Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

quinta-feira, 4 de março de 2010

O ponto de vista para ler o Gita






"Em uma das sessões, uma distinta dama que visitava Maharaj fez uma pergunta sobre o Bhagavadgita. Enquanto ela formulava sua questão nas palavras adequadas, Maharaj, repentinamente, perguntou-lhe: “De que ponto de vista você lê o Gita?”
Visitante: Do ponto de vista de que o Gita é, talvez, o guia mais importante para o buscador espiritual.

Maharaj: Por que esta resposta absurda? Certamente, ele é um guia muito importante para o buscador espiritual; não é um livro de ficção. Minha pergunta é: Qual o ponto de vista do qual você lê o livro?

Outro visitante: Senhor, eu o li como um dos Arjunas no mundo, para cujo benefício o Senhor foi generoso o bastante para expor o Gita.
Quando Maharaj buscou em torno uma outra resposta, houve apenas um murmúrio geral de confirmação desta.

M: Por que não ler o Gita do ponto de vista do Senhor Krishna?

Esta sugestão suscitou dois tipos simultâneos de reação de assombro de dois visitantes. Uma das reações foi uma exclamação escandalizada que claramente significava que a sugestão era equivalente a um sacrilégio. A outra foi de um único e rápido bater palmas, uma ação reflexa, obviamente, indicando alguma coisa como o Eureka de Arquimedes. Ambos os visitantes interessados estavam como que embaraçados por suas reações inconscientes e pelo fato de que as duas eram o exato oposto uma da outra. Maharaj deu um rápido olhar de aprovação ao que havia batido palmas e continuou:

M: Muitos livros religiosos se supõe ser a palavra de alguma pessoa iluminada. Por mais iluminada que seja uma pessoa, ela deve falar a partir de certos conceitos que achou aceitáveis. Mas a extraordinária distinção do Gita é que o Senhor Krishna falou do ponto de vista de que ele é a fonte de toda a manifestação, isto é, não do ponto de vista de um fenômeno, mas do númeno, do ponto de vista de que ‘a manifestação total sou eu mesmo’. Esta é a exclusividade do Gita.
Agora, disse Maharaj, considerem o que deve ter acontecido antes que qualquer texto religioso antigo tenha sido escrito. Em todos os casos, a pessoa iluminada deve ter tido pensamentos, os quais colocou em palavras, e as palavras usadas podem não ter sido muito adequadas para comunicar seus pensamentos exatos. As palavras do mestre poderiam ter sido ouvidas pela pessoa que as escreveu, e o que ela escreveu, certamente, seria de acordo com seu próprio entendimento e interpretação. Depois deste primeiro registro manuscrito, várias cópias dele teriam sido feitas por diversas pessoas e tais cópias conteriam numerosos erros. Em outras palavras, o que o leitor de qualquer tempo particular lê, e tenta assimilar, pode ser totalmente diferente do que realmente o mestre original pretendeu comunicar. Acrescentem a tudo isto as interpolações inconscientes, ou deliberadas, feitas por vários eruditos no curso dos séculos, e vocês entenderão o problema que eu estou tentando comunicar a vocês.
Disseram-me que o próprio Buda falou apenas na linguagem Maghadi, enquanto seu ensinamento, como foi anotado, está em Pali ou em Sânscrito, o que poderia ter sido feito apenas muitos anos mais tarde; o que agora temos de seus ensinamentos passou por numerosas mãos. Imaginem o número de alterações e acréscimos que foram infiltradas nele por um longo período. Não seria surpreendente que haja agora diferenças de opinião e disputas sobre o que Buda realmente disse, ou quis dizer?
Nestas circunstâncias, quando peço a vocês que leiam o Gita do ponto de vista do Senhor Krishna, peço que abandonem imediatamente a identidade com o complexo corpo-mente quando o lerem. Peço que leiam de acordo com o ponto de vista de que vocês são a consciência desperta – a consciência de Krishna – e não os objetos fenomênicos aos quais ela deu sensibilidade – para que o conhecimento que está no Gita seja verdadeiramente revelado para vocês. Vocês entenderão, então, que no Vishva-rupa-darshan, o que o Senhor Krishna mostrou a Arjuna não era seu próprio Svarupa, mas o Svarupa – a verdadeira identidade – do próprio Arjuna e, por conseguinte, de todos os leitores do Gita.
Em resumo, leiam o Gita do ponto de vista do Senhor Krishna, como a consciência de Krishna; vocês então compreenderão que o fenômeno não pode ser ‘liberado’ porque ele não tem nenhuma existência independente; é apenas uma ilusão, uma sombra. Se o Gita for lido neste espírito, a consciência, a qual tem se identificado erradamente com o complexo corpo-mente, tornar-se-á consciente de sua verdadeira natureza e se fundirá com sua origem."
"Sinais do Absoluto"

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