Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

sábado, 20 de março de 2010

Deus é o Autor de tudo; o gnani, de nada







Pergunta: Alguns Mahatmas (seres iluminados) afirmam que o mundo não é nem um acidente nem um jogo de Deus, mas resultado e expressão de um poderoso plano de trabalho que visa ao despertar e ao desenvolvimento da consciência por todo o universo. Da não-vida à vida, do inconsciente ao consciente, da inércia à clara inteligência, da incompreensão à claridade – esta é a direção na qual se move o mundo, incessante e implacavelmente. Certamente, há momentos de descanso e escuridão aparentes, nos quais o universo parece adormecido, mas o descanso chega ao fim e o trabalho sobre a consciência começa novamente. Do nosso ponto de vista, o mundo é um vale de lágrimas, um lugar do qual se deve escapar o quanto antes possível, e de qualquer modo; para os seres iluminados, o mundo é bom e serve a um bom propósito. Não negam que o mundo é uma estrutura mental e que, finalmente, tudo é um, mas vêem e dizem que a estrutura tem sentido e serve a um propósito supremamente desejável. O que chamamos a vontade de Deus não é o capricho de uma divindade jogadora, mas a expressão de uma absoluta necessidade de crescer em amor, sabedoria e poder, de atualizar os potenciais infinitos da vida e da consciência. Assim como um jardineiro cultiva as flores nascidas de uma pequena semente até uma perfeição gloriosa, da mesma forma, Deus, em seu próprio jardim, cultiva entre outros seres, homens que chegam a super-homens, que conhecem e amam, e trabalham com Ele.
Quando Deus descansa (pralaya), aqueles cujo crescimento não chegou a completar-se se tornam inconscientes por certo tempo, enquanto os perfeitos, os que foram além de todas as formas e conteúdos da consciência, permanecem conscientes do silêncio universal. Quando chega a hora do surgimento de um novo universo, os adormecidos são despertados, e começam seus trabalhos. Os mais avançados despertam primeiro e preparam o terreno para os menos avançados os quais encontram, desse modo, formas e modelos de comportamento adequados para seu posterior crescimento.
Essa é a história. A diferença em relação a seu ensinamento é esta: você insiste em que o mundo não é bom e deve ser evitado. Eles dizem que o desgosto em relação ao mundo é uma etapa passageira, necessária, ainda que temporária, e que é logo substituída por um amor que a tudo permeia e por uma vontade firme de trabalhar com Deus.

Maharaj: Tudo o que você diz é correto no caminho para fora (pravritti). No caminho de regresso (nivritti), é necessário anular-se a si mesmo. O lugar que eu ocupo está onde nada é (paramakash); nem os pensamentos nem as palavras chegam ali. Para a mente, tudo é obscuridade e silêncio. Então a consciência começa a agitar-se e desperta a mente (chidakash), a que projeta o mundo (mahadakash) construído de memória e de imaginação. Uma vez que o mundo chega a ser, tudo o que você diz pode ser assim. A natureza da mente é imaginar metas, lutar por elas, buscar meios e caminhos, revelar visão, energia e coragem. Tudo isto são atributos divinos, eu não os nego. Mas eu tenho meu lugar onde não existe nenhuma diferença, onde as coisas não existem, nem tampouco as mentes que as criaram. Ali estou em meu lar. Qualquer coisa que ocorra não me afeta; as coisas operam nas coisas, isso é tudo. Livre de memória e esperanças, sou fresco, inocente, sincero. A mente é o grande trabalhador (mahakarta) e necessita de descanso. Não necessitando de nada, não tenho medo. De quem ter medo? Não existe separação, não somos seres separados. Só existe um Ser, a Realidade Suprema, na qual o impessoal e o pessoal são um.

P: Tudo o que quero é ser capaz de ajudar o mundo?

M: Quem disse que não pode ajudar? Você decidiu sobre a ajuda, meios e necessidades e meteu-se em um conflito entre o que deveria fazer e o que pode fazer, entre a necessidade e a capacidade.

P: Mas por que fazemos isto?

M: Sua mente projeta uma estrutura e você se identifica com ela. Na própria natureza do desejo está o impelir a mente a criar um mundo para dar-lhe plenitude. Mesmo um pequeno desejo pode criar uma longa linha de ações; o que faria um forte desejo? O desejo pode produzir um universo; seus poderes são miraculosos. Como um palito de fósforo pode incendiar um bosque, assim um desejo pode acender o fogo da manifestação. O próprio propósito da criação é satisfazer o desejo. O desejo pode ser nobre ou não, o espaço (akash) é neutro; pode-se preenchê-lo com o que gostar. Deve-se ter muito cuidado com o que se deseja. No que diz respeito às pessoas que quer ajudar – elas estão em seus mundos respectivos por causa de seus desejos, e não há uma maneira de ajudá-las exceto através desses desejos. Só pode ensinar-lhes a ter desejos corretos para que possam elevar-se acima deles e libertar-se da necessidade de criar e recriar mundos de desejos, moradas de dor e de prazer.

P: Chegará um dia em que o espetáculo terminará; um homem tem que morrer, um universo tem que terminar.

M: Como uma pessoa que dorme e esquece tudo, e desperta para um novo dia, ou morre e surge para uma nova vida, assim os mundos de desejo e de temor dissolvem-se e desaparecem. Mas a testemunha universal, o Ser Supremo, nunca dorme e nunca morre. O Grande Coração bate eternamente, e a cada batida cria um novo universo.

P: Ele é consciente?

M: Ele está além de tudo o que a mente possa conceber. Está além do ser e do não-ser. Ele é o Sim e o Não para todas as coisas, além e interior, criando e destruindo, inimaginavelmente real.

P: Deus e o Mahatma são um ou dois?

M: São um.

P: Deve existir alguma diferença?

M: Deus é o Autor de tudo, o gnani é um não-autor. O próprio Deus disse: "Estou fazendo tudo". Para Ele, as coisas acontecem por sua própria natureza. Para o gnani, tudo é feito por Deus. Ele não vê nenhuma diferença entre Deus e a natureza. Ambos, Deus e o gnani conhecem a si mesmos como o centro imóvel do mutável, a testemunha eterna do transitório. O centro é um ponto de vazio; a testemunha, um ponto de Consciência pura; eles sabem que são nada, portanto nada pode resistir a eles.

P: Como isto é visto e sentido em sua experiência pessoal?

M: Sendo nada, sou tudo. Eu sou tudo; tudo é meu. Como meu corpo se move só pelo meu pensamento de movimento, assim ocorrem as coisas quando penso nelas. Lembre-se, eu não faço nada, simplesmente vejo as coisas acontecerem.

P: As coisas acontecem como você quer que ocorram, ou você quer que aconteçam como ocorrem?

M: As duas coisas. Aceito e sou aceito. Sou tudo e tudo é eu mesmo. Sendo o mundo, não tenho medo do mundo. Sendo tudo, o que temeria? A água não teme a água nem o fogo, o fogo. Não tenho medo também, pois não sou nada que possa experimentar medo ou possa estar em perigo. Não tenho forma nem nome. O apego à forma e ao nome é o que gera o medo. Não tenho apegos, sou nada, e o nada não tem medo de coisa alguma. Pelo contrário, tudo tem medo do Nada, porque quando uma coisa tocar o Nada, converter-se-á em nada. É como um poço sem fundo, qualquer coisa que cai dentro dele desaparece.

P: Deus não é uma pessoa?

M: Enquanto você pensa ser uma pessoa, ele também será uma pessoa. Quando você é tudo, então O vê como tudo.

P: Posso mudar os fatos mudando a atitude?

M: A atitude é o fato. Tome a cólera, por exemplo. Posso estar furioso, passeando de um extremo a outro da habitação; ao mesmo tempo sei o que sou, um centro de sabedoria e amor, um átomo de existência pura. Tudo se acalma e a mente se funde no silêncio.

P: Não obstante, você está irritado algumas vezes.

M: Com quem e por que teria que me aborrecer? A cólera veio e se dissolveu ao lembrar-me de mim mesmo. É tudo um jogo dos gunas (qualidades da matéria cósmica). Quando me identificar com eles, serei escravo deles. Quando me apartar, serei mestre deles.

P: Pode você influir no mundo com sua atitude? Ao separar-se do mundo, perderá toda a esperança de ajudá-lo.

M: Como poderia ser? Tudo é meu próprio ser – não posso ajudar-me? Eu não me identifico com alguém em particular porque sou tudo, o particular e o universal.

P: Então pode ajudar-me, a pessoa em particular?

M: Mas sempre estou ajudando – desde dentro. Meu ser e seu ser são um. Eu sei disto, mas você, não. Essa é toda a diferença – e não pode durar.

P: E como você ajuda o mundo inteiro?

M: Gandhi está morto e, não obstante, sua mente impregna a terra. O pensamento de um gnani impregna a humanidade e trabalha incessantemente pelo bem. Sendo anônimo, vindo de dentro, é mais poderoso e eficaz. Assim é como o mundo melhora, o interno ajudando e bendizendo o externo. Quando morre um gnani, ele deixa de existir no mesmo sentido em que um rio deixa de existir quando entra no oceano; o nome e a forma não existem, mas a água permanece e se faz uma com o mar. Quando um gnani se une à mente universal, toda sua bondade e sabedoria se convertem na herança da humanidade e elevam todo ser humano.

P: Nós estamos apegados à nossa personalidade. Valorizamos muito nossa individualidade, o que nos diferencia dos outros. Parece que você denuncia isto como algo inútil. De que nos serve o seu imanifestado?

M: Imanifestado, manifestado, individualidade, personalidade (nirguna, saguna, vyakta, vyakti); tudo isto são meras palavras, pontos de vista, atitudes mentais. Não têm realidade. O real é experimentado no silêncio. Você se apega à personalidade, mas você só é consciente de ser uma pessoa apenas quando está com problemas. Quando não tem dificuldades, não pensa em si mesmo.

P: Não me disse nada sobre a utilidade do Imanifestado.

M: Sem dúvida, você tem que dormir para poder levantar-se. Tem que morrer para viver, fundir para modelar novamente, destruir para construir, aniquilar antes de criar. O Supremo é o dissolvente universal, corrói todos os recipientes, queima todos os obstáculos. Sem a negação absoluta de tudo, a tirania das coisas seria absoluta. É o grande harmonizador, a garantia do equilíbrio final e perfeito – da vida em liberdade. Ele o dissolve e, desse modo, reafirma seu verdadeiro ser.

P: Tudo está bem em seu próprio nível. Mas como funciona na vida diária?

M: A vida diária é uma vida de ação. Goste dela ou não, você deve funcionar. Tudo o que fizer para si mesmo se acumula e se torna explosivo, e um dia explodirá e destruirá você e seu mundo. Quando você enganar a si mesmo crendo que trabalha para o bem dos outros, ainda o piora mais, já que não deverá ser guiado por suas idéias do que é bom para os outros. Uma pessoa que declara saber o que é bom para os demais é uma pessoa perigosa.

P: Como se deve trabalhar então?

M: Nem para você nem para os demais, mas pelo próprio trabalho. Uma coisa que valha a pena fazer é seu próprio propósito e significado. Não converta nada em um meio para alcançar alguma coisa. Não limite. Deus não cria uma coisa para servir outra. Cada uma é feita para si mesma. Tendo sido feita para si mesma, não interfere. Você está usando coisas e pessoas para propósitos estranhos a elas mesmas e está causando destruição no mundo e em você mesmo.

P: Nosso ser real está todo o tempo conosco, diz você. Como é que não nos damos conta?

M: Sim, você sempre é o Supremo. Mas sua atenção está fixada nas coisas físicas ou mentais. Quando sua atenção estiver fora de uma coisa e, todavia, não estiver em outra, no intervalo você será ser puro. Quando, através das práticas da discriminação e do desapego (viveka-vairagya), você perder de vista os estados mentais e sensórios, surgirá o ser puro como o estado natural.

P: Como se acaba com este sentido de separação?

M: Enfocando a mente no "eu sou", no sentimento de ser, dissolve-se o "eu sou isto e aquilo"; o que permanece é o "sou apenas a testemunha", e isto também se submerge no "sou tudo". Então o todo se converte no Um e o Um – você mesmo, não separado de mim. Abandone a idéia de um "eu" separado e a pergunta "quem experimenta?" não surgirá.

P: Você fala por sua própria experiência. Como posso torná-la minha?

M: Você fala de minha experiência como distinta da sua porque crê que estamos separados. Mas não estamos. Em um nível mais profundo, minha experiência é sua experiência. Indague profundamente dentro de você mesmo e descobrirá isto, fácil e simplesmente. Vá na direção do "eu sou".
(de: "Eu Sou Aquilo")

quinta-feira, 4 de março de 2010

O ponto de vista para ler o Gita






"Em uma das sessões, uma distinta dama que visitava Maharaj fez uma pergunta sobre o Bhagavadgita. Enquanto ela formulava sua questão nas palavras adequadas, Maharaj, repentinamente, perguntou-lhe: “De que ponto de vista você lê o Gita?”
Visitante: Do ponto de vista de que o Gita é, talvez, o guia mais importante para o buscador espiritual.

Maharaj: Por que esta resposta absurda? Certamente, ele é um guia muito importante para o buscador espiritual; não é um livro de ficção. Minha pergunta é: Qual o ponto de vista do qual você lê o livro?

Outro visitante: Senhor, eu o li como um dos Arjunas no mundo, para cujo benefício o Senhor foi generoso o bastante para expor o Gita.
Quando Maharaj buscou em torno uma outra resposta, houve apenas um murmúrio geral de confirmação desta.

M: Por que não ler o Gita do ponto de vista do Senhor Krishna?

Esta sugestão suscitou dois tipos simultâneos de reação de assombro de dois visitantes. Uma das reações foi uma exclamação escandalizada que claramente significava que a sugestão era equivalente a um sacrilégio. A outra foi de um único e rápido bater palmas, uma ação reflexa, obviamente, indicando alguma coisa como o Eureka de Arquimedes. Ambos os visitantes interessados estavam como que embaraçados por suas reações inconscientes e pelo fato de que as duas eram o exato oposto uma da outra. Maharaj deu um rápido olhar de aprovação ao que havia batido palmas e continuou:

M: Muitos livros religiosos se supõe ser a palavra de alguma pessoa iluminada. Por mais iluminada que seja uma pessoa, ela deve falar a partir de certos conceitos que achou aceitáveis. Mas a extraordinária distinção do Gita é que o Senhor Krishna falou do ponto de vista de que ele é a fonte de toda a manifestação, isto é, não do ponto de vista de um fenômeno, mas do númeno, do ponto de vista de que ‘a manifestação total sou eu mesmo’. Esta é a exclusividade do Gita.
Agora, disse Maharaj, considerem o que deve ter acontecido antes que qualquer texto religioso antigo tenha sido escrito. Em todos os casos, a pessoa iluminada deve ter tido pensamentos, os quais colocou em palavras, e as palavras usadas podem não ter sido muito adequadas para comunicar seus pensamentos exatos. As palavras do mestre poderiam ter sido ouvidas pela pessoa que as escreveu, e o que ela escreveu, certamente, seria de acordo com seu próprio entendimento e interpretação. Depois deste primeiro registro manuscrito, várias cópias dele teriam sido feitas por diversas pessoas e tais cópias conteriam numerosos erros. Em outras palavras, o que o leitor de qualquer tempo particular lê, e tenta assimilar, pode ser totalmente diferente do que realmente o mestre original pretendeu comunicar. Acrescentem a tudo isto as interpolações inconscientes, ou deliberadas, feitas por vários eruditos no curso dos séculos, e vocês entenderão o problema que eu estou tentando comunicar a vocês.
Disseram-me que o próprio Buda falou apenas na linguagem Maghadi, enquanto seu ensinamento, como foi anotado, está em Pali ou em Sânscrito, o que poderia ter sido feito apenas muitos anos mais tarde; o que agora temos de seus ensinamentos passou por numerosas mãos. Imaginem o número de alterações e acréscimos que foram infiltradas nele por um longo período. Não seria surpreendente que haja agora diferenças de opinião e disputas sobre o que Buda realmente disse, ou quis dizer?
Nestas circunstâncias, quando peço a vocês que leiam o Gita do ponto de vista do Senhor Krishna, peço que abandonem imediatamente a identidade com o complexo corpo-mente quando o lerem. Peço que leiam de acordo com o ponto de vista de que vocês são a consciência desperta – a consciência de Krishna – e não os objetos fenomênicos aos quais ela deu sensibilidade – para que o conhecimento que está no Gita seja verdadeiramente revelado para vocês. Vocês entenderão, então, que no Vishva-rupa-darshan, o que o Senhor Krishna mostrou a Arjuna não era seu próprio Svarupa, mas o Svarupa – a verdadeira identidade – do próprio Arjuna e, por conseguinte, de todos os leitores do Gita.
Em resumo, leiam o Gita do ponto de vista do Senhor Krishna, como a consciência de Krishna; vocês então compreenderão que o fenômeno não pode ser ‘liberado’ porque ele não tem nenhuma existência independente; é apenas uma ilusão, uma sombra. Se o Gita for lido neste espírito, a consciência, a qual tem se identificado erradamente com o complexo corpo-mente, tornar-se-á consciente de sua verdadeira natureza e se fundirá com sua origem."
"Sinais do Absoluto"

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