Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Sem esforço










"Pergunta: Em uma palestra anterior, você disse que a realização do que realmente somos não requer esforço. Mas, se nós queremos aprender a tocar piano, precisamos praticar muito antes de fazê-lo sem esforço. Se o esforço se aplica a objetos limitados, por que não deveria ser aplicado ao infinito?



Jean Klein: Aprendemos a tocar piano observando uma apresentação da música e tentando exteriorizá-la no piano. Isto não requer nenhum esforço. Na primeira vez que você toca uma peça, você observa o que acontece. Observando a posição de suas mãos, a forma em que a música soa, e assim por diante, você entra em contato com ela. Tocando-a uma segunda vez, você começará a discernir o que pode impedir uma execução perfeita da peça. E, na terceira vez, você a toca perfeitamente.

Da mesma forma, você chega à compreensão de sua natureza real. Primeiramente, há observação, a qual produz uma discriminação que conduz à percepção espontânea. Nada disto requer esforço.

A palavra “esforço” implica intenção, vontade de atingir algum fim. Mas este fim é uma projeção do passado, da memória, e assim deixamos de estar presentes no momento atual. Pode ser exato falar de “atenção correta” no sentido de uma escuta incondicionada, mas esta atenção é diametralmente oposta ao esforço já que é inteiramente livre de orientação, motivação e projeção. Na atenção correta, nossa escuta é incondicionada; não existe a imagem de uma pessoa para impedir a audição global. Não é limitada ao ouvido; todo o corpo ouve. Está completamente fora da relação sujeito-objeto. O escutar acontece, mas nada é ouvido e ninguém escuta. E , como a escuta incondicionada é nossa real natureza, conhecemos a nós mesmo na escuta.

Mas raramente escutamos de verdade. Nós vivemos mais ou menos continuamente no processo de devenir. Projetamos uma imagem de ser alguém e nos identificamos com ela. E, enquanto nos tomamos por uma entidade independente, há uma fome contínua, um sentimento de incompletude. O ego está constantemente buscando satisfação e segurança, daí sua perpétua necessidade de ser, de realizar, de alcançar. Desta forma, nós nunca contatamos a vida realmente, pois isto requer abertura de momento a momento. Nesta abertura, a agitação estimulada pela tentativa de saciar uma ausência em você mesmo chega ao fim e, na quietude que fica, você é direcionado de volta para sua integridade. Sem uma auto-imagem você é realmente um com a vida e com o movimento da inteligência. Apenas então nós podemos falar de ação espontânea. Todos conhecemos momentos quando a pura inteligência, livre da interferência psicológica, surge, mas logo que retornamos a uma imagem de ser alguém, questionamos esta intuição perguntando se ela é certa ou errada, boa ou má para nós, e assim sucessivamente. O quer que façamos intencionalmente pertence ao “ego-eu” e, embora apareça como ação, é realmente reação. Apenas o que surge espontaneamente do silêncio é ação e não deixa nenhum resíduo. Você nem sequer pode recordá-la. A ação intencional do “ego-eu” sempre deixa um resíduo que emergirá talvez no estado de sonho ou mesmo como uma fixação que podemos mais tarda chamar enfermidade.

Na espontaneidade a ação ocorre, mas ninguém atua. Não há nenhuma estratégia, nenhuma preparação. Há apenas Consciência livre da agitação e da memória e, nesta quietude, todas as ações são espontâneas, pois cada situação pertence a sua abertura, e ela mesma lhe diz exatamente como proceder. A ação real não surge do raciocínio, mas da observação receptiva. Por exemplo, quando você vê uma criança pequena atravessando a rua, você não pára e pensa, “Devo gritar pedindo ajuda ou devo ir e pegá-la, ou devo deixar que vá só?” Você age. Mesmo que você tenha realizado vinte vezes esta ação, é nova a cada vez. Pertence absolutamente ao momento."


"A Naturaleza de Ser" Conversações com Jean Klein

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