Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A Experiência Não é a Coisa Real







Maharaj: O buscador é aquele que está em busca de si mesmo. Logo ele descobre que seu próprio corpo não pode ser ele. Uma vez que a convicção ‘Eu não sou o corpo’ tenha se tornado tão bem enraizada que ele não pode mais sentir, pensar e atuar por e em benefício do corpo, facilmente descobrirá que ele é o ser universal, conhecendo – e agindo em consequência – que nele e através dele o universo inteiro é real, consciente e ativo. Este é o âmago do problema; ou você é consciente do corpo e escravo das circunstâncias, ou você é a própria consciência universal – e em pleno controle de cada fato.
Ainda assim, a consciência, individual e universal, não é meu verdadeiro lar; não estou nela, ela não é minha, não há nenhum ‘eu’ nela. Estou além, embora não seja facilmente explicado como alguém pode ser nem consciente, nem inconsciente, mas exatamente além. Eu não posso dizer que estou em Deus ou que eu sou Deus; Deus é a luz e o amor universais, a testemunha universal; eu estou além inclusive do universal.
Pergunta: Neste caso você é sem nome e forma. Que tipo de ser você tem?
M: Sou o que sou, nem com forma nem sem forma, nem consciente nem inconsciente. Estou fora de todas estas categorias.
P: Você está empregando a abordagem do neti-neti (não isto, não aquilo). 
M: Você não pode encontrar-me pela mera negação. Eu sou tanto tudo quanto nada; nem ambos, nem nenhum. Estas definições se aplicam ao Senhor do Universo, não a mim.
P: Você pretende transmitir que você é exatamente nada.
M: Oh, não! Sou completo e perfeito. Sou a existência do ser, a sabedoria do saber, a plenitude da felicidade. Você não pode me reduzir ao vazio!P: Se você está além das palavras, sobre o que deveremos falar? Falando metafisicamente, o que você diz se mantém coeso, não há nenhuma contradição interna. Mas não há nenhum alimento para mim no que você diz. Está completamente além de minhas necessidades urgentes. Quando peço pão, você me dá joias. São bonitas, sem dúvida, mas eu estou faminto. 

M: Não é assim. Estou oferecendo a você exatamente o que você necessita – o despertar. Você não está faminto e não precisa de pão. Você necessita de cessação, renúncia, desembaraço. O que você acredita necessitar não é o que você necessita. Eu conheço sua necessidade real, você não. Você necessita retornar ao estado no qual eu estou – seu estado natural. Qualquer outra coisa que você possa pensar é uma ilusão e um obstáculo. Acredite em mim, você não necessita nada exceto ser o que é. Você imagina que aumentará seu valor pela aquisição. É como o ouro imaginando que uma adição de cobre o melhorará. A eliminação e a purificação, a renúncia de tudo o que é estranho à sua natureza é o bastante. Tudo mais é vaidade.

P: É mais fácil dizer que fazer. Um homem vem a você com uma dor de estômago e você o aconselha a vomitar seu estômago. Certamente, não haverá problema nenhum sem a mente. Mas a mente existe – de forma muito tangível.
M: É a mente que lhe diz que a mente existe. Não se deixe enganar.  Todos os infindáveis argumentos sobre a mente são produzidos pela própria mente, para sua própria proteção, continuação e expansão. É a rejeição a considerar os espasmos e convulsões da mente que pode levá-lo além dela. 

P: Senhor, eu sou um humilde buscador, enquanto você é a própria Realidade Suprema. Agora o buscador se aproxima do Supremo para ser iluminado. O que o Supremo faz?
M: Escute o que continuo lhe falando e não se afaste disto. Pense nisto todo o tempo e em nada mais. Tendo chegado a este ponto, abandone todos os pensamentos, não apenas do mundo, mas de você mesmo também. Permaneça além de todo pensamento, na silenciosa Consciência do ser. Isto não é progresso, pois o que vem já está em você, esperando por você.
P: Assim você diz que devo tentar a parada do pensamento e permanecer firme na ideia ‘Eu sou’. 

M: Sim, e esvazie de todo significado qualquer pensamento que venha a você em conexão com o ‘Eu sou’, e não lhes dê atenção.
 
P: Acontece que eu encontrei muitos jovens que vieram do Ocidente e percebo que há uma diferença básica quando os comparo aos indianos. Parece como se suas psiques (antahkarana) fossem diferentes. Conceitos como o Eu, Realidade, mente pura, consciência universal são compreendidos facilmente pela mente indiana.  Eles soam familiares, têm sabor doce. A mente ocidental não responde, ou apenas os rejeita. Ela os concretiza e deseja para o emprego imediato a serviço dos valores aceitos. Estes valores são frequentemente pessoais: saúde, bem-estar, prosperidade; algumas vezes são sociais – uma sociedade melhor, uma vida mais feliz para todos; todos estão conectados com os problemas mundanos, pessoais ou impessoais. Outra dificuldade com a qual nos defrontamos frequentemente nas conversas com ocidentais é que, para eles, tudo é experiência – do mesmo modo que eles querem experimentar o alimento, a bebida e as mulheres, a arte e as viagens, assim eles desejam experimentar a Ioga, a realização e a liberação. Para eles é como outra experiência, a ser obtida por um preço. Eles imaginam que tais experiências possam ser compradas e pechincham sobre o preço. Quando um Guru põe o preço muito alto, em termos de tempo e esforço, eles vão para outro que ofereça pagamentos a prazo, aparentemente mais acessíveis, mas cercados de condições que não possam ser cumpridas. É a velha história de não pensar em um macaco cinza quando tomar o remédio! Neste caso, são coisas como não pensar no mundo, ‘abandonar toda proteção’, ‘extinguir todo desejo’, ‘tornar-se perfeitamente celibatário’, etc. Naturalmente, há um enorme engano em todos os níveis, e os resultados são nulos. Alguns Gurus, em aguda desesperação, abandonam toda disciplina, não prescrevem condições, aconselham o não esforço, a naturalidade, a viver simplesmente em uma Consciência passiva, sem qualquer padrão de ‘deve’ ou ‘não deve’. E há muitos discípulos cujas experiências passadas os levaram ao desgosto de si mesmos de tal maneira que, simplesmente, eles não querem olhar para eles mesmos. Se não estiverem enojados, estarão entediados. Estão fartos do autoconhecimento, querem alguma outra coisa. 

M: Permita-lhes que não pensem neles mesmos, se não lhes agrada. Deixe-os que estejam com um Guru, que o observem, que pensem nele. Logo experimentarão um tipo de felicidade, totalmente nova, nunca experimentada antes, exceto, talvez, na infância. A experiência é tão inconfundivelmente nova que atrairá sua atenção e criará interesse; uma vez despertado o interesse, ordenadamente a aplicação se seguirá.

P: Estas pessoas são muito críticas e desconfiadas. Não podem ser de outra forma, tendo passado por tanto aprendizado e tantas decepções. Por um lado elas querem a experiência, pelo outro desconfiam dela. Só Deus sabe como chegar a elas!

M: A verdadeira compreensão e amor as alcançarão. 

P: Quando elas têm alguma experiência espiritual, surge outra dificuldade. Elas se queixam de que a experiência não dura, que vem e vai de modo aleatório. Tendo agarrado o pirulito, querem sugá-lo todo o tempo. 
M: A experiência, por sublime que seja, não é a coisa real. Por natureza, ela vem e vai. A autorrealização não é uma aquisição. É mais da natureza do entendimento. Uma vez alcançada, não pode ser perdida. Por outro lado, a consciência varia, é fluida e sofre transformação de momento a momento. Não se aferre à consciência e a seu conteúdo. A consciência retida cessa. Tentar a perpetuação de um momento de discernimento ou de uma explosão de felicidade é destruir o que se quer preservar. O que vem deve ir. O permanente está além de todas as idas e vindas. Vá à raiz de toda experiência, para o sentido de ser. Além do ser e do não ser está a imensidade do real. Tente-o repetidamente.
P: Para tentar, é necessário fé.
M: Primeiro deve existir o desejo. Quando o desejo for forte, a disposição para tentar virá. Você não precisa da garantia do sucesso quando o desejo for forte. Você está pronto para apostar.
P: Desejo forte, fé forte – vêm a ser o mesmo. Estas pessoas não confiam nem em seus pais ou na sociedade, nem sequer nelas mesmas. Tudo o que elas tocaram se transformou em cinzas. Dê-lhes uma experiência genuína, indubitável, além da argumentação da mente, e elas o seguirão até o fim do mundo. 

M: Mas não estou fazendo outra coisa! Incansavelmente levo sua atenção ao fator incontestável – o do ser. O ser não precisa de provas – ele prova todas as outras coisas. Se eles apenas se aprofundarem no fato de ser e descobrirem a vastidão e a glória das quais o ‘Eu sou’ é a porta, cruzando-a e indo além, suas vidas serão cheias de felicidade e de luz. Acredite em mim, o esforço necessário não é nada comparado com as descobertas a que se chega. 

P: O que você diz está certo. Mas estas pessoas não têm nem confiança nem paciência. Mesmo um pequeno esforço cansa-as. É realmente patético vê-las tateando cegamente e, ainda assim, incapazes de agarrarem a mão que as ajuda. Basicamente são boas pessoas, mas estão totalmente desnorteadas. Eu lhes falo: Vocês não podem ter a verdade em seus próprios termos. Devem aceitar as condições. A isto respondem: Alguns aceitarão as condições e outros não. A aceitação e a não aceitação são superficiais e acidentais; a realidade está em tudo; deve haver um caminho que todos possam seguir – sem condições agregadas.

M: Existe tal caminho, aberto a todos, em cada nível, em cada modo de vida. Todos são conscientes de si mesmos.  O aprofundamento e a ampliação da autoconsciência – é o caminho real. Chame-o plena ciência, ou testemunhar, ou apenas atenção – é para todos. Ninguém é imaturo para ele e ninguém pode fracassar.
Mas, certamente, você não deve estar meramente alerta. Sua atenção deve incluir a mente também. Testemunhar é antes de tudo Consciência da consciência e de seus movimentos.






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