Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Uma experiência pessoal








Não é incomum que Maharaj, durante o curso da sessão, selecione algum dos visitantes regulares e pergunte-lhe sobre sua reação pessoal à suas palavras. Ele poderia dizer: Diga-me o que, especificamente, você entendeu destas conversas que tenha permanecido firmemente em sua mente. Ou ele poderia perguntar: Tendo ouvido o que eu tenho dito, a que firme conclusão você chegou com respeito à sua verdadeira identidade? Tem sido minha experiência que tudo o que Maharaj diz é sempre espontâneo, e que é inútil, portanto, tentar pensar sobre as razões específicas pelas quais ele faz tais perguntas a certas pessoas.
A reação imediata a tal questionamento de Maharaj é, naturalmente, de confusão, mas, o que é compreensível, é também equivalente a uma confissão de que, depois de escutar o que ele havia dito (Shravana), nenhuma meditação independente e adequada sobre isto (Manana) tinha sido feita, sem falar em agir de acordo com a convicção a que se chegou (Nididhyasana) – o único processo gradual recomendado por Maharaj quando ele é pressionado a recomendar alguma ‘ação’ para um devoto.
Em uma de tais ocasiões, Maharaj disse a um dos visitantes regulares: Você é um homem erudito e tem me escutado por bastante tempo muito pacientemente, muito intensamente, com profunda concentração. Diga-me em poucas palavras o que é isto que eu considero como a essência do que estou tentando comunicar. Maharaj parecia estar particularmente interessado na resposta, pois ele esperou pacientemente por ela durante bastante tempo. O devoto em questão fez esforços visíveis para dar uma resposta, mas, de um modo ou de outro, uma exegese bem-definida não apareceria. Durante o momento de calma interveniente, tão extraordinariamente calmo e silencioso, de forma espontânea apareceu em minha mente: ‘O despertar não pode acontecer enquanto persistir a idéia de que se é alguém que busca’.
Quando a sessão terminou e os outros visitantes tinham saído, apenas meu amigo Mullarpattan e eu permanecemos com Maharaj; eu mencionei a ele que uma resposta clara à sua pergunta surgiu em minha mente, enquanto esperávamos uma resposta do devoto, mas não me havia parecido apropriado dizer qualquer coisa durante a sessão. Sendo interrogado por Maharaj, disse-lhe qual era a minha resposta. Ele me pediu para repeti-la, e eu repeti a resposta mais devagar e claramente. Ao escutá-la, Maharaj sentou por um momento ou dois, com seus olhos fechados, um sorriso em seus lábios, e parecia muito satisfeito com a resposta. Então, ele perguntou a Mullarpattan o que ele tinha a dizer sobre minha resposta. Mullarpattan disse que não tinha nenhum comentário particular a fazer, e o assunto foi deixado de lado. Isto me pareceu uma pena, pois, se houvesse algum comentário do meu amigo, Maharaj iria quase certamente favorecer-nos com ao menos uma breve dissertação sobre o tema.
Houve outra ocasião que teve especial significado para mim, pessoalmente. Enquanto realizava a tradução em uma sessão, fui repentinamente interrompido por Maharaj. Devo mencionar aqui que, em alguns dias, minha tradução parecia emanar mais facilmente, mais espontaneamente do que em outros dias, e esta era uma destas ocasiões. Enquanto eu estava falando, talvez com meus olhos fechados, não estava consciente de qualquer interrupção de Maharaj e foi apenas quando o meu vizinho bateu no meu joelho firmemente que me tornei consciente do pedido de Maharaj para repetir o que eu tinha dito naquele momento. Isto me tomou um momento ou dois para lembrar o que tinha dito e, naquele instante, eu me senti curiosamente transformado, fora do contexto, em um testemunho distante e desinteressado do diálogo que seguia entre mim e Maharaj. Quando, depois de um instante, voltei ao quadro de referência relevante, encontrei Maharaj sentado em seu assento com um sorriso de agrado, enquanto os visitantes pareciam estar distanciados de mim de uma maneira constrangedora. A sessão, então, prosseguiu até sua conclusão normal, mas minha tradução depois disto parecia ser particularmente mecânica para mim.
Senti que alguma coisa estranha havia acontecido durante a sessão. Desafortunadamente, Mullarpattan não estava presente naquele dia e não poderia perguntar-lhe sobre isto. Eu, portanto, tomei emprestada uma gravação da sessão. A gravação, contudo, era de má qualidade e as perguntas e respostas estavam afogadas pelo barulho externo. Mas a fita serviu a meus propósitos, pois, como estava meditando quando ela estava sendo rodada, o que transpirou na sessão repentinamente voltou à minha memória. Nenhum espanto quanto aos visitantes parecerem assustados e fora de si mesmos! Eu estava conversando com Maharaj e falando para ele em termos de plena igualdade, a qual nunca poderia ter acontecido se eu estivesse realmente consciente do que estava dizendo. Não eram as palavras, mas o tom de firme convicção que deve ter assustado os visitantes, como, de fato, eu mesmo também estava ao ouvir a fita. Só pude conseguir alguma satisfação e consolo do fato de que, no fim do diálogo, Maharaj parecia perfeitamente feliz e contente, poderia dizer-se mesmo satisfeito.
O diálogo entre Maharaj e mim aconteceu como se segue:
Maharaj: Poderia repetir o que você acaba de dizer?
Resposta: Eu disse, “Eu sou a consciência na qual o mundo aparece. Toda e qualquer coisa que constitui o mundo manifestado não pode, portanto, ser algo distinto do que Eu sou, absolutamente.”
Maharaj: Como é possível que você seja ‘tudo’?
Resposta: Como poderia não ser tudo? Tudo o que a sombra é nunca poderá ser algo além do que a substância é. Seja o que for refletido como uma imagem – como poderia ser algo maior ou menor do que aquilo que está refletido?
Maharaj: Qual sua própria identidade então?
Resposta: Não posso ser nenhuma ‘coisa’; só posso ser tudo.
Maharaj: Como você existiria no mundo então? Em que forma?
Resposta: Maharaj, como poderia possivelmente existir com uma forma, como um ‘Eu’? Mas sempre estou presente absolutamente; e, relativamente, como consciência na qual toda a manifestação está refletida. A existência pode apenas ser objetiva, relativa; não posso, portanto, ter uma existência pessoal. A ‘existência’ inclui a ‘não-existência’, aparecimento e desaparecimento – duração. Mas ‘Eu’ estou sempre presente. Minha presença absoluta como atemporalidade é minha relativa ausência no mundo finito. Não, Maharaj, não há egoísmo nisto (talvez Maharaj tivesse levantado as sobrancelhas). Efetivamente, é apenas quando o ego desmorona que isto poderá ser apercebido. E qualquer pessoa pode dizer isto – apenas não há nenhum ‘alguém’ que possa dizê-lo. Tudo o que existe é apercepção.
Maharaj: Muito bem, prossigamos.
A conversa, então, prosseguiu e eu continuei a traduzir as perguntas dos visitantes e as respostas de Maharaj até que a sessão terminasse. Mais tarde, refleti sobre o tema da escravidão e da liberação como expostos por Maharaj, e tentei esclarecer suas implicações para mim em minha vida diária. Recapitulei a mim mesmo o que tinha absorvido, algo como ‘ruminação’, expressão que Maharaj usava com não pouca freqüência.
Quando a Consciência Impessoal se personaliza pela identificação com um objeto sensível que se concebe como um ‘eu’, o efeito está em transformar o “Eu”, o sujeito em essência, em um objeto. É esta objetivação da subjetividade pura (limitando o potencial ilimitado), esta falsa identidade, que pode se designada como ‘escravidão’. É desta ‘entificação’ da qual se busca a libertação. A liberação, portanto, não pode ser senão a apercepção, ou entendimento imediato, do falso como falso, a visão de que a auto-identificação é falsa. A liberação consiste em ver que é só a consciência a que busca a fonte não-manifesta do manifesto – e não a encontra, pois o buscador é, ele mesmo, o buscado!
Tendo entendido isto profundamente, quais são as implicações para ‘mim’, considerando a vida cotidiana? Meu entendimento básico agora é que nunca poderia existir qualquer entidade individual, como tal, com escolha de ação independente. Portanto, como poderia ‘Eu’, no futuro, cogitar sobre qualquer intenção? E, se cessasse de ter intenções, como poderia haver algum conflito psicológico? Na ausência de intenção não haveria nenhuma base psicológica para qualquer envolvimento com o Karma. Haveria, então, um perfeito alinhamento com tudo que pudesse acontecer, uma aceitação dos eventos sem qualquer sentimento de realização ou de frustração.
Tal forma de vida seria, então, não caracterizada pela vontade (uma ausência de vontade positiva ou negativa, uma ausência de ação e inação deliberadas), um passar pelo ‘meu’ tempo de vida designado, nada desejando e nada evitando, de tal modo que esta ‘vida’ (esta duração da consciência que surgiu como um eclipse sobre meu estado original verdadeiro) desapareceria em seu devido tempo, deixando-me em minha presença absoluta.
O que mais poderia (o conceitual) ‘alguém’ querer?




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