Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A mente e o mundo não estão separados

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Pergunta: Vejo aqui imagens de vários santos e me disseram que são seus antepassados espirituais. Quem são eles e como tudo isto começou?

Maharaj: Somos chamados coletivamente os ‘Nove Mestres’. A lenda diz que nosso primeiro mestre foi o Rishi Dattatreya, a grande encarnação da Trindade de Brahma, Vishnu e Shiva. Mesmo os ‘Nove Mestres’ (Navnath) são mitológicos.

P: Qual é a peculiaridade de seus ensinamentos?

M: A simplicidade, tanto em teoria como na prática.

P: Como alguém se torna um Navnath? Pela iniciação ou pela sucessão?

M: Nem uma nem outra. A tradição dos ‘Nove Mestres’, Navnath Parampara, é como um rio que flui para o oceano da realidade, e quem quer que entre nele será levado junto.

P: Isto implica em ser aceito por um mestre vivo pertencente à mesma tradição?

M: Aqueles que praticam o sadhana de enfocar suas mentes no ‘Eu sou’ podem sentir-se relacionados a outros que seguiram o mesmo sadhana e alcançaram a meta. Eles podem decidir verbalizar seu sentido de afinidade chamando-se Navnats; isto lhes dá o prazer de pertencer a uma tradição estabelecida.

P: São beneficiados de algum modo por unir-se à tradição?

M: O círculo de satsang, ‘a companhia dos santos’, expande-se em número à medida que o tempo passa.

P: Eles retêm assim uma fonte de poder e graça da qual teriam sido excluídos de outra forma?

M: O poder e a graça são para todos, basta pedi-los. Dar a si mesmo um nome particular não ajuda. Chame-se por qualquer nome – enquanto estiver intensamente atento a si mesmo, os acumulados obstáculos ao autoconhecimento estarão condenados a desaparecer.

P: Se eu gosto de seu ensinamento e aceito sua direção, posso chamar-me Navnath?

M: Satisfaça sua mente viciada às palavras! O nome não o mudará. No melhor dos casos, poderá lembrá-lo para que se comporte. Há uma sucessão de Gurus e seus discípulos, os quais por sua vez preparam outros discípulos e assim a linha é mantida. Mas a continuidade da tradição é informal e voluntária. É como um nome de família, mas neste caso a família é espiritual.

P: Você deve realizar-se para unir-se a Sampradaya?

M: A Navnath Sampradaya é apenas uma tradição, um modo de ensinamento e de prática. Não denota um nível de consciência. Se você aceitar como Guru um mestre da Navnath Sampradaya, você se unirá a esta Sampradaya. Geralmente, você recebe uma prova da graça do Guru – um olhar, um toque, ou uma palavra, às vezes um vivo sonho ou uma forte recordação. Às vezes, o único sinal da graça é uma mudança rápida e significativa no caráter e no comportamento.

P: Conheço-o há alguns anos e o encontro regularmente. Sua lembrança nunca está longe de minha mente. Isto me faz pertencer a sua Sampradaya?

M: O pertencer é uma questão de seu próprio sentimento e convicção. No final das contas, tudo é verbal e formal. Na realidade, não há nem Guru nem discípulo, nem teoria nem prática, nem ignorância nem realização. Tudo depende do que você acredita ser. Conheça-se corretamente. Não há substituto para o autoconhecimento.

P: Que prova terei de que me conheço corretamente?

M: Você não precisa de provas. A experiência é única e inconfundível. Aparecerá em você subitamente quando os obstáculos estiverem eliminados em certa medida. É como uma corda gasta estalando. Seu esforço está nos cabos. A ruptura está destinada a acontecer. Pode ser adiada, mas não impedida.

P: Estou confuso por sua negação da causalidade. Isto quer dizer que ninguém é responsável pelo mundo como ele é?

M: A ideia de responsabilidade está em sua mente. Você pensa que deve haver alguém ou algo unicamente responsável por tudo que acontece. Há uma contradição entre um universo múltiplo e uma só causa. Ou um ou o outro deve ser falso. Ou ambos. Tal como eu o vejo, tudo é um devaneio. Não há realidade nas ideias. O fato é que, sem você, nem o universo nem suas causas poderiam existir.

P: Não posso perceber se sou a criatura ou o criador do universo.

M: ‘Eu sou’ é um fato sempre presente, enquanto ‘Eu sou criado’ é uma ideia. Nem Deus nem o universo vieram a você para lhe dizer que eles o criaram. A mente, obcecada pela ideia de causalidade, inventa a criação e, então, deseja saber ‘quem é o criador?’ A própria mente é o criador. Mesmo isto não é totalmente verdadeiro, porque o criado e seu criador são um. A mente e o mundo não estão separados. Entenda que o que você pensa ser o mundo é sua própria mente.

P: Existe um mundo além, ou fora da mente?

M: Todo o espaço e todo o tempo estão na mente. Onde você localizaria um mundo além da mente? Existem muitos níveis de mente e cada um projeta sua própria versão, mesmo assim todos estão na mente e são criados por ela.

P: Qual é sua atitude quanto ao pecado? Como você vê o pecador, alguém que rompe a lei interna ou externa? Você quer que ele mude ou só se compadece? Ou você lhe é indiferente por causa de seus pecados?

M: Não conheço nenhum pecado, nem pecador. Suas distinções e avaliações não me limitam. Todos se comportam segundo sua natureza. Não se pode evitar, nem se lamentar por isto.

P: Outros sofrem.

M: A vida vive da vida. Na natureza o processo é compulsório; na sociedade, deveria ser voluntário. Não pode haver vida sem sacrifício. O pecador nega-se ao sacrifício e atrai a morte. Isto é como é, e não há razão para condenação ou piedade.

P: Seguramente você sente ao menos compaixão quando vê um homem mergulhado no pecado.

M: Sim, sinto que sou esse homem e seus pecados são meus pecados.

P: Certo, e daí?

M: Por tornar-me um com ele, ele se torna um comigo. Isto não é um processo consciente, ocorre inteiramente por si mesmo. Nenhum de nós pode evitá-lo. O que necessita mudar deverá mudar de qualquer modo; basta conhecer-se tal como se é, aqui e agora. A investigação intensa e metódica, dentro da própria mente, é a Ioga.

P: O que acontece com as cadeias do destino forjadas pelo pecado?

M: Quando a ignorância, a mãe do pecado, é dissolvida, o destino, a compulsão para pecar novamente, cessa.

P: Há retribuições a fazer.

M: Quando a ignorância chega ao fim, tudo acaba. As coisas são vistas tal como são, e são boas.

P: Se um pecador, um infrator da lei, vier a você e pedir sua graça, qual será sua resposta?

M: Ele obterá o que pede.

P: Apesar de ser um homem mau?

M: Não conheço pessoas más, só conheço a mim mesmo. Não vejo nem santos nem pecadores, só seres vivos. Eu não concedo a graça. Não há nada que eu possa dar ou negar que você já não tenha em igual medida. Simplesmente, seja consciente de suas riquezas e utiliza-as ao máximo. Enquanto imaginar que necessita minha graça estará em minha porta mendigando-a.
Se eu mendigasse sua graça, teria pouco sentido! Não estamos separados, o real é comum.

P: Uma mãe vem a você com uma história de infortúnio. Seu único filho entregou-se às drogas e ao sexo e vai de mal a pior. Ela pede sua graça. Qual será sua resposta?

M: Provavelmente, eu devo me ouvir dizendo a ela que tudo irá bem.

P: Isto é tudo?

M: Isto é tudo. O que mais você espera?

P: Mas o filho da mulher mudará?

M: Pode mudar ou não.

P: As pessoas que se reúnem ao redor de você e que o conhecem há muitos anos sustentam que, quando você diz ‘ficará tudo bem’, invariavelmente, acontece como você disse.

M: Também pode ser dito que foi o coração da mãe que salvou o filho. Para tudo há inumeráveis causas.

P: Disseram-me que o homem que nada quer para si mesmo é todo-poderoso. O universo inteiro está à sua disposição.

M: Se você assim acredita, aja de acordo com isto. Abandone todo desejo pessoal e use o poder assim resgatado para mudar o mundo!

P: Todos os Budas e Rishis não foram bem sucedidos em salvar o mundo.

M: O mundo não se rende à mudança. Por sua própria natureza, é doloroso e transitório. Veja-o como ele é, e negue-se todo o desejo e todo o temor. Quando o mundo não o aprisiona, ou limita, converte-se em uma morada de alegria e beleza. Você pode ser feliz no mundo apenas quando é livre dele.

P: O que é certo e o que é errado?

M: Geralmente, o que causa sofrimento é errado e o que o elimina é certo. O corpo e a mente são limitados e, portanto, vulneráveis; necessitam proteção, o que dá lugar ao medo. Enquanto você identificar-se com eles, estará condenado a sofrer; torne real sua independência e fique feliz. Eu lhe digo, este é o segredo da felicidade. Acreditar que você depende de coisas e pessoas para ser feliz se deve à ignorância de sua verdadeira natureza; saber que você de nada necessita para ser feliz, exceto o autoconhecimento, é sabedoria.

P: O que vem primeiro, o ser ou o desejo?

M: Quando o ser surge na consciência, surgem também na mente as ideias do que você é junto com as ideias do que deveria ser. Isto causa o desejo e a ação, e o processo de transformar-se começa. O vir-a-ser não tem, aparentemente, nenhum início e nenhum fim porque recomeça a cada momento. Com a cessação da imaginação e do desejo, o vir-a-ser cessa e o ser isto ou aquilo se funde no puro ser, o qual não é descritível e apenas pode ser experimentado.
O mundo se mostra a você tão imperiosamente real porque pensa nele todo o tempo; deixe de pensar nele, e ele desaparecerá numa névoa sutil. Não precisa esquecer; quando o desejo e o medo terminam, o cativeiro também termina. O que cria o cativeiro é o envolvimento emocional, o padrão estabelecido de preferências e desagrados que denominamos caráter e temperamento.

P: Sem desejo e medo que motivo há para a ação?

M: Nenhum, a menos que considere motivo suficiente o amor à vida, à retidão e à beleza.
Não tenha medo de libertar-se do desejo e do temor. Isto lhe permitirá viver uma vida tão diferente de tudo o que conhece, muito mais intensa e interessante que, verdadeiramente, por perder tudo você ganhará tudo.

P: Desde que você considera que sua ascendência espiritual vem do Rishi Dattatreya, estou certo em acreditar que você e seus predecessores são encarnações do Rishi?

M: Você pode acreditar no que quiser e, se agir de acordo com sua crença, você obterá seus frutos; mas, para mim, isto não tem nenhuma importância. Eu sou o que sou, e isto me basta. Não tenho o desejo de identificar-me com ninguém, por ilustre que seja. Nem necessito tomar os mitos por realidade. Estou apenas interessado na ignorância e na libertação da ignorância. O papel apropriado a um Guru é dissipar a ignorância nos corações e mentes de seus discípulos. Uma vez que o discípulo tenha entendido, a ação confirmatória dependerá dele. Ninguém pode agir por outro. E se alguém não age corretamente, apenas significa que não compreendeu e que o trabalho do Guru não terminou.

P: Deve haver também alguns casos sem esperança?

M: Nenhum caso é sem esperança. Os obstáculos podem ser superados. O que a vida não pode emendar, a morte concluirá, mas o Guru não pode falhar.

P: O que dá a você esta segurança?

M: O Guru e a realidade interior do homem são realmente uma coisa só e trabalham juntos para a mesma meta – a redenção e salvação da mente. Eles não podem falhar. Em consequência das muitas pedras que os obstruem, eles constroem suas pontes. A consciência não é a totalidade do ser – há outros níveis nos quais o homem é muito mais cooperativo. O Guru está familiarizado com todos os níveis, e sua energia e paciência são inesgotáveis.

P: Você continua assegurando-me que estou sonhando e que já é hora de despertar. Como é que o Maharaj que veio a meus sonhos não conseguiu despertar-me? Ele continua me encorajando e lembrando, mas o sonho continua.

M: Isto é porque você realmente não entendeu que você está sonhando. Esta é a essência do cativeiro – a mistura do real com o irreal. Em seu estado presente, só o ‘Eu sou’ se refere à realidade; o ‘que’ e o ‘como sou’ são ilusões impostas pelo destino, ou por acidente.

P: Quando o sonho começou?

M: Parece ser sem começo, mas de fato é apenas agora. De momento a momento, você o está renovando. Uma vez que você tenha visto que está sonhando, você deverá acordar. Mas você não vê porque quer que o sonho continue. Virá o dia em que você ansiará pelo fim do sonho, com todo o seu coração e toda sua mente, e estará disposto a pagar o preço; o preço será o desapaixonamento e o desapego, a perda do interesse no próprio sonho.

P: Quão desamparado estou. Enquanto o sonho da existência dura, eu quero que continue. Enquanto quero que continue, durará.

M: O querer que continue não é inevitável. Veja claramente sua condição, a própria claridade o libertará.

P: Enquanto estou com você, tudo quanto diz parece bastante óbvio; mas, logo que me afasto de você, fico inquieto e cheio de ansiedade.

M: Não é necessário ficar longe de mim, em sua mente pelo menos. Mas sua mente procura o bem-estar do mundo!

P: O mundo está cheio de problemas, não é de estranhar que minha mente também esteja.

M: Houve alguma vez um mundo sem problemas? Seu ser como uma pessoa depende da violência em relação aos outros. Seu próprio corpo é um campo de batalha, cheio de mortos e agonizantes. A existência implica violência.

P: Como corpo, sim. Como ser humano, definitivamente não. Para a humanidade, a não-violência é a lei da vida; e a violência, a lei da morte.

M: Na natureza há pouca não-violência.

P: Deus e a natureza não são humanos e não precisam ser. Estou interessado só no homem. Para ser humano, devo ser absolutamente compassivo.

M: Você compreende que, enquanto possuir um ser a defender, você deve ser violento?

P: Sim. Para ser verdadeiramente humano, devo ser desinteressado. Enquanto for egoísta, serei subumano, apenas um ‘humanoide’.

M: Portanto, todos somos subumanos e só alguns poucos são humanos. Poucos ou muitos, o que nos faz humanos é novamente a ‘claridade e a caridade’. Os subumanos – os ‘humanoides’, são dominados por tamas e rajas, e os humanos, por sattva. Claridade e caridade são sattva no modo em que afetam a mente e a ação. Mas o real está além de sattva. Desde que eu conheço você, parece estar sempre procurando ajudar o mundo. Quanto já o ajudou?

P: Nem um pouco. Nem o mundo mudou, nem eu. Mas o mundo sofre e eu sofro com ele. Lutar contra o sofrimento é uma reação natural. E o que são a civilização e a cultura, a filosofia e a religião, senão uma revolta contra o sofrimento? O mal e a cessação do mal – não são sua principal preocupação? Você pode chamar a isto de ignorância – vêm a dar no mesmo.

M: Bom, as palavras não importam, nem tampouco interessa a forma em que você está agora. Os nomes e as formas mudam sem cessar. Saiba que você é a testemunha imutável da mente inconstante. Isto basta.

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