Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Junho de 1996 (Bretanha, França) Ranjit Maharaj





 VISITANTE: Quando contemplo minha verdadeira natureza, estou no “eu sou”. Um sentimento de amor sem causa me invade então. Será que esse sentimento é justo ou ainda é uma ilusão?

 RANJIT MAHARAJ: É a felicidade do ser. Você prova a presença “eu sou”. Você esquece tudo, os conceitos e a ilusão, é um estado não-condicionado. Essa felicidade aparece na ignorância ou no esquecimento do objeto, mas na felicidade há sempre um leve contato do ser, está tocado. Afinal, isso é ainda um conceito. Quando você está cansado do mundo exterior, você quer ficar recolhido em você. É a experiência dum estado elevado, mas ainda da mente. O Si não tem nem prazer nem desprazer. Sem o “eu” eu sou.
 O esquecimento total da ilusão quer dizer que nada é, nada existe. Ela está ali de certa maneira, mas para você não tem mais realidade. É o que chamamos por realização ou conhecimento de si. É a realização de si sem o “eu”, sem a experiência. Se alguém o chama, você responde: “estou aqui”, mas antes de dizer “estou aqui”, você era. Seu sentimento de ser não estava ali, mas quando é chamado, esse sentimento jorra espontaneamente. Assim, é chamado não-condicionado.
 A ilusão não pode trazer nada mais á realidade, não pode dar algo de “extraordinário” á realidade, porque a realidade é a base de tudo que existe. Tudo que é, o que você vê, os objetos da sua percepção, tudo isso é apenas devido á realidade. A ignorância e o conhecimento não existem, eles não são. Então qual é a expressão que você pode dar-lhes? Quando você dá uma expressão, isso quer dizer que há algo experimentado. E é a experiência do que de fato não existe. Assim que você sente algo, você se afasta de si – mesmo. Você sente amor, é muito melhor que ficar na ignorância, mas afinal é sempre um estado, e um estado é sempre condicionado. O não-condicionado é sem estado. Trata-se da experiência da não-existencia da ilusão. Se você sentir existência por menor que seja, é ignorância. Isso é muito sutil, a ignorância e o conhecimento são ambos sutis. É difícil entender, mas se dedicar realmente a essa investigação, conseguira esse estado. Isso é, e sempre foi, mas você não sabe, é a dificuldade. Não há um único lugar, um único ponto onde a realidade não seja. Você experimenta sua existência a través os objetos, mas tudo isso não é nada. Ela é onipresente, mas não pode vê-la. Por quê? Porque você é ela – mesma, a realidade, como você pode ver a si – mesmo? Para ver sua face, você precisa dum espelho.
 A verdadeira felicidade está em você, e não fora de você. No sono profundo você é feliz, está na ignorância do mundo. Assim a felicidade reside no esquecimento do mundo. Deixe o mundo do jeito que é, não o destrói, mas saiba que ele não é. Faça todas as coisas que tem a fazer, mas esteja sempre de fora, afastado pela compreensão, porque tudo que você sente, percebe e faz é ilusão, não existe. Sua mente deve aceitar isso. Os sábios dizem “Já que isso é nada, como esse nada pode afetá-lo?” Mas o que diz sua mente o afeta, o toca... Então, que fazer? A mente é nada mais que conhecimento, mas isso não está certo.
 Dois homens queriam pregar uma peça a um dos seus amigos. Um deles começa insultando outro, que se pus então a rir. O terceiro, ultrajado lhe diz: “como você pode rir enquanto ele o insulta?”. Ria porque sabia que era apenas um jogo, tinha a chave do jogo, mas o outro não entendia. Da mesma maneira, os seres realizados vivendo nesse mundo compreendem que tudo isso é nada, e seja o que for que aconteça, nada acontece. Assim não estão tocados. As pessoas estão sempre no temor do que acontece ou vá acontecer, do que os outros vão dizer. “O que vou fazer?”, pensam, “o que vá me acontecer?”. Lutam ou festejam. Todas essas alienações e esses bloqueios vêm da mente, mas aquele que está fora do circulo entende que tudo isso é nada, não existe, que é apenas ignorância.
É dito que aquele que mergulha nas profundezas do oceano encontra a perola. Aquele que fica na superfície é arrastado no turbilhão do prazer e do sofrimento. Você deve mergulhar fundo no ilimitado porque é ali que você está. Nunca pare ao finito, ao limitado. O ouro não se preocupa com as formas que moldam as jóias, isso pode ser a figurinha dum cachorro ou duma divindade, é indiferente ás formas.  Da mesma maneira, seja indiferente ás coisas porque não existem, nada pode tocá-lo, você não está ligado. A mente deve chegar á plena compreensão do que é a ilusão. O que sobrou é seu estado.
 Nada sobrou para aquele que entendeu, não há nem ganho nem perda. Não me pergunte se você pode alcançar a realidade, porque você é a realidade, então porque dizer: “posso?”. Primeiramente, saia do círculo, largue as coisas uma após outra, e mergulhe em você – mesmo. Em seguida volte, e esteja em tudo.
 O que descreveu é um bom estado, não há dúvida á respeito, mas vá um pouco mais longe. Quando a mente aceita que tudo é ilusão, tudo apenas ilusão, então você está em você – mesmo. O corpo e a mente são ilusões, você deveria estar feliz por saber isso. Livre-se dessa identificação. A única coisa que o mestre faz é dar seu real valor ao poder que está em você, ao qual você não dá nenhuma importância. Ele não faz mais nada. Era uma pedra, e o mestre revela sua verdadeira natureza que é o diamante. Faz de você – mesmo a pedra mais preciosa. Eu sou onipotente, onipresente, sou o criador de tudo que é. Quando você está na base de tudo, você é tudo, então, até um assassino não pode ser considerado como mal. Tudo que acontece é “minha ordem”. Seja o mestre, não o escravo. Você já é o mestre.

 V: Gostaria de saber por que alguns seres realizados se reencarnam para ajudar outros a se realizar?

 R.M: Ninguém vai ninguém vem... Quem lhe diz isso? Você leu alguns livros e você os repete. É dito que o maior homem é aquele que morre desconhecido. Rama e krishna eram “heróis” secundários. O homem realizado vive no silêncio e morre no silêncio. Depois seu pensamento trabalha em alguma outra pessoa, mas que eles voltam é insensato. Ninguém vai ninguém vem. Tudo é apenas um sonho. No sonho você se torna um grande mestre, mas ao acordar, você retorna ao estado comum. Quem foi lá, e quem voltou? Nada aconteceu, o conceito dum grande mestre o afagou e você se tornou esse “grande mestre”. Ao acordar você pensa: “oh tudo isso é insensato, como posso ser um grande mestre, não sei nada?”. Porém, no sonho, você dava conferencias e falava de todas essas coisas com desenvoltura, mas ao acordar esses conhecimentos sumiram. Era apenas um sonho
 De onde isso apareceu, e onde isso desapareceu? Quando nada é, tudo são apenas crenças e conceitos da mente. O pretenso sábio que diz: “eu sou a reencarnação de Deus”, não o conhece e não conhece a realidade. Ao contrario é escravo do seu ego, da ilusão. Quando o próprio conhecimento não tem entidade, todas essas questões são irrelevantes.
 Aquele que entende se livra de tudo. Essa pessoa se parece a uma pessoa comum, mas seu coração é muito diferente. Se você ficar fora, como pode entender? Para você se tornar proprietário dessa casa, deve entrar nela. Da mesma maneira, você deve penetrar seu próprio ser para se tornar proprietário dele, mas ai, o “eu” não cabe como “eu”, não se trata nem de mestre nem de discípulo. O pensamento do mestre pode inspirar todo aquele que incorpora, porque ele e aquele que partiu em silêncio são “um”. Penetre o coração do ser realizado, e você não se mantém mais como “você”, porque só ele é. Assim, é dito daqueles que ensinam que são encarnações de Deus. O mestre dá o conhecimento para todos, mas não lhe dá valor, porque sabe que o conhecimento é a maior ignorância. Não seja afetado por nada

 V: Se tudo é ilusão, será você – mesmo uma ilusão?

 R.M: Oh sim! Eu sou a maior das ilusões! Tudo que digo com tanto coração e tão francamente é falso. Mas o falso que lhe digo pode fazê-lo alcançar esse ponto. O endereço da pessoa não é real, apenas a pessoa é real. Quando você chega numa casa graça ao endereço que lhe foi dado, aquele só se torna verdadeiro no momento que entra na casa. As palavras não são outra coisa senão indicações, não têm realidade em si. Se “eu” ficar, eu sou também uma ilusão. Não se mantenha como “eu”, é isso a grande compreensão da filosofia. São Tukaram diz “vi minha própria morte, e o que vi ali, a felicidade que foi revelada, isso eu sei” Você deve morrer primeiro, “você” quer dizer ilusão.
 Assim, o que digo é falso, mas ainda assim verdadeiro porque estou falando “Disso”. O endereço é falso, mas quando você encontra a pessoa, é a realidade. Da mesma maneira todas as escrituras sagradas e todos os livros filosóficos estão ali somente para indicar esse ponto e quando você o alcança, eles se tornam não-existantes, vazios. As palavras são falsas, apenas aquilo que veiculam é verdadeiro, são todas ilusões, mas compreender a ilusão, a ilusão é necessária. Por exemplo: você tira uma espinha fincada no seu dedo com outra espinha, em seguida você joga ambas as espinhas. Mas se você conserva a espinha que lhe serviu para tirar a primeira, inevitavelmente será picado novamente. Para tirar a ignorância, o conhecimento é necessário, mas finalmente ambos devem se dissolver na realidade. VOCÊ – mesmo é sem ignorância, sem conhecimento.
 Assim, o mestre e o buscador são ilusão porque eles são apenas “um”. O falso só pode ser suprimido pelo falso. Se você guardar a secunda espinha (o conhecimento), até se for de ouro, ela o picará. O ego é a única ilusão, e o ego é conhecimento. Diz-se que para pegar ladrão, é preciso se passar por ladrão. Você poderá então lhe dizer: “eu sei que é ladrão, mas cuidado estou aqui, não poderá me roubar”. Você não pode pegar um ladrão, porque ele tem quatro olhos e você só dois. Numa piscadela o ladrão descobre objetos de valor, e ao menor descuido da sua parte, ele o rouba! A ilusão é parecida ao ladrão, você deve então ser mais forte que o ladrão! Sua mente deve aceitar que tudo é ilusão, nada mais que ilusão, você será então o “grande dos grandes”
 O conhecimento é a maior coisa, mas deve ser apenas um remédio. Quando a febre desaparece graça ao medicamento que você toma, você deve parar de tomá-lo. Não continue o tratamento, ou causará mais problemas. O conhecimento é somente necessário para erradicar a doença da ignorância. O medico lhe aconselhará sempre uma dosagem limitada!
 Em primeiro lugar, entenda que o “eu” é ilusão, o que “eu” digo é ilusão.  O mestre e o que ele diz são também ilusão, porque em realidade, eu e ele não existem mais. Absorve-se em você – mesmo, tão profundamente que desaparece. Senão eis o que acontecerá: Uma cabra entrou na sua casa, e para fazê-la sair, você abre a porta. A cabra sai, mas um camelo entra. O camelo é igual á ilusão.

 V: Se um mendigo pede dinheiro a um ser realizado, o que fará?

 R.M: É sua escolha, dá ou não dá porque afinal, ainda é ilusão. Ele pode parecer sem piedade ao ponto de não dar água a um doente que geme: “água, água”, não dará, porque esse homem vá morrer de toda maneira. Dando água para ele, vá respirar um pouco mais e sofrerá ainda mais. Você pensa ser bom lhe dando água, mas só aumenta o sofrimento dele. Por que ele está na ignorância, quer viver mais e mais, mas o que vai conseguir respirando um pouco mais? Terá mais sofrimento. Também, não o aconselha de ser sem piedade, mas guarde isso no fundo do seu coração. Dê-lhe água se quiser, mais saiba que lhe acrescenta sofrimento. Aquele que acredita ter feito uma boa ação se engana.
 Se você der cem francos a um mendigo, não será mais rico amanhã, continuará mendigando, porque esse hábito é tão profundamente enraizado nele que se tornou sua secunda natureza. Todos os homens mendigam para conseguir a felicidade desde o nascimento, e finalmente morrem sem nunca consegui-lo. Até quando vocês vão rezar á igreja ou ao templo, vocês se fazem de mendigo perante Deus, primeiro mendigam para vocês, em seguida para suas mulheres, seus filhos etc. Assim, pechincham primeiro para vocês, e depois para os outros. Todo mundo procura a felicidade, mas não a consegue, porque seu método para alcançá-la é errado. Esteja sempre no caminho que o mestre lhe indica e será um com ele.
 O hábito não é nada mais que o resultado duma mente estreita. A mente é o conhecimento, e quando penetra o corpo físico, se molda com paixões e hábitos Esses hábitos e paixões o deixam infeliz. Assim, estejam atentos, entre na prisão, mas saibam que não são culpados. Fique no mundo sabendo que nada é verdadeiro. Não crie paixões, compreenda o que são e estará livre na vida, enquanto o corpo se mantiver. Um dia, ele se desintegrará, mas ninguém nasce ninguém morre.
 Bendito aquele que se realize. Realização quer dizer compreensão, e se compreender a ilusão, você será sempre feliz.


 Tradução de Alain Launay

                                     

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