Blog da Editora Advaita com textos de dialogos com Sri Nisargadatta Maharaj e outros Mestres como Sri Ramana Maharshi, Jean Klein, Ramesh Balsekar, Tony Parsons, Karl Renz e outros. Não-dualidade. Para encomendar o livro "Eu Sou Aquilo" Tat Twam Asi - Conversações com Sri Nisargadatta Maharaj" escrever para editora.advaita@gmail.com

sábado, 5 de maio de 2012







Agarre-se ao ‘Eu sou’










Pergunta: Você está sempre contente ou triste? Conhece a alegria e a tristeza?
Maharaj: Chame-os como quiser. Para mim são apenas estados da mente, e eu não sou a mente.
P: O amor é um estado mental?
M: Novamente, depende do que quer dizer por amor. O desejo é, certamente, um estado mental. Mas a percepção da unidade está além da mente. Para mim, nada existe por si mesmo. Tudo é o Eu, tudo é meu próprio eu. Ver a mim mesmo em todos e todos em mim mesmo é, com toda certeza, amor.
P: Quando vejo algo agradável, eu o quero. Quem o quer exatamente? O eu ou a mente?
M: A pergunta está mal colocada. Não há ‘quem’. Há desejo, medo, raiva, e a mente diz – eu sou isto, isto é meu. Não há nada que possa ser denominado ‘eu’ ou ‘meu’. O desejo é um estado da mente percebido e nomeado pela mente. Sem a mente que percebe e nomeia, onde está o desejo?
P: Mas há um perceber sem nomear?
M: Certamente. O nomear não pode ir além da mente, enquanto perceber é a própria consciência.
P: Quando alguém morre, o que acontece exatamente?
M: Nada acontece. Algo se torna nada. Nada era, nada permanece.
P: Há seguramente alguma diferença entre o vivo e o morto. Você fala do vivo como morto e do morto como vivo.
M: Por que você se preocupa com a morte de um homem e não se preocupa com a de milhões que morrem a cada dia? Universos inteiros estão implodindo e explodindo a todo momento – devo chorar por eles? Uma coisa é muito clara para mim: tudo o que existe, vive e se move tem sua existência na consciência, e eu estou dentro e fora da consciência. Estou nela como a testemunha, estou além como Ser.
P: Com certeza, você se preocupa quando seu filho adoece, não é assim?
M: Não fico afobado. Simplesmente, faço o necessário. Não me preocupo sobre o futuro. Em minha natureza há uma resposta correta a cada situação. Não paro para pensar o que fazer. Atuo e sigo adiante. Os resultados não me afetam. Nem sequer me importa se são bons ou maus. Quaisquer que sejam, assim o são; se voltarem a mim, tratarei com eles novamente. Ou, de preferência, acontece de tratar com eles novamente. Não existe intenção deliberada em fazer qualquer coisa. As coisas acontecem como elas acontecem, não porque as faço acontecer, mas é porque Eu sou que elas acontecem. Na realidade, nunca acontece nada. Quando a mente estiver inquieta, fará com que Shiva dance, como as águas inquietas de um lago fazem a lua dançar. Tudo é aparência, devido a ideias erradas.
P: Não há dúvida de que você é consciente de muitas coisas e se comporta de acordo com sua natureza. Você trata uma criança como uma criança e um adulto como um adulto.
M: Como cada gota do oceano carrega o gosto do oceano, assim cada momento traz consigo o sabor da eternidade. Definições e descrições têm seu lugar como incentivos úteis para a busca, mas você deve ir além delas, dentro daquilo que é indefinível e indescritível, exceto em termos negativos.
P: Eu existo em seu mundo assim como você existe no meu?
M: Certamente, você é e eu sou. Mas apenas como pontos na consciência; não somos nada à parte da consciência. Isto deve ser bem entendido: o mundo pende do fio de consciência; sem consciência não há mundo.
P: Há muitos pontos na consciência; há tantos mundos?
M: Tome o sonhar como exemplo. Em um hospital pode haver muitos pacientes, todos adormecidos, todos sonhando, cada um sonhando seu sonho pessoal, privado, independente, não afetado, tendo um só fator em comum – a enfermidade. De modo similar, em nossa imaginação do mundo real, tornamo-nos divorciados da experiência comum e nos encerramos em uma nuvem pessoal de desejos e temores, imagens e pensamentos, ideias e conceitos.
P: Isto eu posso entender. Mas, qual poderia ser a causa desta tremenda variedade de mundos pessoais?
M: A variedade não é tão grande. Todos os sonhos estão sobrepostos a um mundo comum. Até certo ponto se formam e influem uns aos outros. A unidade básica opera apesar de todos. Na raiz disto tudo está o esquecimento de si mesmo; não saber quem Eu sou.
P: Para esquecer se deve saber. Eu sei quem eu sou antes de esquecê-lo?
M: Certamente. O auto esquecimento é inerente ao autoconhecimento. A consciência e a inconsciência são dois aspectos de uma vida. Eles coexistem. Para conhecer o mundo, você esquece o ser – para conhecer o ser, você esquece o mundo. Que é o mundo depois de tudo? Uma coleção de recordações. Aferre-se a algo importante, agarre-se ao ‘Eu sou’ e deixe tudo o mais. Isto é sadhana. Na percepção, não há nada a que se agarrar, nem nada a esquecer. Tudo é conhecido, nada é lembrado.
P: Qual é a causa do esquecimento de si mesmo?
M: Não há causa nenhuma porque não há esquecimento. Os estados mentais se sucedem uns aos outros, e cada um apaga o anterior. Lembrar de si mesmo é um estado mental e o esquecimento de si mesmo é outro. Alternam-se como o dia e a noite. A realidade está além de ambos.
P: Certamente, deve existir alguma diferença entre esquecer e não saber. O não saber não necessita de causa. O esquecimento pressupõe um conhecimento prévio e também a tendência ou capacidade de esquecer. Admito que não posso investigar a razão do não saber, mas o esquecimento deve ter algum fundamento.
M: Não há tal coisa como não saber. Só há esquecimento. O que está errado em esquecer? Esquecer é tão simples quanto recordar.
P: Não é uma calamidade esquecer de si mesmo?
M: Tão mau como lembrar de si mesmo continuamente. Há um estado além do esquecimento e do não esquecimento – o estado natural. Lembrar, esquecer – são todos estados mentais, limitados pelo pensamento, limitados pela palavra. Tome, por exemplo, a ideia de ter nascido. Disseram que eu havia nascido. Eu não lembro. Dizem-me que devo morrer. Não espero isto. Você me diz que esqueci, ou que me falta imaginação. Mas eu simplesmente não posso lembrar do que nunca aconteceu, nem esperar o claramente impossível. Corpos nascem e corpos morrem, mas o que é isto para mim? Os corpos vão e vêm na consciência e a própria consciência tem suas raízes em mim. Eu sou a vida, e a mente e o corpo são meus.
P: Você diz que na raiz do mundo está o esquecimento de si mesmo. Para esquecer, devo recordar. O que esqueci para lembrar? Eu não esqueci que Eu sou.
M: Este ‘Eu sou’ também pode ser parte da ilusão.
P: Como pode ser? Você não pode provar-me que eu não sou. Mesmo convencido de que não sou, eu sou.
M: A realidade não pode ser provada nem desmentida. Dentro da mente você não pode, mas além da mente não necessita. No real, a pergunta ‘o que é real?’ não surge. O manifestado (saguna) e o imanifestado (nirguna) não são diferentes.
P: Neste caso tudo é real.
M: Eu sou tudo. Como eu mesmo, tudo é real. Separado de mim, nada é real.
P: Eu não sinto que o mundo seja o resultado de um erro.
M: Você pode dizer isto só depois de uma investigação total, não antes. Certamente, quando você discernir e abandonar tudo o que for falso, o que permanece será real.
P: Algo permanece?
M: Permanece o real. Mas não se deixe enganar pelas palavras!
P: Desde tempos imemoriais, durante inumeráveis nascimentos, eu construo, melhoro e embelezo meu mundo. Não é nem perfeito nem irreal. É um processo.
M: Você está equivocado. O mundo não tem nenhuma existência separada de você. Em cada instante é apenas um reflexo de você mesmo. Você o cria, você o destrói.
P: E o construo de novo, melhorado.
M: Para melhorá-lo, deve desmenti-lo. Deve-se morrer para viver. Não há renascer, exceto através da morte.
P: O seu universo pode ser perfeito. Meu universo pessoal está melhorando.
M: Seu universo pessoal não existe por si mesmo. É meramente uma visão distorcida e limitada do real. O que necessita melhorar não é o universo, mas seu modo de olhá-lo.
P: Como você o vê?
M: É um cenário em que se representa um drama mundial. A qualidade da atuação é tudo o que importa; não o que os atores digam ou façam, mas como o dizem e fazem.
P: Eu não gosto desta ideia de lila (drama). Prefiro comparar o mundo a um pátio de trabalho onde nós somos os construtores.
M: Você leva as coisas muito seriamente. Que há de mal em representar um drama? Você só tem um propósito enquanto não for completo (purna); até então, a perfeição, a plenitude é o propósito. Mas quando você é completo em si mesmo, plenamente integrado, interna e externamente, então você desfruta do universo, não trabalha nele. Ao que não estiver integrado pode parecer que trabalha duro, mas isto é sua ilusão. Os desportistas parecem que fazem tremendos esforços; o único motivo é jogar e mostrar-se.
P: Quer dizer que Deus está simplesmente se divertindo, ocupado em uma ação sem propósito?
M: Deus não é só verdadeiro e bom como também é belo (satyam-shivam-sundaram). Ele cria a beleza – pela alegria disto.
P: Bem, então a beleza é seu propósito!
M: Por que introduz o propósito? O propósito implica movimento, mudança, um sentido de imperfeição. Deus não pretende nenhuma beleza – tudo o que faz é belo. Diria você que uma flor está tentando ser bela? É bela por sua própria natureza. De modo semelhante, Deus é a própria perfeição, não um esforço para a perfeição.
P: O propósito preenche a si mesmo na beleza.
M: Que é o belo? Qualquer coisa percebida através da felicidade é bela. A felicidade é a essência da beleza.
P: Você fala de Sat-Chit-Ananda. O que eu sou é óbvio. O que conheço é óbvio. Que sou feliz não é em absoluto óbvio. Para onde foi minha felicidade?
M: Seja totalmente consciente de seu próprio ser e será conscientemente feliz. Porque separa sua mente de si mesmo e a põe no que você não é, você perde o sentido de bem-estar, de estar bem.
P: Há dois caminhos diante de nós: o caminho do esforço (yoga marga) e o caminho sem esforço (bhoga marga). Ambos levam à mesma meta – a liberação.
M: Por que você chama bhoga um caminho? E como pode o não esforço levá-lo à perfeição?
P: O perfeito renunciante (yogi) encontrará a realidade. O perfeito apreciador (bhogi) também chegará a ela.
M: Como pode ser isso? Não são contraditórios?
P: Os extremos se encontram. Ser um perfeito Bhogi é mais difícil do que ser um perfeito Iogue. Sou um homem humilde e não posso aventurar juízos de valor. Ambos, o Iogue e o Bhogi, afinal de contas, estão interessados na busca da felicidade. O Iogue a quer permanentemente, o Bhogi está satisfeito com o intermitente. Às vezes, o Bhogi luta mais duramente que o Iogue.
M: De que vale a felicidade quando se tem que lutar e trabalhar por ela? A verdadeira felicidade é espontânea e sem esforço.
P: Todos os seres buscam a felicidade. Só diferem nos meios. Alguns a buscam dentro e são chamados Iogues; outros a buscam fora e são condenados como Bhogis. Mas eles necessitam um do outro.
M: O prazer e a dor se alternam. A felicidade é inabalável. O que se pode buscar e encontrar não é o verdadeiro. Encontre o que nunca perdeu, encontre o inalienável.

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