Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Sobre o Silencio


"A dor é sobreposta ao silêncio?

Tudo surge do silêncio.

Então o silêncio é constante e a dor é, de alguma forma, estranha?

Quando você fala de dor, alguém sente esta dor, um “alguém” que aparece do silêncio. A dor é uma percepção que nós, geralmente, evitamos sentir mediante um muito rápido processo de conceituação. Como o conceito de dor e sua percepção não podem ocorrer simultaneamente, devemos abandonar a idéia e sentir a percepção pura. Ao sermos conscientes da sensação, sendo seu conhecedor, nós estamos fora da dor, ou mais precisamente, a dor aparece em nossa observação, em nosso silêncio sempre presente.
Há diversos modos de relacionar-se com a dor. Geralmente, tendemos a evadi-la ou a dirigi-la de alguma maneira, mas então ficamos nela enredados através do esforço da vontade. Quando simplesmente observamos e permitimos que a dor se expresse, a energia estabelecida como dor se torna fluida. No olhar puro, não há ninguém, nenhum ego dirigente, e esta energia, não encontrando lugar algum para se localizar, reintegra-se à totalidade.
É importante para você aprender a viver com a dor. Nunca a conceitue. Eu lhe darei um exemplo do que quero dizer. Se você se sente cansado e diz a si mesmo “Estou cansado”, identifica-se instantaneamente com a fadiga. Esta identificação faz de você um cúmplice deste estado, com isso, você o sustenta. Mas se você descansa e permite que a fadiga se expresse, ele se torna um objeto de sua observação. E, como você não é mais um cúmplice dela, o sentimento de cansaço se dissolve rapidamente e você se sente completamente descansado.

Tenho um nervo comprimido em minha perna. Se eu pudesse desapegar-me da dor o suficiente para observá-la, isto ajudará a curá-lo?

Este nervo em sua perna tem sua origem entre a quarta e a quinta vértebra da coluna vertebral. Quando há pressão sobre esta parte, a primeira coisa a fazer é libertar o nervo. O melhor procedimento é sentar-se com as pernas estiradas e permitir que a área pélvica relaxe completamente. Mas você não deve estar no movimento. Deixe-me explicar.
Assuma esta postura, feche seus olhos, e permita que sua atenção percorra o corpo. Deste modo, você pode sentir onde a tensão está localizada. Mas não antecipe qualquer resultado. A antecipação significa que a mente já está em algum lugar antes que a sensação tenha a oportunidade de se expressar, e você permanece na idéia e não na sensação. Podemos chamar tal antecipação de “ganho final”. Você não deve viver neste ganho final.
Se eu fecho meus olhos, não posso dizer-lhe exatamente onde estou porque meu corpo está desperto em cada parte, despertado por sua sensitividade preservada. Em cada passo, o fim é alcançado.

Quando desperto na manhã, eu sinto freqüentemente que há alguma substância densa que devo ultrapassar para realmente acordar. Por que ainda me sinto tão cansado?

Quando você desperta pela manhã, é o corpo que desperta em sua Consciência. Mas o que nós chamamos nosso corpo é um padrão inscrito no cérebro, um tipo de reflexo impresso ali em algum momento de nossa vida. No princípio, este reflexo era ocasional, então se tornou mais freqüente, até que finalmente se estabeleceu. Você adotou este padrão e pensa de seu corpo segundo estes termos. Acontece o mesmo com os estados psíquicos. Podemos despertar e sentir-nos imediatamente deprimidos.

É também o condicionamento que nos faz pensar que necessitamos de oito horas de sono a cada noite?

Na medida em que você se torna mais desperto, você enfrenta os eventos do dia e as situações em um modo não-reativo, vivendo-os totalmente como eles acontecem. Nada é postergado e, portanto, não permanece resíduo algum em sua mente. Não havendo nenhum remanescente da reação e da tensão, seu corpo está completamente relaxado quando você dorme e, neste estado, quatro horas e meia a cinco horas é o suficiente.

Então, você precisa dormir mais se não vive conscientemente durante o dia?

Sim, algumas vezes o que você postergou durante o dia surge na forma de um sonho.

Os sonhos são necessários?

O que geralmente chamamos um sonho é uma eliminação do que não se resolveu durante o estado de vigília. Mas, se aparece como o que em francês se denomina songe, então não é uma eliminação. Você pode ver seu passado ou futuro aparecer em uma perfeita simultaneidade, pois a idéia de viver no tempo e no espaço é devida apenas ao fato de sermos educados para pensar nestes termos. Realmente, eventos e situações aparecem simultaneamente. O que você fará amanhã ou em quatro semas ou quatro anos, já está presente. Mas sua mente foi organizada para captar as percepções sucessivamente, e assim aparece o tempo. Ele existe apenas na mente humana. Na realidade não há tempo.

Os mestres espirituais dizem freqüentemente que o mundo dos fenômenos aparece e desaparece e não há nada que a pessoa necessite fazer. Mas muitos de nós sentimos a necessidade de controlar nossas vidas.

Por que controlar a vida? Ela não tem nenhuma necessidade de controle. A vida se encarrega de si mesma. Tentar controlar a vida significa viver na memória, na repetição, no processo contínuo de ter e devenir. Uma vez deixado de lado este impulso para controlar, você não tem conflito e é um com a corrente de vida. Seja um espectador do espetáculo. A representação continua, mas você está observando na audiência. Se subir ao palco e se envolver na obra, você estará perdido.

Nunca pratiquei a meditação por medo de descobrir tudo que tenha reprimido. Esta reação é um sinal de que devo olhar mais profundamente dentro de mim mesmo ou significa que não sou suficientemente maduro?

O que aparece durante a meditação são resíduos do passado. Estes resíduos são energia localizada mediante a associação de idéias, energia mobilizada no medo e na insegurança. Permaneça como testemunha de tudo isto. Sendo o observador indiferente, a atenção é imotivada, e todo condicionamento diminui. Você pode achar que o consciente, o inconsciente e o superconsciente aparecem, mas não são novos – eles são o passado. Permita-os emergir, mas permaneça como o observador.
Inicialmente, o observador é também um objeto da percepção. Então, você é este silêncio – atemporalidade – tanto na presença quanto na ausência de tempo.

Por que, às vezes, tenho medo do silêncio?

Quem é este “eu” que tem medo? É o ego, a imagem que temos de nós mesmos. Ele se dissolve quando você permite que se vá, no momento em que o observa. A observação pura não tem lugar para a imagem do “eu”. Assim, pois, deixe-o ir. Seja absolutamente livre de todas as situações.

Para mim, é difícil observar o medo quando estou totalmente aprisionado nele.

Olhe o mecanismo do medo. Veja o que existe diante deste medo, que associações o levaram a este estado.Você sente uma sensação e a etiqueta como “medo”. Você projeta uma imagem de um “eu” que se sente assustado, então coloca esta imagem em uma floresta escura diante de um enorme leão.
A projeção de si mesmo como um homem, como uma personalidade, faz surgir o medo porque a personalidade necessita de uma situação para existir. Muitos de nós preferimos sofrer, preferimos prolongar uma condição sem esperança porque isto dá ao “eu” um ponto ao qual apegar-se. Se o “eu” não tem nada em que se agarrar, morre. Mas nós devemos acostumar-nos a morrer!
Veja cada nova situação sem referência a uma imagem passada de você mesmo. Quando você pára de projetar uma pessoa, uma imagem de si mesmo como um homem, como ser inteligente, como um certo tipo de personalidade, como tendo muitas amantes, etc., o que acontece? Você está calmo e vigilante, mas não atento a alguma coisa. Então, a situação não pertence a uma imagem, mas à consciência global.
Quando você está preocupado, o “eu” está envolvido neste medo e não pode, intencionalmente, permitir que ele se vá. Esta imagem do eu se reduz no momento em que o medo se torna percepção. E, como o medo necessita do estímulo de uma imagem para existir, quando não há imagem, não há medo.
A idéia de ser uma entidade separada e individual é incorreta. Uma entidade independente não existe. Você é um com as estrelas, com a lua, com os animais, plantas e pedras e com a sociedade. Você não tem existência independente da totalidade.

Se o indivíduo não existe, o que existe?

Existem pensamentos, emoções e percepções, mas não há nada pessoal neles. O “eu” é uma convenção nas relações humanas. Existe como um conceito, mas não tem realidade.
Aceita a vida. Deixe-a acontecer. Você não é sua vida, apenas um observador sentado na audiência observando seu ator no palco. O ator pode interpretar um herói, ou um marido, ou alguém que sofre, mas sabe que está atuando. Não está identificado com o papel. É a mesma coisa em sua vida.

Então não há nada a fazer?

Nada a fazer. Quando você olha com profundidade, você verá que a maioria do “fazer” é reação. Apenas a pura observação imotivada é vazia de reações, pois não há ninguém para reagir. Então, toda a ação é espontânea, momento a momento.

(Longo silêncio)

Você não deve chegar a algumas conclusões neste tipo de encontro. Falar é mais ou menos um pretexto. O verdadeiro perfume está no silêncio.

Eu não entendo a razão pela qual me sinto tão desconfortável no silêncio.

Se você tenta ser silencioso, você não pode sê-lo. O silêncio é sua natureza original. Não há nenhuma necessidade de tentar ser o que você naturalmente é. Simplesmente, observe quando você está silencioso. Podemos apenas falar realmente de comunicação quando nós permanecemos silenciosos. A beleza da vida jaz na comunicação, mas não aquela que ocorre entre dois objetos, duas personalidades, duas imagens. Não há nenhum significado, nenhuma ação, em uma relação entre duas imagens, entre a idéia de ser um homem e a idéia de ser uma mulher.
No silêncio, não há homem ou mulher, há apenas amor. Então, a comunicação é comunhão.

É tão fácil interpretar o papel, mas...

Não desempenhe o papel de modo algum. Tomar-se como um homem significa que você deve preencher muitas qualificações: como se apresentar, como ceder, como falar, como atuar, etc. Você foi educado para pensar como um homem, confinado por todas estas etiquetas. O mesmo é verdadeiro quando você se considera um pai ou uma mãe. Não há nenhum homem ou mulher, nenhum pai ou mãe. Pare de projetar-se em seu ambiente e permita que cada momento o encontre de um modo novo e sem memória. Olhe para as coisas como se fosse a primeira vez. Seja totalmente despido, informe, anônimo. Você é simplesmente um belo ser, nada mais, e isto não requer educação. Seja simplesmente o belo ser que você é.

Se eu me comportasse desta maneira, eu me sentiria como se não tivesse proteção, como se estivesse indefeso...

De quem você se protegeria? Não há ninguém a defender."
.
De: A Simplicidade de Ser - Dialogos com Jean Klein

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