim como continuou a existir depois da morte tantos que viveram antes de mim.

Ramana : Alguma vez eu disse que o mundo existe por sua causa? Eu apenas lhe coloquei a questão ‘o que existe além de você mesmo?’ Você deve compreender que ‘você mesmo’ não se refere ao corpo físico nem ao corpo sutil, mas ao Eu Real.
O que lhe foi dito é que uma vez que você conheça o Eu Real dentro do qual todas as idéias existem, incluindo a idéia de ‘eu mesmo’, ‘outros como eu’ e ‘mundo’, você pode compreender a verdade de que existe uma Realidade, uma Verdade Suprema que é o Eu Real de todo o mundo que você agora percebe, o Eu de todos os eus, o Real, o Supremo, o Eu eterno, distinto do ego ou ser individual, que é impermanente. Você não deve confundir o ego, ou noção de corpo, com o verdadeiro Eu.

P.: Então o Bhagavan quer dizer que o Eu Real é Deus?

Nesta resposta o Bhagavan, como lhe era peculiar, voltou a discussão da teoria à prática. Apesar de o presente capítulo como um todo ser dedicado à teoria, parece apropriado continuar este diálogo para mostrar como a teoria era posta em prática.

R.: Você percebe a dificuldade disso? A auto-inquirição “Quem sou eu?” é uma técnica diferente da meditação “Eu sou Shiva” ou “eu sou Ele”. Eu prefiro enfatizar o autoconhecimento, porque você primeiro está preocupado consigo mesmo antes de querer saber do mundo ou seu Senhor. A meditação “Eu sou Ele” ou “Eu sou Brahman” é mais ou menos mental, mas a busca pelo Eu de que eu falo é um método direto, e de fato superior a ela. Pois, na medida em que você começa a busca pelo eu e vai se aprofundando, o Eu Real está lá esperando para lhe receber; então, o que quer que seja feito é feito por algo além, e você, como ser individual, não é responsável por isso. Neste processo são automaticamente abandonadas todas as dúvidas e discussões, assim como um homem que dorme esquece todas as suas preocupações naquele momento.

A discussão que segue mostra como Bhagavan permitia que se discutisse livremente as suas respostas quando o ouvinte não era convencido por elas.

Pergunta : Que certeza existe de que há algo lá esperando para me receber?

Ramana: Quando a pessoa é suficientemente madura ela se convence disso naturalmente.

P.: Como alcançar essa maturidade?

R.: Vários caminhos são ensinados. No entanto, qualquer que seja o desenvolvimento prévio da pessoa, a prática ardente da auto-inquirição o acelera.

P.: Mas isso é uma argumentação circular: eu sou forte o bastante para praticar a autoinquirição se eu sou maduro, e é a própria prática da auto-inquirição que me torna maduro.

Esta é uma objeção que aparecia freqüentemente de uma forma ou de outra, e a sua resposta mais uma vez enfatiza que o que é necessário é a prática e não a teoria.

R.: A mente tem dificuldade de entender isso. A mente quer uma teoria para se satisfazer. Na verdade, entretanto, o homem que ardentemente busca a Deus ou ao seu Eu verdadeiro não precisa de nenhuma teoria.

Todos são o Eu Real e são, de fato, infinitos. No entanto, cada um confunde o seu corpo com o Eu Real. Para se conhecer qualquer coisa precisa-se de uma iluminação, e esta só pode ser da natureza da Luz – no entanto, ela ilumina tanto a luz física quanto a escuridão física. Ou seja, esta Luz está além da luz e escuridão aparentes. Ela em si não é nenhuma das duas, mas é chamada de Luz porque ilumina ambas. Ela é infinita e é Consciência. A Consciência é o Eu do qual todos estão conscientes. Ninguém nunca está afastado do Eu Real, e portanto todos são de fato Auto-Realizados; o que acontece é que – e este é o grande mistério – as pessoas não têm consciência disso e buscam realizar o Eu Real. A Realização consiste apenas em se libertar da falsa noção de que não somos realizados. Não é nada novo a ser adquirido. Ela deve já existir, caso contrário ela não seria eterna, e apenas vale a pena se esforçar pelo que é eterno.
Uma vez que a falsa visão “eu sou o corpo” ou “eu não sou realizado” for removida apenas a Consciência Suprema ou Eu Real permanece, e é isso o que as pessoas chamam de “Realização” no seu estado atual de conhecimento. Mas a verdade é que a Realização é eterna e já existe aqui e agora.
A Consciência é conhecimento puro. A mente surge dela e é constituída de pensamentos.
A essência da mente é apenas atenção ou consciência. Entretanto, quando o ego nubla a mente, esta adota as funções de raciocínio, pensamento e percepção. A mente universal, não sendo limitada pelo ego, não tem nada exterior a si, e portanto ela é apenas consciência. É isso o que a Bíblia quer dizer com “EU SOU O QUE EU SOU”.
A mente que é dominada pelo ego tem sua força drenada e por isso é muito fraca para resistir a pensamentos perturbadores. A mente sem ego é feliz, como nós percebemos no sono profundo, sem sonhos. Portanto, claramente se percebe que perturbação e felicidade são apenas estados da mente.


Pergunta.: Quando eu procuro o “eu” eu não vejo nada.

Ramana.: Você diz isso porque você está acostumado a identificar o seu eu com o seu corpo e a sua visão com os seus olhos. O que existe para ser visto? E por quem? E como? Existe apenas uma Consciência e esta, quando se identifica com o corpo, projeta a si mesma através dos olhos e vê os objetos a sua volta. O indivíduo está limitado ao estado de vigília; ele espera ver algo diferente e aceita a autoridade dos seus sentidos. Ele não vai aceitar que aquele que vê, os objetos vistos, e o ato de ver são todos manifestações da mesma Consciência – o “Eu-Eu”. A prática da meditação ajuda a superar a ilusão de que o Eu Real é alguma coisa [objetiva] para ser vista. Na verdade não há nada para ver. Como você se reconhece agora? Você precisa por um espelho na sua frente para reconhecer a si mesmo?
A consciência em si é o “eu”. Realize-a e isto é a verdade.

P.: Quando eu investigo a origem dos pensamentos há a percepção do “eu”, mas isso não me satisfaz.

R.: Exatamente. Isso acontece porque essa percepção de “eu” está associada a uma forma, talvez a forma do corpo físico. Mas nada deveria ser associado ao Eu puro. O Eu Real é a Realidade pura em cuja luz brilha o corpo, o ego, e tudo mais. Quando todos os pensamentos são aquietados sobra apenas a pura Consciência.

P.: Como o ego surgiu?

Eis aqui uma questão que dá origem a intermináveis conjeturas, mas o Bhagavan, atendo-se rigorosamente à verdade da não-dualidade, recusa-se a admitir sua existência.

Ramana.: Não existe ego. Se existisse, você teria que admitir a co-existência de dois “eus” em você. Portanto, também não existe ignorância. Se você investigar dentro do Eu, a ignorância, que já é não-existente, vai ser vista como tal, e então você dirá que ela sumiu.

Às vezes o ouvinte tinha a impressão que a ausência de pensamentos é um mero “vazio mental”, e por isso o Bhagavan tinha o cuidado de alertá-los sobre esse ponto.

A ausência de pensamentos não significa um vazio. Alguém deve estar consciente desse vazio. Conhecimento e ignorância são duais e pertencem apenas à mente – o Eu Real está além de ambos. Ele é pura Luz. Não é necessário que um eu veja o outro. Não existem dois eus. O que não é o Eu é apenas não-Eu, e não pode ver o Eu. O Eu Real não possui visão ou audição, mas está além deles brilhando sozinho como pura Consciência.

O Bhagavan muitas vezes apontava a existência contínua do homem mesmo durante o sono sem sonhos como uma prova de que ele existe independente do ego e do sentimento de ter um corpo. Ele também se referia ao estado de sono profundo como um estado sem corpo e sem ego.

Pergunta: Eu não sei se o Eu é diferente do ego.

Ramana: Em que estado você estava quando dormia profundamente?

P.: Eu não sei.

R.: Quem não sabe? O eu do estado de vigília? Mas você não nega que existia durante o sono profundo, certo?

P.: Eu existia no sono profundo e existo agora, mas não sei quem estava em sono profundo.

R.: Exatamente! O homem no estado de vigília diz que ele não sabia de nada no estado de sono profundo. Agora ele vê objetos e sabe que ele existe, mas no sono profundo não havia objetos e nem o observador. No entanto, a mesma pessoa que fala agora existia também no sono profundo. Qual é a diferença entre esses dois estados? Agora existem os objetos e a atividade dos sentidos, enquanto que no sono profundo não havia. Surgiu uma nova entidade: o ego. O ego age através dos sentidos, percebe objetos, se confunde com o corpo, e afirma ser o Eu. Na realidade, aquilo que era no sono profundo continua a ser agora. O Eu Real é imutável. É o ego que surgiu entre os dois. O que surge e desaparece é o ego; o que permanece imutável é o Eu Real.

Tais exemplos às vezes davam ensejo à idéia equivocada de que o estado de Realização – ou permanência no Eu Real – que Bhagavan prescrevia, era um estado de inconsciência como o sono físico, e por isso ele buscava evitar essa idéia.

Ramana: A vigília, o sonho e o sono são apenas fases da mente. Eles não são o Eu Real. O Eu Real é a testemunha desses três estados. A sua verdadeira natureza continua existindo enquanto você dorme.

Pergunta: Mas nós somos aconselhados a não pegar no sono enquanto meditamos.

Ramana: O que você deve evitar é o torpor. O sono que se alterna com a vigília não é o verdadeiro sono; a vigília que se alterna com o sono não é a verdadeira vigília. Você está desperto agora? Não. O que você precisa fazer é acordar para o seu estado verdadeiro. Você não deveria nem cair no falso sono e nem ficar falsamente acordado.

Ainda que o Eu Real esteja presente no sono também, ele não é percebido neste estado. Ele não pode ser conhecido diretamente no sono. Deve-se primeiro realizá-lo no estado de vigília, pois ele é a nossa verdadeira natureza por trás dos três estados. O esforço deve ser feito no estado de vigília e o Eu Real deve ser realizado aqui e agora. Então ele será percebido como o Eu contínuo e intocado pela alternância vigília-sonho-sono.

Com efeito, um dos nomes do verdadeiro estado de um ser realizado é o ‘Quarto Estado’, que existe eternamente e está além dos três estados de vigília, sonho e sono. Ele écomparado ao estado de sono profundo pois, como este, é sem forma e não dual; no entanto, como mostra a citação acima, está longe de ser o mesmo. No Quarto Estado o ego é absorvido pela Consciência, enquanto que no sono ele fica imerso na inconsciência."

"Os Ensinamentos de Bhagavan Sri Ramana Maharshi em suas proprias palavras" de Arthur Osborne - Sri Ramanashram - Editora Advaita


quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Como um Jnani vê o mundo




"Uma visitante, aproveitando-se do fato de que era o último dia de sua visita a Bombaim, pediu a permissão de Maharaj para perguntar sobre o que ela chamou uma questão “boba”.


Maharaj: Todos os pensamentos, todos os desejos, santos ou profanos, vêm do ser. Todos eles dependem do desejo de ser feliz e, portanto, são baseados no sentido ‘eu sou’. Suas qualidades dependerão de nossa psique (Antahkarana) e do grau em que prevaleçam os três Gunas. Tamas produz limitação e perversões; Rajas produz energia e paixões; e Sattva produz harmonia e o impulso para fazer os outros felizes. Agora, qual sua pergunta?




Visitante: Todos estes dias – os quais se foram, desafortunadamente, rápidos demais – enquanto você estava falando e suas palavras estavam brotando como que por si mesmas, sem qualquer preparação anterior, perguntei-me sobre como você olha para os objetos que seus olhos vêem, incluindo as pessoas que estão sentadas diante de você. Como hoje é o último dia de minha presente visita, pensei em atrever-me a fazer esta pergunta um pouco boba.



Maharaj: O que a faz pensar que eu vejo vocês como nada mais que objetos? Você supõe que eu veja as coisas com um certo significado especial, um significado que lhe escapa. Mas esta não é realmente sua pergunta. Sua questão, essencialmente, parece ser: Como as coisas são percebidas por um Jnani que as vê como devem ser vistas?



Por favor, lembre, os objetos são, na realidade, a percepção que deles se tem. Reciprocamente, portanto, a percepção deles é o que os objetos são. Tente entender.



Quando um objeto é visto como um objeto, teria que existir um sujeito distinto do objeto. Como o Jnani percebe, não há nem o sujeito que vê nem o objeto que é visto; há apenas ‘visão’. Em outras palavras, a percepção do Jnani é anterior a qualquer interpretação pelas faculdades sensoriais. Mesmo se o processo normal de objetificação tiver acontecido, o Jnani, em sua perspectiva, tomou nota deste fato e vê o falso como falso. O Jnani, em sua visão não dividida, percebeu que, fisicamente, tanto o que vê quanto o visto são objetos, e que o funcionamento da própria consciência produz meramente efeitos na consciência. A produção e a percepção são realizadas pela consciência, na consciência. Tente entender isto.
Em resumo, a visão do Jnani é a visão total, ou visão interior, ou visão intuitiva, visão sem qualquer qualidade objetiva – e que é livre da escravidão.

A isto me refiro quando digo:

“Eu vejo, mas não vejo”.


E esta é a resposta boba para sua questão boba."






"Sinais do Absoluto" - Pointers from Nisargadatta Maharaj






segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Uma mente serena é tudo o que você necessita



"Pergunta: Não estou bem. Sinto-me particularmente fraco. O que faço?

Maharaj: Quem não está bem, você ou o corpo?

P: Meu corpo, certamente.

M: Ontem você se sentiu bem. O que se sentiu bem?

P: O corpo.

M: Você estava contente quando o corpo estava bem e está triste quando o corpo está mal. Quem está contente em um dia e triste no próximo?

P: A mente.

M: E quem conhece a mente que varia?

P: A mente.

M: A mente é o conhecedor. Quem conhece o conhecedor?

P: O conhecedor não se conhece a si mesmo?

M: A mente é descontínua. Repetidamente ela esquece, como no sono, desmaio ou distração. Deve existir algo contínuo para registrar a descontinuidade.

P: A mente recorda. Isto significa a continuidade.

M: A memória é sempre parcial, não confiável e evanescente. Não explica o forte sentido de identidade impregnando a consciência, o sentido ‘Eu sou’. Descubra o que está na raiz disto.

P: Por mais profundamente que eu olhe, encontro apenas a mente. Suas palavras ‘além da mente’ não me dão nenhum indício.

M: Enquanto olhar com a mente, você não pode ir além dela. Para ir além, você deve olhar para longe da mente e de seu conteúdo.

P: Em que direção devo olhar?

M: Todas as direções estão dentro da mente! Não estou lhe pedindo para olhar em alguma direção particular. Apenas desvie o olhar de tudo o que acontece em sua mente e traga-a ao sentimento ‘Eu sou’. O ‘Eu sou’ não é uma direção. É a negação de toda direção. Finalmente, mesmo o ‘Eu sou’ terá que desaparecer, pois você não necessita continuar afirmando o que é óbvio. Trazer a mente ao sentimento ‘Eu sou’ meramente a ajuda a afastá-la de tudo o mais.

P: Aonde tudo isto me levará?

M: Quando a mente se afastar de suas preocupações, ela se torna serena. Se você não perturba esta tranquilidade e permanece nela, você descobre que ela está permeada com uma luz e um amor nunca antes conhecidos; e, ao mesmo tempo, você a reconhece imediatamente como sua própria natureza. Uma vez que tenha passado por esta experiência, jamais será outra vez o mesmo homem; a mente revoltosa pode romper sua paz e destruir sua visão; mas ela está obrigada a retornar, desde que o esforço seja sustentado; até o dia em que todos os vínculos se rompem, as ilusões e apegos acabam, e a vida se torna supremamente concentrada no presente.
P: Qual diferença isto fará?
M: A mente não existe mais. Há apenas amor em ação.

P: Como reconhecerei este estado quando o atingir?
M: Não haverá medo.
P: Cercado por um mundo cheio de mistérios e perigos, como não ter medo?

M: Seu próprio pequeno corpo também está cheio de mistérios e perigos, ainda que você não esteja receoso dele, pois o toma como seu próprio. O que você não sabe é que o universo inteiro é seu corpo e você não necessita temê-lo. Você pode dizer que tem dois corpos: o pessoal e o universal. O pessoal vem e vai, o universal está sempre com você. Toda a criação é seu corpo universal. Você está tão cego pelo que é pessoal que você não vê o universal. Esta cegueira não terminará por si mesma – deve ser desfeita habilidosa e deliberadamente. Quando todas as ilusões são entendidas e abandonadas, você atinge a liberdade do erro e o estado perfeito no qual todas as distinções entre o pessoal e o universal não existem mais.

P: Sou uma pessoa e, portanto, limitada em espaço e tempo. Ocupo um espaço pequeno e duro uns poucos instantes; não posso conceber-me sendo o eterno e o que a tudo permeia.

M: Todavia, você é. À medida que você mergulhar dentro de você mesmo em busca de sua natureza verdadeira, você descobrirá que apenas seu corpo é pequeno e sua memória é curta, enquanto o vasto oceano da vida é seu.
P: As próprias palavras ‘eu’ e ‘universal’ são contraditórias. Uma exclui a outra.

M: Não é assim. O sentido de identidade permeia o universal. Busque e você descobrirá a Pessoa Universal que você é, e infinitamente mais. De qualquer modo, comece por compreender que o mundo está em você, não você no mundo.

P: Como pode ser isto? Sou apenas uma parte do mundo. Como pode o mundo todo estar contido na parte exceto como um reflexo, como em um espelho?

M: O que você diz é verdade. Seu corpo pessoal é uma parte no qual o todo está maravilhosamente refletido. Mas você também tem um corpo universal. Você não pode sequer dizer que você não o conhece, porque você o vê e o experimenta todo o tempo. Apenas você o chama ‘o mundo’ e o teme.

P: Sinto que conheço meu pequeno corpo, enquanto o outro eu não conheço, exceto através da ciência.

M: Seu pequeno corpo é cheio de mistérios e maravilhas as quais você não conhece. Aí também a ciência é seu único guia. A anatomia e a astronomia o descrevem.

P: Mesmo se aceito sua doutrina do corpo universal como uma hipótese de trabalho, de que modo posso verificá-la, e qual a utilidade dela para mim?

M: Conhecendo-se como o morador em ambos os corpos, você não repudiará nada. Todo o universo será de seu interesse; você amará e ajudará, terna e sabiamente, cada coisa viva. Não existirá nenhum conflito de interesses entre você e os outros. Toda exploração cessará absolutamente. Cada ação sua será benéfica, cada movimento será uma bênção.

P: Tudo é muito tentador. Mas como progredir para compreender meu ser universal?

M: Você tem dois caminhos: pode entregar seu coração e sua mente para a descoberta de si mesmo, ou você aceita minhas palavras em confiança e age de acordo; em outras palavras, ou você se torna totalmente interessado em si mesmo, ou totalmente desinteressado. É a palavra ‘totalmente’ que é importante. Você deve ser extremado para alcançar o Supremo.
P: Como posso aspirar a tais alturas, pequeno e limitado que sou?

M: Compreenda-se como o oceano da consciência no qual tudo acontece. Isto não é difícil. Um pouco de atenção, um exame próximo de si mesmo, e você verá que nenhum fato está fora de sua consciência.

P: O mundo está cheio de fatos que não aparecem em minha consciência.

M: Mesmo seu corpo está cheio de fatos que não aparecem em sua consciência. Isto não o impede de reivindicar sua propriedade. Você conhece o mundo exatamente como você conhece seu corpo – através dos sentidos. É sua mente que separou o mundo externo à sua pele do mundo interior, e os pôs em oposição. Isto criou medo e ódio, e todas as misérias da vida.

P: O que eu não entendo é o que você diz sobre ir além da consciência. Entendo as palavras, mas não posso visualizar a experiência. Depois de tudo, você mesmo disse que todas as experiências estão na consciência.

M: Tem razão, não pode haver experiências além da consciência. Ainda assim há a experiência de apenas ser. Há um estado além da consciência que não é inconsciente. Alguns o chamam superconsciência ou pura consciência, ou suprema consciência. É a pura Consciência livre do nexo sujeito-objeto.

P: Estudei Teosofia e não achei nada familiar no que você falou. Admito que a Teosofia trata apenas da manifestação. Descreve o universo e seus habitantes em grande detalhe. Admite muitos níveis de matéria e correspondentes níveis de experiência, mas não parece ir além. O que você diz vai além de toda experiência. Se não é experimentável, por que falar sobre ela em absoluto?

M: A consciência é intermitente, cheia de lacunas. Ainda assim há a continuidade de identidade. A que se deve este sentido de identidade se não a algo além da consciência?
P: Se estou além da mente, como posso mudar a mim mesmo?

M: Onde está a necessidade de mudar algo? A mente está mudando de qualquer forma todo o tempo. Observe sua mente com isenção; isto basta para acalmá-la. Quando ela está calma, você pode ir além. Não a mantenha ocupada todo o tempo. Detenha-a – e apenas seja. Se você lhe der descanso, ela se acalmará e recuperará sua pureza e força. O pensamento constante a faz decair.

P: Se meu verdadeiro ser está sempre comigo, como eu o ignoro?

M: Porque ele é muito sutil e sua mente é tosca, cheia de pensamentos e sentimentos. Acalme e clarifique sua mente e você se conhecerá como você é.

P: Preciso da mente para me conhecer?

M: Você está além da mente, mas você conhece com sua mente. É óbvio que a extensão, a profundidade e o caráter do conhecimento dependem do instrumento que você usa. Melhore seu instrumento e seu conhecimento melhorará.

P: Para conhecer perfeitamente necessito de uma mente perfeita.

M: Uma mente serena é tudo o que você necessita. Tudo o mais acontecerá adequadamente uma vez que sua mente esteja tranquila. Do mesmo modo que o sol ao levantar-se torna o mundo ativo, assim a Consciência de si mesmo afeta as mudanças na mente. Na luz da autoconsciência serena e estável são despertadas as energias interiores que produzem milagres sem qualquer esforço de sua parte.

P: Você quer dizer que o maior trabalho é feito por não trabalhar?

M: Exatamente. Compreenda que você está destinado à iluminação. Coopere com seu destino, não vá contra ele, não o frustre. Permita que se realize. Tudo o que você tem que fazer é dar atenção aos obstáculos criados pela mente tola."
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De: "Eu Sou Aquilo" Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj

sábado, 19 de dezembro de 2009

Afinal, o que acontece aqui?





"Pergunta: Aqui, apesar de tudo, algo acontece. Algo é transmitido com palavras ou sem palavras. Algo gruda e permanece.

Karl: Por um pouco desaparece o escudo defensor - o filtro de suas representações. Só ha não-conhecimento. Heis voce nu, sem definições sobre voce mesmo e essa nudez permanece, se realiza. Nela não pode subsistir nenhuma ideia, porque será levada pelas palavras. Esse não-conhecimento apaga suas representações, pelo menos por um pouco, até que voltem. E depois de algum tempo pode acontecer de voce reconhecer as ideias pelo que elas são, somente ideias.

P: E esse reconhecimento, serve para algo?

K: Não, se aquele que reconhece permanece.

P: Certamente, quem reconhece sou eu - sou eu que queria que servisse para algo.

K: Contra isso não tem nada a fazer. Aquele que reconhece cairá somente quando ele tiver que cair. Isso é chamado de graça. Vai cair com um pequeno "Ah!" no dar-se conta que nunca aconteceu nada para aquilo que voce é verdadeiramente.

P: Nunca aconteceu nada? Apesar disso, nudez não significa tambem vulnerabilidade?

K: Sim, se não ha mais o escudo defensor. Conhecer-se significa ser completamente vulneraveis, indefesos. Voce participa a tudo aquilo que aflora em sua percepção. Não pode dizer não para nada. Você é completamente aquilo que voce observa. É totalmente o objeto de sua percepção. A percepção e o objeto da percepção não são mais separados.

P: Parece-me algo esmagador.

K: Muitos que experimentam isso, não sabendo o que isso signifique, acabam no hospicio. Não ha mais o filtro chamado de "eu" e todas as informações do mundo externo chegam sem filtros, como um rio em cheia. Aqui a gente fala sobre isso caso aconteça, assim que ninguem pire.

P: Ou para que, pelo menos, saibamos a razão do nosso pirar.

K: Posso somente apontar para como seja estupido se defender disso. No interior do escudo defensor (o pensamento "eu") ha o conceito de que exista algo a mais do que voce, alguem para o qual algo possa acontecer. Agora, aquilo que voce é não tem segundo. E tudo aquilo com o qual voce entra em contato, tudo aquilo que voce experimenta, é voce mesmo. Esse é o conhecimento de sí.

P: E é somente o escudo defensor que impede isso?

K: Esse escudo eu não posso tirar de voce. Se eu pudesse fazer isso, significaria que ha algo de anormal em voce. Mas não ha nada de anormal em ter um escudo, tem sua razão de ser. Um dia ou outro vai cair por sí mesmo, no mais tardar no momento da morte. Mesmo agora ele poderia cair, então voce veria que não serve para nada resistir.

P: As vezes eu vejo isso.

K: Por exemplo, quando voce se apaixona. Voce não pode decidir se voce se apaixona ou não se apaixona, simplesmente acontece e você estã sem defesas. O sentimento de apaixonamento total e aquele de estar indefeso é seu estado natural.

P: Esse, porem, é um estado que eu posso experimentar claramente.

K: E se assim tem que ser, poderá expermineta-lo não em modo relativo, mas absoluto. Isso significa que não ha mais ninguem que experimenta um estado, ninguem poderia aguenta-lo. Esse sentimento que tudo aflui em voce na experiencia e em seu mundo emocional, não é suportavel para um "eu". Para o Ser, porem, é totalmente natural.

P: Parace que isso requer um esforço.

K: Quando a graça aflora, verifica-se o vazio em que a pessoa não pode subsistir. Com a Consciencia, aflora o fogo do inferno em que o pequeno eu não pode existir.

P: Voce disse fogo do inferno?!

K: Pode chama-la de graça ou de fogo do inferno. Ninguem pode impedi-lo ou apressa-lo. A graça é um misterio e age em uma esfera mistica. In-condicional e incontrolavel.

P: Todavia em satsang a Presença pode fazer surgir isso, não é?

K: Ou então não. A Presença não é uma condição e nem o satsang: não ha condições. Sempre ha a possibilidade.

P: Dou-me conta de que quando participo com mais frequencia ao Satsang, tenho problemas com o sono.

K: Outros consideram-me um sonifero. Mas se assim tem que ser, que graças a insonia voce possa saber quem voce é - e voce e a propria insonia - então assim vai acontecer. Aquilo que voce é não dorme e nem faz vigilia. Sono e vigilia aparecem como estados. Mas aquilo que voce é nao conhece sono. "Awareness" em ingles é uma vigilia que não dorme nunca e que existe tambem no sono profundo. Vigilie, fique insomne- se assim tem que ser e esse é o seu caminho, isso é fantastico!

P: Mas me dá dor de cabeça...

K: Porque voce deveria se sair melhor que eu? Cinco anos de emicranias, sempre afundando naquele trovão de luz e somente raramente sair disso. Quando a energia explode, isso pode acontecer.

P: Isso parece bem sedutor.

K: Insonia, descargas eletricas, a cabeça como um sino que toca forte, imagens de circo equestre, tempestades, dores.... conheço isso. Isso é o fogo do inferno. O mundo conceitual é arrancado, o corpo fica no moedor de carne. Tudo tem que desaparecer. A inteligencia absoluta desperta em voce e a energia não pode cochilar. Por causa das aparições de luz, chamaram-na de iluminação. Materia e anti-materia fundem-se e depois são percebiveis. Ha reações nucleares como sobre o sol. Voce é um reator nuclear!

P: Antes eu era contra a força atomica.

K: E agora pode ficar tranquilo porque sabe o que esses sintomas significam.
São somente efeitos secundarios.
A paz e o silencio estão sempre presentes.
O silencio é a fonte....."


Dialogos com Karl Renz

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Num dia excessivamente nítido


Num dia excessivamente nítido,
Dia em que dava a vontade de ter trabalhado muito
Para nele não trabalhar nada,
Entrevi, como uma estrada por entre as árvores,
O que talvez seja o Grande Segredo,
Aquele Grande Mistério de que os poetas falsos falam.

Vi que não há Natureza,
Que a Natureza não existe,
Que há montes, vales, planícies,
Que há árvores, flores, ervas,
Que há rios e pedras,
Mas que não há um todo a que isso pertença,
Que um conjunto real e verdadeiro
É uma doença das nossas idéias.
A Natureza é partes sem um todo.
Isto é talvez o tal mistério de que falam.
Foi isto que sem pensar nem parar,
Acertei que devia ser a verdade
Que todos andam a achar e que não acham,
E que só eu, porque a não fui achar, achei.

Fernando Pessoa

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Voce no pode querer o que quer





".... O buscador não pode sequer decidir o que buscar.
Voce não tem livre arbitrio para poder decidir o que buscar ou não buscar. Voce não pode querer o que voce quer.
Einstein disse: "A unica razão pela qual posso suportar os seres humanos, é que eles não podem querer o que querem."
Porque o momento seguinte, qualquer que seja o desejo que se manifesta, já é presente. Não tem nada de novo. Aquele pensamento "eu" toma para sí a ideia da busca como se fosse dele, mas essa ideia já está alí. Não tem buscador, não tem mental. O buscador e o mental são eles mesmos pensamentos. O pensamento é uma ficção e uma ficção não pode criar outra, uma imagem não pode criar outra. Tudo provem daquela fonte absoluta, que não pode ser imaginada, mas aquela fonte não tem direção. É a liberdade. Porem o pensamento "eu" busca empreender uma busca espiritual, mas isso tambem é falso e faz parte da realização. As coisas são como são, não existe nenhuma possibilidade de mudar nada."

(Karl Renz, do livro "A miragem da iluminação e outros erros conceituais")

domingo, 13 de dezembro de 2009

A auto-realização não requer esforço



"É costume do Maharaj expor um ponto particular em profundidade com grande paciência, dando exemplos e símiles apropriados. Depois disto, quando ele solicita que se pergunte sobre o que falou, as questões freqüentemente tendem a se basear não nos pontos que apresentou com tanto esforço, mas nos exemplos dados meramente para ilustrar um aspecto particular do assunto em discussão. Tais perguntas mostram claramente que os questionadores perderam todo o ponto principal. Maharaj, então, freqüentemente os exorta: Podem fazer perguntas sobre o que foi dito, mas sem se identificar com o corpo.
Muitos visitantes se sentem rejeitados quando o convite para perguntar é feito desta forma, sujeito a uma condição que, para eles, parece especialmente onerosa, mesmo injusta. Por que Maharaj insiste em que o questionador deveria desidentificar-se do corpo? A resposta direta seria: Porque um objeto não pode presumir que entenda seu sujeito; é impossível para uma sombra entender a substância da qual é sombra.
Desde que haja um ‘indivíduo’ conceitual identificando-se com o corpo (o qual é meramente um aparato psicossomático, um ‘objeto’) como uma entidade autônoma, seria possível para ele entender de alguma maneira o Absoluto, o qual é totalmente intocado pelo que é objetivo? E, além disto, poderia qualquer pergunta de alguém que estivesse pensando e falando como uma suposta entidade autônoma ser qualquer coisa senão um absurdo completo? Isto, contudo, não implica que as perguntas poderiam surgir apenas de um ser plenamente realizado. Um ser realizado, um Jnani, não teria nenhuma pergunta!
O que Maharaj parecia esperar de seus ouvintes era alguma coisa entre estes dois extremos. Como ele diz, freqüentemente, ele presume que aqueles que vêm a ele não seriam principiantes, mas teriam já feito um moderado trabalho de casa sobre o assunto, não Mumukshus, mas Sadhakas. Em outras palavras, Maharaj quer que os ouvintes não esqueçam que ele é a consciência impessoal e não o aparato físico no qual a consciência se manifestou. Ele espera que, no ato de escutar suas palavras, tenha-se como base a apercepção direta, sem qualquer intervenção de um indivíduo conceitual, e com um claro entendimento do que está acontecendo durante o processo de falar e escutar. Neste contexto, Maharaj diz: Para ser efetiva, a abertura para minhas palavras deve ser tal que elas penetrem como uma flecha. Falo para a consciência e não para qualquer indivíduo.
Maharaj aconselha a quem o escuta ‘a aperceber-se diretamente e esquecer imediatamente’, para não usar suas palavras como uma plataforma da qual lançar seus próprios conceitos. Os conceitos – diz ele – surgem dos pensamentos, e todos estes juntos formam um feixe que é conhecido como mente. ‘Pensar’ significa ‘conceituar’, criando objetos na mente, e isto é ‘escravidão’. As palavras, basicamente dualistas e conceituais, são uma obstrução à iluminação. Podem apenas servir ao propósito temporário de comunicação, mas a partir daí são uma escravidão. Ficar livre do pensamento conceitual significa iluminação, despertar, a qual não pode ser de outra forma ‘atingida’, ou ‘obtida’, por qualquer um. A iluminação não é uma ‘coisa’ a ser adquirida por alguém, a qualquer tempo, em qualquer lugar. A penetração das palavras de Maharaj como uma flecha causa esta apercepção e isto é iluminação!
A isto, a espontânea reação dos visitantes é: Se não há ‘alguém’ para adquirir qualquer ‘coisa’, o que se espera que façamos? A igualmente rápida resposta de Maharaj é: Quem é ‘nós’? A resposta usualmente vem – se vier – tardiamente, hesitantemente: Você quer dizer que ‘nós’ mesmos somos parte do pensamento conceitual? Totalmente ilusórios?
Neste ponto, Maharaj repete o que ele tem sempre dito: Todo conhecimento é conceitual, portanto, falso. Aperceba-se diretamente e desista da busca pelo conhecimento. Mas quantos de vocês farão isto? Quantos de vocês entendem o que estou tentando comunicar a vocês? Qual o propósito de minhas conversas? – pergunta Maharaj. É fazer que compreendam, vejam, apercebam-se de sua verdadeira natureza. Mas há um obstáculo a ser removido em primeiro lugar; ou melhor, um obstáculo que deve desaparecer antes que vocês possam ver e ser o que é. Todo ‘pensamento’, ‘conceituação’, ‘objetivação’ deve cessar. Por quê? Porque o que é não tem o mais leve toque de objetividade. É o sujeito de todos os objetos e, não sendo um objeto, não pode ser observado. O olho vê todas as outras coisas, mas não vê a si mesmo.
À questão ‘o que se tem que fazer, que esforços devem ser feitos para parar de conceituar’, a resposta de Maharaj é: Nada; nenhum esforço. Quem vai esforçar-se? Que esforço você fez para crescer de uma minúscula célula de esperma até o bebê plenamente desenvolvido no útero da mãe? E, mais tarde, por diversos meses, quando você passou de um bebê desamparado a uma criança, que esforços você fez para sentir sua presença? E, agora, você fala de ‘esforços’, os quais ‘você’ deve fazer! Que esforço poderia fazer um ‘eu’ conceitual ilusório para conhecer sua verdadeira natureza? Que esforços uma sombra poderia fazer para conhecer sua substância? A compreensão da verdadeira natureza não requer nenhum esforço fenomênico. A iluminação não pode ser atingida nem forçada. Pode apenas acontecer quando lhe é dada a oportunidade de fazê-lo, quando a obstrução dos conceitos desaparece. Ela só pode apresentar-se quando lhe é dado um espaço vazio para aparecer. Se algum outro vier ocupar esta casa, diz Maharaj, deverei primeiro esvaziá-la. Se o ‘eu’ conceitual já está ocupado, como a iluminação entraria? Deixe vagar o conceitual ‘eu’ e dê à iluminação a oportunidade de entrar. Mesmo fazer um esforço positivo para parar de pensar como um método de libertação da conceituação seria um exercício na futilidade, e assim seria com qualquer outro tipo de ‘esforço’!
O único esforço efetivo é o apercebimento instantâneo da verdade. Veja o falso como falso e o que permanece é verdadeiro. O que está ausente agora aparecerá quando o que agora está presente desaparecer. É assim tão simples. A negação é a única resposta."




De "Sinais do Absoluto" - Pointers from Nisargadatta Maharaj - o 1° livro de Ramesh Balsekar sobre ops ensinamentos do grande jnani. Futura publicação da Editora Advaita.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A escravidão do tempo e do espaço




Visitante: Lembro-me de ter lido em algum lugar que a combinação de espaço e tempo é a causa de nossa escravidão. Desde então, tenho me perguntado como, possivelmente, espaço e tempo poderiam resultar em escravidão.


Maharaj: Sejamos claros sobre o que estamos falando. O que você quer dizer por “escravidão”? E escravidão para quem? Se você estivesse satisfeito com este mundo que considera real e com o modo com que o está tratando, onde estaria a escravidão para você?


V: Devo reconhecer que, para mim, o mundo parece bastante real, mas não é um fato que eu esteja satisfeito com meu papel nele. Sinto-me profundamente convencido que deve haver muito mais para viver que apenas passar por ele, como muitos de nós fazemos – sem qualquer meta definida, por mera rotina. Deste ponto de vista, penso que a própria vida é escravidão.


M: Quando você usa a palavra “eu”, que imagem exata você tem sobre si mesmo? Quando você era uma criança, você se considerava apenas uma criança e era bastante feliz ao brincar com seus brinquedos. Mais tarde, você foi um jovem, com bastante força em seus braços para parar uma parelha de elefantes, e pensava que podia encarar qualquer coisa ou qualquer pessoa neste mundo. Você está agora na meia-idade, um pouco maduro, mas apreciando a vida e seus prazeres, e pensa que é um homem feliz e bem-sucedido, abençoado com uma boa família. No presente, você tem uma imagem de si mesmo que é bastante diferente das imagens que teve antes. Imagine-se dez anos à frente e, ainda mais longe, vinte anos depois. A imagem que terá então de você será diferente de todas as anteriores. Qual destas imagens é o “você” real? Já pensou sobre isto? Há qualquer identidade particular que possa chamar sua própria e que tenha permanecido com você por todo tempo, sem mudar e imutável?


V: Agora que você mencionou isto, admito que, quando uso a palavra “eu”, não tenho nenhuma idéia particular sobre mim mesmo, e concordo que qualquer idéia que eu tenha tido sobre mim mesmo mudou com o passar dos anos.


M: Bem, há alguma coisa que permaneceu sem mudar por todos esses anos, embora tudo o mais tenha mudado. E esta coisa é o sentido constante de presença, o sentimento de que você existe. Este sentido, ou sentimento “eu sou”, nunca mudou. Esta é sua imagem constante. Você está sentado em frente de mim. Você sabe disto além de qualquer dúvida, sem qualquer necessidade de confirmação de outro alguém. Similarmente, você sabe que é, que existe. Diga-me, você seria incapaz de sentir sua existência na ausência de quê?


V: Se eu estivesse dormindo ou inconsciente, não saberia que existo.


M: Exatamente. Vamos adiante. Nesta manhã, no momento em que você acordou e sua consciência assumiu o comando, você não sentiu sua consciência presente, sua existência, “eu sou”, não como uma pessoa particular, mas presença como tal?


V: Sim, é correto. Eu diria que minha personalidade particular veio à existência quando vi meu corpo e os outros objetos em volta.


M: Quando você diz que vê um objeto, o que realmente acontece é que seus sentidos reagiram a um estímulo de uma fonte exterior a seu aparato corporal. E o que seus sentidos perceberam, e sua mente interpretou, é apenas uma aparência em sua consciência. Esta aparência na consciência foi construída como um evento, estendida no espaço e em duração. Toda manifestação depende de uma combinação de dois meios intimamente unidos chamados espaço e tempo. Em outras palavras, na ausência da combinação de espaço e tempo, nenhuma manifestação poderia aparecer na consciência. Você está me seguindo?


V: Sim, entendi o que você disse. Mas onde entro como um indivíduo neste processo?


M: É aí exatamente que está a dificuldade. Toda “existência” é um processo contínuo de objetificação. Podemos apenas existir como objetos uns dos outros e, como tal, apenas na consciência que nos reconhece. Quando a exteriorização cessa, como no sono profundo, o universo objetivo desaparece.
Desde que nos imaginamos como entidades separadas, como pessoas, não será visto o quadro total da realidade impessoal. E a idéia de uma personalidade separada se deve à ilusão do espaço e do tempo que, por si mesmos, não têm existência independente, pois são apenas instrumentos, meros meios para fazer a manifestação reconhecível.
A qualquer tempo, apenas um pensamento ou sentimento, ou percepção, pode ser refletido na consciência, mas pensamentos, sentimentos e percepções movem-se em sucessão, dando a ilusão de duração. E a personalidade recebe uma existência simplesmente por causa da memória – identificando o presente com o passado e projetando-o no futuro
Pense-se momentâneo, sem passado ou futuro; então, onde estará a personalidade? Tente e descubra por si mesmo. Na memória e na antecipação, que estão no passado e no futuro, há um sentimento claro de que há um estado mental sob observação, enquanto no real o sentimento é de, antes de tudo, estar acordado e presente – aqui e agora.


V: Creio que entendi. Devo sentar-me tranqüilamente e tentar absorver este modo de pensar totalmente novo.


M: Você vê agora como o espaço e o tempo, os quais vêm juntos com a consciência e tornam a manifestação perceptível, são os culpados? Tudo o que você pode verdadeiramente dizer é: “eu sou” (significando o que é, é). No momento em que houver um pensamento de “eu” como uma personalidade separada haverá o que se denomina “escravidão”. Compreender isto é o fim de toda busca. Quando você perceber que o que pensa ser é apenas baseado na memória e na antecipação, sua busca termina e você permanecerá distante e em plena Consciência do falso como falso.



De "Sinais do Absoluto" - Pointers from Nisargadatta Maharaj - o 1° livro de Ramesh Balsekar sobre ops ensinamentos do grande jnani. Futura publicação da Editora Advaita.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

VOCÊ É A PRESENÇA CONSCIENTE




"Um dos visitantes que chegou antes da hora a uma sessão era um membro de certo grau da Sociedade Vedântica Européia. Maharaj foi diretamente ao ponto e lhe perguntou se ele tinha alguma pergunta a fazer ou qualquer assunto a ser esclarecido. Quando o visitante disse que gostaria de escutar por um tempo o que Maharaj tinha a dizer antes de perguntar, Maharaj sugeriu que, desde que ele era um representante de uma das Sociedades Vedânticas ativas com um grande número de sócios, ele poderia começar o diálogo contando-nos como elas explicam este tema um tanto ambíguo para um novo e interessado membro da sociedade.

Visitante: Bem, nós, em primeiro lugar, falamos para ele sobre os exercícios de Ioga física, pois um ocidental está interessado basicamente no bem-estar de seu corpo. A Ioga para ele significa ser capaz de realizar atos de resistência física e, também, de atingir um alto grau de concentração mental. Depois de um curso de Asanas Ióguicas, nós prosseguimos falando para ele que ‘ele’ não é o corpo, mas algo separado do corpo.

Maharaj: Isto levanta duas questões: A primeira, qual é o ponto de partida para conhecer inclusive o próprio corpo? Em outras palavras, existe algo dentro do corpo na ausência do qual você não seria capaz de conhecer seu corpo ou o de algum outro? A segunda: Teria o mestre uma idéia clara sobre sua própria ‘identidade’ na medida em que ele mesmo está implicado? Se ele não é o corpo, quem, ou o que, ele é?

V: Não estou certo sobre o que você quer dizer exatamente?

M: O corpo é apenas um instrumento, um aparato que seria totalmente inútil se não fosse pela energia interior, a alma, o sentido ‘eu sou’, o conhecimento de estar vivo, a consciência que concede o sentido de estar presente. De fato, esta presença consciente (não ABC ou XYZ estando presente, mas o sentido de presença consciente como tal) é o que se é, e não a aparência fenomênica que o corpo é. É quando esta consciência, sentindo a necessidade de algum apoio, identifica-se erroneamente com o corpo e abre mão de seu potencial ilimitado pela limitação de um simples corpo particular, que o indivíduo ‘nasce’. Este é o primeiro ponto sobre o qual o próprio mestre deve ter uma firme convicção intuitiva.
Outro ponto básico é que o mestre deve também ter uma compreensão muito clara de como a união entre o corpo e a consciência aconteceu. Em outras palavras, o mestre não deve ter dúvidas de forma alguma sobre sua própria natureza verdadeira. Por isto, deve entender a natureza do corpo e da consciência (ou da condição do ser, ou o estado de eu sou) e, também, a natureza do mundo fenomênico. De outro modo, tudo o que ele ensina será apenas conhecimento emprestado, obtido pela audição, conceitos de algum outro.

V: (Sorrindo) Esta é exatamente a razão pela qual estou aqui. Deverei permanecer por cerca de uma semana e assistirei às sessões da manhã e do anoitecer.

M: Você está seguro que está fazendo a coisa certa? Você veio aqui com uma certa quantidade de conhecimento. Se você persistir em escutar-me, você poderá chegar à conclusão de que todo conhecimento não é mais que um punhado de conceitos inúteis e, inclusive, que você mesmo é um conceito. Você será como uma pessoa que compreende repentinamente que suas riquezas acumuladas se transformaram em cinzas durante a noite. O que você pensará, então? Não seria melhor, mais seguro, retornar para casa com sua ‘riqueza’ intacta?

V: (Respondendo com humor) Eu me arriscarei. De certa forma, iria conhecer o valor real da riqueza que penso possuir. Tenho um sentimento, embora, que o tipo de riqueza que alcançarei depois que a riqueza inútil tiver sido jogada fora seria sem preço e além dos riscos de roubo ou perda.

M: Assim seja. Agora, diga-me, quem você pensa que é?

V: Duvido que eu possa realmente expressar meu pensamento em palavras. Parece-me que não sou o corpo, mas o sentido de presença consciente.

M: Permita-me explicar isto de maneira concisa: Seu corpo é o desenvolvimento da uma emissão resultante da união de seus pais, concebido no útero de sua mãe. Esta emissão era a essência do alimento consumido por seus pais. Seu corpo é, portanto, feito desta essência do alimento e também é sustentado pelo alimento em si. E o sentido de presença consciente que você mencionou é o sabor, ‘a natureza’ da essência do alimento que constitui o corpo, como a doçura é a natureza do açúcar, a qual é, ela mesma, a essência da cana-de-açúcar. Entenda que seu corpo pode existir apenas por um período limitado de tempo e, quando o material do qual ele é feito finalmente deteriorar-se a ponto de ‘morrer’, a força vital (respiração) e a consciência também desaparecerão dele. Assim, o que acontecerá para você?

V: Mas a consciência desapareceria? Devo dizer que estou um pouco assustado ao ouvir isto.

M: Na ausência do corpo, poderia a consciência ser consciente de si mesma? A consciência, na ausência do corpo, não se manifestará mais. Então, você está novamente de volta para o ponto de partida: Quem, ou que, você é?

V: Como disse antes, não posso realmente expressar o que penso.

M: Certamente, não pode ser expresso, mas você o conhece? Uma vez que o expresse, torna-se um conceito. Mas, embora criador de um conceito, não é você mesmo um conceito? Você realmente não nasceu do próprio útero da concepção? Quem você é realmente? Ou se você preferir, como eu, que você é?

V: Penso que sou a presença consciente.

M: Você disse que ‘pensa’! Quem é este que pensa isto? Não é sua própria consciência na qual os pensamentos aparecem? E, como você tem visto, a consciência, ou presença, está limitada pelo tempo da mesma forma que o corpo. Esta é a razão pela qual falei a você anteriormente que é necessário entender a natureza deste corpo dotado de força vital (Prana) e de consciência.
Você é ‘presença’ apenas enquanto o corpo, um fenômeno manifesto, existir. O que você era antes que o corpo e a consciência aparecessem espontaneamente para você? Digo ‘espontaneamente’, pois você não foi consultado sobre ser presenteado com um corpo nem seus pais esperavam ter você, especificamente, como filho. Não era você, então, relativamente, ‘ausência’ em vez de ‘presença’, antes que o estado de consciência-corpo surgisse sobre o que quer que fosse isto que era ‘você’?

V: Não estou certo de ter entendido isto.

M: Então, escute. Para que algo apareça, para existir, tem que haver uma base de ausência absoluta – ausência absoluta de presença assim como de ausência. Sei que não é fácil compreender. Mas tente. Qualquer presença pode ‘aparecer’ apenas como resultado da total ausência. Se houver presença inclusive da ausência, não poderá haver nem fenômeno nem conhecimento. Portanto, a ausência total, absoluta, implica total ausência de concepção. Este é seu estado original verdadeiro. Eu repito: O ‘você’ nasceu no útero da concepção. Sobre o estado original de total ausência, espontaneamente, surge uma semente de consciência – o pensamento ‘eu sou’ – e, através disto, sobre o estado original de unicidade e totalidade, surge a dualidade; a dualidade de sujeito e objeto, certo e errado, puro e impuro – raciocinando, julgando, comparando, etc. Pondere sobre isto. Temo que esta sessão deva terminar agora.

V: Isto foi, certamente, uma revelação para mim, embora tenha estudado Vedanta por bastante tempo.

M: Está claro para você que você é anterior a toda concepção? O que você parece ser como um fenômeno é apenas conceitual.O que você é realmente não pode ser compreendido pela simples razão de que, no estado de não-concepção, não pode existir alguém para compreender o que se é!

V: Mestre, eu desejo vir ao anoitecer em busca de mais iluminação, e sentar-me a seus pés todos os dias, enquanto estiver em Bombaim.

M: Você será bem-vindo."

De "Sinais do Absoluto" - Pointers from Nisargadatta Maharaj - o 1° livro de Ramesh Balsekar sobre ops ensinamentos do grande jnani. Futura publicação da Editora Advaita.

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